segunda-feira, 14 de maio de 2012

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (13)
DOIS REITORES, UM SECRETÁRIO DE GOVERNO E UMA SEMANA A REVERENCIAR OS MUSEUS
Sou de um tempo em que mal saídos do Regime Militar, nos colocávamos nas ruas, sempre de prontidão para manifestações variadas e múltiplas a cada visita de um reitor dessas imensas universidades brasileiras. Tudo era recheado de problemas no percurso desses ilustres visitantes quando aqui no quadrilátero baurense. Tínhamos mil motivos para protestar, entregar documentos, barrar-lhes o caminho, criar problemas no trajeto e expor que nada por aqui andava a contento. O tempo passou, os problemas continuam aflitivos como dantes, mas arrefeceu o ímpeto dos movimentos contestatórios.
Semana passada quem passou por Bauru foi o reitor em exercício da USP – Universidade de São Paulo, o truculento João Grandino Rodas, que numa manchete de uma de nossas semanais foi denominado de “O Bárbaro”, pelo seu estilo de governar. O que poderíamos achar de um sujeito que contrata arapongas para bisbilhotar a vida de professores, funcionários e estudantes, seguindo uma política de criminalização de suas entidades? São 80 alunos expulsos da USP em dois anos de administração, quando durante todo período militar foram 245. Nunca a USP foi tão militarizada como nesse momento e isso ocorre com pretexto de segurança, que na verdade é ideológico. O viés autoritário está explícito, com ligação dele com a Opus Dei e TFP. Esse o homem de confiança do governador Alckmin dentro da maior universidade paulista. “A gestão dele é catastrófica no aspecto democrático e sem eficiência no aspecto gerencial”, disse dias atrás o professor Sérgio Salomão Schecaira, da Faculdade de Direito da USP. Esse homem passou por Bauru semana passada e recebeu somente homenagens. Foi paparicado,
tapete vermelho por onde pisou. Souberam de alguma manifestação de estudantes, professores e servidores? Nada. Que nome posso dar a isso? E a imprensa bauruense, alguém aí soube de alguma pergunta feita a ele sobre algumas dessas questões levantadas aqui por mim? Nada.
Hoje, 14/05, segunda, quem passa por Bauru é o atual Secretário de Educação do Estado de São Paulo e licenciado no cargo de reitor da UNESP – Universidade do Estado de São Paulo, o professor Herman Voorwald. Vem para um encontro com políticos e educadores de 75 cidades da região. Até o candidato a vice na chapa da oposição à prefeitura, Gilson Rodrigues PSDB estará circulando com ele por alguns lugares. A Apeoesp estará entregando-lhe documentos com pauta de reivindicações e nenhum panelaço ou apitaço está previsto, muito menos faixas e cartazes com presença maciça de alunos, professores e servidores, tanto dos ligados ao ensino público médio como do universitário. Nada. Alguém lhe fará perguntas desairosas? Não. Tenho uma lembrança do Duílio Duka, dirigindo a regional da Apeoesp Bauru, anos do governo Covas e uma barulheira infernal nos costados do então Secretário de Educação, o escritor Fernando Morais. Éramos todos vibrantes, entusiasmados, não tínhamos medo de ir à luta, de enfrentar o touro a unha e nos ralávamos até não poder mais. Amanhã, escrevam o que vou dizer, na imprensa só algo sobre o tapete vermelho que a cidade estendeu para Herman. Nada mais. E não é para ter saudade de tempos idos? Morro dessa saudade.
Amenidades. Começa hoje a 14º Semana Municipal dos Museus de Bauru e 10° Semana Nacional dos Museus. A abertura será às 20h na Casa Ponce Paz (esquina da Ezequiel com Antonio Alves), com exposição a homenagear ilustres pintores e artistas plásticos locais. A programação pode ser vista no site da Prefeitura Municipal. Visitei recentemente o Museu Ferroviário e o vejo de cara nova, remodelação em vários espaços e a valorização não do ajuntamento, mas de poucas peças a propiciar reflexões nos visitantes. Gostei. Já do Histórico Municipal e o da Imagem e do Som, ainda perdura a falta de empenho da administração municipal em agilizar a utilização de verba já existente no restauro da Estação da Cia Paulista, que irá abrigar a ambos. É para quando mesmo? E o acervo do Nuphis da USC, amplamente discutido por esse blog, cujas peças começam a ser transferidas para a Cultura Municipal, com um espaço sendo preparado onde antes era a parte administrativa do MIS. Hoje, na abertura da semana, a possibilidade dos presentes observarem in loco outro local, talvez até mais propício para recepcionar todo esse acervo: A Casa Ponce Paz. Sou mais aqui do ali. Incentivo a troca.

domingo, 13 de maio de 2012

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (37)

CRISTINA É TUDO DE BOM E ERNANI É O BAURUENSE “BIRA” QUASE EM CARNE E OSSO
Uma peça de teatro é uma peça de teatro, mas em alguns momentos é muito além disso. Fui assistir o “Abalou Bangu 2 – A Festa”, com interpretações divinais do quarteto Cristina Pereira, Ernani Moraes, Renato Rabello e Luciano Borges. Um quarteto que faria corar muitos desses que se intitulam os reis atuais do Stand Up, quando no cara a cara com o espelho em seus reclusos aposentos. Quando vi a turma lá no palco hablando das venturas de morar em Bangu e depois em Copacabana, um local o inverso do outro, me veio a mente o que escrevo aqui nos últimos dias sobre morar e viver no degrau de CIMA e no degrau de BAIXO. Bangu muito bem poderia ser a nossa Nova Esperança, Gasparini, Rasi, Progresso e tantos outros periféricos bairros bauruenses. Lindo o momento da crítica aos paulistas pela utilização desenfreada de termos em inglês para designar suas atividades: “Isso é coisa de paulista” (causou frisson na plateia). No final do espetáculo fomos jantar, eu e Ana e reencontramos Cristina Pereira. Uma atriz ao velho estilo, tipo aroeira, dessas que não se vergam e mantém algo mais do que próprio, doa a quem doer. Tem o maior orgulho de ser o que é, aliás sempre diferenciada e ousada, sua marca. O melhor que consegui da noite de sábado foi o forte abraço dado nela, de retribuição por existirem atrizes a dignificar o que fazem. Ela pegou um jornal em cena e improvisou diante das atuais notícias, num “caco” inigualável. Ana ficou relembrando dos tempos aonde ambas atuaram juntas na Casa da Gávea, reduto dela, do Paulo Betti, Rafael Ponzi, Vera Fajardo e outros do mundo teatral. Cristina confessa que das apresentações em Piracicaba, Botucatu e Bauru, a daqui foi a com maior público. E olha que isso, mesmo com um notado número baixo de ingressos vendidos (maioria de convites). A atriz quer voltar aqui com a peça do Betti, "A Tartaruga de Darwin" e foi muito gentil no prolongado papo no restaurante. Quem se habilitaria? Seria bom conhecermos melhor esses produtores da "Ferreira Eventos Culturais", sempre arrojados e corajosos a investir em cultura pelo interior paulista.

Mas quem eu ontem também queria ter batido um papo era o Ernani, o grandalhão, mestre nesse ofício de fazer humor de verdade, no ponto. Ele protagonizou aqui em Bauru anos atrás algo singular quando a peça “Pérola”, obra prima de Mauro Rasi ficou em cartaz na cidade alguns dias. Ele, grandalhão,
desengonçado, brutamontes (“quando quer, ninguém faz um ogro como ele”, confessa o colega de palco Renato), interpretou magistralmente o cunhado do Mauro, o indefectível Ubirajara, o Bira, que exatamente por aqueles tempos travava um diálogo áspero com os membros do CODEPAC, por causa do tombamento da casa do Mauro Rasi, localizada ali na quadra 13 da rua Bandeirantes (bem atrás do Colégio São José). Ele era contrário ao tombamento, por achar que o melhor era vender logo o imóvel. Mauro sempre ironizou o Bira em suas crônicas n’O Globo (evangélico, turrão...) e o personagem aqui de Bauru não deveria morrer de amores pelo que lia. Mauro morreu e sua irmã, juntamente com Bira passaram a administrar todo o seu patrimônio. Essa é outra história. O que quero descrever aqui é como no teatro, em algumas circunstâncias o personagem é um retrato mais do que fiel do vivido na vida real. Vi Ernani em cena ontem e ali o Bira em pessoa, mesmo só o
conhecendo de vista e pelos seus atos. Ontem ao ver Ernani dar com uma garrafa na mesa, ao estilo durão, querendo resolver tudo na base do vozeirão em tom elevado, era o próprio Bira, sem tirar nem por. Quero resgatar aqui no blog as cartas trocadas entre o então esposo da herdeira e os membros do CODEPAC pela imprensa, numa polêmica ainda não encerrada, pois a casa continua fechada desde aquele momento. Não estou com tempo de procurá-las na desordem desse meu mafuento espaço. Seria ótimo serem postadas aqui, mas... Ernani foi-se ontem tão logo o espetáculo acabou para reencontrar justamente os parentes do Mauro Rasi e não pude falar-lhe das semelhanças e do que vivenciamos aqui em Bauru, não com o personagem, mas com o da vida real, de carne e osso. Aqui, por enquanto, só algo dessaa imensa semelhança.

sábado, 12 de maio de 2012

MÚSICA (86)

AQUI EM BAURU EU VOU MESMO É DE “MADUREIRA”**não o político, viu! O Paulão Madureira não tem nada a ver com nada disso
A Luzia, que deve ser a Quinezi, minha amiga professora (áureos tempos da Apeoesp com ela e Duka), pois não conheço outra, deixou um recado aqui como comentário num post e me fez lembrar de uma música do Zeca Baleiro, a “Vai de Madureira”, do CD “O Coração do Homem-Bomba – Volume 1”, que toco sempre aqui pelos lados do mafuá. Sintam a letra: “Se não tem água Perrier eu não vou me aperrear/ Se tiver o que comer não precisa caviar/ Se faltar molho rose no dendê vou me acabar/ Se não tem Moet Chandon, cachaça vai apanhar/ Esquece Ilhas Caiman deposita em Paquetá/ Se não posso um Cordon Bleu, cabidela e vatapá/ Quem não tem Las Vegas, vai no bingo de Irajá/ Quem não tem Beverly Hills, mora no BNH/ Quem não pode, quem não pode Nova York vai de Madureira/ Se não tem Empório Armani/ Não importa vou na Creuza costureira do oitavo andar/ Se não rola aquele almoço no Fasano/ Vou na vila, vou comer a feijoada da Zilá/ Só ponho Reebok no meu samba/ Quando a sola do meu Bamba chegar ao fim". Eu não escondo meu gosto pela lado de "BAIXO" das cidades, onde mora e reside uma parcela do povo que rela e labuta desde o acordar, até o momento de pregar os olhos num arretado e reparador sono.

 Eu quero continuar falando e vivendo muito em “Madureira”. Vamos engatar conversas, uma ligada nas outras e ver no que dá. Na última terça, 08/05, fui conferir no Teatro Municipal o espetáculo de Madê Correa, La Vita Passa e tirei uma bela foto de duas grandes damas do teatro bauruense, uma prestigiando a outra, Madê recebendo Regina Ramos. O espetáculo da Madê terminou e estávamos todos convidados para assistir ao de Regina, no sábado, 12/05, “Pecado Sagrado”. Eu que sempre amei de paixão a atriz Cristina Pereira não poderia perder a oportunidade de vê-la em Bauru com “Abalou Bangu 2 – A Festa”, um humor bem periférico, onde contracena com Hernani Moraes (que um dia fez o marrento Bira, genro do Mauro Rasi na peça Pérola). Vou lá e deixo para ver Regina em Lençóis Paulista no próximo 2/6. Mas lá no teatro, exatamente no bar reencontro o amigo Sivaldo e tomamos umas juntos. Papos no lugar, aproveito para tirar umas fotos de sua mochila, cheias de sapatilhas, exemplificando bem o amor do mestre de dança Sivaldo El movimiento estudiantil chileno fue una de las cosas más importantes que pasaron en el mundo en el 2011. La educación no es privatizable, no puede tener tarifa, no puede tener precio”, afirmó Fito Páez a su paso por Chile”. Tudo isso aquí é muito “Madureira", a minha cara.
Camargo pela sua profissão e pelas atividades desempenhadas com a formação do Corpo de Dança de Bauru. Eu e Paulo neves divagamos sobre as qualidades desse amigo em comum. Quase ao
nosso lado um jovem de uma cidade vizinha de Ourinhos (que me
esqueci o nome) estava sentado no chão e escrevendo uns poemas. Veio se apresentar sua obra. É o Dionatas, que viaja quando pode a
espalhar poesias por onde passa. Deixa uma conosco e digo que a publicarei na internet. Na quinta, 10/05, continuo pelos lados de “baixo” da cidade e no Espetu’s Bar curto o Alemão, que um dia já tocou no Kananga e hoje toca por onde o deixam, tudo pelo prazer de dedilhar um violão. Recebe aplausos como forma de pagamento. Traz amigos por onde ande e faz todos dançarem, como Kin Jr, que anda muito nervoso com o II Festival de Bonecos, prestes a começar e só deixou de franzir a testa quando dançou com a Cleusa, esposa do Alemão. Marisa Basso, a bonequeira e esposa do Kyn, também entrou na dança. Ela, mestre nesse ofício de manipular bonecos embarcou para Campos RJ, levando Kyn, o produtor e Ezequiel Rosa, que com ela dividirá o palco no teatro e nas travessuras todas lá pelas
bandas do Grajaú. Gosto dos artistas com preocupação comprovadamente social, não só da boca para fora e hoje leio no Página 12 algo de um de melhor cepa da atualidade, coisas
encantadoras a me mover: “El movimiento estudiantil chileno fue una de las cosas más importantes que pasaron en el mundo en el 2011. La educación no es privatizable, no puede tener tarifa, no puede tener precio”, afirmó Fito Páez a su paso por Chile”. Tudo isso aquí é muito “Madureira”…
Querem ver e ouvir Zeca Baleiro cantando Madureira, cliquem a seguir no: http://www.youtube.com/watch?v=k2g_JUZJbD8

sexta-feira, 11 de maio de 2012

CARTA (85)
CHÁVEZ, BUENOS AIRES E UM DIÁRIO
Moro em Bauru, interiorana cidade no estado de São Paulo, Brasil. Admirador do modo como o argentino toca sua vida, intensamente indo mais para as ruas que os brasileiros e em alguns momentos, porque não dizer, tensamente. Sou um ser social, inserido nas transformações que a América Latina tem produzido. Um raro momento, deixando de ser quintal e coadjuvante dos impérios, transformando-se em atores principais. Isso incomoda. Principalmente uma retrógrada elite, aqui, aí e por todos os lugares.
Inquieto, em 09 de março de 2007, eu e um dileto amigo, Marcos Paulo Resende, saímos de Bauru e nos dirigimos até Buenos Aires, tudo para presenciar algo histórico, um comício do presidente venezuelano Hugo Chávez. O ato era um contraponto a algo similar, comício do então presidente dos EUA, George Bush em Montevidéu. Fomos dos primeiros a chegar ao estádio Ferrocarril, nas proximidades dos trilhos férreos. Tudo ali foi vivido intensamente, algo inesquecível em nossas vidas. Ver Chávez, Hebe de Bonafini, cantores populares e a juventude peronista chegando em bloco, lotando o estádio foi marcante. No retorno um texto meu relatando o ocorrido foi publicado na revista semanal brasileira Carta Capital, edição de 21/03/2007.
Algo mais marcou minha vida daí para frente e de forma definitiva. Tinha ouvido falar num diário a relatar a verdade factual dos fatos, um tal de Página 12 e ao comprá-lo tão logo pisei no país, ainda no aeroporto, a empatia foi imediata. Quatro dias na cidade e em todos, a edição correspondente do jornal, guardadas até hoje. No retorno começo a ler diariamente a versão pela internet. Acabo me cadastrando e desde então, março de 2007, recebo diariamente em meu e-mail (hpachancelas@gmail.com) o Página 12 via internet. Chega pontualmente às 6h da manhã e é uma das primeiras leituras tão logo ligo o computador. Não deixo um só dia de ver e espiar as manchetes. Coleciono as tiras do REP, guardo ilustrações, acompanho a vida política do país e torço pelo sucesso da Argentina, assim como de toda a América Latina.
Não existe ninguém de Bauru, que soubesse e tendo passado por Buenos Aires, não lhe tenha dado como missão trazer para mim edições do jornal. Voltei à cidade ano passado, em julho, fazendo questão de visitar a sede do jornal e depois o Kiosko, onde comprei e ganhei, desde jornais, edições especiais, agendas, cartazes, livros e CDs. Registrei todos esses momentos no meu blog pessoal, o Mafuá do HPA (www.mafuadohpa.blogspot.com).
Agora a confissão final dos motivos de continuar lendo diariamente o jornal. Somente um. Textos comprometidos com a verdade dos fatos e o não envolvimento com a dita grande mídia, de famílias ligadas ao poder e a oligarquias a infelicitar nossos povos. Virou vício, sadio, por sinal. É o tipo de leitura que me instiga, provoca e satisfaz. Essa minha história com esse vibrante diário. Ela continua.
Henrique Perazzi de Aquino, brasileiro, 51 anos, jornalista, pequeno comerciante e professor de História*
* Envio esse texto para a edição dos 25 anos do Página 12, onde o que vale é possuir uma história de envolvimento com o jornal, um dos mais lúcidos da América Latina. Eu tenho uma e faço questão de contá-la, pois tem a minha e a cara do amigo que comigo lá esteve, o Marcos Paulo. Essa é a imprensa que respeito, leio, divulgo e trago para dentro de minha casa.

quinta-feira, 10 de maio de 2012


CENA BAURUENSE (97)
DOMINGO NA FEIRA DO ROLO E ADJACÊNCIAS – TURMA DE BAIXO
Bauru tem um time de colunistas especializados em relatar os acontecimentos do lado de cima da cidade, ou seja, o lado onde ela é mais bela, o asfalto é constantemente retocado, a limpeza não falha, o comércio é vistoso e as residências imponentes. Ali circula a grana e junto dele os que gostam de gravitar sempre nesse meio ululante. Não posso deixar de dizer que vou até alguns lugares por ali, sem remorso e ressentimento, mas confesso residir minha preferência num outro canto. Se lá e o lado de cima, prefiro os acontecimentos, os lugares e as pessoas do lado de cá, o debaixo. É sobre um desses recantos que produzo meu relato.
Domingo passado, 05/05, após permanecer três semanas sem bater cartão na Feira do Rolo, estava trêmulo, cheio de tiques e necessitado de recarregar energias perdidas. Fui só e o lugar escolhido, como sempre foi a Banca do Carioca, encravada no centro do lugar, bem defronte à Associação dos Aposentados. Não me canso de falar dali, dessa imensa pessoa que é o Carioca, o “comandante in chefe” do pedaço. Na chegada, Carioca não pode me ver, eu diz que irá buscar uma cervejinha. Dou minha contribuição e um emissário vai até o bar para abastecer os clientes numa ensolarada manhã dominical. Em que outro lugar alguém aí que me lê já teve o prazer de comer farofa, com miúdos de frango, num copo e sem colher. Imaginem a cena. Copo cheio de farofa e você virando-a goela abaixo como se fosse uma caipirinha.

Nessa semana tinha até um casal de alemão comprando LPs brasileiros, os velhos bolachões, ali revendidos a módicos preços, R$ 1,50 a unidade. Não saio sem comprar alguma coisa. Levo três LPs e um livro, o “Henfil na China”, edição do Círculo do Livro, pela bagatela de R$ 5 reais. O papo que flui ali te faz esquecer da vida, das agruras e de tudo o mais. O celular toca e me lembram que tinha que comprar verdura (deixei para o fim e ela acabou) e ir para casa almoçar. Íamos todos almoçar no Aldeia, comer bem e ouvir boa música. Caminhando para casa, reencontro na Julio Prestes, o Quico, primo do ex-jogador Afonsinho e ele vêm me dizer da estreia do parente como colunista de Carta Capital. Abro meu embornal e lhe mostro a revista. Tiramos fotos juntos e ele relembra dos tempos que jogava bola com o ex-craque no paralelepípedo no largo onde é hoje a Feira do Rolo. Mais a frente outra surpresa, Celso, lá do Terra Nossa, com uma antena parabólica amarrada em cima do carro. Havia ganho do Chico Maia, lá do gabinete da Prefeitura e estava indo montar no alto de sua casa lá pelas barrancas depois de Aymorés.
É disso que eu gosto. É com essa gente que gosto de estar. Bauru tem cura e salvação.

BEIRA DE ESTRADA (19) – esse texto fica valendo pelo do dia 09/05/2012
O ‘CHAPA’ VIROU MEU CHAPA – crônica publicada na Revista do Caminhoneiro, nº 290, abril 2012, circulação nacional, 100 mil exemplares.

Trabalho para uma grande empresa no transporte de mercadorias e na entrada de uma de nossas maiores cidades. Por opção da empresa, durante certo período, buscava uma pessoa para o auxílio no descarregar a carga. Áureos tempos, onde o perigo ainda não rondava com tanta intensidade a beirada de nossas estradas. Perdia muito tempo fazendo tudo sozinho, além do cansaço. Como em toda cidade é muito fácil identificar esses profissionais, denominados de “chapa”, localizados nas entradas da maioria delas, com identificação característica, rabiscos feitos de improviso em precárias placas e debaixo de uma cobertura arrumada em algum descarte. Madrugam nos seus pontos e de lá ao avistarem um caminhão a se aproximar, estendem logo seus braços e acenam em busca do ganha pão do dia. Vida difícil, como a da maioria do trabalhador brasileiro.
Nunca menosprezei esse serviço e poucas vezes me decepcionei. São pessoas simples como eu, porém com menos sorte da que tive na vida. Estão ali, faça chuva ou sol. Se existe algum a desmerecer a categoria, isso não estraga o todo, pois sempre existem aqueles fugindo à regra colocando tudo a perder. Foi ali, correndo meus riscos, num ponto de chapa que conheci uma grande pessoa e tenho uma história que transformou a vida de outras, inclusive a minha.

Seu Vinagre, esse seu sobrenome e nome de guerra, não era muito moço quando o conheci, mas me inspirou confiança desde que parei o caminhão numa manhã de muito calor e muita coisa por fazer. Estava um tanto perdido naquele dia e sua ajuda, além da força física para descarregar tudo, foi do auxílio em achar com a maior facilidade os endereços. Passava dos 60 anos, ainda um tanto forte, queimado de sol e de pouca conversa, sério e valente no trabalho. Bateu uma identificação logo de cara, tanto que brincava chamando-o de “meu chapa”.
Virou rotina parar sempre ali e levá-lo comigo. Ele já sabia o dia em que estaria de volta na cidade e ficava a minha espera. Falhamos poucas vezes. Os anos foram passando, acho que uns três. Falava muito dele na empresa, tanto que os convenci a contratá-lo como ajudante de carga. Estava louco para dar-lhe a alvissareira notícia. Pois justo naquele dia seu Vinagre não estava lá e ninguém sabia do seu paradeiro.
 “Faz quase uma semana que não aparece. Deve estar doente”, me disseram.
Acabei me virando como pude por algumas vezes e o pessoal da empresa me apertando: “E aí, vamos contratar ou não o tal sujeito?”. Num dia mais tranqüilo,
especulei entre os demais chapas até conseguir seu endereço. “Longe demais, escondido do mundo, não vai nem achar”, um me disse. Fui atrás, vasculhei os cafundós de um bairro suburbano e acabei por encontrar a sua residência.
Seu Vinagre estava doente, ruim mesmo e sem auxílio, me reconheceu pela voz, vivia de favores e com a ajuda do filho, um rapagão de uns 19 anos. Aquilo me cortou o coração. Fiquei de voltar e algo novo foi crescendo em mim. Vinagrinho, o filho tinha cacoete para a coisa, apesar da absoluta inexperiência. Perdi muito tempo em treiná-lo, mas ele foi um bravo, igual ao pai e hoje, passados dois anos do falecimento do velho e inesquecível Vinagre, quem está de carteira assinada e dando um duro danado ao meu lado é o filho, meu fiel escudeiro. Conto isso pra todo mundo, pois praticamente adotei o rapaz. É como se fosse mais do que um filho, parceiros absolutos de estrada.
HPA, contador de estórias e histórias (Percebam uma homenagem no texto ao meu dileto amigo, José Augusto Ribeiro Vinagre, ex-secretário de Cultura de Bauru e hoje agente na área, movimentando o setor com peças, eventos e espetáculos. Deixou de ser chapa e foi ser menestrel, o que, confesso, sabe fazer muito bem).

terça-feira, 8 de maio de 2012

CHARGE ESCOLHIDA A DEDO (55)

“CATALONIA IS NOT SPAIN”, TINOCO E UM ESCRITO SEM PÉ NEM CABEÇA
Esse meu blog é uma coisa mais do que especial para mim. Nele não só escrevo sobre as coisas à minha volta. Dou meus pitacos como entendo e como acho que deveriam ser as coisas do meu jeito e modo, um socialista tentando sobreviver dentro da crueldade do capitalismo e da barbárie. E escrevo de tudo. Com isso acerto e erro bastante.
Tudo dentro da normalidade. Mas aqui nesse mafuento espaço eu não me limito somente a isso, pois falo muito de mim, do que já fiz na vida, do que escrevi e ficou perdido por aí, dos amigos e também dos desafetos, essas coisas todas. Criei umas seções, sempre numeradas no alto dos textos e tento enquadrar o que escrevo com o título. Nem sempre tudo dá certo, como na minha vida, mas continuo sempre tentando. Insisto, como agora, que o Blogger mudou tudo na sua parte interna de postagem e eu ainda estou apanhando de montão. Reparem como tudo está um tanto desfocado, parágrafos desaprumados, tamanhos de letras variados na mesma linha. Uma mafuenta bagunça, que espero ir acertando com o passar dos dias, após meu filho, Henrique, 18 anos e o amigo Marcão, 30 e lá vai fumaça anos, tentarem me dar uma aula sobre as mudanças. Isso uma coisa, outra é essa viagem que acabei de fazer e que gostaria muito de escrevinhar algo sobre ela por aqui. Viajei acompanhado de duas pessoas mais do que queridas e fui conhecer não só a Espanha, mas a Catalunha e de cara aprendi algo: “Catalonia is not Spain”. Aquilo é verdadeiramente uma país à parte e como faço em todos os lugares por onde vou, fui me juntar aos movimentos sociais do pedaço. Comprei camisetas, entrei em lugares, fotografei grafites, fucei a beça. Vou
 contando tudo em drops, aos poucos. Hoje, um corre-corre danado pelos lados de minha firma e batuco isso quase na hora de sair à rua. Fica a foto minha no meio do Las Ramblas e no ajuntamento que mais gosto, o de ativistas. Para finalizar publico junto uma charge do amigo Fausto sobre a morte do Tinoco (faz tempo que não falava do Fausto por aqui – vamos relançar o livro de Reginópolis em Bauru). Fausto me afirma não acreditar em céu, como eu, mas continua desenhando os que considera bons indo para o céu após a morte. E para encerrar algo que não tem nada com tudo o que escrevi, mas não posso deixar de escrever: Adorei o Juventus, o time lá da Móoca, da rua Javari ter voltado para a 2º Divisão do Paulistão e ano que vem jogará com o meu Noroeste. Adoro aquele campo, velhinhos acolhedores e um futebol no meio daquilo me parece algo a me fazer voltar no passado. Como triste fiquei como passamento do Noroeste e a derrocada do XV de Jaú, cujo campo vi muitas  homéricas contendas. É disso que gosto. é disso que escrevo.