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sábado, 21 de fevereiro de 2009

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (02)

GUILBERTO CARRIJO FOI QUEM ME FEZ GOSTAR DE CARNAVAL
Conheci Guilberto meio sem querer. Era um meninão e havia acabado de descobrir o Rio de Janeiro. Estava deslumbrado. Nas vésperas de um carnaval, anos 80, fui em busca de uma excursão que me levasse para o famoso Carnaval. Ele fazia uma imperdível, com ida a bailes, desfiles de rua, tanto o do Sambódromo, como os de rua, realizados na avenida Rio Branco. Foi empatia à primeira vista. Repeti a dose por muitos anos seguidos. Frequentei muitos lugares que ele conhecia por lá. Segui seus passos e passei a amar o Rio (e o carnaval) com um fervor do qual não consegui mais me desvencilhar.

Tenho ótimas lembranças do velho Carrijo. Numa delas, a última excursão que realizou ao carnaval carioca, já debilitado pela doença. Fez questão de estar lá assim mesmo. Sabia que seria sua despedida dos festejos, do Rio e dos muitos amigos que fez na cidade. Foi amparado para dentro do hotel Itajubá, na Cinelândia, num local que faço questão de me hospedar até hoje, todas as vezes que pra lá volto. Pouco saia do apartamento. Ficava a maior parte do tempo dentro de uma banheira, refrescando-se do forte calor. O barulho da festa vindo lá das ruas o devia incomodar, pois sempre gostou daquela movimentação. Outra que batia cartão em todas suas excursões carnavalescas foi a Cida (será esse mesmo seu nome?), irmã do comentarista de esportes da Auri-Verde, o J. Augustus. Louca pelos desfiles, entusiasmava a todos com seu conhecimento sobre o desfile de cada ano. Íamos embalados pela trilha sonora das escolas, tocados ainda em fita cassete. Ela deve ter todas até hoje.

Numa das noites de baile que o Bola Preta realizava em seu antigo salão (foram despejados de lá e estão com outra sede) ao lado do Teatro Municipal, em cima de uma agência do Banco do Brasil, receberia uma homenagem dos dirigentes do local. Levamos ele no colo até o primeiro andar e ele resistiu o quanto pode, até receber sua premiação. Foi ovacionado por todos. Figura popular, pois levava muita gente para lá todos os anos e batia cartão nos bailes lá realizados. Do quarto só saiu para a viagem de volta. Pouco tempo depois, faleceu tendo conseguido realizar esse último desejo, o de participar pela última vez de um baile no Bola Preta.

Fui me lembrar dele por alguns motivos. Primeiro por estarmos no Carnaval e ele, tendo seu nome relacionado a nossa festa de forma umbilical, tanto que o Sambódromode Bauru, anos depois, veio a receber seu nome. Havia citado seu nome num texto enviado para o JC sobre a morte do Robertinho Godoy e seu filho, Ricardo Carrijo me aborda na saída de uma missa de sétimo dia, só para me agradecer. Depois, por ontem, no baile de abertura do nosso carnaval, o De Máscaras - De veneza, realizado no Luso, fui abordado por uma pessoa que sabia conhecer (não me lembrava de onde), recordando ter sido quem me ajudou a carregá-lo para o Bola Preta. Revivemos aquilo tudo juntos, num exercício de memória, que me fez ver a figura do carnavalesco Guilberto Carrijo diante dos meus olhos. O relato aqui feito é uma singela homenagem para uma pessoa que, dentre tantas coisas, amava a festa carnavalesca. Gente como ele, precisa ser enaltecida sempre, para que a festa não feneça nunca. Carrijo é dessas pessoas que sempre estarei a recordar com o máximo de carinho. Nossos carnavais sem ele, Robertinho Godoy, Caré, mestre Landinho e tantos outros, nunca mais será o mesmo. São os nossos imortais.

Obs.: Infelizmente não possuo nenhuma foto dele. Essa aqui publicada foi chupada do último Bauru Ilustrado, pertencendo a uma época que ainda não o conhecia. As retratando sua fase mais madura, publico outro dia, com outra história, assim que as conseguir. Todas as demais fotos são do baile de ontem à noite, o de abertura do carnaval de Bauru, Baile de Máscaras - Carnaval de Veneza, realizado no Luso, com casa cheia e tocando somente marchinhas carnavalescas. Muitos diletos amigos nas fotos. Nada de axé, lambada, sertabrega e outros ritmos. Guilberto adoraria participar de algo assim. E quem disse que não estava por lá?

domingo, 15 de fevereiro de 2015

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (75)


NO CALOR DOS ACONTECIMENTOS

A calça e a AHB
1.) O MOTIVO DA CALÇA LISTRADA NO DESFILE DO BLOCO
É inevitável, todo desfile alguns se aproximam e perguntam: "A calça de presidiário é homenagem ao Zé Dirceu ou ao PT?". Respondo com a fleuma que me é peculiar e agora explicito publicamente. Passei a usá-la como indumentária no desfile desde o primeiro ano do bloco na rua e é sim para marcar um Mensalão, mas o bauruense, o da AHB - Associação Hospitalar de Bauru. Vou continuar saindo com ela, ano após ano, enquanto o mandatário mór do caso não estiver devidamente identificado e punido. O lesa cidade perpetuado por esses foi de uma crueldade sem fim, pois lesou a já combalida saúde municipal, verbas que eram carimbadas e os espertões desviaram para fins ilícitos. Até agora só alguns peixes miúdos, mas os bagrões ensaboados continuam ditando regras e escapando pela tangente. Foi uma das maiores sacanagens que essa cidade já viu e poucos continuam com coragem para ficar pedindo punição para seus executores, esses sim, nossos vendilhões do templo. Portanto, enquanto me verem com essa calça nos desfiles do bloco BAURU SEM TOMATE É MIXTO, saibam o motivo é o meu protesto pessoal pela impunidade aos que passaram a mão na grana (e de forma mensal, continuada) lá na AHB.

2.) UMA ÚLTIMA PITADINHA SOBRE RECONHECIMENTO
Minha foto do Paulo Keller

Hoje está sendo um dia um tanto arrastado aqui pelos lados do mafuá. Saímos do Sambódromo lá pelas 4h50, aínda fomos procurar algo para comer e só depois, dormir. Acho que ainda não acordei direito, daí as escrevinhações não pintam, o TICO não bate com o TECO. Nem o LÉ com o TRÉ. Tudo um tanto pela metade (e algum dia é diferente?). Tentando me recompor, para continuar a esbórnia amanhã com o segundo dia lá pelos lados do SAMBÓDROMO (sai ontem pelo BAURU SEM TOMATE É MIXTO, IMPÉRIO DA LAGOA DO SAPO e MOCIDADE UNIDA DE VILA FALCÃO). Segunda mais uma gostosa maratona, dessa vez com O PÉ DE VARSA, COROA IMPERIAL e AZULÃO DO MORRO.

Mas não é nada disso que quero escrever. Escrevo o mafuá desde 2007, com ininterruptas publicações no blog e depois também no facebook. E fotografo muito as pessoas dessa cidade, seus persnagens mais significativos. Para mim, os mais representativos, os mais simples desse desimportante mundo. Estou nas paradas, mas não nas de sucesso e sim, como diria e fazia Plínio Marcos, com seus escritos do mundaréu: Sempre nas QUEBRADAS DO MUNDARÉU. Confesso que ontem me surpreendeu a quantidade de pessoas vindo me abraçar e dizer que me lêem, alguns que até me seguem, outros agradecendo pelos escritos feitos em oportunidades diferentes. Quer dizer, meu ego subiu nas alturas. Esse é meu incentivo para continuar escrevinhando mais e mais. Quase nada ganho com isso. Mas quando pinta esse reconhecimento, fico todo estremecido. Ontem, uma pessoa da Harmonia do Cartola, alguém que conheço, mas não reconheço, saiu do meio do desfile e veio me dar a mão na grade onde me encontrava e me falou um monte de coisa, tipo assim, "eu não tenho a mesma ideologia que a tua, mas gosto muito de você".
Eu e Ana Bia


Agora o ponto final. Ganhei do Jose Ricardo Carrijo e trouxe para casa o Roteiro de como seria o Carnaval da Mocidade Unida da Vila Falcão na avenida. Fui folhear o mesmo na sua presença, sempre reverenciando PAULO KELLER, o tema da escola na avenida e na última página uma agradável surpresa. Uma imensa foto do Paulo estampa toda essa página. Olhei para o Carrijo e lhe disse: "Sabe de quem é essa foto? É minha. Eu a tirei num dia onde Paulo estava feliz da vida e com o cotovelo no balcão do TemploBar Bauru, um dos lugares onde gostava de passar nas noites bauruenses". Lembro bem daquela noite, ele depois saiu na noite e foi tomar a última, papear com a Nilma, professora da Unesp, lá num bar pé sujo, ali na Nações esquina com a Batista de Carvalho (fechado recentemente). O registro do crédito eu sei que não veio porque talvez não identificaram de quem era. Caiu na internet é reproduzido tantas vezes que, a autoria fica sendo quase coletiva. Escrevo só para dizer do meu contentamento em ver o que faço sendo reaproveitado. E por fim, ao dizer isso para a Ana Bia Andrade, ela me diz que o mesmo ocorreu no folder da Coroa Imperial, com a utilização de várias fotos minhas e lá com a citação desse intrépido autor. Sai de lá em estado de graça ontem. Gente, eu sou um cara útil. Sabiam disso?
Eu e o Wagner, da Cisne Calçados na ala dos Jornaleiros da Mocidade Unida.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MEMÓRIA ORAL (114)

CIDA PERSONIFICA A PORTELA EM BAURU
A diretora aposentada de escola municipal, MARIA APARECIDA AUGUSTO, 60 anos, pedagoga formada pela USC, atuou num cargo de direção em um parque infantil por 36 anos e manteve durante a maior parte de sua vida uma atividade paralela, a que lhe propicia o maior prazer de sua vida, a de ser portelense e amante incondicional da cidade do Rio de Janeiro. Cida, como todos hoje a chamam não nasceu nem vive na Cidade Maravilhosa e sim em Bauru, distante exatos 780 km da capital do samba, mas nutre amores distantes indescritíveis.

Isso veio de longe. “Desde pequena sempre gostei muito de samba. Minha mãe faleceu quando tinha 15 anos e o pai quando tinha 26, esse amante do samba. Um de meus irmãos, Zé do Pito, andava sempre com um pandeiro na mão e fez isso enquanto viveu, até seus 40 anos. Ele saia no Caré e no Pedro de Campos, expoentes do carnaval na cidade. Cresci nesse ambiente e quando ia fazer a 5° série, Leila, minha mãe de criação, que adorava chamamé e Jair Rodrigues muito me incentivou. O amor pelo Rio veio em primeiro lugar de uma prima dela que morava no Méier. Desde menina ficava repetindo: quero ir pro Rio, quero ir pro Rio. Diziam que era perigoso e nesse período ainda passava os carnavais na Barra Bonita, que tinha um bem animado”, começa o relato descritivo das origens dos maiores amores de sua vida.

Ela acabou indo até o Rio nesse período, mas em 1984, no segundo ano da existência do Sambódromo, governo do Brizola, Darcy e para conhecer a obra do arquiteto Niemeyer, ao ver a azul e branco na avenida, com o enredo “Contos de Areia”, o clique estava dado. “O Liceu Noroeste onde estudei era azul e branco, a Portela da mesma cor. Jair e Clara Nunes cantavam músicas da escola, não deu outra, virei portelense. Nesse primeiro ano o meu irmão me levou até São Paulo, arrumamos lá uma excursão e junto da Leila, adentramos a Cidade Maravilhosa só nós duas. Lembro até hoje do hotel, era o Center, perto da Praça XV. Chegamos babando no Sambódromo e numa manhã de sábado, perguntei como fazia para entrar e nos deixaram espiar. Quando vimos estávamos no meio da avenida, camarote da Brahma e olhando o Benê da Cuíca ensaiar. Essa aqui na foto é a primeira águia da Portela, as asas fechando depois da morte da Clara. Foi uma tristeza imensa”, diz.

Daquele ano para cá só perdeu um Carnaval no Rio, por motivo de falecimento da mãe de uma amiga, mas acabou indo no sábado seguinte, Festa das Campeãs. “Nunca pensei em desfilar. Não gosto. Como iria ver o desfile? Para desfilar teria que deixar de assistir pelo menos duas escolas. Não consigo. Criei um grupo de amigas, que conheci logo na primeira vez, a Iolanda e a Cosme de Niterói, a Maria José de Itaperuna e outras. Elas compram tudo para mim de forma antecipada. Não me preocupo com nada, só em enviar o dinheiro. Chego, me junto a elas e estou no meio da festa”, continua seu relato de forma quase ininterrupta, feito com uma carga de emoção a contagiar todos à sua volta.

Espalhados pela mesa os vários álbuns registrando suas incursões e em todos, uma infinidade de fotos com muita gente conhecida da avenida. “Fico sempre na friza, logo na frente, as pessoas vão passando por ali e me vendo com as cores azul e branco, acabo tirando muitas fotos. O gari Renato Sorriso já virou mais do que conhecido, pois o reencontro todo ano. Paulinho da Viola, Alcione, o capitão do tri Carlos Alberto, Benito, João Bosco, Antonio Pitanga, Joãozinho Trinta, Luiz Airão, Neguinho da Beija Flor, Millor Fernandes, Martinália e tantos outros. Estão todos aqui nesses álbuns. Não existe pessoa que goste mais de Carnaval do que eu. Só não mudo para lá porque meu povo é todo daqui. Adoro o Rio, não tem lugar melhor. Já viajei muito, mas como Rio não existe. Não gosto de ficar na praia e difícil ter coisa daquela cidade que eu ainda não conheça. Fuço tudo e vasculho cada canto onde role algo relacionado ao carnaval”, continua num tom cada vez mais emocionado.

Quem a incentivou de verdade e acabou sendo uma espécie de professor por lá foi Guilberto Carrijo, uma pessoa que está intimamente ligada à festa, tanto em Bauru como no Rio, onde tinha cadeira cativa no Cordão do Bola Preta. “Aprendi com ele a gostar muito do Rio, aprendi a andar no Rio, onde podia ir, não circular com algo valioso. Ele me dizia que ninguém ia saber que eu não era carioca, pois sempre falei tanto de lá que acabo parecendo um nativo. Ando por tudo”, prossegue. Hoje, após a aposentadoria, ocorrida quatro anos atrás e também por influência de Carrijo só fica no Hotel Itajubá, em plena Cinelândia.

“Sou solteira, graças a Deus. Ninguém me prende. Não ligo de ir para o exterior, meu negócio é o Rio e o seu carnaval. Quando termina um, já marco o hotel para o outro. Tenho apartamento cativo, o 202. Bato ponto no Bloco das Carmelitas, no do radialista Antonio Carlos, o da Confraria do Garoto e o único que deixei de ir foi o do Bola, pois não dá mais, muita gente. Até no Que Merda É Essa?, eu vou. Só não gosto de dançar com ninguém. Sambo sempre sozinha, rodeada das amigas”, vai prosseguindo o relato interrompido somente para tirar do guarda-roupas uma coleção de camisetas da Portela.

Surpresa geral, pois esparramados sobre a mesa duas coleções distintas, uma de camisetas de quadra, compradas na da Portela, claro e outra as tradicionais vendidas a cada ano. Uma coleção rara e que não dá, não vende e muito menos não empresta. Raridade em cima de raridade, tudo nas cores azul e branco. “Aqui tem 15 águias diferentes, uma estilizada de forma diferente a cada ano. Tem desde a do ano passado, até a do primeiro ano que lá estive, tudo muito bem guardadinho. Uso aqui em eventos especiais. Olha essa água, que linda. O pessoal de Madureira tem um gosto especial, o samba nasceu lá, você sabe, né? Tem quem me diz que junto tudo isso e a Portela não é campeã. Não me interessa, sou Noroeste também e sigo o lema do Coração não tem Divisão”, explica.

Cida não se cansa de falar da Portela por uma tarde inteira. Ao seu lado o pai de criação, Jair de Almeida, 78 anos, com quem mora após o falecimento da Leila. Ele observa tudo, diz gostar também de samba. “Gosto, mas não sou como ela, mas a incentivo, pois é o que mais gosta na vida”, diz. Ano passado foi com a sobrinha, Gabriela Augusto, 16 anos, que ficou encantada com tudo o que presenciou, mas não irá nesse ano. “Não dá todo ano. Ninguém tem meu ritmo”. E não tem mesmo. Na sala mostra canecas, várias delas, todas em azul e branco. E continua a falar da Portela: “A hora que águia entra na avenida eu enlouqueço. Vou aos desfiles até não mais agüentar”, concluir folheando ao álbuns, acariciando as camisetas, bebendo nas canecas e com a revista desse ano, a oficial do desfile. “Só tem lá no Rio, mas minhas amigas já me enviaram para ficar sabendo de tudo”. Igual a Cida não existe mais ninguém, campeã de autenticidade e originalidade.

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM LUGAR POR AÍ (208)


É HOJE, BOA DISCUSSÃO SOBRE OS DESTINOS DO SAMBÓDROMO, NA CÂMARA DE VEREADORES - AINDA DÁ PARA ACREDITAR EM ALGO SÉRIO ADVINDO E DISCUTIDO DENTRO DESTE LUGAR?
Ultimamente, diante de aprovações sem nenhum tipo de lastro, a Câmara de Vereadores de Bauru se tornou um lugar onde boas discussões deixaram de acontecer. O que me dizem de lugar, onde de 21 vereadores, no mínimo 17 se aliam cegamente aos interesses de uma família, a da atual mandatária da cidade e contrariando os reais interesses da cidade? Coisa boa não sai daí, já virou mantra na boca de quem segue o que vem de lá.

Daí, como ainda achar possível que, surge daí uma boa discussão sobre os destinos de um bem público abandonado? É difícil, mas não custa tentar. Quando vários atores políticos se juntam e se comprometem a comparecer, o que pode sair deste encontro é algo sobressaindo aos interesses políticos de alguns, que gostam de aparecer, postam fotos e falas, mas depois não prosseguem com a luta. Para fugir disso só mesmo a união de gente interessada em modificar o estado de coisas e lá, unidos, mostrar para quem quem aparecer que, algo de bom, salutar pode sair daí, mas não por causa da ação da vereança, mas sim dessa vontade coletiva, que extrapola o que acontece lá dentro da dita como Casa de Leis.

O que acontece com o Sambódromo de Bauru é mais uma das tantas vergonhas se repetindo dentro do cenário desta cidade. Onde já viu, nada ser feito pela administração pública municipal, deixar que um espaço como aqueles, que se bem aproveitado, poderia trazer tanto retorno pra cidade, se deteriorar e chegar num estado, onde o mais provável, não seja sua reforma, mas sim sua reconstração. Por que deixaram tudo chegar no estado de pleno abandono? Quais interesses estão por detrás disso? A cidade precisa entender isso e a partir deste entendimento, pressionar com toda força, para que ocorra uma modificação de procedimentos. Passivamente, só reclamando e nada propondo e exigindo, tudo continuará na decrepitude.

Ir lá hoje, nessa Audiência Pública é brigar por Bauru e contra o que vem sendo feito pela administração incompetente de Suéllen Rosin & Família, junto da maioria de seus vereadores. Não queremos ir lá na Câmara para alavancar nenhum político, mas para buscar soluções para o Sambódromo. Chega de muito "carnaval" em cima deste tema. Quero ouvir cada vez menos os vereadores, mas os dignos representantes do samba, do Carnaval (este com C maiúsculo), saber da comunidade no entorno, os moradores dali, os que sabem que, naquele local pode ressurgir um espaço público, não só destinado para a festa carnavalesca, mas com utilização o ano todo e para várias atividades culturais. É com este espírito que lá estarei e também a maioria dos presentes.

A AUDIÊNCIA SERVIU PARA REVELAR QUE ESSA ADMINISTRAÇÃO NADA FARÁ PELA RECUPERAÇÃO DO SAMBÓDROMO
Nenhuma novidade. Alguém aqui desconhece que, a alcaide bauruense, reeleita para seu segundo mandato, a dita por mim como incomPrefeita Suéllen Rosin detesta o Carnaval e mesmo dizendo algo fazer por ele, a maior festa popular brasileira, na verdade, empurra com a barriga decisões maiores pelo seu engrandecimento e valorização. O Sambódromo de Bauru, dito como o segundo a ser inaugurado no Brasil, está há mais de sete anos interditado, com problemas de drenagem, pois feito à beira de um barranco e depois de uma imensa cratera brotar no meio de sua pista, o perigo era tudo desbarrancar. Sete anos se passaram e hoje, mais uma AUDIÊNCIA PÚBLICA é realizada e nele convdados, desde a prefeita, como alguns secretários, como o da Cultura, Finanças e de Infraestrtura. Como sempre a prefeita não comparece, pois sabe, seria cobrado de forma dura. Deixa a batata quente nas mãos de quem trabalha sob suas ordens e direcionamentos, algo como Donald Trump faz com quem está sob o seu tacão. Estes vão lá, falam, expõem, mas não revelam o que de fato ocorre: quem decide de fato, quem dá a pultima palavra, não aceitando ser contrariada é Suéllen. Daí, mesmo com a discussão sendo edificante, sabe-se de antemão, nada será executado nessa administração, no sentido da recuparação do Sambódromo.

Resumo da ópera: duas representantes de duas secretárias fazem uso da palavra e deixam transparecer algo insólito. A Prefeitura, pelo que foi dito, já gastou em duas etapas, R$ 177 mil reais e depois mais R$ 200 mil reaqis para os tais estudos, que segundo ouvi, fazem uma prospecção na área, com sondas de até 30 metros. Confesso, nunca ouvi alguma notícia dessas sondas terem perfurado o local. Estranho, mas pelo dito, gastos já de quase R$ 400 mil reais. A certeza que possuem é a de que, uma obra dessa natureza se houvesse caixa para sua realização demoraria aproximadamente 14 meses. Como não existe dinheiro disponível, nem vontade política, pasmem, foi dito que, para sua realização, seria necessário a cidade (quem o faria?) ir atrás de recursos através de emendas ou leis de incentivo, junto aods governos estaduais (de Tarcício tenham certeza, outro fundamentalista, não viria nenhum centavo) ou do federal (só se Lula novamente salvar a Pátria). Uma das duas afirmou que, "o dinheiro que recebemos para fazer uso o ano inteiro é de R$ 17 milhões e essa obra, pelo orçamento que temos, ficaria em R$ 12 milhões". Ou seja, pelo conjunto da obra, sabe-se de antemão, a prefeita não moverá uma palha para qualquer tipo de ação de recuperação do Sambódromo.

Muitos foram convidados a dar depoimentos sobre, não só a importância da obra em si, mas do contexto envolvendo o Carnaval historicamente na cidade de Bauru. Carrijo, ex-vereador, da escola de samba Mocidade da Vila Falcão relembrou de seu pai, Guilberto Carrijo, quem dá nome ao Sambódromo e contou histórias. O ponto relevante foi quando, já cansado pelos anos sem solução, diz: "Já cansamos de justificativas. Precisamos de coisas objetivas. Quanto custa? Quanto tempo demoraria essa obra?". Recebeu as informações, mas o balde de água fria veio com a certeza, com Suéllen nada ocorreria. Dulce Baté, da escola de samba Estrela do Samba de Tribiriçá, muito educadamente, ao seu estilo, demonstra por A + B, que "quem faz precisa depois promover também a manutenção, porém, como isso não ocorreu, a situação chegou na calamidade atual". Jair Odria, 86 anos, prócer da escola de Samba Mocidade da Vila Falcão foi muito contundente, sem mais paciência, afirma "estar cansado e que a prefeita por ser evangélica, não gosta de Carnaval e assim sendo, nada fará pelo mesmo". 

Ponto final, a Audiência poderia ter sido encerrada aí, porém outros ainda queriam se manisfestar. E o fizeram, Paulo Maia, ex-presidente do Conselho Municipal de Cultura, Kelly Magalhães, arquiteta e professa da Unesp Bauru, Rose Barrenha, moradora das imediações do Sambódromo, representando os moradores e outros. Todos bateram na mesma tecla, a de que algo já deveria ter sido feito, a atual avenida onde ocorre o desfile é imprópria, inadequada e não atende um mínimo de respeito para com a festa. Fundado em 1991, interditado em 2019, a sina do local, pelo menos até o final dessa administração é permanecer no estado de ruínas, decrepitude comparável com os procedimentos usuais dessa esdrúxula administração, fundamentalista, conservadora e por fim, bolsonarista. Juntando estes três predicados, nada bonificantes, a certeza, o Carnaval nunca será prioridade e sem pressão, nada ocorrerá em prol da festa.

A discussão, diria mesmo, exposição de intenções e depoimentos de quem ama e não só gosta do Carnaval, como dele extrai néctar para tocar suas vidas é a de que, os momentos passados ali dentro da Câmara de Vereadores serviu para escancarar algo que, já era do conhecimento de todos. Cansa ouvir a repetição de uma antiga ladainha, sempre despontando pela boca de alguns, designados para ocupar cargos neste Governo: "o projeto está na fase final". Na verdade, não existe previsão nenhuma. Tudo conversa fiada. O próprio secretário de Cultura, Roger Barude afirma que, vai se movimentar e "irá atrás destes recursos", porém, sem nenhuma convicção. Um servidor da Casa de Leis, meu velho conhecido, vem até minha mesa, após ouvir parte das justificativas e me fala ao ouvido: "a questão é ideológica e não uma questão de custos. Simples assim. A prefeita não vai fazer, não quer fazer nada pelo Carnaval".

Ao final, uma só certeza, a de que, alguma movimentação ocorreá somente se alguém for buscar verba pública - notadamente federal - e se isso ocorrer, um gaiato me sopra nos ouvidos algo mais do que intrigante: "Meu caro, Bauru tem todo o dinheiro para concluir a ETE - Estação de Tratamento de Esgoto -, a prefeita já vai para seis anos à frente da Prefeitura e nada avançou. Imagina se, em algo pelo qual abomina, irá fazer algo, mesmo tendo dinheiro para realizar a obra. Eu me lembro que, quando foi levantado o tema da recuperação da Casa dos Pioneiros, hoje em explícita ruína, ela aventou a possibilidade de fazer uma campanha junto a empresários, para ver se algum destes se prontificava a dar uma contrapartida para a cidade. E nunca mais tocou no assunto. Suéllen é a cara da inércia política". Muitos outros (as) tinham muito mais coisas para falar, discutir e expor, porém, ao final, a conclusão final é de que, tendo Suéllen Rosin como administradora, nem um milímetro avançará. Derrubar, lacrar e prometer ela é boa, pois derrubou o chafariz da praça, depois lacrou o Hotel Imperial e o Milanesi, na sequência, quando da reeleição prometeu um Hospital municipal, chegando a publicar nomeação de uma provável diretora, mas nem a capinação do terreno foi feita e por fim, afirmaou por várias vezes que, mudaria a sede da Prefeitura para a estação da NOB, mas essa, assim como o Sambódromo, continuam interditados. Ou seja, ninguém foi embora para casa com um pindo que fosse de esperança positiva.  

ALGUMAS GRAVAÇÕES DESTE HPA, DISCURSOS OCORRIDOS NO EVENTO:
1 - Dulce Baté, da escola de Samba Estrela do Samba de Tibiriçá: 
2 - Jair Odria, um dos fundadores da escola de samba Mocidade de Vila Falcão: https://www.facebook.com/100000600555767/videos/pcb.27040795212190465/1279562460819156
3 - O secretário de Cultura Roger Barude, prometendo que irá atrás da reabertura do Sambódromo:https://www.facebook.com/100000600555767/videos/pcb.27040795212190465/1198892198781065


SEBO O LIVREIRO, VAI FECHAR SUAS PORTAS EM BREVE - ENTENDA COMO SE DÁ A DESPEDIDA DE REGINALDO FURTADO
Quem gosta de livros e de ler, não tem como, conhece todos os recantos livrescos de uma cidade, seus sebos, livrarias, funcionários e donos das livrarias e afins. Reginaldo Furtado é um professor da dita velha guarda e depois de ficar viúvo, até para dar um novo rumo para sua vida, preenchê-la com mais atividades, juntou todos os livros que foi juntando ao longo de sua vida e montou um sebo. Juntou a fome com a vontade de comer quando, conheceu uma senhora, moradora da rua Saint Martin, que lhe cedeu um espaço, tudo para ver sua casa mais movimentada e ele, adorou a ideia, pois pode a partir disso montar o seu primeiro comércio de livros, um sebo dentro do formato como pensava poder ir dispondo seus livros.

Assim nasceu "O Livreiro", que há alguns anos está encravado ali no nº 15-07 da subida da Saint Martin, algumas quadras depois da avenida Rodrigues Alves. E desde que abriu, o negócio deste mais novo livreiro da praçá nunca foi o de enricar com a coisa. Na verdade, o lugar virou um local de encontro, muito bate papo e a partir daí, o comércio de livros. Ele criou seu horário, dentro de suas possibilidades e o que antes era uma área da residência dessa senhora, virou mais um ponto de encontro na cidade.
Isso perdurou até alguns meses atrás, quando foi comunicado da intenção dessa senhopra em vender a casa. Nada atribulado, tudo feito com a devida folga e fleuma, muita calma, mas com o passar dos meses, ele sabe, precisará fechar as portas, pelo menos neste endereço. Já pensa em, num curto espaço de tempo, encaixotar tudo, guardar em sua casa, descansar, resolver o imbróglio de sua aposentadoria esó depois, repensar num outro lugar e assim dar continuidade neste negócio, que confessa, gostou muito. E quem já esteve por lá também gostou muito. Reginaldo tem um preço justo para cada livro, mas regateando, aceita propostas e não deixa a pessoa ir embora sem levar alguma coisa.

Triste ele não está, pois sabe, depois de longo tempo de labuta, nada como tirar uma espécie de férias forçada, refletir melhor sobre dar continuidade, arrumar um outro ponto e tocar o barco adiante. Reginaldo tem livros a dar com pau e os separa muito bem. Tem os de sua coleção particular, os de sua preferência e os que foi juntando e estão nas prateleiras d'O Livreiro. Estes últimos, os que restarem da liquidação em curso, R$ 10 cada, irão para caixas e posteriormente voltarão para outras prateleiras. Ele, como se sabe, motociclista de quatro costados e pelo corre dos últimos tempos, encostou a máquina num canto. Agora, espera colocá-la em circulação novamente, desde a saúde assim o permitir. Tristeza mesmo é a constante reclamação pelos problemas nas articulações, dificultando o caminhar e, consequentemente, até o andar com sua possante. Driblando isto tudo, em breve o veremos novamente nas paradas de sucesso e O Livreiro reaberto por aí. Ele promete fazer a maior força, para que toda a interrupção demore o menor tempo possível, mas como nem tudo depende dele, cá do outro lado, tem uma grande torcida, dando a maior fé para que tudo dê muito certo nos seus planos. O Livreiro não pode se findar, pelo bem de uma imensa legião de fãs.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

DICAS (1348)


O SAMBA QUE NASCE EM BAURU - REPENSANDO O SAMBÓDROMO
Na última quarta, 15/07, fui convidado pela professora de Arquitetura, a Kelly Magalhães, para participar de uma mesa de discussão na disciplina Laboratório de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, no campus da Unesp Bauru para falar sobre o SAMBA em BAURU e cujo título é o desse texto. E qual o motivo disso? Ela propôs para seus alunos uma intervenção no SAMBÓDROMO, com algo mais palatável, não só para o sambista, mas também para o público. Levou seus alunos ao local e lá eles em contato com moradores produziram vídeos dessa interação. O passo seguinte foi esse, o de tomar conhecimento de onde e como flui o samba na cidade. É evidente que, ciente de minhas limitações, aceitei mas não fui só. Levei comigo um trio da maior responsabilidade, todos de um famoso agrupamento, o Quintal do Brás (todo 1º de Agosto e agora também no 1º de Maio abrilhantam a festa lá no Vitória Régia): Ivo Fernandes, também responsável pelo Coletivo Samba, Anderson Silveira, o Gordo, percursionista de mão cheia e Anderson de Paula, o Lemão, batuta no cavaquinho. A deixa inicial antes de passar a palavra para eles, com uma classe lotada, mais de 40 alunos, foi mais ou menos assim. Começo perguntando quantos são de fora de Bauru e mais de 90% da classe levanta a mão:

“Sou casado com uma carioca. Ela aqui chegou pouco mais de seis anos. Uma fala dela da época jamais foi esquecida por mim: ‘O que que tem para se fazer nessa cidade?’. Senti ali uma provocação, algo bem no espírito de quem sai de um grande centro urbano e acha que vai se decepcionar com o lugar onde está aportando. Ana, esse seu nome, se repetir hoje a pergunta, sei que sabe muito bem onde flui a cultura popular na cidade e me desfiará um longo rosário de lugares, pessoas e com agendamento para permanência nas ruas de segunda a segunda. E em muitos lugares citados por ela, com certeza, o SAMBA estará presente na maioria deles. Espero que todos vocês já tenham conhecido um bocadinho do que de fato ocorre nessa cidade e nem sempre recebe o tratamento adequado de divulgação. Conhecer tudo, só mesmo caminhando pelas beiradas bauruenses.

Fico orgulhoso de vê-los, todos estudantes de Arquitetura e interessados em algo do Samba e dos sambistas bauruenses. E contente estou de tomar conhecimento disso estar sendo discutido em sala de aula, dessa união de uma obra arquitetônica, o traço que levanta a peça de concreto e pensando naqueles que dela vão fazer o usufruto. É tudo o que se faz necessário, uma construção pensada com e junto com seus participantes. Algo fluindo e sendo parido dessa irmandade de interesses só pode ser algo proveitoso. Vejo nascendo aqui algo novo dentro da concepção do Sambódromo de Bauru, o segundo do país. Nada sei de quem idealizou a obra, se foi só um aproveitamento de um buraco, um vazio urbano ali existente, mas sei de alguma coisa de quem por lá festeja e do muito que pode ser concebido pela mente criativa de gente disposta a, não só colaborar, mas atuar junto e melhorar o que já existe. Que o resultado disso possa ser entregue para os administradores municipais num evento grandioso, com muito samba e conseguindo sensibilizar a tudo e todos.

Por fim, algo do bairro onde ele está levantado, o Geisel, infelizmente nome de um ditador, mas reduto de um dos mais antigos e nobres conjuntos habitacionais, eminentemente de trabalhadores e de muito samba no pé. Lá estão fincadas duas escolas de samba e infinidade de gente ligada não só a essa festa, mas a música de uma forma geral. Peço um aparte e lhes pergunto quem aqui conhece GUILBERTO CARRIJO? (ninguém se manifesta). Pois bem, esse senhor dá nome ao Sambódromo e trata-se de uma pessoa cuja vida esteve intimamente ligada ao Carnaval, tendo participado de muitas escolas, sambado em outras tantas e foi um dos grandes incentivadores na formação de adoradores do samba na cidade, dentre os quais me incluo, pois fez durante décadas excursões levando bauruenses para conhecer o Carnaval carioca e seus redutos mais famosos, como o Bola Preta e o Cacique de Ramos. A professora Kelly demonstra estar no caminho mais do que certo em introduzir vocês nas questões do samba, conhecer o bairro onde o Sambódromo está localizado e só a partir dessa vivência começar a fluir algo transformador naquela região. Inciativas como essa não podem ficar intramuros e sim, remodelarem a cidade.
Nosso parque Vitória Régia, local dos grandes shows da cidade não possui um palco fixo para abrigar esses eventos, pois a concha do local não suporta o grande público. E por que não isso surgir de algo vindo de vocês, ali, no Parque das Nações ou mesmo no Sambódromo. Muita coisa pode fluir da mente de vocês e ser incorporada pela cidade. Mãos a obra”.

Falei mais, apresentei os três, eles deram uma aula sobre o samba, suas vertentes, estilos, locais na cidade onde ele flui, nossas escolas e por fim tocaram e cantaram. Nem preciso dizer que encantaram a todos e só fomos embora após uma longa conversação ao final de tudo, com direito a bis e muita conversa paralela. Rolou até uma passagem de chapéu para os músicos, quando também falamos sobre a valorização do músico, algo ainda incipiente. Queria que o Ivo e dois Andersons, se pudessem, escrevessem um pouco do que foi aquele encontro e da expectativa criada com o que foi ali plantado. Valeu o convite, focamos algo com grande poder atrativo e colocamos algumas minhocas a mais na cabeça de todas e todos. Fizemos bem nossa parte.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

BEIRA DE ESTRADA (34)


BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS DO LADO B DE BAURU (05)

JOAQUIM PEREIRA, UM EX DO RÁDIO NÃO ESQUECE O IMORTAL WALTER NETO*
* Texto publicado no jornal mensal Metrópole News, abril 2014, edição nº 10, dirigido por Vinicius Burda

Como gosto demais da conta de rádio, principalmente do AM, sempre me pego rememorando nomes e mais nomes de gente que já passaram pelos microfones bauruenses. São tantos, muitos hoje nas mais diversas atividades. O que é mais triste e estou sempre trombando é com histórias daqueles que, um dia por lá estiveram e hoje, do outro lado continuam nutrindo uma baita de uma saudade do dito cujo microfone. Hoje rememoro a história de um desses.

JOAQUIM PEREIRA é cria da vila Independência, tendo ali vivido desde os anos de 1964 até nove anos atrás, quando foi morar no Geisel. Tem a cara do seu reduto inicial e toda vez que bato os olhos nele, lembro-me de algo da Independência. São 56 anos, muitos deles como radialista em várias emissoras da cidade. Seu pontapé inicial foi na Bauru Rádio Clube, com um timaço onde ao seu lado estavam Darci da Luz, Gualberto Carrijo, Sílvio Rodrigues e Tio Pedroso. Passou também pelo 710, no plantão esportivo do Sistema Globo de Rádio, sempre no noticiarismo, nunca na animação. Nutre um carinho mais do que especial por Walter Neto, seu padrinho no rádio, que o tratava como filho. Passou cinco anos vendendo propaganda para seus programas, depois rodou em outras paragens: 12 anos no Bradesco, 12 na Disbauto, 8 na Padaria Elétrica e um outro tanto comandando uma banca de jornais e revistas. Hoje, a saudade ainda bate forte no peito, mas está mais do que com os pés no chão, com oito anos atuando nas hostes da Edipro, a editora da Jalovi. Continua com o mesmo jeitão, simples, alegre e trazendo sempre consigo a carteira de Radialista, com MTB é tudo, fazendo questão de repetir sua inscrição para quem não acredita no que diz: 11510. Vai continuar se considerando um eterno radialista.

Vejo muitos como ele pela cidade e escrevo ex-radialistas, porque muitos estão na mesma situação de Joaquim, a de um dia terem atuado em alguma rádio local e cheios de vontade de voltarem, mas sem nenhuma possibilidade de espaço. O mercado radiofônico em Bauru está mais do que estrangulado e para constatar isso basta dar uma espiada na quantidade de rádios que tínhamos no passado e na quantidade que temos hoje. Quando escrevo dessas rés desgarradas, penso também em algo quase em fim de carreira hoje, o dial AM. Infelizmente, o tempo do radinho de pilha com ondas curtas está com os dias contados e todas elas passarão a ser FMs. A transformação ainda não foi bem entendida, mas de uma coisa tenham certeza, pessoas como Joaquim Pereira continuarão tocando suas vidas fora do ambiente radiofônico.

Impossível pensar nisso tudo, nas transformações todas, sem lembrar personagens que marcaram época no rádio bauruense. Na impossibilidade de citar todos, pois seria fácil esquecer muitos, faço menção a um, justamente o citado por Joaquim, o nome até hoje mais famoso dentro do universo da música sertaneja, WALTER NETO. Esse homem acordava a cidade de uma maneira peculiar e conseguia expressar uma caipirice até hoje copiada por muitos, mas não alcançada por nenhum outro. Era único no que fazia. Espontâneo, assumido caipira, botava o galo pra cantar, contava piadas, fazia sorteios, repetia a hora a todo instante, dava as primeiras informações para uma cidade ainda dormente e tinha algo bem peculiar, adorava vestir uma camisa vermelha, sua cor preferida. Antológicos os programas ao vivo dominicais, sempre pela Auri-Verde onde sorteava frangos e em algumas ocasiões o fez até com cabeças de gado. E tocava a música sertaneja autêntica, a raiz. Por sorte não veio a conhecer esse tal de sertanejo universitário, que certamente repudiaria.

Joaquim atuou com Walter e as recordações daquele período são as que mais marcaram sua vida. “Ele é meu segundo pai. Fez coisas por mim que só um pai faz pelo seu filho. Fui seu assessor, ele falando e eu atendendo e fazendo de tudo nos bastidores. Aprendi muita coisa boa com ele”, conta Joaquim. Walter é do tempo do radinho de pilha, assim como Joaquim, esse vivendo dessas lembranças, do caboclo que lá do seu sítio ou de sua casinha enfiada na periferia acordava e uma das primeiras coisas que fazia, até antes de urinar era ligar o rádio e dele não mais se separava o dia todo. O rádio mudou, mas ainda não perdeu de todo esse traço de empatia com as pessoas. Joaquim continua ouvindo rádio, mas para aqueles que costumam sintonizar sua rádio preferida pelo celular, diz que não pegou bem o espírito da coisa, pois ali não tem como fazê-lo com rádio AM, mas é justamente delas que gosta. Essas modernidades vão demorar a serem assimiladas por gente cheia de saudade de um tempo que não volta mais. Essa dupla faz parte desse tempo.

E para encerrar com chave de ouro, algo da história pessoal do Joaquim, contado por ele mesmo, ótimo para ser reproduzido nesse momento quando falam de uma minissérie na televisão sobre o prostíbulo da Eni: “A dona Eni Cesarino morava na quadra 23 da rua Antonio Alves, esquina com a Capitão Gomes Duarte e passava todos os dias pela Padaria Elétrica, na quadra 22, onde eu trabalhava. Por volta das 7h30 chegava com seu motorista particular, táxi exclusivo, sendo deixada na porta. Ela descia do carro com uma cestinha de vime e perguntava: ‘Cadê o moreninho?’. Aí pedia pro moreninho, que no caso era eu, uma cibalena, um sonrisal e um doril, junto de um copo com água. Enquanto tomava aquilo tudo, por causa de suas enxaquecas, ela pedia presunto, mussarela, mortadela, salame, doces e uma quantidade de pães de forma. Eu colocava tudo na cestinha e ela me perguntava: “Moreninho, você leva para mim?’. Ela seguia na frente, rebolando como uma perfeita dama e eu atrás com a cestinha de vime cheia de guloseimas. Não tinha malícia nenhuma, devia ter lá pelos 14 anos e ao chegar na sua casa, ganhava um gorjeta. Isso se repetiu durante uns oito anos, essa minha única história dela comigo, eu o seu Moreninho”.

terça-feira, 31 de março de 2026

BEIRA DE ESTRADA (206)


O MUNDO DA VOLTAS E BAURU É UM OVO
Eu tenho "N" histórias comprobatórias de que este mundo é mesmo um ovo. Inesquecível para mim, quando estudando na USC, universidade católica, recebíamos aulas de Educação Religiosa, aos moldes do Catolicismo. Quem dava aulas era um padre, que depois vi, chegou a ter cargo importante na igreja em Nova York. Ele muito centrado nas aulas, exigindo de todos uma contrição, que não podia ser possível, pois éramos - não deixei de ser - rueiros demais, ou seja, vivenciávamos, mesmo antes da ditadura militar, que era católica, o tal do Estado Laico. Eu, sempre festeiro, num dos Carnavais, vou pular no Rio de Janeiro, provavelmente excursão do Guilberto Carrijo. Estou eu lá em plena Cinelândia, festa por todos os lados, quem eu vejo desfilando na minha frente e abraçado com uma linda mulata? Sim, isso mesmo, exatamente o padre que ministrava as aulas mais carolas na USC. Ele me viu e eu o vi, nunca conversamos sobre o assunto, mas as suas aulas foram amainadas desde então.

Isso aqui só para introduzir em algo ocorrido comigo no dia de hoje. Fui à dentista, chego pouco antes e como sempre, levo algo para ler. A atendente, senhora simpática, puxa conversa e me diz: "O senhor gosta muito de ler, pegue uma revista Veja ali na mesa". Declino do convite e lhe digo que trago a minha própria revista, a Carta Capital. Queria até lhe explicar dos motivos de não ler mais a Veja, mas achei antiprodutivo, pois pela forma como me ofereceu algo para ler, pelo visto, não entenderei que uma possui um tendência e outra navega em outros mares. Continuo lendo e ela insistindo em prosear, foi quando lhe disse que neste mês li exatos seis livros e que, pelas minhas contas, nem que chegue aos 80 anos de vida, não terei tempo de ler tudo o que já tenho na fila. Ela se assustou: "Seis por mês. Nossa, é só parar de comprar, que dá tempo". Digo não ter intenção nenhuma em parar de comprar e que na feira domingo, com duas bancas de livros, trouxe mais uns seis. E compro também muitos CDs, pois na promoção lá na feira, são 3 por R$ 10. "Irresistível", lhes digo.

Foi quando ela, começa a me contar algo, que no desenrolar e desfecho, fico não só de queixo caído, como prostrado e ciente mesmo, este mundo é pequeno demais, tudo dá enormes voltas e acaba voltando para perto da gente. "Seu Henrique, eu uma vez conheci um cara que gostava tanto de livros como o senhor. Meu marido tem uma pequena empresa de dedtização e fomos fazer um serviço numa casa, onde tinham livros e discos por todo o lugar, além de posteres e propaganda política, fotos de artistas. Detetizamos a casa, pois ele estava com mêdo dos cupins se adiantarem e comerem seus papéis. Não sei se o senhor o conhece, essa casa fica ali perto do CIPs, perto do Poupatempo, ali ao lado do rio Bauru". Achei muita coincidência e lhe perguntei: "Por acaso essa casa não ficava bem defronte aquele largo ali perto do CIPs onde montavam parques e circos?". Ela me responde que sim e sou obrigado a lhe dizer: "Este senhor que você foi com seu marido fazer uma dedetização foi a minha casa, que denominada de Mafuá. Ali fazíamos muitas festas, tinha meu cão Charles, livros e discos tomando conta de tudo. Perdi muita coisa por lá, devido enchentes e acabei por vender a casa e comprar um kitinete perto de onde moro, onde guardo bem menos da metade do que tinha antes".

Ela não acreditando e na hora ligou para o marido, me colocando para falar com ele. Não me recordava da fisionomia deles, mas claro, lembrava do dia quando lá estiveram, achando aquilo tudo um exagero e fora do normal. A partir daí, conversamos mais um bom bocado de tempo. Na verdade, não consegui ler a revista trazida, pois até o momento em que fui chamado para adentrar a sala do atendimento, a conversa fluiu sobre este assunto, ela encantada por ter me reencontrado desta forma e jeito, totalmente inusitada e neste novo serviço, iniciado há apenas um ano. Falamos também dessas coincidências trombadas que a vida nos proporciona vez ou outra. Anoto o telefone deles e digo que, desde que vendi a tal casa e mudei meu acervo para uma kitinete, já fiz uma dedetização, mas na próxima chamarei eles. Deu para perceber que, ela não lê nenhum livro por ano. Gostaria muito, disse a ela de incentivá-la e se possível, até indicar umas leituras. Ela me diz não ter tempo. Não insisti, não sei se o mesmo ocorre com ela, mas vejo tantos por aí, reclamando da mesma situação e na primeira horinha de folga, lá estão viciadas teclando algo pelo celular.

Foi isso, essa a história de hoje. A de que, numa cidade como Bauru - ou qualquer outra -, as coincidências ocorrem aos borbotões. Quando menos esperamos, estamos revendo pessoas e situações pelas quais nunca mais pensávamos em voltar a colocar os olhos. Essas duas histórias aqui contadas não são as únicas acontecidas comigo e envolvendo algo ocorrido lá atrás e com um desdobramento lá na frente. Tenho algumas aqui de memória, outras me lembrarei logo mais. De uns tempos para cá, quando me acontece algo assim, não sei porque cargas d'água, acabo sonhando sobre o assunto e quando me dou conta, lembrando de algo mais. Essa surpresa acontecida hoje me foi por demais grata. De alguma forma, ela reconheceu em mim, algo pelo qual tanto me empenhei a vida inteira, não só no quesito juntar livros e discos, mas também de repassar algo de bom, para quem segue me acompanhando mais de perto. Agora mesmo um baita amigo me pede, se não tenho para lhe emprestar o livro "Cem Anos de Solidão", do Gabriel Gárcia Márques. Sabe o que faço num caso destes? Não empresto, dou o livro. E depois, ele depois de lido que passe adiante, enfim, este o papel do livro. Seguir trilhas inusitadas. Tenho "N" histórias de livros que percorreram caminhos pela aí e depois, voltaram para a minha mão. Ou seja, tudo dá voltas e voltas.

ENCONTRO DE DUAS FERAS, PELO ESCRITOR JOSÉ ROBERTO TORERO
Eu estava em Turim e vi um restaurante que tinha um preço bem camarada. Tão camarada que estava quase completamente lotado. O “quase completamente é porque havia uma mesa com apenas uma pessoa, que estava em frente a uma imensa travessa de macarronada.
Fui até ele e pedi para me sentar.
– Claro. Aliás, se quiser dividir a conta, esteja à vontade. O prato é grande demais para mim.
– Negócio fechado! – respondi. Depois, me apresentei:
– Torero, muito prazer.
– Calvino.
– Calvino? Italo Calvino?
– Em carne, osso e óculos.
– Puxa, sou seu fã! – confessei. Acho “O visconde partido ao meio”, “O Barão nas árvores” e “O cavaleiro inexistente” sensacionais. São fábulas para adultos. Elas têm leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.
– Minhas virtudes literárias preferidas.
– Eu sei. Também li “Seis propostas para o próximo milênio”.
– É o seu favorito?
– Não. O que eu mais gosto mesmo é o “Cidades invisíveis”. Achei demais a ideia de falar de cidades para falar de outras coisas!
– Se você diz...
– Gostei tanto que, de certa forma, até plagiei essa ideia.
– Opa! Vá se explicando.
– É que, quando meu filho era pequeno, comecei a contar histórias sobre castelos para ele dormir. Mas, na verdade, as histórias eram sobre tudo, menos sobre castelos. Depois, essas histórias viraram um livro, o “Castelos”.
– Título muito original...
– É o mais vendido da minha editora! Já lá se foram quase cinquenta mil exemplares.
– Cinquenta mil, é...?
– Sim. E ele ainda teve filhotes: o “Pontes”, o “Árvores”, o “Prédios” e, no fim do ano, o “Mapas”.
– Minha leitura foi bem lucrativa para você, não?
– Se foi! E ainda nem falei de “As bibliotecas fantásticas”, que usa microcontos sobre bibliotecas imaginárias para falar de leitura, livros, escritores, histórias, poder etc...
– Esse vendeu muito?
– Quatro mil, um número bem decente.
– Então, pelas minhas contas, você me deve mais ou menos...
– Uma macarronada e essa garrafa de vinho? – propus rapidamente.
Ele pensou um pouco, sorriu e respondeu:
– Uma macarronada e duas garrafas de vinho. Garçom, mais uma dessas!
#paposcomospapas