quarta-feira, 7 de março de 2018

DIÁRIO DE CUBA (95)


AGRADECIMENTOS AOS ITALIANOS
Viajar é uma delícia, dessas coisas indescritíveis possibilitadas pela vida. O turista está diante de variadas opções quando em viagem. Na imensa maioria das vezes ele chega num país e já contando com um pacote de viagem se submete ao imposto pelos agentes de viagem e segue os roteiros turísticos pré-estabelecidos. Visita todos os pontos turísticos, faz aqueles passeios intermináveis, na maioria das vezes dentro de ônibus ou vãs, parando aqui ou ali e se sente contente, pois é o que pode ser feito dentro do tempo da viagem e o que tem de grana disponível. Já fiz muito disso e não me arrependo, pois era o que podia ser feito naqueles momentos.
De uns tempos para cá, eu e Ana Bia estamos optando por algo bem diferente desse roteiro. Primeiro por termos abandonado isso de hospedagem em hotéis. Desde que conhecemos o sistema da Airbnb (site a seguir: https://www.airbnb.com.br/a/…), alugamos um pequeno apê mobiliado e vagamos pelos lugares. O preço é muito mais em conta que o dos hotéis e as vantagens são sentidas de imediato, desde a de você ter uma casa à sua disposição, não gastar tanto e poder abrigar muitas pessoas no mesmo lugar, tudo dividido e ampliando horizontes. O sistema funciona no mundo todo e é assim que viajamos. Hotel só mesmo em último caso.
Nessa nossa viagem, conto a experiência italiana, algo inebriante, uma dessas viagens com recordações pra vida toda e da forma mais positiva possível. Ficamos hospedados na casa de um casa amigo, ela amiga de Ana dos tempos de Rio de Janeiro e ele um fazendeiro (pequeno proprietário por lá), Franco e Rosângela Mazzotti. Disponibilizaram um quarto só para nós, coisa de verdadeiros amigos e nos suportaram por 14 longos dias, junto de outra carioca, a professora Ana Rebello. Franco continuou indo diariamente para sua propriedade rural, mas como estava muito frio, em alguns dias até nevando teve tempo para passear conosco e conhecemos aproximadamente umas 15 cidades, desde pequenos vilarejos, médias e grandes, numa média de 150 km do lugar onde residem, Amonicce.

Conhecer a Itália acompanhado de um casal de gente do lugar, de carro, percorrendo cada cantinho é algo do fora do comum é foi exatamente isso o que conseguimos conquistar nesse nosso passeio. Uma outra brasileira reside nas proximidades, Elaine Cristina Gregi, de Mocóca SP, casada com um italiano e com seus pais residindo na Suiça. Ela também nos levou para intermináveis lugares. Desbravamos cidades inteiras com eles todos. Também nas proximidades o cabelereiro Ivan Baldi e sua esposa, a russa Svetlana Kolodeeza, cujo salão fomos conhecer numa praia na beirada do Mar Adriático e depois fomos recepcionados por um inesquecível churrasco em sua casa. E o que dizer de Arnaldo Rinaldo e Carla Turrini, residentes em Ímola e vindo nos buscar para um dia inteiro de passeios pela cidade onde moram, mostrando cada detalhe, um castelo medieval e até o autódromo onde Airton Senna faleceu. Por fim bancaram um jantar num restaurante nas proximidades de sua casa. Esses são mais do que inesquecíveis.
Outros tantos, amigos de Ana dos tempos quando Franco e Rosângela se casaram no Rio e uma turma de italianos se hospedou em sua casa carioca. Retribuíram de uma forma tão gentil que, não queríamos mais voltar para o Brasil. Cláudio Pippo e Lídia Della Rosa passearam conosco numa feira no coração da Romagna italiana e fizeram questão de junto com o casal que nos hospedou nos levar até o aeroporto em Bologna, aproximadamente uns 80 km de suas casas. Outros tantos, como Chiara Zani, Sabrina Guerra, Stefano Dragini e Maurício Martuzzi estiveram na recepção festiva dos 50 anos de Ana e nos deram dicas valiosas para os passeios, com roteiros diferentes a cada dia. Por fim, em Milão, Sonia Hartmann de Oliveira, funcionária da embaixada brasileira, casada com italiano, amiga de Ana dos tempos do Colégio Aplicação da UERJ nos recepcionou no aeroporto de Milão e nos acompanhou até o momento do embarque final.
A viagem foi mais que diferente, pois conhecemos mais do que qualquer turista o faria numa habitual viagem. Estávamos numa situação de privilegiados e pudemos, dessa forma, desfrutar de algo único. Foi mais que uma viagem, os tantos lugares por onde pudemos percorrer, algo praticamente impossível sem o acompanhamento deles todos. Cada um ao seu jeito nos guiou por uma Itália que não conheceríamos sem eles ao nosso lado e devido ao isso, cá estou escrevendo esse simplório texto em forma de reconhecido agradecimento. Não temos, eu e Ana paga para retribuir ou mesmo quitar tudo o que foi feito. O conhecimento adquirido nesse passeio pelas cidades de Ravenna, Ímola, Bagnacavallo, Ammonite, Lugo, Bologna, Veneza, Padova, Russi, Mezzano, Ferrara, Milão, República de San Marino e os tantos vilarejos nos fazem ter uma dívida de gratidão para com todos esses. Escrevo em forma de reconhecimento e gratidão, algo sentido e pulsante dentro deste insólito viajante.

PS.: E o que dizer de George, o cãozinho a brincar comigo todos os dias e que, por um triz, não trouxe escondido na mala. Descobriram e me impediram de anexá-lo ao mafuá junto ao Charles.

terça-feira, 6 de março de 2018

BEIRA DE ESTRADA (91)


O TURISTA E AS BANCAS DE JORNAIS E LIVRARIAS
Viajar é uma coisa, existem lugares inimagináveis em todas as viagens, mas em todas, mesmo nos lugares mais simples, eis algo pelo qual não abro mão de visitar: as bancas de jornais e as livrarias. Faço questão de conhecê-las e no caso desta última viagem, França e Itália, mesmo não dominando nem o francês, nem o italiano, não deixei de frequentar esses lugares.

E em cada lugar, por menor que fosse, sempre uma parada para observar, fuçar, colocar as mãos, olhos e boca (eu babo em cima de papéis). Mesmo em pequenos vilarejos escondidos no meio da Itália, bancas e mais bancas e muitas livrarias. Ou seja, a leitura ocorre e isso me faz ver o que estão lendo.

Uma banca europeia não difere muito de uma brasileira. Tem publicações para todos os gostos e gêneros. A segmentação das publicação faz ter de tudo, mas além disso eu ainda vejo algo que hoje, infelizmente vejo cada vez com menor intensidade por essas nossas bandas: os leitores de bares e restaurantes. Na maioria dos estabelecimentos observei disponíveis os jornais do dia, vários deles, muito mais que revistas e em todos os lugares, disputadíssimos. Muitos se dirigem aos restaurantes, tomam um simples café e leem muito.

Em alguns lugares vejo um aparato especial para abrigar o jornal. Num deles, uma espécie de pasta com cartão grosso e cheio de publicidades, onde o jornal é fixado e assim mais fácil o seu manuseio. Tudo para facilitar a vida de quem estará folheando-o. E me postava a observar a expressão dos leitores, todos absortos, como que em transe. Como é bonito isso, essa espécie de desacoplamento do mundo real, para fixar-se no mundo da leitura. A pessoa como que fica num estágio de flanar no ar, voar ou mesmo mais que isso, pairar numa névoa.

Atrasei os passeios para poder ir parando nas livrarias. Queria algo mais do que uma simples foto na fachada. Entrei e algo diferencia as livrarias daqui do Brasil. Lá ninguém te incomoda, eles não se aproximam para querer saber oi que quer, mas te deixam à vontade. Só quando você vai até um dos funcionários e informa o que deseja, daí ele te percebe. Não consigo ter tranquilidade numa livraria brasileira tal o assédio.

Eu comprei alguma coisa, mas oque trouxe mesmo foram folders, mapas, guias e folhetos de espetáculos. Por onde passava recolhia o que via pela frente e depois quando em casa, fazia uma triagem onde procurava descartar o menos interessante. Mas o que seria menos interessante? Dentro de minhas malas mais de três quilos de papéis. Brincaram comigo que o excesso de peso de nossa bagagem foi em decorrência dos meus papéis. Mas os trouxe para curti-los agora, já no Brasil, onde tentarei reviver cada um, como foi conseguido e o seu conteúdo. Tudo isso requer tempo. Ainda não tive, eles estão todos no fundo de uma das malas e os separarei em breve. Papéis cheios de vida.

Na hora da despedida, numa banca no aeroporto de Amsterdam e depois no de Milão, quase no embarque trago dois jornais, um em italiano, o La República (junto deste uma revista semanal, como fazem aqui no Brasil com algumas delas) e outro só de Literatura. Tento folhear na viagem, demoro para conseguir ler um mero parágrafo, mas no esforço algum sucesso. O cheiro desses jornais, um papel mais fino que o nosso é algo inebriante. Só espero que a leitura deles não me desanime como as atuais publicações golpistas brasileiras, uma mídia vendida. Trago e neste momento estão aqui ao meu lado, onde tento ler algo a cada folga. Na verdade o mafuá é uma imensa reunião de muitos papéis, de toda espécie, gênero, finalidade, tendência e ideologia. Vivo no meio deles todos, daí o amor desmesurado por tê-los em abundância.

Na volta ao Brasil, mal chego no aeroporto de Guarulhos, 5h30 da manhã de segunda, um dos primeiros lugares onde vou é na banca e livraria Saraiva, buscar a Carta Capital. A leio de cabo a rabo no retorno até Bauru, quatro horas e meia de viagem. Estava necessitado de Brasil. No momento de outra coisa, algo distante da leitura e dos papéis, feijão. Ah, como senti falta do danado...

segunda-feira, 5 de março de 2018

FRASES (166)


ENFIM, O POBRE E SOCIALISTA PODE OU NÃO IR PRA EUROPA? – SÓ PORQUE FUI VIAJAR...
Escrevia dias atrás sobre a “putaria” que é hoje o processo dessas indústrias multinacionais, como a Mondeléz em Bauru, fechando as portas e indo para outro lugar, em busca de maior rendimento. Recebo um comentário via meu blog e o reproduzo aqui, com algo mais de minha lavra:

“PUTARIA é um pregador do socialismo fazer um tour pela Europa”, foi o recado deixado por um anônimo, desses despeitados se utilizando de uma denominação usada por mim e enxergando que, socialista, comunista e esquerdista não pode sair pela aí, ou até mais, POBRE tem que permanecer no seu quadrado e não querer alçar voos fora do permitido. Mas qual o quadrado do socialista e do pobre?

A crueldade e bestialidade de quem, primeiro posta algo e não possui a coragem de se identificar. Pobre de espírito, pobre culturalmente, pobre de argumentos e talvez com algum dinheiro para viajar, mas enxergando que somente os abastados possam fazê-lo. Algo que esses nunca irão perdoar no presidente Lula foi ele ter conseguido dar alguma condição aos pobres, o operariado viajar e até mesmo de avião. Inconcebível para esses, alguém ser visto num aeroporto, um autêntico trabalhador brasileiro sentando ao lado de um endinheirado (conseguidos não se sabe lá como), pegando o mesmo vôo. Assim como não aceitam o filho do mesmo operário cursar a mesma universidade de seus filhos.

Adoro provocar os bestiais, os cagaregras, os que se acham, mas na verdade são meros boçais, sem nada a acrescentar ao mundo. Uma pessoa com um argumento tão raso merece o desprezo, pois é daqueles que vendo no trabalhador somente o lugar de subserviência, o de permanecer com a cabeça baixa e sabendo o seu lugar, o de dia após dia, trabalhar e ir pra casa, sem nenhum tipo de lazer fora disso. Imagino o sofrimento desses vendo os trabalhadores conseguindo parcelar suas viagens e saindo pela aí.

Ficou chateadinho por me ver indo bater perna na Europa e se o deixei incomodado, meu objetivo foi alcançado. Todos temos o direito de viajar e fazê-lo dentro de nossas possibilidades, algo cada dia mais difícil, pois aquilo que Lula conseguiu, já foi destruído pelo desgoverno do ilegítimo Temer. O pobre hoje volta a viver sem perspectivas e isso deve alegrar gente como o que me posta a frase, como a me querer constranger. Ele não me constrange, aliás me incentiva a torcer minha vida do avesso, para tentar continuar indo a lugares por onde não conheça e lá amplie meus conhecimentos, troque experiências, conheça outros iguais a mim e nas mesmas condições.

Tive a rica oportunidade de ver algo a me estimular nessa viagem, o quanto o operariado europeu viaja, inclusive para o Brasil e não causa constrangimento, pois isso é normal, algo cultural. Possuem condições, a paga que recebem lhes permitem isso. Independente de ser um operário comunista, socialista ou mesmo liberal, vi isso e é o que quero para os do meu país. Aqui uma classe quer impor que os aeroportos são só seus. Não podemos entrar nos aviões, nem sair fora da rotina a nós imposta.

A pobreza desse imenso país continente vem de pessoas pensando e agindo dessa forma estreita, rasa, pequena, caolha. Poderia ficar horas debatendo esse tema, mas isso cansa e creio, com as poucas palavras aqui utilizadas já tenha conseguido desarmar a bestialidade dos que acham donos de tudo. Não são e gente com eu lutamos por um outro mundo exatamente para isso, para ampliar essas oportunidades para todos e não somente para uma casta. Eis um bom motivo para lutarmos contra o capitalismo e o neoliberalismo. Eles não nos querem viajando e nós queremos fazer de tudo, inclusive viajar, daí o capitalismo é excludente e o socialismo inclusivo. Não preciso dizer mais nada.A conclusão é somente uma: o Brasil está mesmo muito doente.

HPA - voltando hoje para sua indefectível Bauru. (Nas fotos alguns dos meus passeios para irritar mais um bocadinho o meu desafeto).

domingo, 4 de março de 2018

RELATOS PORTENHOS / LATINOS (49)


VENEZA PELOS OLHOS DO HPA - O REGISTRADOR MALUCO

Às vezes eu escrevo e noutras eu tento transmitir a minha mensagem de outras formas e uma delas é pela fotografia. Não sou fotógrafo e nem tenho a pretensão de sê-lo. Sou amador em muitas coisas que faço vida afora, na fotografia uma delas e assim sou feliz. Meu negócio é registrar as pessoas, principalmente as consideradas por mim no Lado B deste mundo. Minha justificativa é plausível: para registrar as consideradas socialites já existem paparazzi aos borbotões, mas para registrar as pessoas mais simples, aquelas que conduzem o mundo, mas são esquecidas e menosprezadas, poucos registros.

Neste caso, em viagem por um lugar onde nunca antes havia botado os pés, fui além e fiz registros mais do lugar do que das pessoas e espero não ter seguido pelo caminho do lugar comum. Minha intenção foi bem outra, a de registrando meus passos construir uma crônica visual dos lugares por onde estive. Daí escrevo pouco e registro muito. Num só dia nessa cidade mais que fantástica, Veneza, a dos canais oceânicos, esquentei minha resistente maquineta fotográfica e cliquei tudo. Quem saiu ganhando foi a companheira de todas as horas, Ana Bia Andrade, quase sempre na frente da lente e daí, ela em quase todos os ângulos. A visita se deu no último sábado, 3/3.

O que dizer de Veneza além de tudo o que já foi escrito e fotografado. Pouca coisa acrescentaria e não saberia fazê-lo a contento, até porque estava deveras emocionado. Olhava para aquela imensidão de vielas, braços de mar cortando aquilo tudo e minha imaginação viajava no tempo e no espaço. Como teria sido possível levantar aquelas gigantescas construções dentro de um braço de mar e séculos atrás, quando a tecnologia nem guindastes possuía? O braço humano fez coisas inimagináveis mundo afora e uma dessas ocorreu na Itália, toda recoberta de obras gigantescas. Tudo aquilo teria sido possibilitado pela mão de obra escrava ou já existia paga para o trabalhador executar o serviço pesado? Nem mesmo com toda leitura que já fiz sobre o período de levantamento da cidade, a cabeça ferve de indagações. As próprias igrejas, uma mais suntuosa que a outra, verdadeiros museus a céu aberto, com paredes com mais de metro de grossura, com certeza foram levantadas através de braços muito mal remunerados. Se os artistas ganharam para ali deixar suas obras, qual teria sido a paga para os trabalhadores levantar aquilo tudo?

Além das indagações de praxe, algo me veio à mente enquanto andava por lá. Uma velha história. Não consigo lembrar se a ouvi de alguém ou a li em algum livro, talvez até frase famosa. Lembro-me dela, mas não me recordo a autoria. Ela diz respeito em como o turista chega aos lugares onde visita. O viajante de hoje quando quer ir, por exemplo, para Buenos Aires, pega um rápido voo e em questão de poucas horas é despejado no centro daquela cidade e ali começa o seu tour. Já o viajante de cem anos atrás ao fazer o mesmo percurso demorava meses e ia sentindo pouco a pouco as diferenças regionais, até chegar ao seu destino. Ele vinha observando as estradas, as cores, sentido os cheiros todos, conhecendo gente de toda espécie pelo caminho. A demora sempre é um problema, mas a rapidez tira também muito do brilho de não reconhecer algo nas entranhas do lugar onde você está.

Na viagem que fiz à Itália vim direto para Bologna e de lá, fiz o percurso como antigamente, chegando de leve, aos poucos, conhecendo os ricos detalhes, as beiradas de cada cidade. Não cheguei diretamente nelas e ao conhecê-las pelas rebarbas, tenho a mais absoluta certeza, sai ganhando. Conheci algo mais, aquilo que o turista normal deixa de conhecer. Em Veneza e em todas as outras cidades por onde estive isso aconteceu e em cada lugar um aprendizado novo. Com as fotos espero ter passado a todos um pouco disto. Foi essa minha intenção, mostrar algo além dos pontos turísticos.

Tenho mais a dizer e como sei, essa viagem não se encerra com meu retorno pra Bauru, ela será contada em drops, aos poucos, como gosto de fazer. Reconheço também escrever muita bobagem, mas alguma coisa sempre se aproveita dessa gororoba toda. Façam, por favor, mais que um esforço extra e tentem estraim proveitos dessas mal traçadas.

sábado, 3 de março de 2018

UM LUGAR POR AÍ (106)


A ELEIÇÃO ITALIANA E A TENTATIVA DE IMPEDIR ALGO XENOFÓBICO
Presenciei o espírito italiano em ação para a eleição ocorrida no domingo passado, 4/3, justamente o dia em que retornava ao Brasil. Me chamou a atenção os locais disponibilizados no país para a propaganda eleitoral. Por lá não se pode colar propaganda em qualquer lugar. Impensável isso. Os lugares são determinados e na maioria das vezes, painéis são colocados em locais públicos, de grande circulação, como entrada de estádios, praças, feiras e parques municipais. Ali os candidatos espalham sua propaganda. Em outros locais as listas dos partidos e candidatos. Olhava para aquilo tudo e fui me informar do que estava por detrás do pleito.

Tive o privilégio de permanecer por 15 dias numa das regiões onde a esquerda mantém predomínio, a Romana Italiana. Se ali naquele reduto onde muita transformação ocorreu dentro da história italiana algo paira no ar, imagino no resto, diante desse mundo com uma forte tendência para pender para o lado da direita xenófoba. Cresci e vivi na adolescência vendo grandes partidos de esquerda florescendo por vários países da Europa. Tenho muita lembrança de um grande líder comunista italiano, Enrico Berlinguer, que soube conduzir parcelas significativas da população para a vertente social. E agora, percebo os italianos rejeitando aquele projeto e tentados a apoiar a volta do partido do indefectível Berlusconi ao poder, uma espécie de Bolsonaro, só que milionário. Berlusconi já comandou a Itália, é uma espécie de Silvio Santos que chegou ao poder e age da mesma forma do animador de auditório brasileiro. Isso sim é populismo na sua essência mais perniciosa.

De tudo o que consegui captar nas andanças e conversas por aqui, sinto que o italiano está temendo o atual momento de imigração em seu país. Nos momentos em que o país estava vivendo seus bons momentos, esse tema era tratado de outra forma, mas agora, quando o cidadão local está com problemas e ocorre a chegada de muitos desses de vários lugares do planeta, subsidiados pelo Estado no básico, noto reclamações. O país está um tanto dividido, de um lado os que enxergam nisso o mal do pais e do outro, os que apóiam a integração, como sempre fizeram. Tanto lá como aqui no Brasil, o discurso xenofóbico dominou a campanha, em muitos momentos ofensiva e dividindo o país. Enfim, chegaram 600 mil imigrantes nos últimos tempos e isso tudo dominou o tema eleitoral.

Depois de anos de integração gradual, a crescente hostilidade em relação aos estrangeiros está na pauta do dia e talvez venha a ser o fiel da balança da eleição. Nesse momento, quando muitos procuram alguém para culpar pelos problemas, talvez o voto recaia sobre a eleição de políticos mais conservadores. Pego jornais gratuitos aqui na região onde estou hospedado, distribuidos até nos supermercados e neles vejo que as redes sociais estão ajudando a ampliar a toxidade da campanha. A Itália é uma país multicultural e os ataques ainda pipocam de pequenos grupos, mas influenciam o debate e representam perigo. Algo me salta aos olhos, os partidosa de esquerda já foram muito fortes e hoje, nem tanto, assim como a luta contra o racismo e a discriminação. Diante de tudo isso, o resultado do pleito é uma grande incógnita. Por fim, algo questionado por mim, o uso do voto eletrônico nem é questionado na Itália. Eles preferem continuar confiando no papel e nas recontagens quando necessárias, algo impensável para o modelo implantado no Brasil e questionado mundo afora.

HPA - Esse texto foi escrito antes de tomar ciência do resultado das eleições italianas. Sobre o resultado do pleito italiano, nada melhor do que acompanhar pela matéria de hoje do melhor jornal da América Latina, o diário argentino Página/12. Eis o link da edição de hoje: https://www.pagina12.com.ar/99674-una-italia-antisistema...

sexta-feira, 2 de março de 2018

CENA BAURUENSE (170)


AINDA SOBRE O FECHAMENTO DA MONDELÉZ - O OUTRO LADO DA MOEDA
Caem de pau nos costados do prefeito Gazzetta. Também enxergo, algo mais poderia ser feito para tentar impedir o fechamento da Mondeléz em Bauru e o desemprego de 1 mil pessoas diretamente e 3 mil indiretamente. Ele tem sua culpa, enfim é o prefeito, fez promessas de campanha e elas caem por terra, uma a uma. Disso tudo muitos já discorreram e alguns com muita propriedade. Analiso a questão por outra vertente. Antes leiam isto: https://www.jcnet.com.br/…/mondelez-saira-de-bauru-anuncia-….

O capitalismo, como até as pedras do reino mineral sabem é cruel, insano, insensível, frio, calculista e pragmático. Veio para instalar entre nós o paraíso para uns poucos e o inferno, o “pega pra capar” para a imensa maioria da população, brasileira ou quiçá, qualquer outro lugar. Hoje, para uma indústria do porte desta que hoje bate as asas se instalar num local é aberto um declarado e explícito processo de prostituição, onde as autoridades locais necessitam abrir suas pernas ao máximo, restringindo ao mínimo impostos e até mesmo alterando a legislação existente, do contrário nem se inicia uma conversa. Dou a isso o nome a isso de PUTARIA, mas alguns chamam de leilão ou até mesmo livre negociação entre as partes interessadas. Uma verdadeira prostituição, não a que habitualmente conhecemos, mas outra, imensamente mais perniciosa que a venda do sexo. Nessa passa-se por cima da legislação existente e quetais. Grupos internacionais não estão interessados em legislação local e sim, somente nos seus lucros. Essa a face do capitalismo vigente, a crueldade, sem nenhum tipo de piedade.

Observem os senhores se os grandes capitalistas locais não agem do mesmo jeito e maneira. A Plasútil e o Cintos América, por exemplo, com raízes profundas na aldeia bauruense já deram demonstrações de que, em breve baterão asas em definitivo e a Tilibra, hoje não mais nas mãos de bauruenses, também está no mesmo caminho. Ameaças pipocam rotineiramente pela aí, ou seja, entraram no jogo mundial do capitalismo, onde o que vale mesmo é estar num lugar onde se explore mais e o lucro ocorra em abundância. Se isso não ocorre aqui, tchau, sem delongas. Fazem isso por todo o lugar e o ocorrido aqui e em Piracicaba (outra fábrica deles é fechada lá) são os exemplos mais recentes. Esperavam os senhores o que dos empresários, declarações de amor por Bauru e seu clima favorável para seus negócios. Deixemos de ser bestas quadradas.

Se as pernas aqui não foram devidamente abertas como queriam os próceres dessa empresa, as dali o fizeram a contento e é pra lá que se instalarão. Simples assim. O prefeito Gazzetta chama isso de “guerra fiscal”, mas vou além. Isso é derivado da pouca vergonha do capitalismo na sua pior vertente, a neoliberal predatória. Esse é o mundo vigente hoje, segundo muitos o das grandes oportunidades para tudo e todos, mas como se vê na prática, o buraco é sempre mais embaixo. Com a extinção da legislação trabalhista, obra do desGoverno de Temer & Cia, o agravamento da questão. Não existirão governos estaduais ou federal em condições de efetuar qualquer tipo de defesa dos interesses pátrios, pois esses também são usurpadores e vendilhões. Ou seja, pouco a fazer, a situação é a do caçador, “no mato e sem cachorro”. Defendam a belezura do capitalismo, lindo mundo de ricas oportunidades, mas ao menos entendam como se dá o processo e as regras bem próprias de exploração do ser humano.

Muitas outras ocorrências idênticas a da Mondeléz ainda estão por vir. É esse modelo o mais adequado, segundo leio em variados lugares, portanto, vivamos com ele e tentemos ao menos a busca da felicidade cada vez mais miseráveis, pois nem a justa paga pelo trabalho será mais como antes. Nenhum prefeito poderá fazer nada diante dessa situação, ao menos que abra suas pernas além da envergadura possível, as arregasse até expor as próprias vísceras. Os capitalistas estão sempre querendo mais e mais e dane-se o resto, essa a única regra que seguem.

quinta-feira, 1 de março de 2018

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (125)


ALGO DO PROBLEMA SOCIAL NA FRANÇA E ITÁLIA
Da França conheci só Paris e da Itália conheci umas dez cidades da região Emilia Romana. Na França foram dois dias e na Italia serão quatorze. Falo do que vi e vejo, sem fazer comparações.

Nas ruas da capital francesa, sujeira nas ruas, lixo nas beiradas de estradas e pedintes pelas ruas. A questão social está bem aflorada na capital e refugiados, principalmente negros perambulam pelas ruas, proximidades das estações de metrô, trens urbanos e centros comerciais. Vejo e tento perceber pelo que vejo, algo de uma desilusão, talvez desamparo. Muita gente com aquele ar perdido, sem rumo nas ruas. Fui abordado por alguns pedintes. A gente sente no ar alguma tensão, sinal de coisa não resolvida ou até mal resolvida. Logo na chegada à cidade, num domingo, por volta das 12h, no ônibus circular que nos deixaria no centro me deparo com esse rapaz sentado numa pilastra, ponta de viaduto, cabeça baixa e ar de desamparo. Ana me pede cuidado ao fotografá-lo, mas não resisto, espoco o flash. A imagem me diz muito e escreveria muito sobre ela. Se a primeira impressão é a que fica, ela não me sai da cabeça. A cena se repetiu pelas ruas francesas e o mesmo não ocorre nas ruas das cidades italianas. Muito já li e até assisti em filmes e documentários sobre a situação da periferia dos grandes centros franceses e de uma turba que não consegue se integrar, por não conseguir ou até por não lhes ser permido nada nessse sentido. O viver à margem é algo parecido em qualquer lugar do mundo, na França, guardadas as devidas proporções, muita similaridade com o Brasil.

Como disse, já estive em aproximadamente dez cidades italianas e somente em uma um pedinte se aproxima para pedir dinheiro. Foi na feira de Lugo. Rosangela Mazzotti, nossa anfitriã, me diz algo, cujos políticos tentam também impor no Brasil: "Aqui é proibido pedir esmolas e quem o faz é multado". A minha pergunta será sempre a mesma: "Mas se pede dinheiro é por nada ter e como pagaria uma elevada multa vivendo na miséria...". Os refugiados na Itália estão em abrigos, mantidos pelo Governo e por essas residências serem localizadas no meio de área residencial normal, percebo causarem certo constrangimento em parte da população. Muitos não acham normal eles viverem com tudo bancado pelo Estado. Algo muito parecido com o que ocorre no Brasil. Num estado de anormalidade, o Estado tem que ser compreensivo com os desiguaise em recepcioná-los dignamente. Aplaudo a iniciativa do Governo taliano. As cidades italianas são muito limpas e nas regiões onde estive, pouquíssimo lixo nas ruas. As multas por aqui são muito altas e todos preferem não desrespeitá-las. Não existe nada parecido com nossas favelas e ouço, nem seria permitido. Algo que me intrigou por aqui foi ver, após comentarem e me certificar: poucos italianos se utilizam do transporte urbano, ônibus ou trens. Preferem fazê-lo com seus próprios carros nas pequenas distâncias e quem mais se utiliza desses serviços são os refugiados ou mesmo os imigrantes. Vi isso nos trens, alguns italianos e muitos imigrantes, os sem veículo particular.

São observações feitas sem nenhum aprofundamento sociológico, mas somente o vislumbrado com a sensitividade do meu olhar, em algumas vezes apurado, noutras nem tanto. Valem para o início de uma boa discussão.