terça-feira, 2 de junho de 2026

RETRATOS DE BAURU (316)


FABIANO, UM SAPATEIRO E A HISTÓRIA DE BAURU NA PONTA DOS PÉS
Tinha uma bolsa para consertar e acabei, por indicação sendo levado, através deste recado, ao seu Fabiano: " Quem conhece o seu Fabiano? Um dos melhores sapateiros de Bauru e região. José Carlos Fabiano , 84 anos e ainda trabalha, trabalha muito. Ele faz sapatos lindos, faz botas dos mais diversos modelos. Ele fez muitos sapatos pra mim, na minha infância. Sapato do tecido do vestido. Era moda. Fez muitas bolsas pra minha mãe, sapatos também. O pai dele, seu Pedro Fabiano, usando essa máquina aí da foto, fazia as chuteiras do seu Dondinho, pai do Pelé. Seu Fabiano tem muitas histórias... Pessoa espetacular, muito educado, super caprichoso com o trabalho. Até hoje ele dá jeito nos meus sapatos e bolsas. Que Deus o fortaleça! A sapataria fica na Rua Azarias Leite quadra 8, lado esquerdo de quem desce. ".

Fui lá, conferi isso, o que precisa ser feito saiu na hora, não queria me cobrar, pois era coisa pequena e acabi passando um PIX para dona Ester, 69 anos, sua esposa, que o acompanha em suas jornadas, como uma espécie de partner. Sua trajetória é mesmo de arrepiar. Tudo isso informado no recado recebido - que não sei a autoria - é a mais pura verdade. Na rua Azarias Leite ele está há apenas 6 meses, vindo de seu último local, o comecinho da rua Quinze de Novembro, onde ficou 4 anos e só saiu porque o dono do imóvel precisou do local para ceder ao um filho. Antes, foram quase 50 anos na rua Célio Daiben, junto da praça Itália, bem pertinho de onde nasceu, a vila Falcão.

É mais que uma delícia observá-lo trabalhando e mai ainda conversar com ele - e sua esposa. Ele estará completando 84 anos nessa semanas, mais precisamente dia 5 de junho e em sua trajetória já viu e fez de tudo. Tudo começou com seu pai, um pequeno fabricante de botas, sandália e chuteiras. É mesmo verdade ele ter feito chuteiras para o Dondinho, o pai do rei pelé, como conta também ter saracoteado cidade afora junto do menino Pelé, andanças inesquecíveis, relembradas em detalhes. Num certo momento, olha pra mim e diz: "Muitos podem não acreditar, mas é a mais pura verdade. Para os que não acreditam, fica o dito pelo não dito, mas fiz muita arte, eu Pelé e a molecada da época".

Conta também, "Pelé tinha uma pelido de garoto, era Paçoca. Tinha um senhor, o Paçoca, que fazia doces, principalmente paçoca, tudo vendido nas ruas de Bauru. Eu saia na turma de moleques, junto de Paçoca e Pelé, cheguei a vender as paçocas, quebra-queixos com eles nas ruas, nuns tabuleiros e onde tinah campo, inevitável, paravamos para bater uma bola. E Pelé foi então apelidado dessa forma. Durou pouco, mas que foi foi". Na sapataria fala-se de tudo um pouco, neste momento, muito de futebol, pois estamos às vespéras de mais uma Copa do Mundo. Ele e dona Ester são incentivadores do neymar - mais ela -, pois entendem ele dominar bem esse ofício da bola. Fiacmos imaginando o que poderíamos fazer na vida se tivessemos um mês do salário do craque. Sonhamos juntos e ele lacra: "Fecharia a sapataria e ir viver no bem bom".

Um assunto puxa o outro e assim voltamos ao seu pai: "Seu João Jair Fabiano, meu pai deu aula de sapateiro no CIPS. O ofício aprendi com ele, algo que hoje, quando parar, não tenho ninguém querendo aprender e tocar esse barco. Somos pouquíssimos na cidade, heróis da resistência. Fala também que, 45 anos atrás deixou de morar na sua vila Falcão, que tanto gosta, para residir no Geisel, onde também fincou raízes. Acaba me revelando um segredo de polichinelo: "Sempre fiz chuteiras e remendei outras. Hoje o pessoal lá do Noroeste traz novas para mim, eu costuro o solado delas antes de ir ao campo, pois costumam soltar. Sou muito conhecido, vem gente de todo lugar. Conhece minha história dos sapatos para o pessoal do Carnaval?". Eu conhecia, pois Dulce Baté, do Estrela do Samba de Tibiriçá já havia me falado dele e, depois me contaram, todos esses sapatos revestidos e vistos brilhando no Carnaval possuem sua marca. Ou seja, seu Fabiano, ou como me diz, "me chamam de tudo, seu Zé, José, Fabi, Carlos e o importante é que, pelo que sei e vejo, Bauru me conhece e continuo por aí, sempre nas paradas de sucesso".

Digo a ele que, quero vir gravar com ele, tendo o cenário de sua sapataria ao fundo e ele, levanta a cabeça, mãos cheias de cola e me diz: "Fico te aguardando". Das mãos sujas de cola, me diz: "Se for trocar toda hora de pincel, não pagam o preço que cobro. Prefiro na mão, mais preciso". A esposa completa: "Depois esquento água e assim, devagar ele tira tudo. É algo que faz diariamente, fica com a mão mergulhada na água morna, esfrega muito e sai tudo, para no dia seguinte, vê-la colando novamente". E assim, me contando sobre os tantos sapatos, a maioria femininos, mostrando sua especialidade, revestí-los com tecidos, chegam mais clientes na loja e dou por encerrado nossa conversa, que duraria horas, pois o casal é envolvente e cativante, algo em falta nas muitas rodas de conversa cidade afora. Lá no seu salão, ele não sossega um minuto e acompanha a conversa mergulhado em muito trabalho. E daqui há três dias, completa mais um ano de vida.


e algo de outra labuta diária
FUI ATACADO, MAS ISSO É O DE MENOS, POIS QUEM OUSA ABRIR OS OLHOS ESTÁ SENDO TAMBÉM ATACADO, SEM DÓ E PIEDADE
O negócio do ódio não te mcura. A gente, que não envolvido por essa bestialidade até tentamos agir normalmente com quem sabemos é fascista por natureza. Estes, porém, não nos toleram e nos tratam mal. Hoje tentei dialogar com alguém que, conheço de longa data e sabemos estar cada qual num lado bem oposto do outro. Agi normalmente, mas levei uma patada e percebi, aquilo que havíamos tolerado por décadas estava quebrado, o vaso quebrado não mais se colaria. Para não ser deselegante, pois ele mais velho que eu, me despedi educadamente, dei-lhe as costas e me retirei.

Lembro disso e leio, coincidência da vida, ao chegar em casa, artigo de Jamir Chade, "Do próprio Veneno" e lá umas pérolas a exemplificar essa pavorosa divisão hoje acometendo o mundo, onde ons antes conversáveis, hoje já são irreconciliáveis. Saco da escrita do escriba, um dos mais gosto no momento: "Ninguém nasce odiando. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização. (...) ...eles realmente acreditam que, então, existe uma linha vermelha que não pode ser cruzada? (...) O ódio é intoxicante. A decadência econômica passa a ser culpa dos imigrantes, não da falta de investimentos em educação ou inovação. (...) Os fracassos pessoais tornam-se resultado de um sistema supostamente manipulado. (...) Um genocídio não começa no primeiro disparo, mas quando o ódio é autorizado, aplaudido e até recompensado. (...) A história revela que os movimentos construídos sob o ódio acabam se autodestruindo".

Hoje, essas milícias digitais, sendo difundidas pelas redes sociais assassinam tudo o que encontram pela frente, desde reputações, até fisicamente. Qualquer um a representar uma ameaça para estes corre perigo. Porém, algo ocorreu nestes últimos dias e além do vivenciado hoje comigo, vi alguns direitistas, os que ousaram enxergar, dizer o óbvio sobre o Flávio Bolsonaro. Estes padeceram e estão sendo crucificados juntamente conosco. Não existe um mínimo de tolerância para quem, do lado deles, ouse abrir os olhos. Existe uma ala da extrema-direita vigiando todos os seus e não os deixando abrir os olhos. Felizmente, vi gente querendo abrir os olhos e ao serem duramente atacados, percebo que nem tudo está lá maravilhoso e divinal do lado deles. Ponto para nós. Ao menos isso.

EU QUERO MUITO CONTINUAR LUTANDO, MAS EXISTE UMA FORÇA CONTRÁRIA ME PROPONDO DESISTIR - RESISTIR É PRECISO!!!
A frase atribuída a Clarice Lispector expressa um sentimento de recolhimento e busca por silêncio interior. Ela fala de um cansaço que não é apenas físico, mas também emocional, quando a convivência social deixa de trazer a mesma satisfação de antes e atividades mais introspectivas passam a oferecer conforto.
Ler, ouvir música e permanecer no próprio espaço podem representar uma necessidade de reencontro consigo mesmo, de descanso da agitação externa e de reflexão. Muitas pessoas passam por períodos em que a solitude se torna mais atraente do que a socialização.
Ao mesmo tempo, a frase não precisa ser entendida necessariamente como tristeza. Ela também pode revelar uma valorização da própria companhia, do silêncio e das pequenas experiências que alimentam a vida interior.
Como diria a própria Clarice em muitos de seus escritos, há momentos em que estar só não significa ausência, mas presença de si mesmo.
#ClariceLispector #Reflexão #Solitude #Autoconhecimento #Literatura
O que mais lhe chama atenção nessa frase: o cansaço, a vontade de ficar só ou o prazer encontrado nas coisas simples?

Nenhum comentário: