sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ALGO DA INTERNET (88)


DOIS TEMAS SACADOS DA INTERNET E COLOCADOS NO PALCO DA DISCUSSÃO

EM QUAIS RODOVIAS PAULISTAS MAIS MORREM ANIMAIS SILVESTRES?
Ouvi no rádio uma entrevista do Luiz Pires, nosso capo do Zoológico local e ali algo muito instigante (acho que no programa do Chico Cardoso). Foi criado algo localizador e identificador dos locais de maior incidência de mortes de animais silvestres nas rodovias paulistas. Todos estamos verificando que de uns tempos para cá a incidência de mortes de animais silvestres está mais que disparada e isso, pela minha parca sapiência no setor deve-se ao fato do desmedido desmatamento e também dessas leis frouxas, que aceitam e aprovam novos empreendimentos em áreas antes preservadas. Aqui na nossa região é sabido que o aumento desmedido de loteamentos e residências de luxo, os ditos condomínios, um atrás do outro, estão cerceando cada vez os locais de circulação da fauna existente. Daí eles buscam novos caminhos e cruzam as estradas, sendo atropelados seguidamente. Evidente que, quando juntados esses dados chegaremos facilmente nas cidades onde isso ocorre em incidência muito maior que outras. Tem cidade na região de Bauru onde não existe legislação nenhuma sendo respeitada e tudo é permitido. Não estariam justamente ali os grandes infratores no setor? Gostaria de saber o nome desse projeto. Acho que o Pires disse ser algo como PROJETO URUBU (onde o animal está sobrevoando, algum outro foi morto). Como localizar as estatísticas já feitas? Queria divulgar mais isso e até apontar os locais de maior incidência do descalabro de devastação desmedida de vegetação nativa, nosso cerrado e afins. Alguém sabe mais a respeito? No link abaixo, algo mais sobre o tema. Estou curioso em saber quais os locais onde mais morrem os indefesos animais silvestres...

http://www.oeco.org.br/convidados/28467-atropelamento-de-fauna-desastre-ambiental-facil-de-evitar


O DIREITO DA ARTE ACONTECER NAS RUAS
Volto agora da Argentina e tramita por lá algo muito parecido do que ocorreu tempos atrás na nossa aldeia, Bauru. Por lá, a Prefeitura da cidade de Buenos Aires comandada pelo neoliberal conservador Macri tenta impedir que grupos de artistas se apresentem nas calles (ruas e avenidas) e feiras populares. A grita dos artistas de rua é generalizada, assim como a movimentação da classe artística. Em Bauru essa luta durou décadas e só foi vencida pela persistência de um grupo de artistas, no final capitaneado pela ATB, dirigida por Kyn Junior, que soube percorrer o caminho mais acertado, indo até a Câmara dos Vereadores, buscando apoio de gente que decididamente luta pelos interesses da cidade, como Roque Ferreira e, por fim, numa polêmica votação a liberação dos artistas atuarem no Calçadão da Batista foi finalmente alcançada. No link abaixo um bocadinho do que está sendo a luta dos artistas portenhos, que na verdade é a mesma luta de uns que detém o poder nas mãos e investidos dele se acham donos de tudo, daí por diante prescrevem para a população as medidas mais neoliberais possíveis. O mundo quadrado, cheio de enquadramentos, normas arcaicas e proibitivas precisa ser derrubado a cada instante. Daí a importância do voto certo na próxima eleição. Poucos são os que ainda declaram e praticam algo realmente libertário, mas existem uns muito mais neoliberais que outros. Saber identificar dentre o balaio de gatos que nos é apresentado, quem são os declaradamente piores não é tarefa difícil. É só ir verificando nas entrelinhas, juntar declarações aqui e ali, como por exemplo a que leio hoje de um candidato que já quer minimizar o trabalho do programa Mais Médicos. Tenham certeza, na sequência virá algo contra o Bolsa Família, depois o Minha Casa Minha Vida, depois o ProUni e quando nos dermos conta até a própria rua nos será novamente impedida de atuar. Saibamos separar o joio do trigo. Um baita abracito de sexta do HPA (voltando para Bauru logo após o almoço).

http://www.pagina12.com.ar/diario/sociedad/3-252505-2014-08-08.html

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

UMA MÚSICA (111)


TÔ VOLTANDO... – EM DIA DE RETORNO, JUNTANDO OS ÚLTIMOS ESCRITOS
Amanhã recoloco os pés na minha Bauru. Tento aqui de Sampa onde me encontro nesse momento, bem cuidadinho na casa da sogra dona Darcy, em período de readaptação e ao lado da sempre prestativa Ana Bia, recolocar o fuso horário em dia, uma limpeza estomacal para me livrar do excesso de parrilhadas, bifes de chorizos, matambritos de cerdos, médias lunas e papas fritas. Hoje me deram muita verdura, sopinhas e pão sem miolos, tudo para um pronto reestabelecimento de minha flora intestinal um tanto detonada pelos excessos cometidos. Desintoxicação total, generalizada e absoluta. Enquanto isso, deitado numa confortável rede debaixo de um abacateiro aqui no bairro da Saúde, cantarolo algo e aproveito para compartilhar com os diletos amigos:

https://www.youtube.com/watch?v=g1U_ou1gcQ8

Chico Buarque continua a me embalar ontem, hoje e sempre (e na bela interpretação de Simone). Estou recarregado e pronto para o que der e vier.

DONZÍLIO ACORRENTOU-SE A UM POSTE DIANTE DO FÓRUM BAURUENSE, TUDO PELA FILHA
Quando se aproxima o Dia dos Pais, voltando para meu país no dia de hoje, abro pouco antes de embarcar o site do JC e lá encontro uma dessas histórias marcantes, traduzindo nela um bocadinho de toda a angústia de viver num mundo onde as desigualdades estão cada vez mais acentuadas e ressaltadas. Uns podem cada vez mais, fazem e acontecem em cima dos que podem cada vez menos. Leio horrores nos dias de hoje sobre essa eterna tentativa dos que, vivendo no mundo capitalista, lutam por igualdade, benefícios, leis mais sensatas, fim dos eternos benefícios aos mais abastados e pouco, quase nada para os que se servem dos serviços públicos. Alguns afirmam que a simples luta por tirar de quem tem mais e dividir com os que possuem menos é o fim dos mundos. E mais, que isso é comunismo e não justiça social. Aqui um relato de um concreto caso ocorrido ontem no coração de Bauru evidenciando o quanto esse nosso mundo vive de injustiças e acentuando cada vez mais as eternas desigualdades.

DONZÍLIO QUAGGIO MERLI é hoje um senhor desempregado e tentando sobreviver com o que lhe restou de bens ao longo dos anos de trabalho na iniciativa privada, a renda de uma casa alugada. Até consegue se safar, mas suas reservas se esvaíram como pó com o caro tratamento médico para uma filha com rara doença. A história dele está resumida na matéria que o JC publicou ontem: http://www.jcnet.com.br/Geral/2014/08/pela-saude-da-filha-pai-se-acorrenta-em-frente-ao-forum-de-bauru.html. Com muita dor, nas proximidades do dia dos pais, algo assim cala fundo: um homem sem forças se acorrenta diante do Fórum da cidade de Bauru, o órgão mais elevado da Justiça local em busca de conseguir a liberação judicial para o tratamento pago pelos serviços públicos. Talvez ele consiga, mas a burocracia retarda tudo e a forma encontrada foi tornar pública sua dor e revolta. Casos extremos de algo que só os pais conseguem fazer pelos seus e mais triste no lamento saído de sua boca quando entrevistado: “Se ela morrer por falta de tratamento, vou junto em forma de protesto”. Aqui a grita não é contra o SUS, pois esse ainda cumpre um belo de um papel diante de tanta iniquidade e insensatez privada. A grita é pela transformação geral de nossa sociedade em algo mais justo, onde saúde, educação, lazer, transporte, cultura e tudo o mais nos chegue de forma gratuita, sem que medidas extremas sejam necessárias. Donzílio, o personagem desse post deve ter descoberto que no capitalismo isso é praticamente impossível. Triste cena e que o desfecho não ocorra da forma lamentável como se prevê.

O texto foi baseado na matéria citada e publicada pelo JC. A foto publicada foi gentilmente cedida pelo fotógrafo JOÃO ROSAN, excelente profissional do corpo do jornal bauruense e reproduzida aqui e no facebook.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (77)


O MUNDO ESTÁ CADA VEZ MAIS CARETA, PRECONCEITUOSO E PERIGOSO – ELES ESTÃO SE APROXIMANDO
Hoje, aqui de onde me encontro, longe do país, ao dar aquela rápida circulada pelas redes sociais eis que me deparo com algo contundente vindo de TATIANA CALMON, a sempre inquieta, mordaz e precisa amiga de todas as horas. Afirma ela o quanto regredimos de décadas atrás para esses atuais na maioria de nossas relações sociais. Nas fotos publicadas algumas de algo marcante coisa de quase quarenta anos atrás, o FESTIVAL DE ÁGUAS CLARAS, onde jovens desnudos conviviam pacificamente uns com os outros sem que os machos engolissem as fêmeas só porque estavam com pouca roupa. E olha que todos nós convivíamos numa naice também com o tal do fumo proibido, sem que isso provocasse alterações mirabolantes na maioria das ações dos seus consumidores. Não me recordo de casos de estupro por mocinhas andarem de minisaia nas ruas. Hoje um perigo e os estupros se reproduzem, com discursos intolerantes do tipo “mas elas querem o que nos provocando desse jeito?". Com o passar dos anos, quer se queira ou não, um evidente emburrecimento dos conceitos e o avanço de mente declaradamente menos abertas, cada vez mais conservadoras.

Tatiana foi na veia ao publicar o seguinte texto: “Regressão, é assim que penso na intensidade dos ataques e abusos sexuais que as mulheres vem sofrendo. Ônibus e vagões especiais para não serem molestadas. Mulheres agarradas e beijadas à força nas concentrações dos jogos da copa, com vários relatos na Vila Madalena, alunas de Botucatu, bixetes sedadas por alunos de medicina e abusadas, menina violentada por 10 rapazes nas comemorações do aniversário de Bauru. Bateu uma baita saudade da minha geração, que lutou contra a ditadura, que foi às ruas pelas diretas, e que viveu quatro enorme festivais de música na Fazenda Águas Claras, em Iacanga/SP. Por vários dias, vivemos em comunhão, comendo, bebendo, muitos fumando unzinhos, muita musica, banhos coletivos, nudez sem frescura e sem maldade de crianças, jovens, adultos e idosos. Não lembro de nenhum caso de abuso, estupro ou outro tipo de violência. No máximo porres homéricos,viagens doidas, e muito rock. Velhos tempos, belos dias....”.

Vejo uma geração de jovens lendo cada vez menos (e muitos de outras seguindo no mesmo diapasão) e se deixando levar cada vez mais por posições conservadoras. A própria escola é reprodutora disso. O avanço social é obstruído e a orientação básica recebida é para que se continue aceitando cegamente o que nos é ditado por uma tal de lei de mercado, onde as pessoas são cada vez mais desumanizadas. Pensar diferente disso já é um perigo, ser COMUNISTA quase um crime, defender a legalização do ABORTO um acinte e estar ao lado da DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS é o mesmo que se declarar maconheiro em praça pública. Outro dia publiquei aqui um texto sobre um TRAVESTI e só por fazê-lo desponta um comentário no meu blog, feito de forma anônima (nem corajosos são) me taxando de VIADO e que gostava mesmo é de um pau. Escrever algo fora do contexto é também um PERIGO.

Poucos ainda se posicionam sobre esses temas e colocam NOME e SOBRENOME. Falta coragem para a maioria das pessoas. Noto nos meus textos, quando algo ameno muitos comentários e curtidas, mas quando algo mais forte, contundente e com temática política, poucos se atrevem sequer a curtir. Descer a lenha na DILMA é moleza, dureza é ver algo contra o PEDRO TOBIAS. Queria antes de encerrar comentar algo bem próximo disso tudo. Pouco antes de viajar li uma declaração da presidenta DILMA contrário ao genocídio patrocinado hoje por ISRAEL e apoiado pelos EUA. Choveram críticas, na maioria tacanhas e despropositais. Na principal, gente dizendo que ela como chefe de estado deveria permanecer de boca fechada. Ouvi no rádio um dia antes de viajar um professor universitário, o soltar essa pérola pelos microfones de uma rádio local: “Ela perdeu a oportunidade de permanecer com a boca fechada”. Só faltou aplaudir Israel, ou quase isso. Isso parte de gente que não se interessa mais pelo semelhante e quando alguém o faz, ainda fica incomodado. Mais que isso, defende o tal lado cruel e único da saída ditada pelo MERCADO. Estamos cercados de gente que não consegue mais se sensibilizar com o outro lado e nos quer atrelados com o lado do poder mundial, mesmo que esse erre descaradamente. Li de outro que, após a declaração da Dilma, em caso de guerra, o Brasil estaria ao lado da Rússia e China e não ao lado dos EUA e Alemanha.

É claro que muitos dos conservadores de hoje não tem nada a ver com os estupradores. Mas é que todos estão no mesmo barco de um mundo menos liberto, com menos possibilidades, dos que tentam impor um só caminho para tudo. Uns leem menos e se ligam cada vez mais em dogmas, principalmente religiosos, reduzindo sensivelmente a possibilidade de pensamentos libertários. Dou outro gente querendo nos fazer crer que o mundo deve ser limitado a respeitar a patrão, o mais forte e a lei ditada pelo país imperialista. Ontem tudo se repetiu com outro e daí vejo alguns mais já querendo apoiar algo contra o genocídio praticado por esse insano governo israelense. Foi na declaração do presidente uruguaio MUJICA, no mesmo tom e diapasão feito por DILMA dias atrás. Com Mujica os conservadores não conseguem ser totalmente contra, mas com dona Dilma são declaradamente contrários em tudo. Mais bestial impossível. Juntei isso tudo no mesmo balaio porque estou com pavio cada mais curto com a perda de liberdade e com a predominância cada vez maior de algo indecentemente conservador pairando no ar e querendo tomar conta de tudo. Eu vou lutar até meus últimos dias contra o que representam esses todos querendo nos encurralar em becos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

MEMÓRIA ORAL (166)


ACOSTA É ESPECIALISTA EM FITAS CASSETES – NA FEIRA TRISTÁN NARVAJA EM MONTEVIDÉU
Feiras dominicais possuem personagens mais do que próprios, criados e cultivados ao longo dos anos de existência do lugar. Sempre que posso resgato alguns de minha aldeia, Bauru e alguns ligados a sua mais famosa feira, a do Rolo, uma espécie de Mercados das Pulgas. Com esse nome existem milhares de outras, espalhadas pelos mais diversos cantos do planeta. Nesse último domingo, 03/08, conheci uma onde pela primeira vez bati os olhos e os pés. Em Montevidéu, a capital uruguaia, cidade com pouco mais de 1,5 milhão de habitantes (o país tem pouco mais de 3 milhões), conheci a mais popular delas, ocupando ao todo mais de vinte quadras da rua (calle) Dr. Tristán Narvaja, começando na famosa avenida 18 de Julho e indo até onde os pés aguentam continuar, tomando ruas laterais e adentrando todos os lugares vazios imagináveis no percurso. Tudo começa com uma feira normal, com frutas, legumes, o de sempre e vai para a variedade que se vende no mundo todo, culminando com as antiguidades e a quinquilharia (eis aí o gostoso desses lugares) próprias de cada lugar.

Na Tristán Narvaja isso tudo é ampliado e ali a real possibilidade de um Uruguai ainda desconhecido ir surgindo a cada nova banca, a cada novo personagem trombado ao longo do percurso. E são tantos, que destacar um é algo meio que ingrato. Muitos outros poderiam merecer a honraria de ter suas histórias contadas. E por que se escolhe um dentre tantos? Algo desperta uma curiosidade maior que os demais. Isso sob um ponto de vista. Cada um ali tem um interesse, um motivo para estar circulando por ali e busquei um. Encontrei-o em ACOSTA HODAIS ARSENIO, um senhor com mais de 70 anos e com uma modesta loja encravada no número 1614, do lado direito de quem desce a rua. Estávamos num grupo de quatro pessoas e só eu me interessei pelo letreiro de uma tal de DISCOMODA, pequena loja com um pequena porta central, ladeado de duas vitrines, tudo um tanto empoeirado e lá dentro só as boas e valorosas preciosidades, que na mão de colecionadores valem muito, mas nas de pessoas ditas comuns, não passam de quinquilharias.

A Discomoda é uma loja, como cravado em suas paredes, especializada em “venta de discos y cassettes”. Tudo ali é muito antigo, os discos estão espalhados por todos os lugares. LPs enfileirados em pequenos montes e ocupando quase todo o espaço do local. Pergunto ao Sr Acosta sobre CDs de música regional uruguaia. “Sim, tenho alguns, mas não muitos. Sabe aquilo de casa de ferreiro, espeto de pau. Vale para aqui”. Leva-me para onde estão os CDs, num canto de uma estante. Não acho nada que me interessa, mas um algo mais me desperta a curiosidade. “Percebo que o que tens muito mesmo são fitas cassete. Elas vendem bem até hoje?”, pergunto. “Sim, é a minha especialidade. Delas tenho de tudo um pouco, inclusive brasileiras”, me diz. E daí em diante passo a verificar a enorme quantidade de fitas cassetes disponibilizadas por todos os lugares da loja.

Na verdade, a loja do Sr Acosta é especializada nisso, em fitas cassetes. Não resistindo digo que já tive muitos, mas isso há mais de vinte tive que descartar os últimos, pois estragavam muito rapidamente. Ele concorda e me leva para ver um dos velhos em pleno funcionamento. “Veja esse, tem mais de trinta anos e toca que é uma maravilha. Tudo é questão de cuidados. São muito mais sensíveis e aqui em Montevidéu, muitos já sabem que o velho Acosta revende isso e daí, sempre me aparece gente doando, querendo vender acervos inteiros. E do outro lado aqui vem gente do Uruguai inteiro, também da Argentina, do Brasil e de vários outros países e buscando títulos em cassete. Vendo muitos LPs, mas os cassetes são o que mais tenho”, me explica. Vou até a estante mais próxima e tiro alguns do lugar. Cantores latinos que em sua maioria não conheço, a maioria empoeirados do lado externo, mas catalogados de acordo com o tempo disponível desse senhor em ir separando e juntando tudo em ordem alfabética por cantor ou ritmo musical.

Nisso adentra outro senhor, também uruguaio, velho conhecido do proprietário e estabelecem um diálogo sobre o motivo desse ali estar. Um disco é também motivo para a conversa se alongar, tomar outros rumos e tudo isso comigo ali ao lado. Impossível não se interessar pela conversa dos dois, sobre o Uruguai de ontem e a música de hoje. Não são nostálgicos, nem desmerecem o som dos jovens de hoje, somente continuam gostando de uma música e de músicos que já se foram. Ali um lugares exatos para reverenciar o passado uruguaio, pois tudo ali remete os seus frequentadores a dar uma pequena volta no tempo. Impossível não fazer essa viagem, pois a poucos metros dali a modernidade está instalada e em pleno funcionamento. Ali não, pois o motor da loja do catedrático Acosta é revirar o passado, dar valor a ele e mais que isso, ele vive com a renda advinda do comércio desse amontoado de coisas do passado.

Não levo nada e nem ele me força a fazê-lo. Percebeu que o meu interesse pelo seu estabelecimento era outro. Pedi um cartão (“una tarjeta”) e ele não tinha. Disse que queria algo com o seu endereço anotado e a solução foi das mais simples. Diante de um amontoado de papéis em cima do balcão de entrada, saca logo de uma Nota Fiscal com tudo o que necessitava, desde seu nome, endereço, fone e com um algo mais no verso, algo para mim de inestimável valor, uma lista de compra de um cliente, um tal de Wilson, que havia gasto ali entre LPs, livros e cassetes o total de 1.255 pesos, aproximadamente 125 reais. Livros, LPs e CDs eu sabia que continuavam vendendo mundo afora, mas Fitas Cassetes, resistindo ao tempo nas mãos de um especialista no trato com elas, encontrei talvez um dos últimos tendo-as como carro chefe de seu negócio.

Quando me recordo do padecimento que tinha com essas fitas enrolando dentro dos meus antigos gravadores, algo penoso de ser desembaralhado, na despedida dou algo que vai além de um aperto de mão, um algo mais no Sr Acosta, um baita de um abraço. Peço para fotografar sua loja, ele me deixa à vontade e clico tudo, cada detalhe. Quando saio o reverencio e ele me diz lá do fundo: “Volte sempre. Gracias pela visita tão cordial”. Vou ao reencontro do grupo de brasileiros ainda entretidos com outras curiosidades e compras na feira. Quando lhe conto de onde estava, sacam algo para me dar conta de que os gostos e preferências individuais são mesmos dispares entre os humanos: “Mas nem tínhamos notado nessa loja”. Outras mais continuariam despertando minha curiosidade ao longo do percurso, encerrado naquela manhã bem depois das 14h.

domingo, 3 de agosto de 2014

CENA BAURUENSE (122)


EDUARDO GEBARA CONTINUA TOCANDO O BARCO DE SUA FAMÍLIA SEMPRE “GEBARATEANDO” NOS PREÇOS
Poucos dias antes de viajar fui rever um dos comerciantes mais tradicionais de Bauru. Eduardo GEBARA é de uma família com sobrenome relacionado ao comércio de tecidos finos. Seus ancestrais espalhados país afora, principalmente na cidade do Rio de Janeiro são por demais conhecidos exatamente pelas lojas de tecidos. KHALIL GEBARA faz parte da história desse setor e até hoje é uma forte referência nesse segmento de mercado. Não existe mulher ou mesmo alfaiate que não tenha em algum momento comprado tecidos junto a algumas das tantas lojas com um sobrenome Gebara na fachada. Nós, os brasileiros somos useiros e vezeiros em chamar todos os descendentes de árabes de turcos. Virou hábito misturar tudo. Daí acharmos que os Gebara, assim como todos os ditos “turcos” são todos oriundos de um mesmo lugar. Os Gebaras são libaneses e o pai desse que hoje continua mantendo uma loja especializada em tecidos veio para Bauru nos anos 30 e aqui se estabeleceu já no segmento onde sempre foram especialistas.

Eduardo é um distinto senhor, com quase dois metros de altura e outro tanto de simpatia. Um sujeito falante e que, sabe vender como poucos. Vê-lo em atuação em sua loja, localizada hoje lá nos altos da rua Antonio Alves é receber uma verdadeira aula sobre panos, cortes de tecidos e tudo no seu entorno. Ele vive literalmente num mundo à parte e sabe que, com o passar dos anos, infelizmente o que antes era uma grandiosa loja, hoje continua com a sua aberta, mas muito mais segmentada. Tanto que a sua saiu do centro e foi para outro lugar, para atender um público bem mais específico. Esse metiê de trabalhar com panos é algo bem peculiar, no caso dos Gebara, proveniente do sangue. Primeiro do tino comercial dos libaneses, especialistas no comércio, tendo participado da formação desse país com os famosos mascates, que iam de cidade em cidade, com seus produtos em lombo de burro, caixotes enormes que nem imagino como conseguiam carregar de uma cidade para outras. Alguns dos Gebaras viveram um pouco disso tudo.

Na sala do escritório do Eduardo, nos fundos de sua loja, dominando o lugar uma reprodução de uma extensa e sempre inacabada árvore genealógica, que mostra sua família séculos atrás no Líbano e as várias ramificações mundo afora. No Brasil, primeiro o seu tio, o tal Khalil da vertente carioca e seu pai, na vertente do interior paulista. Ele continua tocando o barco para a frente com estilo e pompa, de um jeito só seu, aprendido ao longo dos anos, algo passado de pai para filhos. Num famoso selo, tipo slogan de todas as lojas com o sobrenome familiar, algo que ele me mostra com um sorriso nos lábios, o PREÇOS GEBARATÍSSIMOS. Sua loja continua atuando em cima de muita pompa, ligada a costura de alta estilo, algo feito sob medida, padrão diferenciado em tudo. O refino dele foi aprendido no meio disso tudo. Um verdadeiro professor quando com uma tesoura na mão. No dia em que lá estive dava dicas básicas para um terno de um amigo e aquilo para mim foi uma aula.

O brasileiro acostumou-se a ver com certa avareza a especialidade dos libaneses pelo comércio. Sim, alguns foram e continuam sendo avarentos, mas não só eles. Isso não desmerece em nada aqueles que verdadeiramente suaram a camisa, deram a volta por cima sobre dificuldades mil e souberam se estabilizar e hoje estão em posições de destaque não só no ramo do início de suas vidas, o comercial, como outros. Eduardo não tem herdeiros e nem sabe o que poderá ocorrer com sua loja no futuro, mas isso não é motivo para não se entregar de corpo e alma ao que faz. Percebo que ele, por ser o que é, autêntico, original e um sujeito de firmes posições, possui uma legião de admiradores e outra de nem tanto. Ele navega bem diante disso tudo e o que conta, no seu caso é saber o que faz e o fazer bem feito. Dentre todos os comerciantes bauruenses, muitos eu não conseguiria escrever um texto elogioso e cheio de bons predicados, com ele isso ocorre naturalmente. Lembro de minha avó e de minha mãe indo buscar tecidos na Batista na loja do pai desse e hoje levo Ana Bia para fazer o mesmo quando necessita de algo diferenciado. Como desmerecer alguém que atravessa décadas e mantém um impecável padrão de qualidade? No seu caso impossível.

sábado, 2 de agosto de 2014

FRASES (121)


O QUE ESTÁ EM JOGO

PRIMEIRA PARTIDA – Daqui de onde me encontro, no Cone Sul do continente observo bem de perto a reação popular, a do povão em si, a das classe médias, as dos mais abastados e da mídia de uma forma geral, no quesito onde o país onde me encontro está sendo perversamente obrigado a quase declarar “default” junto aos fundos abutres norte-americanos. Já escrevi aqui mesmo sobre o que acho disso tudo: uma perversidade sem fim da Corte-Suprema dos EUA agindo declaradamente a favor do capital especulativo. Ou nos unimos todos e já, ou eles continuarão fazendo de nós aqui do Sul (e do resto do planeta) o que bem entendem. A única linguagem que os de lá de cima entendem, ao meu ver, é quando com uma união consistente o caldo começar a entornar pro lado econômico deles. Essa a única possibilidade de reverem algo. Posto isso, vejo a grande mídia daqui agindo igualzinho a do Brasil. Preferem ver o país se afundar do reconhecer que algo precisa ser feito para salvá-lo. Não estão interessados em salvar o país e sim, recolocar no poder alguém mais palatável aos seus interesses (ano que vem tem eleições aqui na Argentina e a Cristina não pode ser reeleger). Os ricos torcem veladamente, a mídia declaradamente incentivando a classe média, como se o que defendem fosse de grande interesse nacional. Nas ruas percebo algo diferente, o apoio e uma torcida sem fim para que o país se safe, pois percebem que a partir disso estarão sendo impostas as novas regras de como o país vai seguir vivendo. Tiro uma foto de um senhor na calle Corrientes, um vendedor de amendoim, com um cartaz defendendo as Malvinas e num canto algo sobre o que pensa do momento do país. O que me sensibiliza por aqui é perceber esse apoio popular vindo das "calles". Esses são os que sustentam e continuam dando o seu necessário quinhão para o atual governo argentino. Essa foto me diz muito.

SEGUNDA PARTIDA – Não existe como permanecer indiferente ao brutal genocídio imposto pelo governo israelense e apoiado pelas nações mais abastadas do planeta junto ao povo palestino. A carnificina já tomou ares de puro massacre, cruel, insano e sem tirar nem por, uma repetição da mesma insanidade cometida contra os judeus na Segunda Guerra, só que agora tendo eles como os algozes. Leio a bestialidade de alguns apregoando que o Brasil deveria se manter isento e indiferente. A tomada de decisão do país contra o genocídio e seu voto foi decisivo para que a ONU iniciasse um esboço de investigação. Nem isso iria ocorrer por lá, tal a dependência de alguns países aos ditames dos norte-americanos. Aqui na Argentina vejo estampado numa banca de jornais a capa de um revista semanal aqui deles, a Vein ti Tres (www.veintitres.com), uma espécie de Carta Capital platina, com a seguinte manchete, “El império de la Ley o la Ley del Imperio”. Isso serve tanto para a decisão dos fundos abutres, como para a decisão dos EUA em permanecer ao lado dos criminosos israelenses e a favor do massacre dos palestinos. Essa é a mais pura realidade escancarando quem de fato ganham com o pânico. Nessa insanidade os grandões fazem seu jogo sem escrúpulos, não possuem nenhum tipo de preocupação em ocultar o que pensam e como agem. Deixam claro como jogam essas e todas as outras batalhas. Para esses, que se dane o resto (o resto somo nós, viu!). Enquanto o restante do mundo aceitar isso assim só emitindo desagravos, nada além disso, eles não mudarão de posição. O algo mais é preciso.

A frase da semana para mim é, portanto, essa: “O IMPÉRIO DA LEI OU A LEI DO IMPÉRIO”. Sacaram???

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

RELATOS PORTENHOS (13)


NO POUCO TEMPO ANTES DE MAIS UM ANIVERSÁRIO DE BAURU
Daqui da distância bauruense de onde me encontro fico sabendo da morte da eterna missivista do JC, dona Isolina Bresolin Vianna, uma que assim como eu, permanecemos morando ad eternum nas barrancas do rio Bauru e pertinho dos trilhos da outrora estação da Cia Paulista. Ela na riba de cima, eu na riba de baixo. Ela se foi e eu pelo Mafuá já havia escrevinhado dela algumas coisas. Morava no mesmo cantinho de sempre juntos dos trilhos e quase na esquina dos Bombeiros, tendo visto de tudo ali diante de sua casa, hoje com um antes hotel de viajantes e hoje de alta frequência, entra e sai que lhe valiam boas histórias e observações. Certa vez ganhei dela um livrinho com um texto seu sobre Natal, que nunca o li, mas prometo fazê-lo um dia desses. Tinha posições bem diferenciadas das minhas, visões de mundo bem antagônicas, o que não impedíamos de manter um relacionamento cordial, de respeito mútuo. Dela só isso.

De MARIZA BASSO, vejo também por aqui que está comemorando DEZ anos de apresentações com sua Cia Teatral e fico muito feliz, não só pelo seu sucesso, como de sua Cia e do Festival de Bonecos (agora mesmo tento me encontrar com Victor Tomate Ávalos Perfil Lleno, um que conheci esse ano em Bauru e o revejo em Buenos Aires). Mariza produz e muito junto do seu Kyn Jr e como faz e acontece, muitos outros dez anos estarão a se multiplicar por toda sua vida.

Por fim, explicito aqui o que de melhor existe para mim dentro das festividades de aniversário da cidade: a apresentação e reunião do grupo QUINTAL DO BRÁS, hoje com seus integrantes espalhados em vários outros grupos, mas resistindo e se reencontrando em festividades e eventos como esse lá no Vitória Régia, festa durando o dia todo e com eles festando com o samba da palma da mão lá diante do gramado do parque central da cidade. Adoro o seu Brás (criador de tudo e dando nome ao agrupamento e na foto abaixo), ferroviário de ótima cepa. Grupo esse tendo em Ivo Fernandes, seu expoente e aglutinador maior (maior palmeiro não conheço). Sinto não estar por esses dias em Bauru por causa de não poder bater palmas para essa rapaziada toda, todos morando no meu coração. O Quintal teve um impulso nos meus tempos lá de Cultura quando o samba rolava toda semana na cantina do teatro e num dia juntou mais de 500 pessoas. Daí assustou e tivemos que parar, eles não, saltaram de lá para o mundo. E alguns deles já fazem um sucesso pra muito além do horizonte.


LA PEÑA DEL COLORADO - ARGENTINOS E BRASILEIROS
Primeiro eu achei no diário Página 12 a dica certa para a noite de quinta, música regional argentina. As opções musicais por aqui são sempre variadas, mas de todos os jornais daqui só essa de algo regional, música proveniente do interior do país. Vamos em oito pessoas para o La Peña del Colorado, um barzinho estilo rústico enfiado no meio de Palermo. Lá o salão principal é um grande corredor e no fundo um palco com o nome de nada menos que Mercedes Sosa. Primeiro comemos, depois ouvimos uma boa música com uma dupla, que em alguns momentos levou todos para a pista. Tentei esboçar algo parecido com dança, movido pelo ritmo da chacareira.

Depois, o melhor da noite, quando o show termina, eis que um distinto senhor levanta vai até seu carro e volta um violão debaixo do braço. Sua mesa logo se amplia, tomando toda a extensão de um dos lados do bar. Ele canta de tudo, algo mais do que sentido e contaginte. Outros violões surgem assim do nada e com eles outros cantantes. Não me seguro e vou até eles. Me apresento e sou recebido com um abraço e taças de vinho são levantadas. A recepção foi feita com Brasileirinho tocado por um belo de um músico, na sequência mais um brasileira e alguém dentre nós pede para que toque Mercedes Sosa.

Foi apoteótico o que fizeram, provando como é bestial essa rivalidade que muitos insistem em manter com os hermanos. Sou sempre muito bem recebido por aqui, principalmente nos bares. Contatos como esses enriquecem minha vida e a fazem seguir cada vez mais com o espírito de um verdadeiro latinoamericano. Sintam a beleza do encontro...