segunda-feira, 24 de agosto de 2015

UM LUGAR POR AÍ (71)


É PARA LÁ QUE QUERIA IR EM BREVE...

“Muitos podem achar um absurdo, mas estou com uma fixação: quero conhecer melhor o Paraguai. Quero iniciar por Assunção e diante de uma rara oportunidade, talvez isso ocorra ano que vem. Eu e Ana Bia Andrade alinhavando as possibilidades e para aquecer tudo, eis um Caderno de Turismo, do Página 12 de ontem, botando mais lenha na fogueira. Vamos paraguaiar???”.

Sim, reconheço e assumo adoro as quebradas do mundaréu. Elas sempre me chamaram muito mais a atenção do que as calçadas da fama. Tendo que optar entre Havana e Nova York, alguns me consideram doidivano, mas sempre optarei por Havana. As andanças nos bairros mais empobrecidos, mas ricos na sua diversidade sempre me chamaram e muito a atenção. Algo me tortura por dentro e por fora nos últimos tempos: não conheço Assunção no Paraguai e gostaria muito de passear por lá.

O escrito no primeiro parágrafo eu publiquei hoje no facebook e rendeu comentários interessantes. Ufa! Ainda bem, nem todos desconsideram o Paraguai. Percebi e estou dentre os que enaltecem particularidades das mais interessantes do país vizinho. Quando se fala em política, daí sim, tudo a mesma nhaca, uma problemática sem fim de governos e mais governos envolvidos com o que de pior temos, mas quando se fala em conhecer as entranhas de um país, daí o interesse. Isso em mim se deu desde o primeiro momento em que tomei conhecimento de algo nos bancos escolares, o cruel massacre perpetrado pela tal da Tríplice Aliança com o povo Hermano. Praticamente dizimamos a população masculina daquele país. Hoje leio que Solano Lopez foi um tirano insano, cruel e meio fora do pino, mas seu Paraguai era o país mais avançado quando ainda estávamos dentro de um regime imperial. O avanço lá deles era mesmo insuportável e cravamos a espada no coração do Paraguai e demos uma substancial contribuição para ele ser o que é hoje, isso de reduto da falsificação global. O “made in Paraguai” tem muito de uma mãozinha brazuca.

Depois, quero muito tomar conhecimento com esses laços “Guaranys” do país vizinho. Algo muito mais evidente do que o nome de um time de futebol que desclassificou recentemente alguns grandes brasileiros e quase chegou ao final de uma Libertadores da América. Enfim, o estádio lá deles chama-se Libertadores del Chaco e esse emblemático nome diz muito mais do que um nome homenageando um campo de bola. Entender isso é também entender um pouco daquele povo. Quero entender e se possível ir lá conhecer o Laino, visitar as feiras populares, principalmente a do filme “Sete Caixas”, que assisti recentemente e gostei muito. Estou amadurecendo isso tudo na minha cabeça e além do retorno para Havana, vou juntar forças para escapulir pelas beiradas paraguaias e depois, se tudo der certo, conto aqui.

Leiam a matéria do Página 12 clicando a seguir: http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/turismo/9-3154-2015-08-24.html 

domingo, 23 de agosto de 2015

CHARGES ESCOLHIDAS A DEDO (99)


PROVOCAÇÕES DESNECESSÁRIAS*
* As duas charges ilustrativas são argentinas, a primeira de Daniel Paz e a segunda de Miguel Rep, ambas sacadas do diário Página 12.
Escrevo até demais da conta do que deveria fazê-lo, mas procuro não fazê-lo como se fosse o dono da verdade. Quando o faço adoro receber uns puxões de orelha e pisões no calo. Todos que o fazem assim devem permitir o tranco, até para não se achar que só o que dizem é o mais recomendado. Ouço muito e reconheço meus erros. Procuro fazer o mesmo com alguns diletos amigos que, em alguns momentos escrevem até sem reflexão do quanto estão sendo prejudiciais com provocações desnecessárias. Tenho alguns amigos que, inadvertidamente criticam abertamente, por exemplo Cuba, como se o que lá ocorre fosse um descaminho total e hoje ao abrir o facebook, eis uma desnecessária estocada de Almir Ribeiro no boliviano Evo Morales. Posso e já o fiz, mas me resguardo para continuar fazendo reservadamente com ele as críticas todas que possuo com o seu PSTU. Nada construirei de positivo, ainda mais por essa via, ficar instigando-o desnecessariamente. Bastou ele ver uma foto de Evo, um elogio de minha parte e ele foi lembrar justamente de uma sua pisada na bola, nem se lembrando de tudo o que foi feito pelo índio ao longo dos seus governos para transformar a Bolívia num outro país. Nessa semana estive numa palestra com um jornalista que esteve no Equador, o Tadeu Breda, escrevendo um belo livro sobre a chegada do Correa ao governo. Todos sabemos que hoje Correa está um tanto mudado, mas me disse algo servindo para Cuba, Venezuela, Equador e o boliviano Evo. Começo a fazer uso da frase dele aqui e agora: "TENHO MIL COISAS CONTRA EVO, MAS TENHO DEZ MIL COISAS CONTRA COMO ERA A BOLÍVIA ANTES DE EVO E COMO AGE A OPOSIÇÃO A ELE". Claro que não existe o socialismo perfeito, assim como PSTU não é o primor de excelência nesse sentido, todos somos humanos, falhamos muito na execução de tudo o que lemos uma vida toda. Sabe aquilo do "A teoria na prática é outra". Prefiro sacar que somos assim, bons de teoria, ruins de prática. Quero cada vez mais reunir minhas forças para discutir com verdadeiros adversários, os bestiais todos que estão nos provocando nos mais diferentes lugares e acho que poderíamos baixar a guarda de cutucar quem ainda faz algo de bom, mais do que palatável pela transformação da crueldade do mundo onde vivemos. Coloco Evo nesse patamar. Vamos todos refletir isso tudo nesse começo de domingo e convido tanto Almir como tantos outros, para continuarmos essa conversa lá na Feira do Rolo nos encontrando na Banca do Carioca daqui a instantes, folheando livros e depois chopeando um Germania na esquina, ouvindo o sanfoneiro dono do estabelecimento mais sombreado do lugar.

ESSE O TEXTO EM QUESTÃO QUE ME FEZ ESCREVER O DE CIMA:
 "Morales: “Não vamos permitir golpes de estado no Brasil”
Do Correio Braziliense: O presidente boliviano, Evo Morales, advertiu nesta sexta-feira (21/8) para o risco de um golpe de Estado no Brasil, o que “não vamos...
WWW.DIARIODOCENTRODOMUNDO.COM.BR
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Henrique Perazzi de Aquino - ótimo essa solidariedade latinoamericana
Curtir · Responder · 14 h

Almir Ribeiro - Morales é aquele presidente que atacou covardemente o povo guarani, para permitir a exploração industrial de petróleo em terras indígenas?
Curtir · Responder · 9 h
Henrique Perazzi de Aquino

Henrique Perazzi de Aquino - Não. Foi o que fez o contrário e hoje a Bolívia é um país mais liberto, ou tu preferes aquele país como era antes? Se preferes, questão de escolhas. Uma pisada na bola, revertida não inviabiliza e nem deve ser usada para desqualificar tudo o que foi feito. Eu não gosto de quem age assim."


ADORO AS INICIATIVAS AUSPICIOSAS...
Essa uma delas. Veja se algo nesse sentido não poderia ser mais do que interessante para os interesses latinos.

Pensemos em como apoiar tal iniciativa.

Leiam a seguir: http://www.pagina12.com.ar/…/univ…/10-279824-2015-08-21.html

JORNALISMO HOJE, UMA MESA REDONDA, EQUADOR E ANDANÇAS LATINAS
O convite recebido estava assim titulado: “Movimentos Sociais: Possibilidades de Cobertura e o Mercado Editorial Atual”, mesa redonda entre dois jornalistas, a amiga Lais Modelli e o botucatuense Tadeu Breda, ambos com atuação pelos ramais, hoje um tanto tortuosos da dita Imprensa Alternativa e Independente, ocorrendo no último dia 19/08. Uma mudança de local e eu chegando atrasado. Sala lotada e com muitos estudantes sentados no chão, um ótimo sinal do interesse existente em debater o tema. Cito duas coisinhas bem legais ditas por ambos, diante de um quadro um tanto tétrico para o jornalismo nos tempos atuais, onde o mercado não só encolheu, como mudou de rumos e postura. Pior que tudo, paga bem menos que num passado não tão distante. Olhar para o lado e ver a expressão daqueles jovens todos ouvindo algo desalentador para a categoria, que terá que cavar possibilidades e repensar muita coisa para seguir na profissão é de doer até nas profundezas da alma.

Veja o que saquei da fala deles:

LAIS: “A grande dica que posso dar dentro da precarização existente hoje no meio jornalístico é talvez com a minha experiência. Eu tento ir emplacando meus textos nas mais diferentes publicações e tenho por procedimento conhecer bem a linha editorial do veículo onde quero tentar vingar meu texto. Compro umas cinco edições anteriores, vejo a linha e escrevo dentro de um padrão que sei de antemão sofrerá pouca rejeição. Tenho me dado bem. Escrevo regularmente para a Caros Amigos, já tive textos publicados na Piauí e Marie Claire. Se preparem muito intelectualmente e emocionalmente para essa profissão, que ainda é um luxo. Tirando tudo o que fizeram com a nossa profissão nos últimos tempos ela continua sendo muito prazerosa. Não existe formulas mágicas para resolver nossos problemas, eles estão aí, precisamos encará-los e buscar as saídas. Elas existem, devemos insistir, tentar sempre”.

TADEU: “Encolhido o mercado está, evidente e desalentador. Meu último emprego fixo foi na Brasil Atual e sofria muito com os políticos que rejeitavam dar entrevista para nós, todos da linha direitosa, tipo o Serra, por exemplo, que escolhe quem o entrevista e se fizer alguma pergunta desabonadora, pede a cabeça do jornalista. Montei junto com amigos uma pequena editora, a Elefante e estamos produzindo em pequena escala, quase artesanal, produtos editoriais e distribuindo também de forma independente. Viajamos pelas brechas, buscando meios mais baratos, inclusive para hospedagem. Meu livro sobre o Equador é nessa linha e tudo o que fazemos é quase sem custo. Melhor do que você se precarizar num projeto alheio, tente algo seu, assuma alguns vazios existentes e tente. Gente sedenta por boa leitura sempre existirá”.

Não dá mais para sonhar alto em se dar bem numa profissão onde o preço pago por caracteres escritos foi reduzido drasticamente e sem esperanças de elevação num curto espaço de tempo. Muito se falou sobre os meios alternativos, o incentivo para isso e também para a tentativa de iniciar algum trabalho mais contundente via projeto com Editais, cujos valores podem não ser altos, mas possibilitam a realização de algo de grande valia e servindo muito para evidenciar o nome de quem o fez.

Na saída, compro o livro do Tadeu, cujo tema muito me interessa, “O Equador é Verde – Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento” (Somente R$ 20 reais - lindo de cabo a rabo, Elefante Editora, 2011 –www.latitudesul.org). Na dedicatória, enquanto conversávamos sobre a jornalista brasileira presa lá, ele tascou isso para mim: “Para Henrique, um livro sobre o começo de um Governo que hoje tomou outros rumos. Com um abraço, Tadeu 08/2015”. Da Lais (http://www.brasilpost.com.br/lais-modelli/), instigado pelas suas andanças pelo interior do México, chegando sózinha até Chiapas, algo apaixonante, pois demonstra que vai aonde seu coração mandar. Diz estar preparada para uma nova andança latina (já instigando as publicações onde acha que pode publicar algo a respeito) e quando lhe falei do desejo de “velhinhos bauruenses” em brevemente aportar em Cuba, pediu para ser integrada ao grupo.

Foi uma noite e tanto.

sábado, 22 de agosto de 2015

MEMÓRIA ORAL (185)


SEIS HISTÓRIAS AQUI REUNIDAS, AS TAIS QUE VOU PRODUZINDO COMO LADO B DE BAURU


1.) LELO, O BARBEIRO DA VILA INDEPENDÊNCIA E SUA TRÁGICA MORTE
Viajei quase duas semanas entre o final de julho e começo de agosto e muita coisa não tomei conhecimento no dia exato do acontecimento dos fatos. Com uma pilha de jornais guardados aqui em casa, anteontem comecei a folhear os exemplares do Jornal da Cidade desses dias de ausência. De tudo o que folheei, um texto fiz questão de recortar e guardar, aliás dois textos jornalísticos e junto deles ressaltar também o registro fotográfico. Sentida e dolorosa matéria, triste demais a história, dessas de estragar o dia, mês e ano. Mais um caso da bestial violência que nos assola e com um fim dos mais trágicos, muito doloroso. Conheci essa pessoa e ele um digno Lado B de Bauru, merecedor de todo destaque desse mundo.

DIRCEU BENTO, 78 anos era barbeiro até dias atrás. Figura conhecida na cidade, seu LELO, como o conheciam, manteve por muitos anos uma cadeira de barbeiro num salão que funcionou na quadra dois da rua Virgilio Malta. Um bonachão e como a jornalista Marcele Tonelli, na matéria do JC acertadamente o descreveu: “atendeu de coronel a faxineiro”. Quando o salão no centro fechou levou tudo para sua própria casa, na vila Independência e ali deu continuidade, com cadeira e espelho transportados para sua sala. Ali atendia seus clientes, dentro do seu próprio lar. Grandalhão, muito conhecido na região, pessoa tranquila, sem nunca ter se desentendido com ninguém, foi brutalmente agredido num assalto e muito machucado, amparado pelos seus, tentava dar à volta por cima. O efeito das pancadas, não somente as visíveis, mas muito mais as internos, o afetaram muito e não resistiu, veio a falecer dias atrás. Dessa bestial violência não existe nem mais o que dizer, cada vez mais e mais atingindo pessoas totalmente desprotegidas e indefesas. Um péssimo sinal da degeneração desse nosso modelo de vida capitalista. O ter, o querer ter, o fazer tudo para ter, ter e cada vez mais, ter e ter. Isso na cabeça de gente à margem dessa possibilidade, resulta em violências hediondas, inexplicáveis. Dessa vez foi com seu Lelo e na mesma semana em que foi agredido, outro tanto também o foram, nessa roda viva sem parada. O que parou, infelizmente foi ele, de viver. Quanta boa história passou pelas suas mãos, pela sua cadeira. Na foto cedida a mim pelo Alex Mita, do JC, que esteve em sua casa e o viu com vida, o retrato triste do registro que não sai mais da cabeça da gente.

2.) JOÃO DO ESPETU'S BAR SE FOI AOS 39 ANOS
É muito mais triste ver gente partindo desta e encerrando seu ciclo nesse mundo mais cedo do que o previsto. 39 anos é tempo curto demais da conta para uma existência humana. Merecemos mais, ainda mais para mim que, só acreditando nessa forma de vida e nada mais. Nesse final de semana mais um que se foi, alguém que esteve próximo durante algum tempo, sempre na labuta, resistindo com seu pequeno comércio a uma avalanche de condições adversas. Resistiu, tropicou, bateu de quina, levantou, sacudiu a poeira e tentava a cada recomeço dar mais uma volta por cima. Nessa última, a lamentável doença, a mais implacável de todas, o levou de forma tão rápida que nem tempo de uma despedida tivemos. Escrevo dele.

JOÃO VIANA NETO é simplesmente o JOÃO, não mais um dentre tantos joões, mas o João contador, que sabia fazer a escrevinhação contábil e dessa forma ganhava sua vida. Um João que tentou abrir outras frentes de trabalho, certa vez com um lavacar, depois arrendado, depois um bar, ali junto aos seus outros negócios, na Marcondes, entre a Araújo e a Antonio Alves. Bolou o nome, Espetu’s Bar” e tentou enquanto pode levantar algo numa área degradada, difícil e cheia de vazios noturnos. Por um tempo fez sucesso, depois definhou. Ria junto de tudo o que acontecia ali nas mesas, cantava junto da música ali propiciada e dessa forma tocava sua vida. Era um sujeito de bem com a vida, fruto de algo construído ao longo do tempo, iniciado em algo inesquecível, as aulas de teatro junto de Celina e depois, Paulo Neves. Elas o tornaram mais humano, sensível e cordial. Nunca o vi bravo, mesmo diante daqueles momentos onde a situação exige aspereza. João sabia navegar com seu barquinho. Vivendo dentro de uma família evangélica, soube conciliar a devoção de uns, com o que lhe vinha à mente, viver a vida de uma forma mais ousada, procurando não causar admoestações nem de um lado nem de outro. Era o que sempre foi, sincero consigo mesmo, suas ideias e nos gestos, a melhor forma que possuía para se expressar. O câncer o levou de forma abrupta, cruel e rápida. Para mim, fica na lembrança o João do Espetu’s, um cara que não queria nada além de ser feliz, sem grandes arroubos, fazendo de sua vida algo onde ia irradiando amizades por tudo quanto é lado. Fui um desses.

3.) HERNANI TROUXE PARA BAURU A TELEVISÃO PARANORMAL
Queria lembrar uma velha história de uma pessoa que conheci muitos anos atrás em Bauru, talvez coisa de uns vinte anos, daí para mais. Um paranormal, ou melhor, um grande estudioso do tema. Cheguei até ele pelo motivo de meu ofício da época, as chancelas. Por intermédio delas viajei boa parte desse país, peripécias a merecerem um livro. Essa história que aqui relato hoje aconteceu aqui mesmo em Bauru e desde o primeiro momento em que conheci esse senhor foi impossível não nascer ali um interesse grandioso pelo tema em que ele esteve envolvido sua vida quase toda. Voltei várias vezes em sua casa, transformada em Instituto e depois, acabei perdendo o contato. Para saber dele é muito fácil, basta clicar seu nome no google e aqui escrevo o que sei.

HERNANI GUIMARÃES ANDRADE era engenheiro, mas ficou muito conhecido país afora por causa de outra especialidade, pelo fato de ter sido um grande parapsicólogo espírita brasileiro. Nasceu em 1913 em Araguari e veio a falecer em Bauru em 2003. Morava na avenida Nossa Senhora de Fátima, lá no meio do coração do Jardim América e lá também funcionava a sua cria, o IBPP – Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas. Mas o que seria isso? A grossíssimo modo ele conversava com os mortos (ou seus espíritos) pelos aparelhos de TV, numa sintonia com o além. O charlatanismo você detecta logo de cara, o que não era o caso desse professor. Um estudioso do tema e que acabou aportando em Bauru, acredito que por causa da filha que para cá veio e o trouxe junto. Ele demonstrava cientificamente, segundo sua concepção, a existência da reencarnação, as tais ações paranormais, trabalhando com experiências com campos magnéticos. Um assunto magnetizante. Escreveu mais de vinte livros sobre o tema, uma sumidade nesse quesito, consultado por gente do mundo todo e aqui tão pertinho da gente. Não divulgava muito seu trabalho por aqui, pois 99% do que produzia era para consumo longe daqui. No youtube tem muita coisa dele, mas escolhi essa com uma entrevista muito da interessante: https://www.youtube.com/watch?v=PCzK1MO5bPY. Um aparelho que ele construiu para testar sua hipótese espírita. Simples, voz pausada, olhar meio que distante, viveu seus últimos anos aqui na cidade e nem sei se isso ficou devidamente registrado nos anais de nossa História. Ganhei na época um livro dele e o procurei muito aqui pelo meu bagunçado mafuá, mas deve ter se perdido ao longo do tempo. Fico com a lembrança de uma doce pessoa, acreditando muito no que movia sua vida.

4.) LUIZ E SEU REDUTOR DE DISTÂNCIAS, UMA MOTORIZADA BICICLETA
Um facilitador para o seu dia a dia, encurtador de caminhos que o leva de um lugar ao outro da cidade, em busca de trabalho ou mesmo a execução dos mesmos. Quer algo melhor que isso para diminuir as distâncias de quem labuta, sua a camisa sem poder escolher o que fazer e como fazer? Esse aqui retratado hoje me contou das economias feitas, do que deixou de consumir por um tempo, tudo para poder adquirir uma peça, uma bicicleta motorizada e com ela atravessar Bauru. Quando ouvir isso, saquei logo da máquina e tirei uma bela foto dele e do seu meio de locomoção. Ambos enfeitam esse meu texto de hoje.

MANOEL LUIZ RODRIGUES , 44 anos é diarista, trabalha por conta própria e dessa forma sustenta sua família. Com pequenos serviços acertados aqui e ali, faz pequenos reparos em residências, desde a limpeza de calhas, telhados, alguma coisa de pedreiro, encanador e limpeza generalizadas, até de terrenos. Sua rotina não escolhe lugar para trabalhar e tudo depende do que for acertado, daí se desloca e executa. Até bem pouco tempo seguia para os locais de trabalho pedalando uma bicicleta, hoje continua com uma, mas com um pouco mais de conforto. Investiu um pouco em si mesmo, economizou e juntando R$ 1 mil reais comprou uma bicicleta motorizada. Agora se cansa menos e reduz os espaços entre sua residência, nos altos do bairro Bela Vista e onde precisa ir. “Outro dia estava lá no Tangarás e sem nenhum tipo de problema. Gasto dois litros por semana e não estou com ela ligada a todo instante. Pedalo também bastante e assim economizo mais ainda”, me diz. Sabe por ouvir dizer que, mais dia menos dia, terá que passar por regulamentação das motorizadas, mas diz estar se preparando para isso, pois não existe como não reconhecer que desde sua chegada, sua vida foi um tanto facilitada. Jeitão simples demais, fala mansa, poucas palavras, Luiz, segue por aí, ele e sua “magrela”, tomando desde então o maior cuidado, para que nada de ruim lhe aconteça, pois diz ter gastado mais do que podia na sua aquisição.

5.)
BONELLI É UMA DAS CARAS DE UM SESC PARA MIM ESCOLA MUSICAL
Tenho saborosas e muito instrutivas passagens pelo SESC Bauru. Ele está enfurnado em minha vida desde áureos tempos. Lembro de inesquecíveis shows e eventos em décadas passadas. Sou de um tempo em que o SESC fornecia um caderninho impresso com a programação musical do show, capa em papel grafite e todas as letras. Tenho alguns desses guardados até hoje. João Bosco, se não me engano, o primeiro. Devo boa parte de minha formação musical a eles, pois por lá passaram toda uma geração de ótimos e dignos representantes das melhores vertentes musicais brasileiras. Fui sócio por pouco tempo e alguns antigos funcionários nunca mais me sairão da cabeça. Esse aqui um deles. Basta vê-lo para enxergar o SESC na minha frente.

ROBERTO BONELLI, nasceu no ano de 1949, portanto, está hoje com exatos 66 anos e tenham a certeza de que a maior e mais saborosa parte deles foram passados lá no SESC. Aliás, ele deve ter acompanhado a construção do prédio. O conheci por lá desde os primeiros shows e eventos que por lá estive, acredito que nos anos 80. E lá se vão mais de quarenta anos. Hoje sei que ele é um profissional da área de Esportes, professor de Educação Física, mas nas vezes em que o vi por lá, sempre o achei uma espécie de gerente de luxo, sempre à nossa disposição, simpático e uma daquelas pessoas que nos introduzia num mundo mágico e ao lado dos grandes personagens do cenário musical brasileiro. Leio que por lá atuou de 1972 a 2006, quando se aposentou. Época de ouro do SESC, sua chegada e consolidação na cidade. Os de minha geração, os que convivem com Cultura (com C maiúsculo) conhecem o Bonelli e sabem o que quero dizer quando reafirmo isso. Outros existiram e me recordo de alguns nesses anos, mas fazendo uma reverência a ele, faço a todos (as) os demais. Até hoje o vejo circulando por lá (essa foto foi de anos atrás num show com Wilson das Neves, Zé da Velha e Silvério Pontes), talvez também na categoria de frequentador, mas assim como eu, atento ao que foi, é e será aquele respeitado conglomerado. Tivemos tempos melhores, sem desmerecer o momento atual, mas lembrar do passado lá vivido e de tamanha importância em minha vida, impossível não vir à tona a fisionomia de gente como o Bonelli.

6.) AOS 94 SEU OSVALDO ANDA DE CIRCULAR E SÓZINHO PELA CIDADE
Não é todo dia que você tromba na rua com um senhor andando sozinho pelas ruas e com 94 anos de idade. Quando me deparei com esse ali na rua Primeiro de Agosto, quase cruzamento da Gustavo Maciel, parei tudo e fui bater papo. Esperava encontrar um senhor reclamão da vida, todo cheio de dores, remédios a cada hora do dia, não enxergando muito bem e nem ouvindo, mas dentro desse estereótipo todo, acabei dando com os burros n’água, pois ali na frente um exemplo de tudo isso exatamente ao contrário. A história eu conto abaixo e a dele um grande exemplo de adentrar a longevidade e com tudo em cima.

OSVALDO OLIVEIRA está na ponta dos cascos e aos 94 anos circula sozinho pelas ruas da cidade. Desce de onde mora, no jardim Carolina, ali pertinho do Redentor de ônibus circular e no centro da cidade, faz e acontece. Vista boa, ouvidos idem, quando o encontrei me espantei, pois havia caído algo no chão e ele sem dobrar os joelhos abaixou o corpo e pescou sem maiores problemas o pedaço de papel. Rindo, diz que isso tudo são reflexos de uma vida bem vivida. Perdeu a esposa Elisa quase uma década atrás, dos tempos quando morava ali na vila Falcão e anos depois conheceu alguém que cuida muito bem dele, trinta anos mais jovem, com quem divide as atribulações do dia a dia. “Não quero dar trabalho para ninguém e dessa forma me virei e cá estou”, diz. Com uma bolsa aberta nas mãos, pergunto se não tem medo de alguém enfiar a mão ali dentro e levar tudo. Sempre rindo diz só carregar papéis velhos e a carrega exatamente para isso, dar umas bolsadas em quem tenta se aproximar. O fato é um só, seu Osvaldo está com a saúde em dia, filhos todos criados, Oswaldo Luiz, Terezinha e Murilo, netos e bisnetos bem encaminhados, curte a vida, após uma inteira de muito trabalho. Hoje seu negócio é desfrutar das benesses da vida. O que faz muito bem.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

BEIRA DE ESTRADA (52)


QUANTAS BAURUS TEMOS?*
* Texto de minha lavra e responsabilidade publicado na edição especial da revista mensal AZ!, Agosto 2015, nº 28, comemorando 5 anos da revista e os 119 anos de Bauru:


Quero cada vez mais estar junto de uma Bauru, a escolhida por mim para ao seu lado caminhar, já que é sabido por tudo, todas e todos da existência de várias baurus coexistindo dentro da mesma região administrativa. Mas que negócio é esse de muitas baurus? Nada de tão anormal. Longe de cada um ter a sua, pois isso é coisa de ego inflamado, mas de insuflar a que mais se parece contigo dentro da cartografia existente, essa imensa fronteira mal delimitada de uma cidade em constante construção e mutação. Precisas jogadas, dentro desse incerto tabuleiro de xadrez.

A cidade navega conforme a influência dessa ou daquela jogada, poucas ocorridas ao bel prazer. Muita coisa engendrada por detrás do pano, esse encobrindo a peça teatral que é a vida em si. O tal Mercadão Municipal sendo insuflado na Estação da NOB, local mais propício para outras atividades e não na Estação da Cia Paulista junto da Feira do Rolo diriam que é o que? Pura movimentação dessas baurus em disputa. Ali mesmo, na área da avenida Pedro de Toledo quase sai o restauro da estação da Sorocabana e é implantado um conjunto residencial em área abandonada e hoje inservível. Não saiu e não sairá. Foi pura queda de braços dos interesses de algumas baurus em disputa. O tal do Residencial lá na rodovia, o Pamplona, na imaginária divisa cartográfica com Agudos. Ali alguns poucos já imaginavam subverter os limites de todas baurus e repassá-la ao vizinho. Dessa vez não deu certo. Outras tantas deram.

Enquanto uns brigam pelos seus limites, subvertem até o existente como na época das Capitanias Hereditárias, construindo onde antes existiam ruas, praças e documentação vigente de outrem, as peças se movem e uma bauru cresce, horizontalmente e verticalmente, eliminando onças, sugando o aquífero e passando com moto-niveladora por cima de reserva ambiental e moral. Não existem mais limites, em algo que até o atual papa combate, mas sensibiliza pouco os donos do poder (daqui e de alhures). Máquinas não são mais desligadas, funcionam ininterruptamente, transformando a antes terra branca em totalmente sem limites. Abusada e insansa.

Enquanto essa tem vida cega, tendo como objetivo o tal do “progresso”, a maioria vive numa outra, uma dentre tantas, pegando mais leve, sem levar tudo a ferro e fogo, sonhando em se banhar no ribeirão Bauru, em ver restaurada a praça da Feira do Rolo, lugar da maior concentração humana da reunião de todas as aldeias existentes dentro da grande cidade. Uma que sonha com um Sambódromo mais humanizado, um caminhão palco percorrendo todos os bairros, a saúde no estilo privada sendo praticada no lado público e pulverizada levando em conta o ser humano. Existe uma Bauru com H maiúsculo saindo pelos poros nos bairros populares, ocupando espaços nas praças, fervendo suas feiras, sambando nas quebradas, se reunindo na moita, assando suas carnes nos quintais e aos finais de semana, escarafunchando um lazer inventado por elas e assim por diante.

A periférica Bauru marca presença nesse aniversário, pede passagem, avisa que algum dia poderá invadir a avenida e promover o samba a seu modo e jeito, conforme suas conveniências, com os seus adereços, fantasias mais que próprias e estilo só seu. Se essa Bauru resolver tomar conta da cidade, ocupar o asfalto será algo grandioso, deslumbrante, demarcatório de uma nova possibilidade, enredo ainda em elaboração e sob a batuta de milhares de mãos. Talvez um dia isso ocorra e se chegar, veremos raiar um novíssimo dia, virada técnica colocando em xeque-mate as tradicionais relações de poder que marcaram o percurso até hoje. Sonho é com essa Bauru, com outros olhares, saberes e viveres.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História.


OBS.: A AZ! desse mês está linda e com duas impecáveis matérias escritas pela jornalista Amanda Rocha, principalmente a "Machado de Dois Gumes e o Faroeste Bauruense", antecipando como uma premonição algo ocorrido por esses dias na Câmara Municipal, quando da votação do nome do viaduto, a necessidade de parte de sua história ser recontada/reescrita. Amanda acertou na mosca. Parabéns do colega aqui, que babou no seu escrito.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (82)


CONHEÇA UM POUCO DA VERDADEIRA HISTÓRIA DE DOMINAÇÃO OCORRIDA EM NOSSA REGIÃO

A MAIORIA DESCONHECE A EXISTÊNCIA DE UM QUILOMBO EM ÁREA ABRANGENDO BAURU, AGUDOS, PEDERNEIRAS, LENÇÓIS PAULISTA E BOREBI – ELES LUTAM PELO REESTABELECIMENTO DE SUAS TERRAS
Obs.: O texto abaixo faz parte do que foi apresentado num trabalho acadêmico dentro da disciplina “Cidadania, Redes Sociais e Ativismo Online”, ministrado pela professora Caroline Kraus Luvizotto, na Unesp Bauru, dia 13/08/2015, pelo alunos de mestrando Henrique Perazzi de Aquino, Marina Darie, Camila Fernandes e Dulciara Cristina Bonaldo. Esse trecho foi o escrito por mim e é parte integrante do Contexto Histórico do trabalho intitulado “Quilombo Porcinos – O Movimento Sociais e o Atual Uso das Redes”.


BREVE HISTÓRICO DO QUILOMBO PORCINOS – AGUDOS SP
“Uma comunidade quilombola, segundo a legislação vigente, para existir de fato e ser reconhecida, precisa ter uma história e territórios próprios, relação comprovada com a terra, ser afrodescendente e também se autodeclararem. Esses passos estão hoje na boca, na ação diária de todo quilombola esclarecido e na luta pelo reestabelecimento dos seus direitos e do seu território. Aprenderam isso nos embates, com as muitas perdas ao longo da história e também, com as conquistas. A história brasileira recente registra algumas dessas conquistas com a demarcação definitiva de territórios antes não muito bem definidos, áreas limítrofes com problemas fundiários sempre presentes no cenário atual e também uma maior conscientização dos remanescentes dos tantos quilombos espalhados país afora.

Cada caso é um caso. Alguns surpreendem. Esse, o motivo de nosso estudo, o denominado Quilombo Porcinos, nome reduzido da designação originalmente formalizada junto aos órgãos competentes, a Associação de Espírito Santo da Fortaleza Porcinos e Outros. É talvez o exemplo mais latente hoje no cenário nacional de algo novo dentre todos os quilombos reconhecidos ou em vias de reconhecimento.

Sua situação é sui generis, ou seja, inusitada. Tudo nasce de uma história pouco usual dentro da historiografia brasileira. Primeiro um breve relato para entenderem como tudo se deu e depois, algo mais minucioso, com maior abrangência de detalhes. Últimas décadas de 1900, República Velha, Governo Federal defensor das oligarquias fundiárias, sendo esse o próprio representante das mesmas, com seus dirigentes todos originais representantes deste segmento, oriundos deles e o povo mais simples com diminutos direitos. Período ainda sob o tacão de um regime pós-escravocrata, mantendo nas suas entranhas muito da subserviência de antes. Pouca coisa mudou para o pobre, mais ainda para o negro, muito além da exploração de sua mão de obra. Nos rincões nacionais imperava a lei do mais forte e os menos favorecidos, desprovidos de meios de resistir, ou se calavam por completo, aceitando passivamente o que lhes era imposto, ou acatavam, numa resistência contada e recontada pela historiografia. Os mais ousados fugiam como fizeram muitos negros, quando da formação do que hoje se convenciona denominar de Quilombo.

Imensas glebas de terra, fazendas bem aos moldes de padrão bem convencional desse período, terras conquistadas por doações governamentais, ampliação de territórios muito mal explicados dominavam o cenário. No específico caso estudado, uma área ocupando o que hoje seria o território de cinco municípios do interior do estado de São Paulo. São eles, Agudos, Bauru, Lençóis Paulista, Pederneiras e Borebi. Seus proprietários a tocam tentando implantar uma harmoniosa relação entre patrão e empregado, mais amena que a maioria existente, mas mantendo as mesmas relações de exploração de todas as outras. Talvez menos embrutecida, só isso. Com a chegada da velhice, seus proprietários se preocupam com algo pouco peculiar dentre os donos de terra da época. Qual seria o futuro daqueles sob sua guarda? Não possuindo herdeiros, dirigem-se ao Cartório da cidade e lavram um documento oficializando que após a morte de ambos, todas suas terras fossem repassadas naturalmente a algumas das famílias lá trabalhando.

Imaginem o que isso deve ter causado de rebuliço nos meios estabelecidos? Sim, causou, mas tudo foi oficializado. Dessa forma, o testamento foi lavrado e registrado em documentos oficiais. Sua efetivação deu-se em partes, nunca por completo. Vilipendiados desde o início, foram pouco a pouco perdendo tudo aquilo que estava lavrado e consolidado como seus. Essa uma história conhecida de todos os que estudam a fundo a História do Brasil. Todas as cidades, através de líderes e pessoas influentes na época, os considerados de fato Donos do Poder foram se apropriando, pouco a pouco, de partes dessa área, culminando com a expulsão, muitas décadas depois e via meios jurídicos supostamente legalizados (ou requentados) de um último conglomerado de quilombolas resistindo num pequeno local, praticamente cercados, ilhados, com difícil acesso a água e com péssimas condições acesso ao local.

Perderam tudo, expulsos de suas terras, com pouca instrução e pífio conhecimento da legislação foram se dispersando pela periferia, não só das cidades no entorno da antiga fazenda, como para os grandes centros urbanos.

A grosso modo, essa basicamente é a história desse quilombo. Ela se deu dessa forma. Hoje, a partir da reconstrução de parte dela, primeiro junto aos Cartórios ainda com documentação daquela época e de pessoas da própria comunidade quilombola, interessadas no resgate, tudo foi reavivado e com alguma documentação em mãos, entregue aos órgãos competentes, foi dado início a um processo de reconhecimento, esse já consolidado e agora, num segundo momento o de devolução de uma área aos remanescentes, algo ainda em construção e sem previsibilidade de datas para sua concretização.

Os detalhes, os nomes dos envolvidos, as famílias, não só a do antigo fazendeiro, como dos escravos beneficiados, como o dos herdeiros hoje reivindicando a reintegração e retomada de uma área podem ser visualizados na sequência e nos anexos desse trabalho, apresentados na forma de documentos impressos, gravações registradas em forma de áudio e vídeo. A maioria do material existente e consequentemente, parte substancial, de vital importância para reconstituição de parte dessa história está sendo construída através de um minucioso trabalho antropológico, em parceria com universidades e os próprios órgãos governamentais, tanto Estadual como Federal, além, é claro, de um resgate minucioso e necessário de Memória Oral junto aos remanescentes do quilombo.”

OBSERVAÇÃO DE APRESENTAÇÃO: Esse texto é uma espécie de “tira gosto”, uma apresentação de algo praticamente desconhecido de nossa historiografia oficial. Eu sempre me pergunto: Quantos de nós já havíamos ouvido falar de um quilombo na região? E quantos já conheciam essa história, uma dentre tantas as ocultas, acobertadas pela escrita pelos tais “donos do poder” locais? Na documentação apresentada, um trabalho de levantamento de dados sobre as tantas barbaridades cometidas na região bauruense e ocultas ao longo do tempo. O trabalho é extenso e deve ter prosseguimento pelos integrantes do grupo, no aprofundamento das pesquisas. Daí, algo até então desconhecido também pela maioria e servindo para reflexão sobre como se dá a questão fundiária brasileira: Todos se lembram dos tratores derrubando pés de laranja numa plantação em Borebi, confronto entre integrantes do MST e do grupo suco-alcooleiro Cutrale. Aquilo tudo se deu numa área de terra pertencente ao Porcinos Quilombo, seu original proprietário. Toda a área onde hoje estão localizados esses municípios aqui citados e suas maiores empresas e fazendas, como Lwart, Brahma, Eucatex, etc, todas estão dentro de território quilombola. E tudo foi subtraído deles ao longo de um século inteiro. Havendo interesse, publico em outra oportunidade detalhes dessa história, uma saga recheada de ganância, exploração, enganação e subtração. Preferi nessa apresentação inicial não citar nomes dos remanescentes quilombolas. Sai na sequência do ocorrido em Bauru, quando da não aprovação do nome de um general para um viaduto na cidade e os vereadores, após tomarem conhecimento de algo ainda não constando de seu curriculum, decidem pela sua reprovação.

Seria constrangedor ocultar isso de tudo, todas e todos? Mais constrangedor seria deixar de contar e esclarecer os fatos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O PRIMEIRO A RIR DAS ÚLTIMAS (11)


“HOJE ESTÁ ACONTECENDO DE TUDO POR AQUI”, O DIA EM QUE A CÂMARA DE BAURU ESTEVE PRESTES A SAIR DA LINHA (OU SERIA CAIR DO VIADUTO?) – A HISTÓRIA OFICIAL E A AINDA OCULTA
Foi dessa forma um tanto desesperada que Faria Neto, o presidente da Câmara de Vereadores de Bauru via transcorrer o desenrolar dos acontecimentos da última sessão, ocorrida segunda passada, 17/08, quando algo dos mais rotineiros estaria para ocorrer, a votação de um logradouro público e quase sempre por absoluta aclamação, porém tudo descambou para o campo do imponderável. Por intercorrências de percurso, dessa vez isso acabou se dando de uma forma bem diferente do previsto e a cada nova fala nos microfones, uma nova altercação de voz e o acirramento de posicionamentos. O nome escolhido por hoje não sabe quem, mas que já foi infeliz no seu nascedouro, pois homenageava um general, outrora diretor geral da NOB em Bauru, alguém dito como ágil em suas atitudes e justamente para um viaduto que demorou 22 anos para ser aberto ao funcionamento e ainda incompleto. Américo Marinho Lutz seria o agraciado, mas devido ao que Faria denominou de “hoje está acontecendo tudo por aqui”, a homenagem não se consumou, foi rejeitada por um voto e a maldição do viaduto continuou vigorando, sem nome, eira e nem beira. No mesmo dia, Roque Ferreira, o vereador que provocou a não aprovação do nome de Lutz com informações de última hora sobre seu procedimento como dirigente da NOB, sugeriu outro nome, “Primeiro de Abril”, uma gozação dessas caindo como uma luva, mas seus pares não tiveram a mesma pegada de veia humorística e esse também foi rejeitado.

O inusitado ocorreu e a noite (a sessão durou das 14h até 23h40) em que ficou marcada como a do dia em que tudo acontece de uma só vez na Câmara entra para os anais (ui!) do anedotário bauruense. Seria cômico, se não fosse trágico. Mas não deixa de ser muito cômico, aliás como são as últimas sessões da Casa de Leis bauruense com disputas ao estilo do tapinha nas costas e punhalada nas costas. Cordialidade zero, esse o clima, devendo esquentar ainda mais com a aproximação da próxima eleição. Como hoje só temos informação via impressa advinda de um único jornal, o resistente Jornal da Cidade é dele que deixo o link para a leitura do que saiu publicado sobre o assunto, tudo para um melhor entendimento sobre o ocorrido.

Ontem, terça, 18/08, matéria escrita pelo jornalista Vinicius Lousada:http://www.jcnet.com.br/…/com-maioria-simples-camara-nao-ap…. Na edição de hoje, texto do mesmo Vinicius, já com a rápida tomada de decisão da Câmara, talvez antecipando-se para não deixar mais o inevitável voltar a acontecer por lá: http://www.jcnet.com.br/…/com-maioria-simples-camara-nao-ap…. Vale a pena também deixar registrado o que foi escrito na seção Entrelinhas do dia 18/08:http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=240001 e no de hoje, 19/08, muito elucidativas sobre os bastidores da enigmática noite:http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=240018.

Vamos conhecer os pareceres, um positivo, favorável ao nome do general no viaduto e outro negativo, talvez o único, esse feito por Roque Ferreira na Tribuna da Câmara, numa das tantas intervenções feitas.

Como favorável reproduzo um publicado no Jornal da Cidade, na sua seção mais nobre, o Opinião, em 30/07/2015, escrita por um dos mais famosos memorialistas da cidade, ex-Consultor para Tudo Quanto é Tipo de Assunto da Câmara (por algumas décadas) e também membro da abalizada ABL – Academia Bauruense de Letras, Irineu Azevedo Bastos, com o título, “Américo Marinho Lutz”. Para ler na íntegra cliquem a seguir:http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=239755.

O único parecer desfavorável, foi o lido pelo vereador Roque Ferreira, foi enviado a mim após lhe pedir cópia do conteúdo de sua fala. Esse não tenho como lincar, pois não está publicado em nenhum outro lugar e sai aqui em primeira mão. Abaixo o texto que causou a reviravolta no momento da votação:

“Foi com base nelas que fiz minha intervenção em plenário. Primeiro apresentei um substitutivo propondo o nome de Primeiro de Abril. Como não passou, foi discutido o PL original propondo nome de Américo Marinho Lutz. Pelo nosso combate não obteve os 12 votos necessários e foi rejeitado.
AEROCLUBE - No livro, Cartas a um jovem empreendedor: realize seu sonho, vale a pena, de Ozires Silva, na página 18 tem a seguinte passagem: “ Foi ele que decidiu aplicar recursos da estrada de ferro e investir na construção de uma Escola de Aeromodelismo, de uma Escola de Pilotagem e de uma Escola de Planadores...Uma decisão como essa de tirar dinheiro de uma empresa pública para outra finalidade, seria mais que suficiente, nos dias de hoje para fazer Lutz ser convocado a dar explicações ao Ministério Público. Mas, naquele momento ninguém questionou o desvio de recursos, e o aeroclube, elogiado pelo arrojo de sua arquitetura, começou a funcionar no dia 31 de outubro de 1939”.
O Aeroclube de Bauru foi fundado em 8 de abril de 1.939, formando sua primeira turma de aviadores em 21 de fevereiro de 1.940. Construído em estilo “art-déco”, o Aeroclube de Bauru foi projetado pelos mesmos engenheiros que, nos anos 30, conceberam a estrada de ferro que fez da cidade de Bauru uma de suas principais estações e ponto estratégico no estado de São Paulo: a Noroeste do Brasil.
Disse isso na tribuna em relação ao Aeroclube, à construção do primeiro Campo do Noroeste que além de recursos da ferrovia, também obrigou ferroviários a trabalharem em sua construção, Hospital Salles Gomes e outros em Araçatuba, Três Lagoas, Aquidauana e Campo Grande foram construídos pela Ferrovia. A ferrovia ajudou na construção da Santa Casa. Leia mais: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=252821
No vôo entre São Paulo e Campo Grande, em conversa com Getúlio, Marinho Lutz entregou-lhe um cheque de 50 mil cruzeiros para a campanha como colaboração da UDN do Sul. O referido cheque fez com que Getúlio se calasse e não fizesse o pronunciamento esperado de apoio a Filinto. Leia mais: http://www.rotary4510.org.br/…/m…/112-artaeroclubebauru.html
O Aéro Clube de Bauru fundado em 8 de abril de 1939, teve em seu quadro fundador os rotarianos do Rotaru Club de Bauru: Luiz de Gonzaga Bevilaqua EGD 1964/6, General Américo Marinho Lutz, Plínio Ferraz, Antonio Garcia, Waldomiro Guedes de Azeved, João Maringoni entre outros. Leia mais: http://olhardireto.com.br/artigos/exibir.asp…
Aconteceu, no entanto, que apareceu uma pedra no caminho. Na escala em São Paulo entrou no mesmo avião do Getúlio o general Américo Marinho Lutz, que comandara a Noroeste do Brasil durante oito anos no Governo Getúlio, era seu amigo pessoal e do PTB. Marinho Lutz incorporou-se à caravana já com um objetivo mesquinho a serviço da UDN do Sul, que tinha em seus quadros os fazendeiros mais ricos do Brasil. Embora afirmasse ser amigo fraterno do Filinto. Tomando assento junto ao Getúlio, chamou-o e, esticando a mão, entregou-lhe um cheque dizendo: “Presidente, sem qualquer compromisso, a UDN do Sul encarregou-me de entregar-lhe este cheque de 50 mil cruzeiros como contribuição de sua campanha”. Leia mais:http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk3004200003.htm "Com o populismo de Vargas o clube também cresceu muito", diz Lima. Em 1954, último ano de Getúlio Vargas na Presidência do Brasil, o general Américo Marinho Lutz, diretor da ferrovia na época, inspecionou pessoalmente a construção do primeiro estádio do Noroeste, com capacidade para 20 mil pessoas.
FERROVIÁRIOS:
Zé Duarte- Lidera a formação do sindicato na ferrovia Noroeste do Brasil (NOB) e encabeça a greve de 1934 exigindo a redução da jornada de trabalho. Foi um corajoso lutador contra o regime fascista de Vargas e como liderança sindical enfrentou as tentativas estatais de intervenção e controle dos sindicatos, sendo por isso preso diversas vezes. Em 1942, enquanto se encontrava preso em Ilha Grande, com outros ferroviários assistiu a visita de uma comitiva de deputados ianques, que vinha ao Brasil em apoio à luta pela anistia dos presos políticos do Estado Novo de Vargas. Outros ferroviários foram duramente perseguidos por serem “ comunistas”. Lutz era da UDN e Getúlio como você sabe colocou o “partidão na ilegalidade”. Segundo relatos de velhos ferroviários, Lutz irritado com uma greve de ferroviários em 1943, teria mandato pagar os salários dos grevistas com saco de moedas.
Foi diretor da NOB em dois períodos: de 25 de março de 1937 a 25 de fevereiro de 1946, quando era major e de 16 de fevereiro de 1951 a 7 de outubro de 1954, quando ocupava a patente de tenente-coronel. Nos dois períodos havia muita repressão aos ferroviários. É óbvio, que contava com o apoio de muitos “privilegiados dentro da ferrovia”, e também entre membros da dita “elite” bauruense. A UDN foi quem mais combateu pelo golpe de 1964, e muitos da dita elite bauruense, da ferrovia apoiaram o golpe, e contribuíram para a repressão: A FAC força paramilitar a atuar na cidade, teve integrantes com forte ligação a Lutz. No trabalho da Comissão Memória e Verdade de Bauru, existem relatos detalhados".


OBSERVAÇÃO DESSE HPA PARA FECHAR ESSE TEXTO: Diante da leitura de pontos aqui registrados, Roque com sua verve conseguiu estancar a votação favorável e o revertério aconteceu, como consta do noticiário aqui citado. Encerro esse texto e na qualidade de historiador, conclamo meus pares a um grande movimento em prol de algo sui generis até esse momento na cidade, a criação de um Grupo de Trabalho para reescrever a História de Bauru segundo a visão dos vencidos, dos trabalhadores, dos movimentos sociais e classes menos favorecidas. A iniciativa está lançada e merece todo o cuidado desse mundo, até para que quando na repetição de fatos iguais a esse, na comparação com o que já foi escrito até então e a nova versão, algo mais próximo da realidade possa ser buscado. Essa a ideia que todo pesquisador, historiador ou memorialista sonha vingar. Existe muito trabalho pela frente e que o ocorrido sirva de uma espécie de “pedra fundamental” para início dos trabalhos.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

CARTAS (145)


CARTA 1 - "CUIDADO! TODOS OS DESVAIRADOS ESTÃO SOLTOS"*

*Carta de minha lavra e responsabilidade publicada na Tribuna do leitor, edição de hoje do Jornal da Cidade:

O povo nas ruas está tão doente e insano quanto aquilo que diz querer combater. Não se encontra mais discurso uniforme e sensato. Coisa rara. Difícil foi presenciar algo anteontem, dentre tantos exemplos degradantes, o de alguém propondo realmente o fim da corrupção, essa endêmica e afetando tudo e a todos. Numa roda outro dia discutíamos sobre isso, o posicionamento conservador de certa camada da sociedade, principalmente a paulista e, num certo momento, disse: “Como estão conservadores hoje”. Fui corrigido e agora entendo. “Sempre o foram. Agora com os últimos acontecimentos estão tendo a oportunidade de colocar mais e mais as manguinhas para fora”, me disseram.

Pelas faixas pedindo a volta do Sarney, do regime militar, da morte do Lula e da Dilma, do extermínio de todos os que resistiram ao regime militar, a defesa do Cunha pelo simples fato de ele servir aos interesses dos que estão nas ruas, mais e mais a parcialidade da Justiça, tudo culminando com a violência ao pensamento em desacordo, a aversão ao vermelho, aos movimentos sociais e principalmente, o mais nefasto de todos, propondo o fim das suadas conquistas sociais, tenho que concordar, o conservadorismo vivenciado agora não é de hoje. Um velho filme, infelizmente não superado e muito menos resolvido.

Daí minha conclusão em forma de pergunta. De nada teria valido essa luta empreendida nesses anos todos, pois o espírito casa grande e senzala continua predominando entre nós? A corrupção que querem ver finda é a do PT, mas só essa e nenhuma outra mais. Está todo mundo cego, com ódio nas ventas e atirando para tudo quanto é lado. E os aloprados cada vez com mais voz, expondo a bestialidade toda quase sem contestação. Se é para derrubar o PT tudo vale, os fins justificam os meios. E o resto? A barbárie, como se sabe, alimenta-se do silêncio conivente. Pregar contra a corrupção é uma coisa, fazer isso ao lado de um discurso xenófobo, excludente, conservador e pregando um golpe é algo passando e muito de todos os limites.

É chegado o momento de conter os excessos e não dar a devida atenção aos insufladores do caos. Quem mente descaradamente como meio de propagar ideias, necessita de alguém cumplice do outro lado do balcão, alguém que aceite ser enganado. Muitos não estariam cumprindo esse papel? Não será dentro desse bestial quadro que resolveremos nossos seculares problemas. Falta seriedade nesse movimento oriundo das ruas. Hoje, o Brasil está menos alegre e se deixando levar por uma corrente que o tornará menos soberano, mais dependente, menos livre e cada vez mais obtuso, representando os interesses mais egoístas da humanidade. Só se atem aos ditames do capital, da usura, do pensamento único, do mercado, daí uma desesperança de algum conserto para o futuro. Nossos filhos padecerão demais nessa triste conjuntura. Por isso me vejo na luta com as armas que possuo, algumas poucas palavras.
CARTAS 2 - 8 ANOS DE ANIVERSÁRIO DA REVISTA BRASILEIROS*

* Carta de minha lavra e responsabilidade na edição de Agosto, n° 97 da mensal Brasileiros:

"Caro Hélio Campos Mello (diretor responsável) e toda equipe, os mais efusivos parabéns a tudo, todas e todos. Tive o prazer de saber da revista, pelo jornalista Ricardo Kotscho, em uma passagem dele por Bauru. Ganhei dele um número da edição zero. Daí por diante, comprei toidas nas bancas. Sou um chato, telefono quando a edição atrasa, quando esgota, quando não vem e compro, distribuo para amigos como presente, indico, faço o diabo. Isso tudo tem um motivo. Ela me representa. Simples assim".


Explicação para quem desconhece a Brasileiros: Só mesmo conhecendo e lendo suas páginas. Não adianta tecer loas e loas se não lerem, terem contato com um produto editorial de primeira linha, atuando dentro da verdade dos fatos. Um salutar jornalismo e com aquele slogan que, quando conferido é a mais pura verdade: "A revista mensal de reportagens, tendências, personagens, cultura, política e economia - Mais que informação, reflexão!".

Uma das poucas dentro do atual mercado editorial brasileiro que leio e indico.