sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MEMÓRIA ORAL (108)

MÚSICA BRASILEIRA PARA PORTENHOS
Algo estranho no ar, no dial de uma rádio da capital portenha. Em Buenos Aires, a FM Urquiza (http://www.fmurquiza.com/ ) mantém há exatos 20 anos, comemorados em 06/08/2011, um programa idealizado por um apaixonado pela música latina, em especial a brasileira. Seu nome, José Luis Ajzenmesser, 63 anos e a irradiar todas as terças e sextas, das 16 às 20h, o La Guagua (http://www.laguagua.com.ar/ ). Dentro deste algo inédito por lá: um cantinho só para música brasileira, sempre das 18h às 20h. Um feito e tanto, comemorado com a devida pompa, principalmente no Brasil, entre seus já cativos ouvintes e fervorosos fãs.

Sua coleção de discos suplanta a de famosos colecionadores nacionais e ocupa boa parte da sala e todo um quarto do seu apartamento. Material catalogado, tem de tudo e conhece cada detalhe da maioria deles. Diante de um fã brasileiro de João Bosco pergunta: “Tens tudo dele?”. Diante da resposta positiva, instiga: “Terias este?” e mostra um gravado em 2009 na Suécia. Não faz isso por pedantismo, longe disso. Chega ao ponto de ter-se magoado quando João esteve numa apresentação na cidade e colocado no meio de outros artistas, precedendo a canadense Diane Krall, foi apupado por um público que não o conhecia. Anos depois o cantor voltou à cidade e recebeu de José Luis pessoalmente uma espécie de desculpas. E continua tocando João de forma desmedida no programa.

“A Urquiza toca o que as outras rádios deixaram de mostrar ao ouvinte buenarista já faz tempo. Por aqui, jazz, blues e clássicos de hoje e ontem. Isso é raro de se ouvir aqui e no meu caso, faço mais, apresento a eles a música brasileira. Música e entrevistas, pois pesquiso, vou ao Brasil para entrevistas e quando os músicos vem aqui, passam pelo programa ou os persigo por onde estejam”, diz o entusiasta radialista.

O interesse começou na juventude, quando escutava João Gilberto, Simonal, Miltinho e coisas da Bossa Nova. “Nessa época as rádios argentinas difundiam música do mundo todo, desde jazz, francesa e brasileira. Com 12, 13 anos, comecei a comprar discos e não parei mais. Numa época o fiz só com música negra, por causa da percussão e o interesse pela brasileira veio daí. Sempre gostei da batida. Com 17 anos trabalhei como disc jockey em festas privadas, me formei em Arquitetura, mas nunca abandonei o gosto musical. Em todas minhas viagens sempre comprava muitos discos. Nos anos 90 dei meus primeiros passos dentro de uma rádio, daí não parei mais”, relata José Luis, falando um quase fluente português, influência do antigo gosto musical e da esposa, Mônica, que morou no Brasil muitos anos e hoje dá aulas da língua do país “hermano” para argentinos.

Conseguiu juntar toda a influência musical na montagem do La Guagua, aliás, o nome veio dessa miscelânea musical. O termo refere-se a um ônibus no Caribe, onde cabe de tudo um pouco, cada passageiro representando algo distinto, igual ao programa. A diferença, segundo ele, é na seleção do que entra no seu ônibus musical. “Essa rádio, esse tipo de programação se perdeu. A forma de expressão já não é a mesma nem aqui, nem no Brasil. Resisto e agrado inovando, tocando e trazendo o músico para falar de sua vida e trabalho. Veja os nomes, Wilson das Neves, Chico Batera, Joyce, Dori Caymmi, Guinga, Paulinho da Viola, Mônica Salmaso, Paulo Moura e tantos outros já passaram pelo programa”.

O profundo conhecimento da música brasileira é derivado de muita pesquisa, um trabalho incessante e constante. Trata-se de um investigador e ele não é modesto, afirmando que seu trabalho é o mesmo do já foi feito um dia por Villa Lobos, Garoto, Jacob do Bandolim e Radamés Gnattali. “Rui Castro foi muito importante para mim. O conheço há uns dez anos e me ensinou a conhecer as origens da Bossa Nova como movimento de samba. Ela não é jazz, é puro samba. Na última visita ao Brasil levamos Tito Madi a um piano bar no Leblon e ele, mesmo em recuperação de um AVC, cantou e até tocou. Foi um dos mais empolgantes programas que já apresentei”, relata emocionado.

Mas não é fácil a vida do La Guagua, contando com poucos patrocinadores. Uma sobrevivência difícil e espinhosa, pois segundo ele: “Os apoios na Argentina são raros. O produto que tenho não é para todo mundo, portanto, de pouca venda. É um programa de música popular não popularizada. É uma música que existiu, ainda existe, mas ninguém divulga. O dial hoje é autoritário, de mão única. O gosto existe, o bom e o mau gosto e o ouvinte não consegue mais conhecer e gostar de música, pois hoje não consegue comparar, tendo poucas possibilidades de escutar a verdadeira. O que toca na Argentina é pago, como vocês dizem, pelo jabá. E me dizem ser um utópata, um doente de utopias, pois persigo o que não posso alcançar”. Mesmo descrente, os ouvintes surgem de todos os lados, tanto nos telefonemas durante o programa, como nas cartas e CDs recebidos diariamente em sua casa, oriundos de todos os cantos do continente. Uma clara demonstração de que, mesmo sem nenhuma pesquisa de audiência, ela deve ser grande e a baixa potência da emissora, de no máximo uns 30, 40 quarteirões, nenhum impeditivo, pois a grande repercussão, ele sabe, é a oriunda via internet.

José Luis paga para manter seu programa no ar e assim sendo impõe algo: “Você quer me escutar, fique. Não quer mude o dial. Se não quer tem todo o direito de dar uma volta no ponteiro, mas eu sei que não irão encontrar quase mais nada”. A melhor denominação para o programa é tratá-lo como se fosse um oásis, pois viceja numa espécie de deserto. “Um deserto sem água e o que irradio uma gota na imensidão do oceano. É o mesmo que ir ao mar e urinar. O que isso agrega ao mar? Nada, esse o La Guaga, mas eu vou em frente, não existe outro caminho”, conclui. Alguns iguais a ele tentam nesse momento ampliar o intercâmbio cultural entre os países latinos, projetos desconhecidos de sonhadoras pessoas e fazem algo por um simples motivo, tudo pela música e para a música. Reconhecidamente, utópatas.
OBS.: Essa entrevista foi gravada em Buenos Aires nos dias 28 e 29/07/2011, respectivamente, na residência do radialista e estúdio da FM Urquiza.

10 comentários:

Anônimo disse...

Oi Henrique!
Muito legal esse seu relato! Bom saber que há outros tiradores de leite de pedra por aí.
Abração
W.Leite

Anônimo disse...

Belo texto, o cara é melhor do que muitos radialistas daqui. Hoje ouvi na 94 fm ai de Bauru pela internet uma pesquisa sobre a música que o ouvinte gosta mais de ouvir. A sertaneja ganhou estourada. De duas umas, ou a aundiência dessa rádio é só de gente que gosta de música ruim ou aqui no Brasil já perdemos mais essa e o povo só gosta mesmo de merda. E nós, os que ainda gostamos de música de qualidade somos todos utópatas.


Paulo Lima

Anônimo disse...

obrigado amigo. ja enviei a materia para o ruy castro e ele ja respondeu. o assunto da cultura sempre é uma coisa dificil. De novo obrigado pelo apoio. abrazao. jose luis - la guagua

pd: meu programa e das 3 da tarde as 7.45 da noite

Anônimo disse...

HENRIQUE,
é um dos poucos argentinos que gostam do Brasil...
Abs.
MURICY

ps - meu programa "Grandes Músicos" na Veritas FM (criada por mim), saiu do ar há mais de 6 anos...Veja nos programas gravados,
ainda em meu nome...Dá para explicar ?

Mafuá do HPA disse...

CARO MURICY:
Te respeito demais, ainda mais sendo meu ex-professor, mas esse negócio de não gostar de argentinos é coisa velha, que para mim não te nenhum sentido. Gosto de mais deles, principalmente da garra e da coragem de enfrentamento, que nós brasileiros não temos. Quem vende essa idéia de inimizade lucra com isso e eu não caio nessa.

Henrique - direto do mafuá

Anônimo disse...

Parabens meu amigo!! Agora o Mafuá é internacional!!!
muito bom!!!
Gostei de saber sobre o programa de música brasileira.

O luiz Ajzenmesser é um utópata, assim como nós !!!
Grande Abraço!!!
e Parabéns!!!


João Nicodemos
www.poemasdonicodemos.blogspot.com/
http://www.youtube.com/user/jotanikos1
www.artedenicodemos.blogspot.com/

Anônimo disse...

Olá prof. Muricy
Seu programa faz falta aqui na rádio Veritas e seu nome consta, ainda, na webpágina por dois motivos: a esperança de que volte e falta de dinheiro para fazer uma página nova.
Abração
W.Leite

Anônimo disse...

Mi caro amigo argentino-brasilero Jose Luis

Muchas gracias por tu atención al enviarme datos que me pueden hacer conocer un poco de tu labor radial y de tu ficción por la musica que nosotros hacemos por acá. Hoy puedo darme cuenta del trabajo duro que hiciste tras tanto tiempo a buscar informaciónes y datos sobre nuestra musica, nuestros artistas y compositores.
Para mi es una señal de sensibilidad y respecto para con nuestra arte y por nuestro pais. Puedo decir, sin cualquier duda que eres un verdadero embajador de la musica brasilera cuidando, cariñosamente de difundirla con el corazón.
No importa se la gran mayoria de la gente a ellas no le gusten el genero musical de Laguagua. Acá eso es igual. Mucho de lo que se oye en la rádios brasileras, con pocas distinciones, es lo peor do uno puede imaginarse.
Asi es que el trabajo que haces es algo que te sale del alma y del corazón y nosotros brasileros que nos gustamos de la buena musica podemos, sabemos de eso y podemos comprenderte. Mientras no sean tantos tus oyentes que se presentan, tienes multitudes que se paran por detras de los atavoces oyendo tu programación y las enseñanzas que estas a compartir.
Por eso, mi amigo, te envio mi abrazo fraterno con deseos de que continues a hacer lo que te proporciona placer y alegria.

Arruda

Parabéns, José Luís.
Sai hoje nosso livro, meu e de Heloisa, “Terramarear --- Peripécias de dois turistas culturais”. Vou fazer com que te mandem.
Tem um capítulo divertido sobre Buenos Aires, escrito em 1989, acho.
Abrazos.

Anônimo disse...

Excelente, Henrique!!!

Marcia Nuriah

Anônimo disse...

Caríssimo José Luiz
Parabéns pela bela matéria. Estou divulgando para todos os meus contatos. Você merece todos as homenagens.
Meu abraço carinhoso,
Ayrton Rocha

P.S. estou indo ao Rio na próxima segunda feira dia 29, se Deus quiser. Vou ficar uma temporada. Descansar, bater papo com meus amigos da boa musica, da literatura, rever o querido Tito Madi. E claro, beber meu chopinho e respirar a beleza do meu Rio. Você não tem nenhuma viagem programada agora para o Rio ? Gostaria muito em abraça-lo.