segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

UMA CARTA (57) E UMA ALFINETADA (79)

EU VI PAPAI NOEL E SEU TRENÓ NAS RUAS DE BAURU
Ele circula livremente e sem nenhum tipo de assédio nas principais ruas de Bauru. De origem nipônica, com os olhinhos puxados, algo um tanto estranho, esse senhor, desgastado pelo tempo, queimado de sol e calado como quase toda pessoa de origem oriental, circula em andrajos. Seu provável trenó são seus pertences, que amarrados uns aos outros são puxados pela força de seus braços, levados de um lugar para outro.

Muito conhecido nas cercanias da Rua Araújo Leite, anda alguns metros, dá uma breve parada, descansa o suficiente para poder continuar e segue em frente, não se sabe para onde. Morador de nossas ruas, com idade já ultrapassando os 60 anos, é personagem das mais conhecidas na cidade. Por ser de origem nipônica, ouço dizer que membros da comunidade já tentaram de todo jeito tirá-lo das ruas, pois isso denigre as origens pregadas pela colônia. Nada conseguiram. Irredutível, peregrina impassível aos olhares dos que ainda conseguem se indignar com tal cena.

Nessa época dezembrina lembra demais um personagem que invade os lares brasileiros. O outro, de roupa vermelha, impecável e provocando calafrios, pelo calor que deve emanar a acalorada vestimenta. Esse, calça amarrada com barbante, camisa rota e quase sem botões, sapatos sem cadarços e um pé de cada modelo, às vezes com algo na cabeça, num objeto que nem pode ser denominado de chapéu, mesmo nessas condições, relembra muito o personagem criado para reverenciar o comércio natalino.

Ele não circula nos lugares mais iluminados da cidade, onde o festival de luzes e cores explode num mar de beleza. Seu cenário são as calçadas e sarjetas. Ali ele reina e passa impávido diante de todos, puxando sua tralha, sua casa e pertences. Tudo o que é seu está ali, junto dele. Vai e vem, sobe e desce. Assim como ele, milhares arrastam a inconstância e as incertezas por nossas ruas, quase sem serem notados. Não consigo me engajar numa festa de presentes e comes e bebes enquanto gente assim segue sem rumo e sem perspectiva.

Em dezembro eles chamam muito mais a minha atenção. Paro o carro e enquanto as luzes piscam me mostrando outro lado, prefiro continuar dando minha atenção para esses invisíveis, os deserdados do atual mundo em que vivemos. Sem ser piegas, sem falsear na escrita, sem sentimentalismo barato, isso me toca muito mais que o festejo todo que se avizinha.


MINHAS OBSERVAÇÕES: Esse texto foi escrito inicialmente para ser publicado no semanário O Alfinete, da vizinha Pirajuí e saiu na edição nº 613, dessa semana e enviado como Especial para o Jornal da Cidade, que o reproduz na edição de hoje, com destaque, em página interna. Aguardei a publicação em ambos para efetuar sua reprodução aqui no blog. A forma como retratei o sr TIMURA (como me disse se chamar) não foi em nenhum momento com um viés sarcástico, mas de constatação de como encaro tudo isso. Não dá para ser feliz e se inserir nas festas, todas com viés de gastos, compras, etc, enquanto persistir um outro mundo, invisível para a maioria das pessoas. É disso que escrevo. Ontem, domingo, acompanhei seu Timura na sua caminhada, ajudei-o a subir com seu "trenó/pertences" no elevado da rua Araujo Leite sob os trilhos ferroviários e constatei que dorme todos os dias dentro do terminal rodoviário, sob suas coisas. Seu canto é quase ao lado do terminal de embarque da Prata. Ele chega pela Nuno de Assis, ali se instala e fica até o dia clarear, quando circula pela cidade, ele e tudo o que pertence. Com ele nenhum presente a ser distribuido, mas o que é seu, o que lhe resta. Ele para mim é muito mais importante do que qualquer Papai Noel.

OUTRA COISA, PARA MIM TAMBÉM IMPORTANTE: Não queria escrever sobre outro tema hoje, mas o faço porque ocorre algo que me é muito próximo. Abaixo um CONVITE distribuido por mim via e-mail e o impresso. Aguardo os que puderem lá estar.
AMIGOS NOVOS E ANTIGOS - Acontece nessa segunda,13/12, 19h, na Galeria da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moares (Rua Amazonas quadra 1 - vila Coralina) a abertura da Exposição Fotográfica "A ARTE DE FOTOGRAFAR - TÉCNICA E LINGUAGEM", com o resultado de um curso gratuito ministrado durante dois meses no local pela professora e fotógrafa SANDRA RUBIN. Coquetel na abertura e a possibilidade da apreciação das fotos com temas relacionados à saída fotográfica dos alunos em dois locais aqui de Bauru, a Praça Rui Barbosa e o Parque Vitória Régia. Dentre os alunos participantes do curso, encontra-se minha namorada ANA BIA ANDRADE, encontrando-se aí mais um motivo para nos reunirmos e além de presenciarmos a abertura, promovermos um reencontro de final de ano. Conto com a presença de todos e todas. HPA

domingo, 12 de dezembro de 2010

RETRATOS DE BAURU (93)

SEU BAU, 85 ANOS DE LABUTA E OS SEBOS MAIS FAMOSOS DA CIDADE
João Francisco de Bau, possui um nome dos mais populares do centro de Bauru, desde que resolveu juntar o mesmo ao negócio começado décadas atrás, primeiro numa banca de jornais, depois com o mais famoso sebo da cidade, o sebo do Bau. Completando 85 anos, em plena atividade, viúvo a dois, é no trabalho que resolve todos seus problemas. Vê-lo ancorado diante do balcão do seu sebo, na avenida Rodrigues Alves, a uma quadra de outro onde o filho, cuida do de nome famoso é algo como um fortificante a lhe dar vitalidade para seguir adiante. Passou esse negócio de comercializar livros e revistas usados para os dois filhos, ele num, o filho noutro e o outro numa banca dominical na Feira do Rolo (esse junto dele na foto acima). Virou negócio de família. Seu Bau (sem acento, pois muitos acham que o nome do sebo é Baú) tem uma rica história desde a imigração do Nordeste, depois uma parada de anos em São Paulo, quando conta o relato de ter sido porteiro do prédio onde Elis Regina morou e morreu (seus filhos naquela época conviviam com Pedro Mariano e Maria Rita, filhos de Elis e César Camargo Mariano). Lépido e fagueiro em tudo o que faz, sabe ir cativando as pessoas e mesmo não sendo um entendido de literatura, consegue se sobressair muito bem numa atividade diferenciada, talvez motivado pela dedicação e organização do encontrado em sua loja, onde tudo está catalogado e de fácil acesso. Eis aqui um ótimo exemplo de sobrevivência e de prologamento de vida Seu lema é não parar nunca e continuar sempre fazendo na vida algo de produtivo. Seu Bau é um mestre nisso e nos dá um ótimo exemplo nesse sentido.
OBS.: Hoje, estampado na primeira página do diário Bom Dia, uma justa homenagem a esse abnegado trabalhador com a manchete: "Baú da Felicidade - Depois de descobrir Bauru, João Francisco faz o que gosta: vender coisas antigas no seu sebo". Todas essas fotos foram tiradas por mim em 2008 quando fiz com ele um memória Oral, o de nº 25, "O homem do sebo e sua história com Elis Regina" (07/01/2008).


sábado, 11 de dezembro de 2010

CENA BAURUENSE (74)

O QUE VEJO NAS RUAS NUMA CIRCULADA NUM SÁBADO À TARDE
Durante a semana toda algo me chamava muito a atenção. Na Rua Araújo Leite, quadra 11, entre a Batista e a 1º de Agosto, numa loja de motos, uma manequim com corpo escultural de costas para as ruas e a cada dia com uma calcinha diferente, uma mais provocante que a outra. Inevitável o olhar para o lado. O que seria aquilo? Calcinhas sexys sendo vendidas numa loja de moto. Não pode ser. Hoje para o carro e vou fotografar. Especulo e fico sabendo da história, bastando para isso dar uma lido num cartaz colado nas costas da manequim. Trata-se de um criativo garoto, que faz lavagem de motos e está a divulgar seu negócio. Com o apoio dos balconistas da loja, que me dizem a manequim já possui três calcinhas diferentes, muitos param para olhar, carros dão volta no quarteirão e a clientela de gente querendo lavar a moto aumentou. Gostei tanto (da idéia, não da manequim, viu?), que divulgo aqui. Tem mais, a balconista me diz que para chamar mais a atenção, levanta mais a calcinha, expondo mais o bumbum arrebitado da manequim. Mal sabe que qualquer dia provocará um acidente de trânsito. Confiram aqui como a criatividade ainda é a alma do negócio, pois nem sei se o tal garoto lava bem ou não motos.

Circulando pela Rua Treze de Maio uma grata surpresa. Reencontro o garoto Vitor Franco de Souza, hoje com 12 anos, sempre acompanhado do avô, Jair Franco, 83 anos (completará semana que vem). Sabem quem é esse garoto? É um dos maiores intusiastas do passeio férreo da Maria Fumaça em Bauru. Durante os quatro anos que por lá atuei, não perdia um só passeio. Chegava cedo e insistia de querer passear em todos os horários. Lembro bem dele, com nove anos fiz um Memória Oral aqui no mafuá, pois sua história era mesmo de empolgar. Arrastava o avô todo sábado para a estação e só não continua a fazê-lo porque o passeio foi paralisado. "Se voltar, vou todo sábado. Quero encontrar o prefeito para pedir isso a ele", me diz. Seu avô conta que um dos voluntários lá no passeio, o professor Vicente Aiello vendo a aflição do garoto, mesmo diante da impossibilidade dele ir em todos horários, sempre acabava dando um jeitinho dizendo: "Como deixar de fora uma pessoa que gosta tanto de trem". Paramos os três para conversar e matar saudade de algo, que certamente precisa voltar a funcionar o mais rápido possível.

Prometeu, cumpra. Eu recebo aqui no portão de casa infinitas visitas de moradores de rua. Residir próximo a linha férrea e a estação rodoviária propiciam isso. Não abomino, faço amizades. Numa delas, prometo a um deles que revelaria uma fotos tiradas meses atrás na Praça Rui Barbosa. Promessa feita e não cumprida a contento. Ele voltava durante umas duas ou três vezes por semana ao meu portão. Conversamos de tudo, mas nada de revelar sua foto. Não houve mais jeito. Semana passada acho as fotos, tiradas em junho e hoje entrego os originais para ele. Sai num contentamento de dar gosto e eu com mais uma certeza, aquela com que inicio esse tópico.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (31)

ESCREVO DE UM SER QUE REMA CONTRA OS AVANÇOS - ARNALDO JABOR
Sim, não reclamem, o texto será curto e grosso. Não gosto nem um pouco de ficar escrevinhando algo sobre alguém por quem não nutro nenhum tipo de acarinhamento. Arnaldo Jabor, o cineasta (faziam 16 anos que não filmava) e hoje, um cronista de alguns de nossos grandões órgãos da mídia, de forma escrita no Estadão/Globo (reproduzidos em muitos país afora, aqui em Bauru pelo Bom Dia) e de forma televisiva, na TV Globo. Nesses espaços faz questão de destilar seu latente ódio pelos avanços sociais no Brasil. Plínio de Arruda Sampaio, o candidato a presidente da República pelo PSOL disse num dos debates pré-eleitorais: "Pior que ser de direita é o cara que já foi da esquerda e se bandeou para o outro lado. Um vendilhão irrecuperável". Jabor é desses. Além de deitar falação de forma cada vez mais conservadora, aliando-se ao que de mais retrógrado existe no país, é hoje um dos precursores de um Instituto onde predomina a velhacaria, o "Millenium", que hoje virou uma OSCIP e na verdade é palco da defesa da liberdade individual, propriedade privada e a economia de mercado (escrevo deles com mais apuro qualquer dia desses).

Escrevo de Jabor, pois ao abrir meus e-mail hoje pela manhã, um bauruense, militarista de plantão, desses a defenderem as coturnadas de um dos períodos mais nefastos da história brasileira, o da ditadura militar (1964 - 1982), faz uma reverência a um texto de Jabor, com um toque de provocação no início com "O QUE MAIS ENDOSSA AS PALAVRAS DESSA CELEBRIDADE É QUE ELE FOI IDIOTA UM DIA... E PENSOU COMO OS PASCÁCIOS DE HOJE..." (veio assim em maiúscula mesmo). Fui ler o texto publicado no Estadão dia desses (cliquem a seguir http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101207/not_imp650366,0.php ). Que dizer além do já dito sobre esses saudosos de tempos onde o que predominava era a cana dura e uma minoria dando as cartas sobre a imensa maioria da população? Mais nada, ou melhor, disse sim, pois respondi ao que me enviou o e-mail com: "Meu caro. Jabor, o Arnaldo representa o que de mais retrógrado temos nesse país. O instituto onde faz suas pregações contra os avanços sociais, o Millenium é a casa dos que defendem as benesses de uns poucos sobre a imensa maioria. Jabor, que um dia já pregou a favor, hoje, mostrando sua verdadeira face, deixa exposto o lado mais horripilante de nossa nação, a da intolerância, negativismo, defesa das cruéis elites e de uns poucos, os ditos escolhidos divinos. Por sorte, o povo sabiamente segue escolhendo seu representantes em outra linha e eu com eles, cada vez mais longe do pregação de gente como Jabor. Inté e ao trabalho".

Mas ainda quero escrevinhar mais alguma coisa. É sobre o último filme do Jabor, "A Suprema felicidade"(veja o trailler - http://www.adorocinema.com/filmes/a-suprema-felicidade/trailers-e-imagens/#video-2582) , que fui assistir junto do filho. Gostamos da narrativa por causa da vida retratada de um avô (vivido por Marco Nanini), boêmio e tocador de trombone, pelo Rio do pós-Segunda Guerra. "A Lapa, o Mangue, o Carnaval de ruas antes das Escolas de Samba e do Sambódromo, a espontaneidade, a malandragem defendida a navalhadas, e a dificuldade e a dor em se tornar adulto e viver sem culpas o amor" (de um leitor da revista Piauí). Sai de lá com um sentimento estranho a me dominar, o de de ter gostado do filme, mesmo achando ter faltado o essencial (ter uma boa história e saber como contá-la), mas odiar o outro posicionamento do cineasta, seu radicalismo de direita. Explico isso ao filho, mostro o lado onde ele é detestável. Que ele faça mais filmes e destile menos ódio de sua caneta e venenosa língua, mesmo não acreditando que ele possua mais algum tipo de salvação.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

UM AMIGO DO PEITO (45)

NEM TUDO ESTÁ TOTALMENTE PERDIDO - SALVE OS QUE SE REUNEM PELA BOA MÚSICA
Noite de segunda, 06/12/2010, calor escaldante aqui no sertão paulista e uma turma de abnegados adoradores da boa e inabalável MPB resolvem se reunir para fazer o que gostam: degustar uma boa comida, tocar, cantar e ouvir música de reconhecida qualidade. O motivo (sempre existe um) era mais do que justo. Mês passado a maioria estiveram envolvidos com o espetáculo "Dois na Bossa", que reviveu no Templo Bar o imortal musical onde Jair Rodrigues e Elis Reginal encantaram o país. Do sucesso alcançado no Templo foi marcada uma festa, algo para celebrar o ocorrido e traçar planos futuros. O local escolhido foi justamente no mesmo onde ocorreram os ensaios para o musical, o imenso barracão (o que seria aquilo, um pré-estúdio ou um imenso salão de baile?) defronte a casa de dois protagonistas, Denise Amaral e seu marido, Neto.

Amigo de todos que por lá estiveram, fui também convidado e não comparecer num evento desses, na noite de uma segunda é o mesmo que você dar um tiro no próprio pé. Será que existiria outro lugar reverenciando a boa música como aquele na noite de segunda? Com certeza, o que presenciei ali foi algo indescritível. Vamos aos nomes. Os dois donos da casa, Norba Motta (que fico sabendo é uma espécie de presidente do lugar, faz o que quer, decide, manda prender e soltar), o baterista Toninho, João Paulo Biano e namorada (ela canta lindamente e estarão juntos do Mister Up, dia 12, no SESC), Sivaldo Carmargo (que dirige musicais magistralmente, assim como um copo de uma boa bebida - faz a ambos sem se alterar), Cida Conca (vem tirando lindas fotos de todos os espetáculos na cidade) e um baterista que estava sumido da cidade e volta agora de Londrina para reassumir posto que sempre foi seu, Paulinho Saca, juntamente da esposa. Naquele dia recebia meu amigo paulistano Fausto Bergocce, ilustrador de mão cheia e o levei à festa. Depois chega outra cantora de mão cheia, a outra Denise. Com esse time reunido Neto abre seu "baú de encantos" e põe na mesa variedades de sua especialidade culinária. Liberou o estúdio para quem quisesse tocar e cantar e "obrigou" todos a adentrarem um lagarto feito em fatias, de um dia para outro, desses de lamber os beiços. Quase no fim, Denise, a esposa apresenta algo seu, um cuscuz iguais ao que minha mãe faz em casa.

No teclado instalado ao fundo, Norba sentou e mostrou seu outro lado, o de excelente pianista. Sentadinhos no banquinho ao seu lado foram se revezando os presentes. Tudo começa com a Denise Amaral (lindos os clássicos de jazz), depois a outra Denise, depois João Paulo (começou com o Bêbado e a Equilibrista) e depois um revezamento, de cantoria e garfo. Neto, que ficou anos sem tocar, devido suas atividades bancárias, voltou com a corda toda. Num certo momento, disse estar sendo assediado por alguns amigos, que insistem para que toque junto música sertaneja junto a eles. "Até vou. Marco presença, gosto do ritmo, mas me realizo mesmo com a boa MPB", reafirma. De tudo o que vi, uma constatação simples, direta e conclusiva: NEM TUDO ESTÁ TOTALMENTE PERDIDO, EXISTE QUEM GOSTE E PRATIQUE O EXERCÍCIO DA BOA MÚSICA. Me vi no meio deles e isso me recarregou para o restante da semana. O melhor nome para aquele reencontro é o de um CD que tenho aqui no mafuá, o "NINHO DE COBRAS - AO VIVO". Caiu como uma luva.

RICARDO KOTSCHO NO PROGRAMA DO JÔ - Na terça, quem esteve no Programa do Jô, TV Globo, 23h50, foi o jornalista Ricardo Kotscho. Jô, como sempre, tenta encostar na parede os adversários do seu pensamento e o interpela sobre a Censura, Liberdade de Expressão e controle social da mídia (sic). Kotscho dá uma lavada no indelicado gordo. Cliquem a seguir e vejam o que realmente existe de verdade sobre isso: http://programadojo.globo.com/videos/v/ricardo-kotscho-e-o-controle-social-da-midia/1389308/

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

UM COMENTÁRIO QUALQUER (76)

DUAS OCORRÊNCIAS BEM DEZEMBRINAS, COM INCORPORADO ESPÍRITO NATALINO
Na primeira não resisti e na última sexta, 03/12, levo meu pai para rever um passeio de trem. Ciente de que a composição da Maria Fumaça iria se movimentar das oficinas da NOB para a estação central, num percurso de pouco mais de 600 metros, tudo para que nela chegasse o personagem do Papai Noel, no ato simbólico de abertura do comércio noturno em Bauru, consigo algumas vagas e vou junto dele e de pessoas queridas, reviver algo de que sempre gostei muito. Nesses momentos volto a ser criança. O vereador Mariano continua apregoando que está fazendo de tudo para que o trem turístico volte a funcionar (toc toc toc). Novamente ouço isso dele no tal passeio, do qual o prefeito Rodrigo Agostinho também participou. Chegamos na estação lotada de gente, principalmente crianças e constato novamente o carinho que todos possuem pelo apito férreo. Alex Gimenez, Luiz e Jesus, o trio de abnegados funcionários do Ferrovia para Todos são de uma atenção de dar gosto. Desdobram-se para atender a todos. Com um pouco mais de vontade política nosso trem voltaria, só aqui em trecho urbano ou num percurso regional. Já do Papai Noel pouco posso dizer, ele chegou na estação, subiu num automóvel antigo, acompanhado de um banda e sumiu nos rumos da Batista de Carvalho, incendiando o comércio noturno. Não me interesso por suas atividades, mas sim, pelo que os humanos possam fazer para nos devolver um enfumaçado trem nos trilhos bauruenses. Bauru tem tudo para ingressar de vez no Clube dos Passeios Turísticos Ferroviários no Brasil, mas... Por que não um grupo, com dedicação exclusiva para tratar desse tema? Agilizar é preciso.

No sábado, 04/12, leio nos jornais que um grupo organizado iria enfeitar o viaduto inacabado de Bauru, clamando por providências para seu término. Mais que isso, um grupo de moradores da zona rural iria protestar pela falta de água e luz em suas moradias. Solidarizo-me com ambas as causas e especulo de participar do ato. Entendo que o viaduto precise mesmo ser entregue ao uso, assim como olvidar esforços para entender os motivos pelos quais aquela parcela da população não receba o mínimo, água e luz. Passo por perto e ouço um caminhão de som com o sindicalista Marcos ao microfone apregoando culpas ao Governo Federal. Nem desço do carro. Não me junto a isso. Espero tudo acabar e vou tirar algumas fotos dos moradores em seus meios de locomoção, carroças e das faixas espalhadas pelo viaduto, que disseram estar agora enfeitado para o Natal que se aproxima. Já participei de muitas manifestações ao longo de minha vida, mas não costumo mais entrar em barca furada (“entrei de gaiato no navio, entrei, entrei pelo cano”, diz a música como se fosse uma lição de vida). O Sindicato dos Bancários e o tal do grupo Resgate Bauru (quem são e o que querem, quais seus interesses?), organizadores do evento, ajudariam muito mais se denunciassem os verdadeiros motivos de ambas as situações estarem a ocorrer. Gritar palavras fortes ao vento só desgastam o gogó. Se assim quiserem proceder, que façam diante de quem de fato possa resolver alguma coisa e parem de culpar sempre o Governo Federal. Vi a imprensa divulgar o ato no dia seguinte e na seqüência mais nada, como se nada tivesse ocorrido. E assim não se resolve nem uma coisa nem outra. O que fizeram já é “página virada, descartada no meu folhetim”, como na famosa letra musical.

ATÉ AS PEDRAS DO REINO MINERAL SABEM DISSO...
Nos jornais de hoje uma frase da vice-prefeita de Bauru para o prefeito Rodrigo: "Nós estamos em um barco. O capitão é você, mas não vamos aceitar navegar sem o mapa". Que bonitinho, hem! Reclama, mas não abandona o barco, pelo menos nesse momento e o fará, com toda certeza e pompa quando se aproximar as próximas eleições municipais, pois almeja o cargo deste. Disso todos sabem e não é necessário ser bidu para saber o que acontecerá no futuro.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

BEIRA DE ESTRADA (10)

REMINICÊNCIAS DE UM CAMINHÃO NA BEIRA DA ESTRADA ou RECORDAÇÕES DE UM CAMINHÃO
(Publicado na Revista do Caminhoneiro, tiragem de 100 mil exemplares, edição 273, outubro de 2010) *
Já fui muito ativo, rodei anos a fio e termino meus dias confinado num ferro-velho às margens da Belém-Brasília, vendo esse Brazilzão novo passar diante dos meus faróis, sem nada pode fazer. No começo batia uma angústia, por não mais circular, justamente quando as maiores transformações estão a ocorrer, porém sinto-me bem, um negócio aqui por dentro de dever cumprido, pois para chegar à situação atual, tudo ocorreu com a minha participação. Trabalhei por décadas, mais de cinqüenta anos.

Não vivo aqui nessa beira de estrada só de lembranças do passado. Delas não me separo, mas sei que tudo é uma continuidade de algo iniciado muito lá atrás. Se quiserem saber, conto um bocadinho de minha história. Ela é cheia de aventuras e de inusitados acontecimentos. Parece um thriller de um filme, ou melhor, daria mesmo um belo filme. O fusca já mereceu o seu e por que a minha saga não mereceria a mesma honraria?

Nasci numa fábrica paulista. De lá vim para uma revenda em Goiânia, conhecendo meu primeiro dono. Acabei nos confins da nova capital, na época de sua construção. Enfrentei estradas ruins, esburacadas e labutava diariamente, indo e vindo com cargas e gente. Trouxe para essa imensidão antes vazia um mundo de gente. Muitos deles fincaram raízes, tanto que um neto dos pioneiros, hoje aqui me abriga. É o dono do ferro velho.

Não reclamo daqui, muito já fiz. Meu tempo demorou a passar. Fiz a minha parte e bem feita. Imagina o vai-e-vem, num leva e traz de pessoas e materiais. Um desgaste danado, comi muita poeira. Suei a cântaros. Já fui uma espécie de ônibus, com lona e bancos sob a carroceria. Hoje, vejo cada baita ônibus e caminhão na estrada, nem te conto. Por sorte ou sensibilidade, sei lá, me posicionaram com os faróis voltados para a pista. Observo tudo, meio embaçado, comparo e constato a importância do caminhão para isso tudo que o Brasil é hoje.

Foi um tempo mágico, rodava sem parar. Se me perguntarem o nome dos que estiveram no volante junto a mim, não lembrarei todos. Foram muitos, cada um de uma região desse país continente. Por uns fui tratado com carinho danado, outros nem tanto, mas de todos guardo boas lembranças. Esticaram-me a vida o quanto puderam. Rendi a todos bons negócios, fui valente e hoje vendo a estrada que vi nascer, alquebrado pela quantidade de quilômetros rodados, reconheço ter parado no meu limite.

O tempo passou e ao me dar conta, perdi o aspecto da mocidade, sendo negociado com esse último. Retiraram tudo o que tinha de aproveitável. Sim, você caminhoneiro passando aqui diante de mim, não me olhe com desprezo ou piedade. Tô aqui debaixo de sol e chuva, como sempre fiz, mas saiba de antemão, assim como esse aí, guiado por ti, esse aqui que vos fala foi um dos que facilitou a sua vida, fertilizou o caminho para que pudesse desfrutar dessa vida atual nas estradas. Não reclame, olhe para trás e levante os olhos diante do futuro. Muito a ser feito e agora é com vocês. Passando diante de outros na minha situação, faça um breve aceno em sinal de reconhecimento. E toque em frente.
* As fotos publicadas do lado direito foram todas tiradas por mim, servindo de fonte inspiradora para essa crônica. Voltava de Jaú em outubro e no trevo de Pederneiras, vi esse cemitério de carros, ônibus e caminhões antigos. Daí veio a idéia para o escrevinhamento acima.