sábado, 6 de fevereiro de 2010

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (08)

UM JORNAL ÚNICO E UM JORNALISTA COMO POUCOS - SÉRGIO FLEURY E O "DEBATE"
Sempre que vou para Santa Cruz do Rio Pardo, saindo ou entrando naquela cidade, é inevitável passar diante do prédio com a inscrição "DEBATE", bem lá no alto de uma parede de esquina na avenida Clementino Gonçalves. E sempre me batia uma vontade de ir conhecer o jornalista SÉRGIO FLEURY MORAES, dono de uma dos semanários mais diferenciados que conheço em todo o interior brasileiro. Dessa vez parei (incentivado pela companheira nessa viagem, Zezé Ursolini), era por volta das 19h, porta da frente fechada e só uma lateral, que dá acesso à gráfica aberta. Anunciam a visita e subo às escadas ao primeiro andar, onde está a redação. Ao adentrar vou espiando as paredes, com fotos e legendas de matérias do jornal, posicionamentos assumidos e uma história de fazer inveja.

Antes de relatar o encontro com o diretor e uma espécie de faz tudo no jornal, conto o motivo da admiração. Visualmente O DEBATE (http://www.debate.com.br/) me ganhou de cara, pois possui um visual arrojado, despojado e gostoso de ser visto e lido. Isso não basta num jornal, mas o quando o conteúdo segue na mesma linhagem, sim. Sérgio pratica um tipo de jornalismo cada vez mais difícil de ser feito pelo interior (pelas capitais também), ou seja, independente e imparcial (a tal da verdade factual dos fatos, que Mino Carta apregoa). Folheio seu jornal e não encontro nenhuma publicidade como os mortais editais de prefeituras, aqueles que compram a isenção do veículo de comunicação. Sérgio abomina isso, muito menos estar vinculado a qualquer partido político e isso aumenta a credibilidade do que faz. O jornal e o jornalista ficaram famosos nacionalmente pelas denúncias contra um juiz local, que lhe causaram uma ação na justiça, com a maior indenização já registrada a um pequeno veículo, por volta de R$ 600 mil reais. Mais detalhes disso consultem o tal do Santo Google, pois lá tudo está mais do que esmiuçado. Queria saber o resultado da ação, pois li que havia um prazo para ele quitar e se não o fizesse, teria seus bens arrolados e as portas fechadas. Minha torcida sempre foi para que conseguisse reverter tudo, continuando com o jornal em circulação, fazendo o que melhor sabe fazer, Jornalismo com "J" maiúsculo.

Sua sala é como imaginava uma mesa de redação de uma pá de gente que admiro, com papéis espalhados por toda sua extensão, organizados de um forma que só seu dono sabe como encontrar o que procura. Diante de um desconhecido, Sérgio foi de uma simpatia imensa. Falamos de tudo e de todos. A empatia foi imediata. Faço um comentário sobre seu nome e o hononimo famoso. Rimos, confirma não existir parentesco nenhum com o falecido torturador e diz das explicações que teve que dar quando trouxe para a cidade nomes como Hélio Bicudo e Plínio de Arruda Sampaio, entre outros. Do processo diz estar numa fase de contestação junto aos órgãos superiores e lutando para ver vingada uma tese de que os prazos foram expirados e a ação deve ser extinta. Seu advogado na questão é nada mais, nada menos que Samuel Mac Dowell (namorado de Elis Regina quando de sua morte). Estão no aguardo e seu dia-a-dia não tem alteração por causa disso. Noite de sexta, tudo ferve por ali, pois a edição semanal fecha no sábado e no domingo circula na cidade e região. Com o desenrolar da conversa foi mostrando como tudo começou, aos treze anos num jornalzinho, "O Furinho", feito na unha, com as publicidades desenhadas por ele mesmo. Com uma tiragem de 500 exemplares, só não imprimia, pois do resto fazia tudo, escrevia, corrigia, dobrava e distribuia. Pegou gosto e logo a seguir fez jornalismo em Bauru e criou o DEBATE, que nesse ano estampa na sua primeira página estar no "ano 33" de sua existência. Sérgio tem 50 anos completos e vive para o seu jornal. Hoje, seu semanário está mais do que consolidado, com uma tiragem ótima para uma cidade de 40 mil habitantes. São oito mil exemplares semanais, muitos desses sendo também distribuidos em toda a região e mais cinco jornalistas além dele próprio.

Ele sabe da responsabilidade que tem nos costados e produz algo singular, quase único, de excelente qualidade e reconhecido valor. Diante de um jornalismo de rádio onde o locutor é obrigado a comprar o horário para poder continuar exercendo sua profissão e muitos jornais criticam a administração municipal até conseguirem terem em mãos a publicidade da Prefeitura, Sérgio rema contra a maré e prova que exercer a profissão com dignidade é possível. Seu jornal está cheio de anúncios e o pau come solto em suas páginas, como nunca deixou de ser feito. Comentamos até de uma admiração mútua, a da curta experiência do Jornal da República, do Mino Carta, que durou meses mas deixou saudades eternas em muita gente. Saio de lá com um exemplar do DEBATE nas mãos, onde em 16 páginas, a constatação de que existe sim salvação para o saudável e sempre necessário jornalismo honesto e real. A comprovação estava bem ali diante dos meus olhos. Sérgio demonstra por A + B que, "resistir é preciso" e necessário.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (23)

DÚ DA MARTA E O CARNAVAL DE BAURU 2010
Eu estive em Boa Esperançado Sul nesta semana e acabei conhecendo dona Marta, mãe do Luis Eduardo, o DÚ DA MARTA, vereador na cidade pelo PV, 35 anos e seu irmão, o Fernando, ambos atuando juntos na empresa que ganhou a licitação para o Carnaval de Bauru. Tudo começou com a perspicácia do Luis, tanto que a empresa leva seu nome. Esse apelido veio de uma campanha eleitoral à vereador, a primeira que disputou (já foram quatro, ganhou duas). À procura de um nome sugestivo para concorrer, surgiu a idéia de usar o nome da mãe acoplado ao seu, pois ela é muito conhecida na cidade, tendo atuado na Prefeitura Municipal por muitos anos. O Dú da Marta nasceu aí e a incorporação foi total, pois hoje se perguntarem na cidade pelo Luis Eduardo, ninguém saberá de quem se trata, já Dú da Marta, a cidade inteira conhece. O tempo foi passando e além do gosto pela política, começou a atuar realizando eventos. Ano passado montou finalmente a firma, o negócio próprio. De um começo complicado, hoje fecha bons contratos e a firma começa a render um bom lucro. O irmão Fernando, dono de uma vidraçaria na cidade ajuda sempre que ocorre um evento maior, mais trabalhoso. Nesses momentos a vidraçaria permanece fechada. E justamente agora, quando tudo começa a melhorar, ocorre um chato imprevisto. Dú sente fortes dores na cabeça e após consultar um neurologista em caráter de urgência é detectado um aneurisma. Cirurgia em Araraquara e um tratamento prolongado em Jaú. De uma recuperação rápida, como Dú não pára com as atividades, tudo se complica e na passagem desse ano, mais complicações e uma internação. Hoje se recupera em casa, sob cuidados da família e nem pode pensar em estar à frente dos eventos, com aquela barulheira e agitação. No máximo fica diante do computador, acompanhando tudo à distância. Nisso ficam sabendo da licitação para o Carnaval em Bauru e como já ganharam uma por aqui, a do último aniversário da cidade, com o som da festa no Vitória Régia para o show da cantora (sic) Vanessa Camargo. Nesse Fernando ficou responsável por tudo, vindo até Bauru várias vezes e já fechou o acordo com as Escolas de Samba. Segundo suas palavras são sete e os contratos com todas elas já estão assinados. O valor é de R$ 10 mil reais para cada. O pessoal envolvido com a festa em Bauru pode se dar por satisfeito, pois a empresa é séria e está colaborando no que for necessário. Tiveram uma baita de uma sorte grande e devem estar pagando promessas de joelho nos grãos de milho até agora. É claro, a empresa terá um belo lucro, de aproximadamente R$ 30 mil reais. Nada contra eles. Já para a organização daqui, pífia, lamentos. Ouço de um grande empresário que entraria com sua firma e depois dividiria o valor total entre as escolas, sem qualquer lucro. De outro ouvi que foi convidado a concorrer com um valor pouco mais da metade do contemplado. De um terceiro, algo mais preocupante, a de que se esse tipo de contrato tivesse sido feito no governo Tuga, ele seria massacrado e agora, nadica de nada. Por tudo isso, mesmo que tudo saia a contento, tudo poderia ter ocorrido de forma diferente. Mas aí já é difícil com somente uma pessoa impondo tudo ao seu bel prazer. Agora é torcer pelo menos pior e que venha o Carnaval.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

MEMÓRIA ORAL (80)

A REFORMA AGRÁRIA PASSA POR AQUI
Bauru está no epicentro do vulcão da denominada insolúvel Reforma Agrária brasileira. É que no último dia 26 de janeiro, políciais civis literalmente invadiram (sic) as residências de trabalhadores rurais sem-terra e os levaram presos. Os detidos haviam participado da ocupação da Fazenda que a Cutrale administra de forma irregular na vizinha Borebi. Irregularidades por irregularidades, esses ocuparam terras de alguém que as administram sem serem seus verdadeiros donos. Um imbróglio que já perdura há quase cem anos, desde que o Governo brasileiro comprou aquelas terras para distribuir a imigrantes. Elas não foram ocupadas na época e com o passar dos anos, grandes proprietários fizeram dela sua casa, com a ajuda da facilitação de documentos em cartórios e decisões judiciais escusas. Tudo culmina com o atual vulcão em erupção. O MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra quer apressar uma decisão favorável aos trabalhadores, diante de uma Justiça morosa para sua causa e rápida até demais nas decisões envolvendo o grande capital.

Os detidos moram em sua maioria em Iaras, distante quase 100 km de Bauru, mas a operação foi comandada pela polícia daqui e os presos vieram todos para cá, depois distribuidos em delegacias da região. A delegacia regional da Polícia Civil está aqui localizada e assim sendo, um grande ato público de desagravo à maneira como tudo foi conduzido ocorreu na cidade, no recinto da Câmara Municipal, na noite de ontem, lotando o local. Inicialmente proposto pelo vereador Roque Ferreira (PT), único presente entre todos os vereadores da cidade, o desagravo foi ampliado e ganhou conotação nacional, trazendo para a cidade muita gente interessada em discutir a questão. Dentre todos os presentes, os mais significativoas foram o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), uma das pessoas com maior esclarecimento sobre nossa questão agrária e Gilmar Mauro, o segundo homem na hierarquia do MST. Além dos próprios sem-terra de Iaras e outros assentamentos.

Marcado para às 18h, o evento lotou a casa em pouco tempo, mas só teve início por volta das 19h30, quando chegaram de incursões pela região as estrelas do evento. Roque comandou a mesa dos trabalhos e foi chamando ao microfone os convidados. Quem primeiro falou foi o deputado Raul Marcelo (PSOL) e foi logo na veia: "Prenderam quem defende a Constituição. A letra fria da lei serve a interesses, pois se existe uma lei maior que afirma a necessidade da reforma agrária, prenderam quem defende a lei. A mesma lei que deixa solto o Arruda, um Daniel Dantas, ilustres pedófilos, serve para libertar o corrupto e prender o defensor da Constituição. Foi uma prisão política, servindo aos interesses políticos do Serra e do agronegócio. Sem a reforma agrária não dá para fazer esse país".

O também deputado Simão Pedro (PT) seguiu na mesma linha: "O que ocorreu é uma ofensiva nacional dos setores que se opõem à reforma agrária. Levar a imprensa no local das prisões foi criar um espetáculo exagerado de partidarização do processo. Essa ofensiva visa intimidar os gestores públicos e criminalizar os movimentos sociais". Gilmar Mauro, um digno e preparado representante do MST, muito aguardado e querido por todos os militantes, esteve durante o dia visitando locais na região e permanece na quinta, quando estará com alguns dos setes presos. De sua fala, algo marcante: "Só continuamos vivos enquanto movimento por causa da solidariedade. Contestado, Canudos, Ligas Camponesas foram primeiro estigmatizadas e depois dizimadas. Se não resolver o problema, podem criar as medidas de contenção que quiser, não existirá como conter o descontentamento. Um dia a casa cai. Se eles quiserem acabar com o MST nós mesmos damos a fórmula, é simples, façam a reforma agrária. A Cutrale comprou essas terras ciente das irregularidades e a polícia usa o nome de Operação Laranja para sua ação. Deveriam ter vergonha, pois estão sendo laranjas de um sistema cruel. Estigmatizar e depois aniquilar o movimento, fazem isso não só com o MST, estão fazendo isso com a pobreza nesse país". No fim propõe a criação de um grande Tribunal Popular, onde ocorrerá o julgamento do roubo de terras e o latifúndio no país. Roque presidindo a mesa, acata de imediato a proposta.

A fala mais aguardada foi a de Plínio de Arruda Sampaio e ele não decepcionou: "Duas palavras. Essse país está muito errado, pois quem está fora está dentro e quem está dentro está fora. Roubaram a propriedade, conheço muito bem esse processo, fruto de negociata, esbúlio e tramóia cartorial. Esse imenso latifúndio do sr Cutrale precisa ser explicado. Quem são as pessoas que nada viram no passado, elas precisam vir à público. Me perguntaram o que achava de terem derrubado três mil pés de laranja. Eles tinham que ter derrubado trinta mil. Precisamos fazer demonstrações cada vez mais fortes. Terra é para ser ocupada. Sou favorável a uma CPI do MST, mas só se trouxerem nela o sr Cutrale e os juízes que seguram os processos. Não temos que ficar na defensiva. Os ofendidos somos nós, quadrilha é a Cutrale. Os trabalhadores foram presos porque defenderam uma causa justa. Um dia o povo vai virar isso tudo e botar quem tá fora para dentro e quem tá dentro para fora". Foi o mais aplaudido da noite.

Outros vieram, como os representantes das centrais sindicais, a CUT, Comlutas e Intersindical, seguindo na mesma linha. Duas outras pessoas emocionaram os presentes, na primeira dona Nair, esposa de um dos detidos, o trabalhador Anselmo, quando na sua simplicidade diz: "Foi uma gritaria desnecessária do delegado em minha casa. Foi um horror. Como é trabalhador eles chegaram em silêncio, como gatos e depois nos barbarizaram". Um personagem muito conhecido na questão agrária brasileira, o padre Severino, do assentamento de Promissão e da Pastoral da Terra foi o mais agressivo, fazendo questão de pronunciar sua fala em tom elevado: "Se tem ladrão nessa história, isso vem lá de longe na nossa história. Haverá o dia em que teremos justiça para todos. Vocês, juízes, delegados e policiais não vão tirar os nossos sonhos, pois até hoje ainda não construimos a nação que queremos. Praticar a justiça nesse país é algo para sofrimento. Passa Severino, vem Severino, nós vamos fazer a reforma agrária nesse país".

O microfone foi aberto para os presentes e no primeiro deles, algo significativo, quando ouviu-se uma crítica ao Governo Federal e nada sobre o Estadual: "Temos que ter consciência em saber o que está acontecendo de verdade e não blindar o governo Serra. É ele que temos que criticar, só ele". Foi uma cala-boca necessário, nas críticas seguidas de membros de uma esquerda sempre dividida. Num outro momento, outro alertou sobre isso: "Terminou agora uma eleição num sindicato daqui onde duas centrais se digladiram e as vejo aqui, unidas pela causa maior. É assim que deve ser". Sônia, representante da ABRAS - Associação Brasileira de defesa do Reforma Agrária leu um manifesto, onde todas as instituições presentes colocaram seus nomes e na sua fala algo preocupante: "Querem acusar o MST de ser marxista, como se isso fosse crime. Numa das casas dos detidos, um policial questiona a dona sobre uma estante de livros ditos vermelhos e lhe pergunta: 'Vocês são seguidores do barbudo', como se isso fosse proibido e algum mal. Voltou a ser perigoso ler Marx".

Umas doze pessoas fizeram uso da tribuna e em todos a mesma linha de ação e atuação, buscando uma forma de discutir as terras públicas federais e acelerar o processo de reforma agrária no país: "Precisamos denunciar o agronegócio como um retrocesso para o progresso no país. Ao encarcerar essas sete pessoas eles estão se achando vitoriosos, mas isso está servindo para unificar a todos nós. Estamos voltando a buscar coisas que nos unifiquem", disseram a seguir. Por volta das 22h o ato foi encerrado e muita conversa de bastidores teve início, além dos abraços pelos reencontros proporcionados pelo Ato Público. Gilmar Mauro foi fumar um cigarro do lado de fora e conversou com assentados de Iaras, deputados distribuiam panfletos de sua atuação, uma banca da Esquerda Marxista vendia publicações de esquerda, Plínio abraçava amigos antigos, como o professor Isaías Daibem e tudo terá solução de continuidade nos próximos dias. No carro de deputado Raul, um encontro entre ele, Gilmar e Plínio. Por fim, uma união mais do que necessária, pois o que mais se ouvia é sobre a revitalização da luta pelas causas sociais brasileiras. Mais um passo nesse sentido foi dado ontem em Bauru. E continuará sendo dado nos próximos dias.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

MEMÓRIA ORAL (79)

POSSO CUIDAR DO SEU CARRO?
Quem circula pelas imediações do Pronto Socorro Municipal, Instituto Adolpho Lutz, Postão de Saúde Estadual e AME – Ambulatório Médico de Especialidades, recentemente inaugurado, todos em Bauru, conhecem uma pessoa muito popular por aquelas imediações. Diariamente, de segunda a sábado, das 5h30 às 19h30, Jorge Adilson Valeriano de Barros, 48 anos, está devidamente identificado com seu jaleco azul, exercendo por ali a função de guardador de carros. Incansável no vai-e-vem, subindo e descendo a rua Rubens Arruda e suas transversais, a Antonio Zuiani até a Silvério São João, sempre com uma prancheta nas mãos e uma abordagem clássica, a tradicional, “Posso cuidar do seu carro”, Adilson faz do ofício sua única fonte de renda, a que lhe resgatou de momentos aflitivos sem emprego, e conseqüentemente, sem nenhum rendimento.

Na verdade, seu verdadeiro ofício é o de vendedor. Viajou por esse estado todo, fazendo de tudo um pouco. Nos áureos tempos foi vendedor de fitas-cassetes gravadas, que ia vendendo de cidade em cidade, cada dia numa diferente. Ganhou bastante e isso perdurou por quase dezessete anos. Depois vieram os CDs, já de curta duração, os gêneros alimentícios e produtos plásticos. Com a necessidade sempre batendo à sua porta, chegou um momento em que não podia mais escolher produto. “O que viesse eu tinha que pegar e sair vendendo. Mas tive um grande azar em minha vida. Sofri um acidente besta. Me acidentei num prédio, cai de uma escada e foram quatro parafusos no joelho, uma placa na perna direita e quase seis anos afastado pelo INSS. Batalhei muito, mas não consegui me aposentar e um dia tive a tal Alta Programada, que me obrigava a voltar a trabalhar. Mas trabalhar no que, se nem emprego tinha”, faz um breve relato de sua vida.

Foram os anos mais difíceis de sua vida. Não sabia o que fazer para obter alguma renda e foi ser ajudante de feira, arrastando a perna. Ganhava muito pouco, mas nunca perdeu a dignidade. Até que um dia descobriu que podia trabalhar com o pessoal ao lado do Pronto Socorro Central. Primeiro sondou o pessoal que já estava no local e soube conquistar uma grande amizade com os donos de pequenos comércios na região, surgindo depois uma vaga de guardador de carros. Não perdeu a oportunidade e desde então, lá se vão três anos e meio cuidando dos carros de todos que estacionam por ali.

Nossa conversa é interrompida constantemente com a chegada de novos carros e a saída de outros. E lá vai Adílson conversar com cada um deles. “Esse último me perguntou quanto eu cobro. Disse a ele que o valor a ser dado é o que manda seu coração. Não posso estipular nada e cada um dá o que pode”, me diz. Nisso passa um médico e ele vai até ele, como faz com todos. Paramos do outro lado da rua e conversamos com Fabiana Souza, que divide uma barraca de lanches com sua sócia, uma no período da manhã e ela à tarde. “Almoço com um marmitex cedido pelo restaurante onde distribuo panfletos e o jantar são dois salgados e um refrigerante que a Fabiana me dá quando a ajudo a limpar defronte sua barraca, antes de irmos embora”, fala diante dela. Além de guardar os carros, para dar uma pequena melhora nos rendimentos distribui cartões de um restaurante nas imediações e de um moto táxi. Quando aparece faz pequenas entregas na região, sempre a pé.

Pergunto sobre sua renda mensal e ele me diz que não passa de uns quatrocentos reais, tendo que pagar uma diária na pensão onde mora, na quadra três da Avenida Rodrigues Alves. “Saio tão cedo de lá, que nem café da manhã tomo. Venho tomar aqui, na barraca da minha amiga. Ajudo ela a abrir e a receber as mercadorias, depois tomamos um café com pão juntos”, conta. Percebo sua tristeza ao relatar seu relacionamento com alguns familiares: “Minha família mesmo são essas pessoas aqui. Muitos me abandonaram, mas continuo fazendo a minha parte. Visito meus três filhos todo domingo e até levo algum dinheirinho para eles, mesmo todos eles sendo maiores de idade. Não posso perder esse contato”. Com a prancheta na mão vai anotando os dados dos carros estacionados, enquanto não para de contar detalhes de sua vida.

Vestindo um jaleco azul sob a roupa, ganho do restaurante fica fácil identificá-lo. Diz que além dos dois, está para ganhar novos com os dados das firmas impressos na frente e nas costas. Vê-lo em atividade é algo a comover, pois não tem descanso, tal a intensidade de pessoas chegando ou saindo, um que vem só para conversar, outro deixa algo em sua confiança para ser entregue a um conhecido e a ajuda que não se cansa de prestar para os outros ali estabelecidos. Mal o movimento de carros diminui, pega na vassoura e dá uma limpada na calçada ou vai levar algo que lhe pediram fosse entregue ali perto. Adílson se desdobra o dia todo e se lhe perguntarem se está triste ou descontente, não pensa duas vezes: “Dou graças por ter encontrado isso aqui para me virar. Imagina na minha idade, parado e sem o que fazer. Onde iria arrumar emprego? Nem gosto de pensar nisso”.

Percebo um único motivo de preocupação, quando lhe falo se continua pagando as contribuições com o INSS: “Não vou mentir, parei, não tenho como pagar. Não me sobra para isso, mas penso muito em voltar. Preciso é pensar como poderei fazer. Sei que é o meu futuro que está em jogo, pois ninguém é eterno. Isso é outra coisa que também não gosto nem de pensar. Hoje estou muito melhor do que algumas situações do passado. Já vivi momentos de grande sofrimento e hoje com o pouco que me entra toco a vida”. Essa é a rotina do batalhador Adílson, que não tem mesmo muito tempo para pensar nessas coisas, pois corre bastante, com seu dia passando de uma forma muito rápida e ao chegar em casa, resta-lhe tempo só para um bom banho e cama. E tudo já recomeça no dia seguinte, mal começa a clarear.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

FRASES DE UM LIVRO LIDO (33) e CARTAS (43)
Juntei as frases do livro lido com uma carta que enviei para a autora, ainda em janeiro e ainda sem resposta.

O LIVRO COM A VIDA DA GABRIELA, A DASPU E MINHA CARTA
Cara Gabriela Silva Leite – DASPU - att. jornalista Flávio Lenz
Terminei de ler teu livro, o “Filha, mãe, avó e puta – A história de um mulher que resolveu ser prostituta” (edit. Objetiva RJ, 1ª edição, 2008, 194 pgs), emprestado pela amiga em comum, a professora Ana Bia Andrade (que assumirá cátedra aqui em Bauru, na UNESP) e resolvi te escrever, uma conversa entre um leitor e a portadora de uma história conhecida e tão comentada. Acompanho o teu trabalho de organização das prostitutas brasileiras já faz um tempo e sempre tive muita curiosidade em ler teu livro, conhecer um pouco mais de todo esse envolvimento teu. Quase comprei o livro num sebo aqui de Bauru e a oportunidade se fez presente agora. E gostei.
Depois, além dos outros trabalhos todos veio a Daspu, que só pela sacada do nome já me conquistou de cara, numa alusão clara a Daslu, tipo a que a extinta revista Bundas teve ao se lançar no mercado, fazendo frente à gigante Caras. O motivo da escrevinhação é te consultar sobre as possibilidades de tua vinda até Bauru para uma palestra, ou um bate-papo, junto com algo da Daspu, um desfile talvez, aliado à venda de produtos da griffe. Bauru, você deve saber, possui uma relação muito forte com o mundo da prostituição, pois existiu aqui em Bauru um verdadeiro templo à essa prática, a famosa Casa da Eni (Eni’s Bar), localizado num sítio fora da cidade e que nos anos 50 até quase pouco mais dos 70 atraíram a atenção do país todo, tendo passado por lá desde políticos a personalidades variadas. Não existia quem não se hospedasse por aqui e não passasse por lá. Vinicius de Moraes foi habituê. A Eni Cesarino exercia a profissão do outro lado do balcão, era a cafetina e ti a que pegava o touro a unha, mas hoje, ao ler ambas as histórias, muita semelhança, apesar das posições diferentes.
Por aqui, o prédio onde foi a famosa Casa da Eni permanece em pé, todo judiado, somente com a área das piscinas revitalizado e sendo utilizado para locação de festas variadas. Discutiram anos atrás o tombamento daquela edificação e isso gerou uma polêmica danada na cidade, com os prós e contras. Por fim, a edificação não foi tombada, mas será mantida a área das piscinas. O jornalista e escritor Lucius de Mello escreveu um belo livro sobre a dona Eni e fala-se muito que já teria até vendido os direitos para uma mini-série de TV. O fato é que Bauru respirou esse tema por muitos anos e hoje, como em todo lugar, muitos querem sepultá-lo para sempre. Existem outros, como eu, que presidi o órgão de tombamento por quatro anos, loucos para prolongar essa discussão para outros patamares. Daí ao ler seu livro, tudo me volta à mente e algo com a sua presença, a da Daspu e um toque sobre a Casa da Eni seria algo a mexer com os brios dessa comunidade de quase 400 mil habitantes.
A carta inicial é para que pense no assunto e estudemos juntos uma melhor forma de te trazer para cá. Do seu livro, se me permite, recolhi algumas frases (como faço em todos que leio), relacionadas abaixo:
- “Dizia que homem que é homem não tem frescuras de chupar e meter dedo em boceta. Homem tem que funcionar com o pau duro e pronto”, pg. 39.
- “Não preparei nada para o parto nem para o nascimento. Não comprei sequer uma fralda, com medo de minha mãe ver e descobrir. É impressionante a solidão que pode existir entre pessoas que vivem sob o mesmo teto”, pg 41.
- “Enfrentei o inimigo pela primeira vez na vida e descobri que é insuportável guardar dentro do coração a ira e a indignação frente à hipocrisia e à maldade. Foi ali que descobri o quanto é maravilhoso falar”, pg 43.
- “Incrível a São Paulo do final dos anos 60! Talvez a melhor época da boemia paulistana. Diante do que acontecia ali, a São Paulo de hoje é um saco”, pg 55.
- “Depois tive outros clientes com deficiência física. (...) Nem todas percebem que esse é um
privilégio da nossa profissão, que é uma das suas partes mais nobres, esse aprendizado da solidariedade, da quebra de preconceitos tão enraizados na sociedade, que cultuo o belo e exclui a diferença”, pg 71.
- “Atravessando a Avenida Brasil, pela primeira das muitas vezes que o faria, inúmeros sentimentos me invadiam. O Rio era lindo e, por acreditar nisso, não fazia nenhum sentido aquela avenida absurda e desconcertante. Miserável e tosca porta de entrada inadequada a um paraíso”, pg 97.
- “S. me disse que seu irmão tinha gostado muito de mim, mas não queria saber de se envolver com uma mulher que morava tão longe e que gostava de ser prostituta. Os homens são assim, são feitos de contradições! Tão frágeis em suas convicções e por isso mesmo tão maravilhosos e charmosos”, pg 100.
- “Minha primeira impressão sobre a Vila Mimosa foi de festa, de alegria e de cidade do interior.
Engraçado uma cidade como o Rio de Janeiro conseguir manter até a bem pouco tempo uma zona antiga. Ela poderia tranqüilamente ter sido tombada pelo patrimônio histórico”, pg 106.
- “Não aceito a visão moralista de que uma mulher séria é aquela que tem um único homem e passa a vida recatadamente cuidando dos filhos”, pg 123.
- “Voltei a trabalhar, agora tendo que explicar aos novos clientes o que era aquela imensa cicatriz. Eles sempre achavam que era resultado de uma facada. Sim, porque puta, além de doença venérea, não tem outras doenças, somente seqüelas de brigas. Assim pensam as pessoas, é esse o estigma”, pg 132.
- “...desde então comecei a responder às mesmas perguntas que me fazem há vinte anos. Por que você entrou nessa vida? Você foi abandonada pela família? Você entrou na profissão por necessidade? E,a melhor de todas, a pegadinha: O que você acharia se sua filha fosse puta? Essa sempre acontece. Há pouco tempo, dei uma palestra numa faculdade e essa pergunta ainda não havia sido feita. No finalzinho, já me despedindo da platéia, me aparece uma moça bem jovem, tímida, lá atrás. Ela levantou o dedinho e mandou a pérola. Me dá
arrepios a caretice dos jovens de hoje”, pg 134.
- “O deus inacessível, que julga e condena, não faz o menor sentido para mim. Deus é a natureza e os ancestrais. Acredito nas pessoas, nas coisas que se revelam na convivência”, pg. 141.
- “Eu penso que se você considera uma pessoa vítima é porque já estabeleceu uma relação de dominação com ela. Nesse particular, prefiro os conservadores. Eles são mais claros, menos ambíguos”, pg 143.
- “Uma prostituta não deve ter o direito de casar com um intelectual da classe média. A não ser que ela seja a personagem interpretada pela Julia Roberts. Uma prostituta não deve ter um homem disputado por mulheres bem formadas e inteligentes. A não ser que ela seja a Julia Roberts”, pg 171.
- “Na maior parte de minha vida me senti sexualmente livre. É péssimo ir para a cama com um homem sem estar com vontade de gozar. Por outro lado, nunca dormi com cliente. Considero um sacrifício. Mas fui cúmplice de cada um deles”, pg 188.
- “O mundo não é feito de vítimas. Todo mundo negocia. Alguns negociam bem, outros mal. Mas c
ada um sabe, o mínimo que seja, quanto vale aquilo que quer. E sabe até onde vai para conseguir o que quer. Com a prostituta não é diferente”, pg 190.
- “A amante quer ser esposa. A puta jamais vai aconselhar um homem a deixar a esposa e a família. Ela vai conversar com ele sobre tudo o que o sujeito não conversa com ninguém, e eu já vi muitas putas salvar famílias”, pg 191.
Ufa! É isso, li, gostei e tudo o que queria te dizer está tudo aí. Por fim, uma coisa a me atormentar, ainda sobre a leitura: gosto muito do Leonardo Boff e fiquei meio atônico ao ler os percalços que teve com ele e o órgão que representava. Ainda não acredito que Boff tenha feito em sã consciência aquele tipo de discriminação, já da instituição religiosa não tenho a menor dúvida, pois fazem coisas imensamente piores. Já o Boff!!!
Um grande abracito bauruense e desejos de que leia intensamente meu relato e iniciemos as tratativas para viabilizar a sua vinda num curto espaço de tempo.
Em tempo: Abracitos grandiosos para seu companheiro, o jornalista Flávio Lenz, que lia no JB e agora fico sabendo é irmão de uma de nossas maiores poetisas, Ana Cristina César.
HPA - janeiro 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

UMA FRASE (47)

QUADROS E MAIS QUADROS
Ouço numa canção, a "Longe de você", do Charles Brown Jr tocando insistentemente nas FMs da vida, a frase "Molduras boas não salvam quadros ruins". Ela me propiciaria uma divagação enorme, mas prefiro ficar somente com uma, que me basta, a de que Se o quadro é bom não importa a moldura. Ela cai como uma luva para uma das situações desse texto. Relato aqui duas bem distintas, onde a venda de quadros está em evidência. Presenciei ambas nesse final de semana e as relato aqui.

Na primeira, seu Hélio, o dono de um bar na rua Antonio Alves nº 5-8, logo após a passagem da linha férrea, quando ia para a Feira do Rolo neste domingo me pára para uma conversa e tocamos num assunto que está exposto na parede do seu estabelecimento. Dois quadros do Baccan, um dos nossos artistas plásticos famosos, já falecido, especialista em pinturas de paisagens, principalmente rurais. Já conhecia a história dos dois quadros lá expostos. Baccan morou ali por perto durante muito tempo e numa época brava em sua vida, com pouca grana. Fazia gastos contínuos no bar e a forma que encontrou para pagar o que devia foi deixando dois quadros em troca da dívida. Seu Hélio aceitou e desde então tudo está exposto ali na parede. Já faz um tempo que ele tenta vendê-los, talvez para algum colecionador ou gente que conheça a obra do artista. "Queria que esses quadros estivessem num lugar onde pudessem ser mais valorizados. Vendo baratinho, aceito propostas. Divulgue isso para mim", diz seu Hélio. Faço isso nesse momento passando o telefone do dono do bar - 9703.7082. Interessados, por favor...

Na segunda, meu grande amigo Percy Coppieters, um artista plástico mais do que vivo e querendo dar uma reviravolta em sua vida, uma daquelas guinadas necessárias de vez em quando (ou seria, de vem em sempre?), fazendo uma grande promoção de venda de muitos dos suas obras. Suas telas estão expostas por toda sua casa, também ateliê. Lindo circular por lá e ir esbarrando em telas de toda espécie, retratando os vários momentos do artista. Sua técnica não é única, mas possui uma marca característica, bem própria, a de misturar texturas e cores. As molduras no seu caso são fabricação própria, idéia dele mesmo para cada obra, pois ali no fundo de sua casa, possui um bem montado espaço, uma Molduraria das mais conhecidas em Bauru. Perder uma dessas raras oportunidades de ter uma tela de qualidade e assinada pelo Percy é uma dessas raridades que perdemos só quando não estamos mesmo em condições, do contrário, o momento é esse e somente esse (na foto da esquerda, uma que já está aqui no mafuá desde hoje). Percy pode ser contatado pelo seu fone 14. 3202.6235 ou pelo e-mail: pcoppieters@gmail.com.
Problemas de forno: Com o vendaval dominical meu Speedy, da Telefônica pifou e não voltou a funcionar até agora (quase 48h). Desplugado e nas lans-house da vida, minha conecção é pífia. E para ser sincero, não me faz muita falta, mais a profissional, da qual nos tornamos dependentes absolutos e quase resolutos. Qual seria o antídoto para voltarmos a viver tranquilamente sem essa necessidade de estarmos constantemente conectados? Precisamos todos reaprender a caminhar...