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sexta-feira, 13 de março de 2009

MEMÓRIA ORAL (61)

O ENCADERNADOR E A DESBRAVADORA DE QUEBRA-CABEÇAS
Existem profissões, que aqueles que as exercem conseguem facilmente passá-las de pais para filhos. Outras nem tanto. Em Garça, interior de São Paulo, Clóvis Calvo Cáceres, 72 anos, autodidata encadernador, passa por esse dilema. Exerce a profissão há 60 anos e não conseguiu que nenhum dos filhos continuasse à frente do negócio. Começou como funcionário de uma gráfica, aprendeu o ofício e dele não mais se afastou, nem mesmo quando entrou para o quadro de funcionários do Banco do Brasil. Ficou no banco até se aposentar, em 1983 e conta com orgulho como tudo começou: “Tive a noção e fui desenvolvendo. Nunca fiz curso nenhum, acabei é ministrando muitos”.

Sua firma, instalada no amplo quintal de sua casa, bem defronte o outro antigo local de trabalho, o banco, é por demais conhecida em toda a região, trabalhando quase que exclusivamente para universidades, prefeituras, cartórios e colecionadores. “Paciência, adicionado à dedicação são os ingredientes que não podem faltar ao bom encadernador. E isso eu aprendi ao longo do tempo”, conta seu Clóvis, hoje sentado numa cadeira de rodas, devido a um tombo da cama, quando ocorreram algumas fraturas indesejáveis. Serão 60 dias sem andar e se locomovendo com a ajuda de um enfermeiro.

O casal de filhos seguiu profissões bem distintas do ramo escolhido pelo pai. A saída foi treinar dois funcionários, para que tudo não se extinga quando cansar de vez. Carlos da Silva, 43 anos, 30 de gráfica e 13 como encadernador e Jocélia dos Santos, 37 anos e 9 como encadernadora, marido e mulher, fazem tudo conforme aprenderam com o mestre e patrão. Mesmo com toda dificuldade atual de locomoção, ele não consegue ficar muito tempo longe dos balcões de trabalho. Supervisiona tudo com um olhar de lince. “Não basta saber encadernar, tem que ser criativo. A encadernação é um dom artesanal que se mantém ao longo do tempo, precisa ser dominada por um artista competente e criativo. Já ensinei muita gente, como a bibliotecária aqui da cidade, que aprendeu a arte comigo. Prefeitura nunca tem dinheiro e ela faz quase tudo por lá.”, relata o minucioso profissional.

Hoje com mais tempo para ficar dentro da espaçosa casa, acompanha a esposa, Wanda Marino Calvo, 71 anos, num hobby, que nos últimos tempos movimenta o casal, a montagem de quebra cabeças. “Tudo começou com minha filha, que procurava algum passatempo para mim. Seis anos atrás trouxe de uma viagem um primeiro. Peguei gosto e hoje, aqui em casa tem mais de 40 expostos em todas nossas paredes”, relata Wanda. “Eu a ajudo na montagem do aparato onde ela monta as peças, com uma base de madeira e depois com a moldura. Ajudo também na venda da peça pronta, onde não buscamos lucro. Tudo é vendido a preço de custo, só para desocupar lugar e repor os gastos. Não ganhamos nada com isso”, completa Clóvis.

A mesa da copa está constantemente ocupada por alguma montagem. Dona Wanda explica em detalhes a técnica para agilizar a montagem: “Um de 3000 peças chega a demorar até três meses a sua montagem. Primeiro eu separo os desenhos diferentes em caixas separadas, numa outra as peças da beirada, que possuem uma parte reta. Tudo misturado é muito mais difícil”. Circulo com ela pelos cômodos da casa e me espanto de ver a variedade de temas. Pergunto sobre o tal preço de custo e ela me diz: “Aquele que você gostou, o do Mapa Mundi, tem 1,20 por 0,77m, 3000 peças e custa duzentos reais”. Compram tudo nas viagens, vasculhando bazares e papelarias ou pela internet.

Além da distração encontrada, Clóvis faz questão de me mostrar vários recortes de jornais com matérias sobre algumas exposições que já fizeram, tanto em Garça, como na região. “A distração continua fora daqui, quando levamos o trabalho para outros conhecerem. Incentivamos outros casais a seguirem o mesmo caminho. Eu fico lá com minhas encadernações, tudo com muita calma, paciência e ela aqui, montando tudo da mesma forma”, conclui. Pergunto sobre a técnica para começar. “Comece por um de 100 peças e a técnica você vai aprendendo com o tempo, descobrindo como agilizar a montagem”, me diz Wanda.

Com a chegada de um dos netos, Luis Otávio Garavaso, 10 anos, descubro que o que ele gosta mesmo é de guitarra e jogar tênis. “Encadernação e quebra-cabeças eu até gosto, mas nem tanto”, diz o garoto sem pestanejar. Nisso, quem também aparece para um cafezinho é Sidnei Ferreira, 46 anos, genro, dono de uma gráfica, ocupando uma parte do quintal, separado do setor de encadernação. “Esse é quem vai ficar com o negócio todo”, diz Clóvis, “pelo menos um da família eu consegui que se interessasse pela continuidade disso tudo que você está vendo”.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

DICAS (173)


REENCONTROS BAURUENSES

1.) MANZANO, OS TRÊS MOSQUETEIROS DA ENCADERNAÇÃO
Tem história que não pode passar em branco e muito menos ser esquecida. A da encadernação em Bauru passa por um famoso sobrenome, muito conhecido na cidade. Trata-se de uma profissão meio que em extinção ou cada vez mais restrita e segmentada. Tempos atrás, mais precisamente em 2009 contei a história de outro com a mesma persistência, seu Clóvis de Garça. Eis o link: https://mafuadohpa.blogspot.com/search…. E a do seu Vaz, de Novo Horizonte: https://mafuadohpa.blogspot.com/search…. Em ambos, algo muito triste, fizeram sucesso, mas não tiveram solução de continuidade. Nenhum filho ou parente deles deu continuidade na atividade exercida brilhantemente pelos anfitriões. Conto algo desses três irmãos de Bauru.

MARCOS, BETO E LAERTE MANZANO estão na atividade de encadernação há exatos 55 anos. São uma referência na cidade e região quando o assunto são a "capa-dura, teses, encadernação, espirais, livros fiscais, binder, restauração e TCC". O lema da empresa está expresso no cartão de visitas, "a qualidade ao lado da arte". A imensa maioria das bancas de revistas os indicam para encadernar revistas e enciclopédias, além do mesmo ocorrer nas universidades para os trabalhos acadêmicos. Trabalhando num mercado muito segmentado, muitas empresas já atuaram nesse ramo, mas com o passar dos anos, muitos não resistiram e foram em busca de outras atividades. Eles permaneceram, sempre no mesmo lugar, estabelecidos ali na rua alto Acre nº 3-42, começo do jardim Bela Vista. A atividade ainda é o sustento da família desses três abnegados irmãos, tirando leite de pedra e tocando o barco para a frente. Não perdem a esperança de quando cansarem, chegarem o tempo de parar, consigam entre os seus encontrar algum Manzano para dar prosseguimento ao negócio. Quem circula por lá e vê todo o maquinário conseguido ao longo dos anos, muitos hoje quase ociosos, não imagina o quanto fluia de movimentação e barulho naquele recinto. Hoje, eles mesmos dividem as tarefas e se safam com maestria e sutileza, buscando um mercado junto a quem sabem ainda necessitam de um trabalho bem feito. Seguindo rigorosamente as normas estabelecidas para armazenamento de trabalhos acadêmicos, seguem por saberem atuar num filão, que mesmo diminuido a concorrência, seguirá sempre necessário. Os Manzano são a cara da encadernação na cidade, sabem disso e até por causa disso não deixam a peteca e nem a qualidade cair.

2.) ZÉ DA VIOLA NOS DEIXOU...
Ontem ciurculando e pagando contas pelo centro velho da cidade, rua Gustavo entre Ezequiel e 1º Agosto sou abordado por um cidadão me chamando pelo nome. Abro um baita sorriso, desses de boca a boca. Era seu ZÉ DA VIOLA, um violeiro e sanfoneiro que já comandou na aldeia bauruense casas noturnas aos estilo arrasta pé da maior responsa. Foi meu número 1 dos relatos que faço regularmente aqui, o Personagens Sem Carimbo - O Lado B de Bauru. Era lindo vê-lo nos shows cidade afora com a disposição de quem é grandioso, mas adora observar o que os colegas aprontam pela aí. Certa vez um garoto de uma orquestra lhe disse ser maestro. Ele me disse: "Tive que rir, pois estudei música a vida inteira e não cheguei nem perto disso". Triste foi vê-lo tempos atrás vendendo picolé pelas ruas da cidade, mas o fazia com a devida galhardia e dignidade, algo que nunca dele estiveram distantes. Grande figura humana, um que abrigou em seus forrós n ada menos que Toninho Ferraguti, hoje um músico universal, mas sendo de Botucatu, começou sanfonando com ele na periferia bauruense.

Pois bem, Zé da viola estava sumido e já comentava comigo mesmo: Por onde andará o Zé? O via muito lá pelos lados do Pingueta, mas desaparaceu misteriosamente. Estaria doente? Hoje elucidei a charada. O velho bardo não está mais morando em Bauru e sim, no Guarujá (pertinho do tal apartamento que os malvados enfiaram como sendo do Lula só para tirá-lo do pleito já ganho). Foi abrigado por uma sobrinha generosa e no sorriso diz estar feliz da vida. Me passa o mapa e diz para passar a notícia adiante. Está localizado bem defronte o Hospital Santo Amaro, ali ao lado a Amanda Cosméticos, da sobrinha e também ali perto o restaurante Nino's (três na cidade), da irmã Cecília, onde almoça e janta todos os dias. Mora na rua Rivaldo Fernandes 368, 3º andar, apartamento 31, jardim Tejereba (nome de um peixe). Passo a notícia adiante, como me pediu, pois pedido de Zé da Viola é para mim uma ordem. Esse é um daqueles que adoro reencontrar pelas ruas, bate papo alvissareiro garantido. Gente da melhor estirpe.