segunda-feira, 1 de junho de 2026

MEMÓRIA ORAL (333)


DONA VILMA, ABRE SUA CASA E OFERECE CAFÉ MATINAL PARA OS LATINOS NO ENTORNO DA USP/CENTRINHO
Circulo quase diariamente, passando defronte a quadra 9 da rua Maria José, duas quadras do portão principal da USP - Universidade de São Paulo e por lá, como sabemos, uma intensa movimentação de latinos, muitos profissionais dentistas vindo para o local em cursos variados de especialização. A região está tomada de latinos, principalmente oriundos da América Central e Andina. Vai e vem incessante, movimentação diferenciada e dentre muitos comércios espalhados para lhes atender, até uma casa de câmbio já existe e uma imobiliária se especializou em atendê-los.

E diante dessa efervescência, eis que vejo nas minhas caminhadas, uma garagem montada diriamente, mesa posta e nela variedades de pães, bolos, quitutes, lanches e muitas garrafas de café e sucos. O que seria aquilo?, me questionava. Hoje parei e fui assuntar. Dei de cara com a simpática Vilma Peireira, 75 anos, sentadinha lá nos fundos de sua casa e com uma bela história por detrás de tudo. "Meu filho, eu te conto tudo. Não faz nem um ano que tudo começou. Eu vivo aqui há décadas, perdi nesse tempo uma filha e o marido. Hoje moro com as netas e precisava de algo mais para preencher meu tempo, claro, também algo novo para fazer, complementar minha renda. Tivemos a ideia e ela se ampliou, ganhou corpo e hoje é isso que você vê, portas escancaradas e a mesa sempre posta", me diz.

É isso mesmo. A partirdaí não paro de ir perguntando e ela me contando tudo: "Eu atendocom esse café, abrindo as portas por volta das 7h e encerrando por volta das 10h30, 11h, onde tem de tudo um pouco. Tudo preparadopor mim e por uma neta, que neste momento está desempregada e me ajuda. E o público vai chegando, em sua maioria os latinos todos instalados aqui na região. Tem café com leite, chocolate, pão com presunto e queijo, suco e em algumas vezes até pão de queijo. Cobro o valor de R$ 10 reais e se servem à vontade. Aos domingos, a placa que você vê do frango assado é de um neto. Juntamos tudo".

O lugar é muito aconchegante, parecendo mesmo uma casa de família, onde poucas mesas e até os sofás de sua casa são utilizados quando chegam muitos de uma só vez. "Esse pessoal que vem de longe é carente de afeto, de carinho e isso eles encontram aqui. Muitos desses estudantes e mesmos profissionais já formados vem em busca de aperfeiçoamento no ofício de dentistas. Ontem mesmo, um destes me mandou uma mensagem pelo whatts, peruano, muito emocionante, dizendo que vai voltar em julho e que aqui encontrou a melhor comida de Bauru. Eles não encontram muita facilidade na cidade e eu lhes abro as portas. Carinho trocado. Quando paro com o café, lá pelas 11h, tem alguns que me pedem uma marmita. Combino preço e horário, faço e assim fico com as portas abertas o dia inteiro".

Ela me explica sobre a permanência de seus clientes na cidade: "Descobri que existe muita rotatividade. A maioria vem para um período muito curto, uma semana, dez dias, depois trocam e chegam outros. Muitos chegam e me dizem, 'o fulano me indicou'. E não são só eles. Aqui na região tem muitas construções e muitos destes trabalhadires, pedreiros e o pessoal dessas obras, começaram a vir, ou seja, me descobriram. Eles todos me ajudam e eu ajudo eles, com meu carinho, atenção e algo preparado com muito carinho e atenção".

Conta também sobre o que está vindo por aí de noviddades: "Como vejo que estão todos aqui em volta da casa, morando e trabalhando na região, já estou colocando salgados também, estes mais na parte da tarde. A ideia é por R$ 10 reais fazer um suco bom ou refrigerante, mais o salgado. Está começando a pegar. E eu, do meu jeito, fico feliz com tudo isso ter dado certo, tanto que, neste próximo domingo, vai ter uma feira aí no Vitória Régia e vou estar vendendo acarajé". Pergunto sobre o nome do seu estabelecimento, uma vez que só havia visto a placa anunciando o frango dominical: "Aqui é o Cantinho da Vilma ou mesmo Garagem da Vilma. Não se esqueça de falar também de minha neta, a Giovana, 23 anos, que me dá uma força incrível. Fico contente que tenho passado, reparado e veio conhecer. A minha maior propaganda é no boca a boca. Tudo tem se espalhado dessa forma. O pessoal que vem de fora faz isso e assim já há um ano estou abrindo minhas portas. Venha mais cedo para tomar um café gostoso e quentinho comigo. Aqui eu recebo todos, tem lugar pra todos. É também minha casa e passa a ser a extensão da casa de muitos dos que aqui aportam. São histórias que não acabam mais. Quando dão de contar algo deles, fico até emocionada. Quem está longe de casa fica mais sensível e eles encontraram aqui um lugar meio parecido com uma casa de família. Deram também novosignificado para minha vida".

O endereço exato é rua Maria José, nº 9-35, vila Guedes de Azevedo. Agora sei o que acontece naquela casa com mesa montada, cheia de guloseimas e me encantei com o que conheci, quando na manhã desta segunda, resolvo entrar e perguntar. Repasso isso tudo para tudo o mais, pois quando o café não acontecer a contento por aí, nada como aportar lá com dona Vilma e conhecer algo mais de seus clientes e amigos latinos. Trata-se de um lugar cheio de luz própria, irradiando algo mais do que bom, diria mesmo, revitalizante. Senti isso tudo só conversando com ela e já imagino chegando mais cedo para o café. 

e continuando dissecando algo mais nas entranhas da cabeça do eleitor brasileiro
COMO VOTA O BRASIL? COMO VOTA O POVO PAULISTA? COMO VOTA ESTE SENHOR AÍ AO TEU LADO, SEU VIZINHO E PARENTE PRÓXIMO?
Essas duas charges, publicadas na revista piauí, edição de maio de 2026, refletem mais do que bem o que estamos vivenciando aqui no comnfronto diário contra o fascismo se aproximando cada vez mais de nossas vidas. Se dependensse do povo paulista, do sul num todo, SP, PR, SC e RS, estaríamos já funbicados e enfurnados, atolados até o pescoço dentro de um regime mais que autoritário, excludente, racista e perveros contra os interesses populares. Ah, não fosse o Nordeste e neste momento, talvez nem pudesse estar ainda escrevendo algo como este simples texto. Daí, quando tento refletir sobre o que acabou se transformando o voto do povo paulista, este aqui mesmo onde vivo, é para causar desalento e perplexidade. Sempre o povo paulista foi conservador, medroso e esteve ao lado de quem nunca lhe atendeu de fato suas aspirações e anseios. Mesmo assim votou sempre nestes, só que agora, não votam mais na direita, mas na perversidade de uma ultra-direita, alguém que de moderado não tem nada, mas prega algo impensável até uns tempos. Não está mais existindo possibilidade de convivência com estes, sejam meros vizinhos, parentes ou mesmo amigos. A apartação já está estabelecida. No que vai dar isso tudo, ainda uma interrogação. O fato é que, se estes não abrirem suas mentes, não passarem a pensar de forma mais sensata, com o agravamento do acirramento de opiniões, em breve um confronto mais que estabelecido. Com as eleições se apeoximando, algo neste sentido já é anunciado. Se o diálogo já não mais existe e as cabeças continuam cada vez mais despirocadas, creio devemos estar mais do que preparados para o pior, seja lá o que isso venha a significar. O fato é que, não estou mais vendo luz no final deste túnel.

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