sábado, 27 de junho de 2026


NÃO PODIA DORMIR SEM ESSA
A ERA DA INQUIETAÇÃO
Que o mundo atual anda uma aberração, disso não se tem a menor dúvida. Intragável, diria alguns. Eu, cá do meu canto, diria mesmo privilegiado, pois consegui me aposentar e ainda por cima, escrevinhar todo santo dia, publicando por estes meios ainda possíveris, o que vai dentro de minha conturbada cachola. Acrescentaria, ser o mundo uma aberração perigosa. E diante de tantos perigos já vividos, vivenciados, o que poderia me acrescentar de riscos os atuais? Eu, diante disso tudo, do que vejo ao abrir minha janela todas as manhãs não é nada alentador, porém, não posso - e não devo - ser subtraído e consumido pelo pessimismo. Não há esperanças, mas há muito o que fazer. Essa última frase é triste demais, mas tudo leva a crer que, a luta se intensificará, mais e mais daqui por diante, dentre os perversos propondo um mundo manada, onde o coletivo, o ser humano se consolidar como construção coletiva não mais possível, porém, continuarei fazendo parte dos que resistem, dos que ousam não me aquietar diante da catástrofe mais dio que anunciada. 

Pode até não haver mais esperanças, mas como sei ainda há muito coisa a fazer, não arredo pé de estar na lida e luta, propondo, escrevinhando, me posicionando e, quando possível, estando junto pessoalmente nas lutas todas ainda empreendidas mundo afora. Os de minha geração tínhamos como objetivo principal a esperança por algo novo, o tal do outro mundo possível e a partir disso, construímos nossas vidas, toda baseada nessa maravilhosa utopia, a da construção de um mundo palatável, onde as diferenças pudessem ser eliminadas e a opressão fosse contida. Isso moveu e move minha vida. E hoje, mesmo quando forças contrárias se impõem de uma forma violenta, brutal, sádica, não consigo me colocar quietinho aqui dentro de casa, calado, contido e vendo a vida passar sem nada fazer. Eu, aos 66 anos consegui me aposentar e poderia ter uma vidinha modorrenta, queitinha, lendo e vendo TV, às vezes viajando, batendo perna, sem omitir opiniões, sem ousar contestar mais nada, mas para mim isso é totalmente impossível. 

Há algo no mundo atual  suportando tudo o que lhe é imposto, ou seja, muitos estão vendo "a banda passar" e nada mais conseguem fazer para tentar modificar seu percurso. Eu morreria mais rapidamente se assim o fizesse. Há algo no mundo que carrega um nível muito alto de tristeza. Eu não apenas nasci em outro mundo, mas fui uma peça fundamental na ideia de que iríamos vencer, de que iríamos mudar o mundo. Mudamos muita coisa, interferimos em outras tantas, mas a perversidade ganhou e hoje impera mundo afora. Aqueles ideais todos de transformação nunca serão superados ou considerados como ultrapassados. Longe disso, pois aquilo tudo continua a me mover. A Era da Inquietação a que me refiro neste título, portanto, surge de um diálogo entre dois indivíduos social e politicamente engajados, separados por mais de 40 anos de vivência e estrada, muita poeira e algo realizado. Ela retrata um mundo contemporâneo assolado por ameaças econômicas, epidemiológicas e ecológicas, bem como pela violência cotidiana. Junto tudo isso, coloco tudo no balaio da vida e não desisto, sigo meu caminho, enfrentando dragões e moinhos, muitos de vento, outros nem tanto. E tenho a certeaza, desistir é não só perder, mas morrer.

Os próprios acontecimentos se repetindo como farsa, por todos os lados e lugares, nos convidam a uma presença ativa, a estar lá, a habitar a inquietação, a permanecer despertos, abertos ao mundo e à própria existência. É uma época onde se faz necessário estar sempre alerta, vigilante, tratar de não dormir, permanecer vigilante, um pouco inquieto e procura nã osentir medo, pois mesmo quando tudo nos leva para ter cagaço diante das reais possibilidades deste planeta, buscar lá no fundo o atalho, juntando-se a tantos outros com a mesma inquietação e, seguir o único caminho ainda possível, o da resistência. Essa época pode ter elementos mais que perversos, é muito dura, mas ainda possui elementos fantásticos para não desistir de lutar e de buscar a realização deste sonho coletivo, o da vida sem guerras e tudo o mais. A imposição do mais forte é brutal, sanguinária, mas não é definitiva. Sempre pode existir uma saída e é nisso que me apego. 

Não podemos nos entregar e se dar ao luxo aristocrático de deixar pra lá, entregar os pontos e nada fazer. Se existe alguma possibilidade, nela estarei inserido - como estou e estarei, enquanto viver. Nunca desistirei do lado da esperança. Daí, temos muita coisa para fazer, talvez deixar o presente entre parênteses e se por a fazer, estar inserido em algo, não permitir ser derrotado sem ao menos ousar e estar engajado na luta pela transformação do mundo onde vivemos em algo muito mais palatável do que o presenciado. Guerras e devastação sempre existiram e nem por isso, outros desistiram. Chegamos até aqui e tudo fruto de intensa luta de classes, numa perde e ganha sem tréguas. Tenho em mente que tudo isso que nos aflige, um dia vai passar. Posso até não estar mais vivo para ver, mas posso ter feiito parte de uma intensa luta, onde não esmorecendo, nem entregando os pontos, algo foi conquistado. Tudo isso faz parte de uma luta, a de uma vida inteira. Isso me move, me faz acordar, abrir a janela e saber que, tudo pode ser transformado se, algo mais for feito. Resignação nunca.

Hoje falta muita coragem para assumir este mundo, com essa época, para assumir o presente, cada um no seu lugar. O significado da história era o progresso. Qualquer invenção tecnológica, qualquer coisa do gênero, era vista como um caminho para a libertação. Até mesmo a ideia de justiça social fazia parte do progresso, algo para o futuro. Hoje, esse significado se perdeu. A questão é a troca, cada um tendo sua própria verdade, o individualismo absoluto ou o relativismo cultural, cada cultura tendo sua própria verdade. Mas isso é guerra. Então, a pergunta é: como podemos encontrar significados concretos que não dependam do significado da história, de Deus ou dessa baboseira de individualismo? A ideia é tentar aprender a pensar sobre situações: migrantes, feminicídio, o envenenamento de populações pelo desmatamento e pela fumigação. Se aceitarmos o presente, há um sentido, mas é um sentido sem promessas. É isso que temos que suportar, e é difícil. Não sei em que tipo de mundo meu filho vai viver e isso me atormenta. Destruir tudo não é o mesmo que solidariedade, ou se agarrar à primeira promessa estúpida ou entrar para uma seita. Muitas pessoas, devido a genuínas fragilidades estruturais, não conseguem lidar com esta era. Então, os gurus são um paraíso. Você pode entender este caos, mas não se pode dizer. Perdemos até a coragem de dizer das coisas erradas, quanto mais de se posicionar e lutar contra elas.

O lado viril e conquistador da modernidade agora é pura destruição. E vemos os loucos que continuam nesse caminho. Trump, Netanyahu, Milei, Tarcísio, Bolsonaro e aqui em minha aldeia uma alcaide atuando dentro destes padrões. Suellen Rosin representa muito disso tudo. Não há progresso possível com estes no poder; pelo contrário, amanhã não haverá água potável suficiente nem alimentos não contaminados para todos. Estamos numa era muito semelhante à de Trump, Bolsonaro e Milei, uma era de mão de obra excedente. Pessoas supérfluas. Milhões. Essa é a terrível verdade que elas carregam, e nos confronta com o que afirmamos como ideal de uma vida inteira, resistindo e colocando o dedo nessa fratura exposta. É claro que não podemos mais pensar num socialismo distributivo que simplesmente perpetue a produção. Em outras palavras, a austeridade é inevitável, mas existe uma austeridade alegre que é possível. Aposto nela e a sigo defendendo. 

Uma questão muito importante é o terror infligido aos jovens, impedindo-os de viver suas vidas. Em nome da ameaça do futuro, da dureza da vida, eles não têm permissão para serem jovens. Trata-se de discipliná-los, fazê-los esquecer suas afins, o que gostam, e obrigá-los a aprender coisas úteis. Sei que os pais fazem isso com boas intenções, mas, na realidade, é um desastre. É uma tendência muito forte de 20 ou 30 anos atrás, de cerceamento da juventude. Olho para eles e os vejo milutando menos que os de minha geração, mais preocupados com outras coisas e deixando a coisa rolar. E ela rola muito mal, na verdade nos apunhala, mas também nos impele a continuar na lida e luta. O mundo só será devidamente destruído, nosso sonhos aniquilados, quando deixamos, não só de sonhar, mas de resistir, de enfrentar tudo isso, com a garra que sempre tivemos. Reistir é preciso.

OBS.: Escrevo isso como mais um dos tantos desabafos escritos por mim nos últimos dias. Este o faço após ler uma ótima entrevista do filósofo argentino radicado na França, Miguel Benasayag, lançando seu livro que dá nome a este texto de minha lavra. Juntei o que li, com o que penso, mais minhas ações e vendo saídas, não deixo de nelas estar inserido. 

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