terça-feira, 7 de outubro de 2008

BAURU POR AÍ (06)

ANDRÉ, DE BAURU, DO CINE-CLUBE, ESTUDANDO CINEMA EM "BEIJING", NA CHINA
André Ricardo Ferreira, 27 anos, estudou Desenho Industrial na UNESP de Bauru e até semanas atrás era o vice-presidente do Cine Clube de Bauru. Amante de cinema, conseguiu emplacar um sonho. Em 03/09 embarcou para a China, onde é um dos alunos da Beijing Film Academy, a principal escola de cinema da Ásia. Meses atrás havia descoberto que o governo chinês oferecia bolsas de pós-graduação para estrangeiros, incluindo pagamento de mensalidades, moradia, material didático, plano de saúde e uma bolsa de US$300 por mês. Fez a inscrição, correu atrás e ficará quatro anos em solo chinês. No primeiro ano estudará o idioma mandarim e nos três seguintes, cinema. Ele acaba de abrir um blog, onde repassará suas impressões do país, de tudo um pouco, do que vai presenciando e, principalmente, de cinema chinês. Amigos em Bauru receberam o primeiro relato, transcrito aqui de forma resumida (o texto integral está postado no blog - ele apanha com os acentos no teclado chinês):

"Oi pessoas!Gostaria muito de poder ter tido tempo e oportunidade de escrever um email relatando cada passo da minha estada em Beijing... Fazem pouco mais de duas semanas que aqui estou, e agora, depois de emprestar um laptop de uma amiga que viajou (e que está todo em chinês) posso com calma enviar um resumo.(...) Hoje vejo que o choque cultural que a China contemporânea me apresenta, é na verdade estimulante aos sentidos e agora o plano se multiplicou manifestando-se num mestrado. Cheguei em Beijing no dia 16 de setembro. Fui um dos brasileiros selecionados pelo governo chines a receber bolsa de estudos integral, sem gastos e inclusive com salario para realizacao de mestrado. Estou estudando na Beijing Film Academy, a maior escola de ensino audio visual daÁsia. Primeiro terei um ano de intensivo de mandarim e depois realizarei mestrado sobre a produção audiovisual independente na China contemporânea. Esse foi um processo lento e estressante, realizei muitos exames, enviei documentacoes diversas, cartas de recomendações, projeto de pesquisa, cumprindo ao maximo a complicada exigência burocratica, sem exceções.

Já no aviao com destino a Beijing, os sentimentos eram estranhos. Estava feliz, mas ao mesmo tempo tenso por deixar por talvez 4 anos a minha familia, por iniciar uma nova vida e por tudo o que isso podia representar. Atravessei continentes com um senhor ao meu lado que falava pouquissimo ingles, que foi sempre super gentil, e que por milhares de quilometros arrotou insistentemente ao meu lado. O voo da Air China fez escala em Madri, e la, na sala de transferencia do aeroporto, vi que eu e uma moca eramos os unicos sem descendencia oriental evidente que se encaminhavam a Beijing, entao resolvi falar com ela. Era uma brasileira chamada Tarsila, professora de Portugues na Universidade de Pequim. Ela foi simpaticissima, inclusive me ajudando no aeroporto, a pegar o onibus e ate me parando um taxi assim que chegamos no distrito de Haidian. Economizei e senti um alivio muito grande, obrigado Tarsila.

A China que me foi apresentada ate agora eh grande, de arquitetura diversa, ousada e prepotente, repleta de parques, de arvores uma cidade cenografica lindissima.Para se ter uma ideia, nos muitos quilometros que percorri de onibus e que me deu a primeira imagem, inesquecivel, da China, a estrada a cada cerca de 5 metros tinha as laterais ornamentadas com vasos floridos.Eh claro que tenho consciencia que esse caminho provavelmenteassim o eh porque eh por onde os estrangeiros em epoca olimpica passariam, mas isso em nada modificou a beleza do que vi. Paisagem verde, jardins muito bonitos, construcoes ultra-sofisticadas, carros, bicicletas, motos eletricas, ciclovias, tudo numa paisagem extremamente plana, sob um ceu cinza. Entrei no taxi sem falar chines, com o endereco escrito em mandarim (agradeco ao pessoal do restaurante Li Chen) em minhas maos. O motorista nao falava ingles e era BEM antipatico, mal educado mesmo, bem diferentede muitos chineses que acabei conhecendo. Pelo menos fui deixado em frente da universidade, gastando cerca de 17 yuans (+/- 4 reais).

A universidade eh grande com varios predios cinzas, dos muitos departamentos existentes, um paisagismo bem-pensado que torna o lugar aconchegante. No caminho entre a entrada da faculdade e os alojamentos, fui ajudado por duas pessoas que falavam ingles, entao foi tudo muito facil. Ao chegar no apartamento adorei. Meu quarto, o numero 613, tem banheiro, tv, ar condicionado, aquecedor, cofre eletronico, telefone e limpeza diaria por conta da universidade. O alojamento eh duplo mas fiquei alguns dias sozinho ate meu colega de quarto aparecer. Ele se chama Patrick, eh da Suecia, simpatico e acho que nos daremos bem. Fora ele, fiz colegas da Croacia, Tunisia, EUA, Coreia, Nigeria, Armenia, Mexico, Malasia, Alemanha, Austria, Inglaterra e Brasil, sem dizer eh claro da China. A estudante brasileira na universidade chama-se Ana, ela esta estudando chines por aqui, e esta sendo desde o inicio muito solicita, simpatica, gentil e amiga, me ajudando bastante nesses primeiros momentos onde voce se sente super perdido, impotente.
Os primeiros dias foram estranhissimos, por estar sentindo aquele imaginavel choque cultural mas tambem por nao conseguir me comunicar.Mesmo falando ingles, fazer as coisas mais basicas como comer, telefonar e usara internet foram tarefas muito, muito complicadas. Agora, aos poucos vou percebendo as coisas, reconhecendo caracteres, me sentindo um pouco mais orientado. Meu dia-a-dia resume-se a estudar de manha o mandarim, ou Putonghua, em Pin Yin (transcricao fonetoca dos caracteres para letras latinas) e tambem ter tardes e noites divididas entre o mandarim e conhecer um pouco da cidade. Na verdade o que acho o momento mais esperado do dia eh o almoco, tanto por adorar comer comida chinesa, quanto pela experiencia culinaria e cultural que aqui o eh.(...) No dia-a-dia come-se carne de frango, porco,vaca, peixe, camarao, carneiro, a maioria com muito arroz e legumes diversos.Bebe-se tambem muito cha, muito gostosos, e eh claro sem acucar,como um cha chines deve ser. A comida que experimentei em Beijing eh repleta de cores, novidade em odores, sabores, mas tambem repleta de pimenta e oleo. Como questao de sobrevivencia ja aprendi a pedir comida sem pimenta...Tenho muita, muita coisa ainda a dizer, a lembrar e escrever, por isso vou finalizar sem um fim.

Criei um blog em http://www.thebeijigner.blogspot.com/, o qual sempre que possivel atualizarei com o que de novo acontece por aqui. Abracos e sorte a todos.

Ps: desculpem-me pelos erros que devem existir, mas nao estou com mais paciencia para revisar nada hehe".

André Ricardo - Laboratório Filmes Cine Clube Aldire Pereira Guedes M.A. student at Beijing Film vocemeachou@hotmail.com

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

UM AMIGO DO PEITO (11)

ROQUE FERREIRA, UM VEREADOR DE VERDADE (E AGORA, DE FATO)
Quem circula pelo começo da rua Bernardino de Campos e segue por uma via de acesso para a avenida Castelo Branco, dá de cara com um muro, onde a moradora, a Faneco, o utiliza como um outdoor. Escreve a spray o que lhe vêm na mente. Durante algumas semanas lá estava: "Você sabe qual o barulho do serrote?". O que ela queria dizer com aquilo? Muitos pararam para perguntar. Era uma charada, respondida há duas semanas da eleição, quando a dona do muro pintou a resposta: "Roque...roque...roque...roque...roque...". Esses são os amigos do Roque, a maioria agem dessa forma, espontânea e sincera. E não temem demonstrar quanto o admiram.

Esse veio para ficar (e não é de hoje). Roque era merecedor de um mandato desde que me conheço por gente (a mais remota lembrança que tenho dessa amizade vai de quando o Império foi campeão do Carnaval de Bauru - lá se vão mais de 20 anos). Esse foi o maior merecedor dentre as 16 vagas disputadas. Havia tentado por 3 vezes o cargo de vereador (bateu na trave em todas anteriores) e uma para prefeito. O golaço acontece agora, de forma estrondorosa. Só ele sabe o quanto penou até chegar aos píncaros da glória. É amigo de longa data e será um vereador dos mais atuantes. Passei na festa de sua vitória ontem à noite (toda cotizada entre os presentes), lá no Comitê, na esquina da Cussy Jr com AlfredoRuiz. Sabe quem eram as pessoas que estavam por lá? Algo que nenhum outro político de Bauru possui, uma turma de fiéis militantes, todos envolvidos na campanha de uma forma espontânea, simplesmente (e tão somente) por acreditarem na pessoa e na proposta. Se ainda existe militância política, estava diante um bom exemplo.

Roque chega lá aos 53 anos, sem nunca ter mudado sua postura, sem se moldar ou mudar o roteiro de sua vida. Todos que o conhecem, sabem que o cara é inflexível e continuará sendo a mesma pessoa, com cargo ou sem ele. Ferroviário e sindicalista, seu nome sempre esteve envolvidíssimo nos movimentos sociais por essas plagas. Foram 3.500 votos e uma certeza. A de que é com pessoas iguais a ele que se pode entregar o poder, sem que tenhamos dores de cabeça. Roque não é genérico. Pode-se até discordar de um monte de coisas a seu respeito, mas não existe como deixar de acreditar e confiar em suas atitudes. E ele possui um poder de convencimento muito grande. Não nega fogo. Estive ao seu lado em várias contendas e numas poucas discordei, chegando a trocar farpas no passado. Acabei me redimindo, fiz minha mea culpa, percebi meu erro. Eram disputas eleitorais e não notei a tremenda pisada na bola ao criticá-lo. Ele me desculpou. Voltamos a ser amigos.

Hoje, estou muito contente por ele. Mais ainda, pela certeza de que teremos um vereador exemplar, como poucos. Na eleição de ontem, fiquei alegre por ele e outros que admiro e respeito, e triste por outros, que perderam o mandato e não chegaram lá. Com Roque, dessa vez, só alegria. Na festa no Comitê, transformado em bar (já era bem uma meia-noite, hora de lobisomens), tirei fotos dos amigos reunidos e as publico aqui. Imaginem essa turma na posse do guapo em primeiro de janeiro de 2009? Também quero estar por lá.

domingo, 5 de outubro de 2008

CHARGES ESCOLHIDAS À DEDO (09)

"CHARGE ON LINE", DO MARIANO (http://www.chargeonline.com.br/)
Hoje, domingo, dia de votação, garoa em Bauru e o dia está propício para não colocarmos o pé fora de casa. Já o fiz logo cedo. Fui votar no La Salle e fiquei o resto da manhã revirando papéis aqui no mafuá. Está sendo uma delícia. Amante dos quadrinhos (principalmente os nacionais), um dos sites especializados no tema, que viajo sempre é o do Mariano, o Charge on line. Hoje, só tem charges sobre o pleito eleitoral. Têm para todos os gostos. Escolhi algumas e publico aqui. Para ver todas, basta navegar por lá. Mesmo com toda seriedade do dia de hoje, nada como uma saída pelo lado do humor. Faço isso sempre, sem perder a seriedade ("sem perder, a ternura, jamais").

Como passei toda a manhã entre papéis, procurei um texto que falasse de eleições e fui encontrar o que queria num do Fausto Wolff, falecido recentemente, publicado no JB RJ, em 02/09/2006, um sábado, um mês antes das eleições daquele ano. Ele é muito contundente e aos que ainda não conhecem seu texto, esse aqui serve para conferirem como era sua linha de pensamento e atuação:

"Não vote em ninguém porque o primo de um amigo recomendou; não vote em ninguém que suba favelas de quatro em quatro anos para oferecer quinquilharias; não reeleja nenhum ricaço, pois se nada fez, continuará nada fazendo; leia com cuidado a biografia dos candidatos; não vote em sanguessuga, mensalonário, alterador de painéis, comprador de votos para reeleição; não vote em partidos de aluguel nem em candidatos que vivem trocando de siglas; vote nos nomes que deixaram partidos que se corromperam; não vote em quem defendeu os ratos das CPIs; antes de votar verifique se não está votando no parente de um ladrão ou em quem gastou durante a campanha mais do ganhará em salários durante o mandato; não vote em quem usa Cristo para roubar dinheiro de trabalhadores; não vote em quem auxiliou a quebra do monopólio da Petrobras, a emenda de reeleição de FHC, a privatização de nossas riquezas, os acordos com o FMI, o engavetamento das CPIs dos Bancos, a modificação da Lei de Patentes, a flexibilização da CLT e, por fim, não vote em latifundiário, destruidor de florestas, mantenedor de trabalho escravo, matador de índios, bóia-frias e camponeses sem-terra. Quem sabe, então, talvez possamos ver a liberdade raiar para sempre no horizonte do Brasil".

Ler isso, refletindo com as imagens das charges (na sequência: Aroeira, Fausto, Ique, Dálcio e Amorim, todos ex-pasquineiros) é algo inebriante. Para ampliação, cliquem nas imagens.

sábado, 4 de outubro de 2008

MEMÓRIA ORAL (49)

UM FÉRREO ENCONTRO
Bauru não é somente a terra do famoso sanduíche, do astronauta ou onde Pelé começou a jogar futebol. Um famoso entroncamento ferroviário fez história e gerou boa parte do progresso atual da cidade. Noroeste, Sorocabana e Paulista cruzaram linhas aqui. Sede administrativa da Noroeste do Brasil por muitas décadas, belas edificações foram construídas na cidade. Numa delas, "a mais bela estação ferroviária do interior paulista"(palavras do escritor araraquarense Ignácio de Loyola Brandão), fechada há uma década e meia, desde a privatização das ferrovias brasileiras, acontece o I Encontro Histórico Ferroviário e de Ferromodelismo de Bauru, entre os dias 27 e 28/09, movimentando o setor e gente interessada pelos destinos da ferrovia brasileira.

A cidade com pouco mais de 370.000 habitantes, demonstra ainda pulsar ferrovia e durante os dois dias, motivado por forte e decisiva contribuição da mídia local, arrastou para as instalações da gare da estação e do museu ferroviário, mais de 5.000 pessoas, numa evidente demonstração de que o tema continua atraindo muita gente, principalmente numa cidade com fortes laços aos trilhos. "Compramos a idéia desde o início, pois eventos envolvendo a ferrovia possuem a cara da cidade. Fizemos a nossa parte e junto a um belo produto, ajudamos a reviver o passado, que envolve a todos por aqui", diz Renato Zaiden, diretor do Grupo Cidade, capitaneado pelo Jornal da Cidade, que massificou a divulgação do Encontro e era de um contentamento de dar gosto com o sucesso ocorrido.

Uma programação festiva atraiu as pessoas. Com duas composições férreas estáticas, paradas na gare, uma antiga, a da Maria Fumaça, do projeto Ferrovia para Todos e outra, em atividade, da ALL – América Latina Logística, concessionária da malha ferroviária no interior paulista, pessoas entravam e saiam dos trens. Viagens não foram programadas, mas o entra não parou um só instante. Mesas com maquetes de ferromodelismo, vindas de várias cidades da região fervilharam o interesse popular. "O ferromodelista é antes de tudo um apaixonado por ferrovia. Na impossibilidade de ter uma locomotiva em casa, possui réplicas em escala. Eventos como esse servem para quebrar um hiato. O hobbie é praticado por pessoas com mais de 40 anos, pois os mais jovens não tiveram contato com a ferrovia. Queremos apaixonar essa nova geração e toda tentativa de aproximação é válida", explica o engenheiro Ricardo Bagnato, 46 anos, diretor da Associação Ferromodelista de Bauru, um dos organizadores do Encontro, juntamente com a Prefeitura Municipal de Bauru.

O artesão bauruense Chico Cardoso trouxe duas réplicas de locomotivas de madeiras sob rodas e foi uma das coqueluches. Pais empurravam seus filhos pelo espaço todo. "Meu filho não sossegou enquanto não andou nesse trenzinho. E ele produz um som igual ao do trem de verdade. Voltei no tempo e viajei com ele", disse a professora Miriam Palotta. Logo ao lado, numa longa plataforma coberta, foram montados dois trilhos paralelos, ambos feitos artesanalmente por seus idealizadores. José Leonel Damasceno, o Léo, 47 anos, metalúrgico, criou a FerrLeo (http://www.ferrleo.com/), expõe de forma fixa numa praça pública em Ribeirão Preto, onde mora e abrilhanta eventos Brasil afora. É didático, principalmente com as crianças, dando noções sobre ferrovias, sua história e sobre o funcionamento das locomotivas. Como bom mineiro, não perde tempo e conta suas histórias. Pergunta a uma visitante se ela sabia uma única vez que o mineiro não se utiliza da palavra trem para algo. Diante da negativa, diz ser para o próprio trem e explica: "Na estação, com mulher e filhos, pergunta pelo horário de saída e tendo a resposta, corre para a esposa: Muié, junta os trem, que o bicho vem vindo".

O menino Vitor Franco de Souza, 9 anos, demonstra ter aprendido a lição. Léo o deixa monitorar o funcionamento da composição e diante de uma repórter da TV, deixa claro ter assimilado os ensinamentos. "Isso aqui não é um brinquedo. Aprendi como funciona uma locomotiva e que ela é um meio de transporte mais eficiente que o carro", diz. Juntinho, outra mini-ferrovia, essa mais minuciosa e detalhista, obra de pura dedicação dos irmãos Arnaldo e Pedro Bottan, de Lençóis Paulista. Aposentados, sem vinculação familiar com a ferrovia, constroem a mais de dez anos verdadeiras obras de arte, réplicas perfeitas de antigas locomotivas. A trazida para Bauru tem uma caldeira igualzinha a original, parada na gare, ambas movidas a lenha. Encantamento geral, propiciando passeios disputadíssimos num trilho de 60 metros de comprimento. "Uma senhora veio me dizer que seu filho esperava por mais de meia hora. Respondi que demorei oito anos para terminá-la, mas que com um pouco de paciência, sua hora chegaria", diz Arnaldo Bottan, praticante da modalidade denominada Vapor Vivo, que acaba de ser capa da Revista Ferroviária(http://www.revistaferroviaria.com.br/). Não pararam um só instante, numa ação que eles mesmo denominam de "quebra-ossos", tal a intensidade do senta-levanta.

A revista estava num estande instalado no local, demonstrando que nem tudo ali era festa. Muita coisa séria estava sendo discutida e apresentada aos visitantes e interessados. A ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (restauro de composições férreas), a Fundação Romi (restauro estação de Santa Bárbara D'Oeste), a ALL (segurança férrea e inovações no setor), o Serra Verde Express (passeio férreo de Curitiba-Paranaguá) , Estação Kafé (posto de combustível com temática ferroviária), a Frateschi Trens Elétricos (miniaturas de ferromodelismo) entre outros, marcaram presença, todos com resultados práticos em quesitos voltados para a causa. Inovação mesmo quem apresentou foi Sebastião Pereira da Silva, 80 anos, da INJ Plastic, de Bauru, tentando implantar no setor os dormentes reciclados de plástico, ecologicamente muito mais recomendáveis do que os de madeira e concreto. "Para os céticos, além dos certificados já conseguidos, atestando sua eficiência, dou garantia de 500 anos, mais dez dias", diz o sorridente criador da idéia, perseguido político em 64 e criador da Plasútil, uma conceituada indústria de embalagens plásticas.

Ferroviários circularam por todo o local, demonstrando a cada abordagem a tristeza com os destinos dados à ferrovia no país. No sábado um se destaca, Waldemar Alves da Silva, 80 anos e há 35 aposentado na função de maquinista da Noroeste do Brasil. Tirou do armário seu velho paletó e quepe de trabalho, vindo desfilar entre os presentes com o fardamento alinhado, do qual não se separou esse tempo todo. Vendo-o na TV à noite, o gesto foi repetido no domingo por outra dezena deles. Não houve quem não se emocionasse com a cena. O fluxo de pessoas foi tão intenso que a Microlins, também patrocinadora, enviou alunos do seu curso de Turismo para ajudar na monitoria aos visitantes. Maria Leoni, 67 anos, telegrafista aposentada desde 1988 montou no local um aparelho e o colocou para funcionar, formando fila de interessados em tão remoto meio de comunicação.

O advogado Luiz Carlos Rosseto Curvelo, 67 anos, trabalhou somente 5 anos na ferrovia e me puxando pelo braço, fez questão de mostrar o local exato onde havia trabalhado, na Secretaria Geral da Estrada de Ferro, nos idos de 1955. "Eram gente muito exigente. Aprendi aqui tudo o que sei hoje", resume ele, empunhando a velha carteirinha de ferroviário. Ele foi entrevistado pelo projeto de Memória Oral, realização do Cine Clube local, captando depoimentos de ferroviários que circulavam pelo museu. O museu permaneceu lotado durante todo o tempo de visitação, com gente saindo pelo ladrão. Outro que por lá passou foi Lourival Custódio de Lima, 55 anos, gravando seu depoimento e sendo sorteado com um brinde do evento. Não se conteve, pediu para fazer uso do microfone e tascou uma mágoa guardada no peito. "Isso que fizeram com nossas ferrovias é um verdadeiro crime. Privatizá-las foi um crime. Eu me arrepio só de entrar nessa estação. O Lula precisa olhar com mais carinho para isso tudo", ressaltou um exaltado Lourival.

Numa sala dentro da gare, onde décadas atrás havia sido um restaurante, depois uma agência bancária, foi instalado uma Sala de Vídeo, com projeções ininterruptas de filmes voltados para o tema. No domingo, quando as portas principais já haviam sido cerradas, foi difícil desligar os equipamentos, pois muitos insistiam em ali permanecer. Pediam mais. Quase ao final do evento, Rodrigo Rocha, da ALL, liga a locomotiva da empresa. A fumaça e o barulho aumentam a curiosidade. Buzina a "louca", como ele carinhosamente chama o modelo U20-3915. Do outro lado da gare, o maquinista Geraldo Pires, apita a locomotiva Maria Fumaça a vapor 278, modelo fabricado nos EUA em l919. Foram minutos de muita agitação, com palmas ecoando por todos os lados.
Os portões foram fechados no domingo por volta das 17h30, porém muitos por lá permaneceram até anoitecer. A aparato ia sendo desmontado, maquetes e estandes encaixotadas e muita gente não arredava pé. A loja da Rio Grande Hobbies, de São Paulo foi uma das últimas a fechar, tal o movimento. A locomotiva da ALL saiu da gare sob aplausos e flashes. "A ferrovia não merecia o destino a ela traçado no Brasil. E se não voltar por bem, terá que voltar pela necessidade. Não dá mais para viajar para os grandes centros urbanos de carro, é burrice", conclui um emocionado Eudes Soares Nóbrega, 51 anos, médico cearense radicado na cidade, resumindo o pensamento da maioria dos presentes.

Henrique Perazzi de Aquino, escrito de uma só talagada em 30/09/2008.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

UM COMENTÁRIO QUALQUER (20)
80 ANOS DO FIORI GIGLIOTTI

Quem me lê aqui sabe que gosto de futebol. Gostei mais, mas continuo acompanhando e torcendo. De vez em quanto toco no assunto. Aprendi a ouvir e gostar de narrações esportivas na rádio Bandeirantes AM SP. Um narrador me acompanhou desde minha adoslecência até bem pouco tempo. Falo de Fiori Gigliotti. Sua voz foi marcante e isso durou décadas. Até hoje, por mais que tente, continuo ouvindo pela Band. Já tentei outras, mas acabo voltando para o reduto. Quiz tocar nesse assunto, pois acabo de escutar por aí, que se vivo, Fiori completaria esses dias 80 anos. Ele morreu em 2006, após ter saído da Band, passando pela Record e depois Capital.

Sei pouco sobre ele. Coisas mínimas. Que é da Barra Bonita, pois sempre fazia questão de citar sua cidade natal. Sua voz é que me é inesquecível. Politicamente nada sei, acho até que devia ser um tanto conservador, mas possuia um vozeirão que me encantava. E encantou gerações. Há dias queria dar uma paradinha na Gigliotti Seguros, ali na quadra três da Octávio Pinheiro Brisolla, pois lá existe no luminoso uma informação sobre um Memorial em sua homenagem. Achei que fosse lá. Hoje parei ali e verifiquei que o tal Memorial funciona em Jaú. Quando passar por lá, com certeza, o visitarei. Aqui deixo a dica, para os interessados em conhecer algo sobre Fiori Gigliotti, que entrem no site, http://www.gigliotti.com.br/ , cliquem no "Uma homenagem à FG" e vejam a bela homenagem prestada a ele, criador de bordões inesquecíveis como: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo", "o tempo passa...", "crepúsculo do jogo", "uma beleeeza de gol" e tantos outros.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

RETRATOS DE BAURU (38)

VITOR FRANCO DE SOUZA, 9 ANOS, AMANTE DA FERROVIA
Esse menino acabou se transformando em figurinha carimbada lá pelos lados da ferrovia, principalmente nos passeios realizados com a composição férrea da Maria Fumaça. É vidrado nos trilhos, na ferrovia e em tudo o que diz respeito a esse tema. Não sai de lá. Carrega consigo os avós. Nos dias de passeio, é persistente, havendo vagas, viaja em todos. Com o passar do tempo, foi conquistando a simpatia da equipe e hoje é uma espécie de mascote, de pessoa símbolo dos passeios, tal a regularidade com que o frequenta. Demonstra possuir um amor incomensurável por aquilo tudo. Nos dois dias do Encontro Ferroviário, esteve por lá, durante quase o tempo todo, arrastando consigo, num momento o avô, noutro a avó. Fez amizade com os expositores e acabou conduzindo as duas mini-composições lá instaladas, a FerrLéo e a Vapor Vivo. Numa demonstração de que havia aprendido muito bem a lição, após fazer a FerrLéo funcionar, foi entrevistado pela TV e disse em alto e bom som: "Isso aqui não é brincadeira, como muitos pensam. Isso é coisa séria. É um meio de transporte muito mais eficiente e prático do que o automóvel". Pouco sei dele, mas já nos cumprimentamos efusivamente a cada reencontro, tal o interesse pelos mesmos temas. Tenho certeza, que necessitando de uma pessoa habilitada para prestar uma monitoria sobre os passeios, Vitor estaria mais do que habilitado, pois além de já ter presenciado a feita no local, quase uma centena de vezes, tem um discurso que caiu nas graças de todos. Vitor é nosso homenageado na semana. Um menino que ama a ferrovia, mesmo não tendo parentes advindos dela e sem ter andado em qualquer outro tipo de trem, que não o dos passeios turísticos de Bauru.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

UMA FRASE (23)
PENSAMENTOS DE ODED GRAJEW
Existe uma espécie de consenso de que o pensamento do empresariado brasileiro é daqueles que só enxerga o próprio umbigo. A esquerda brasileira afirma que um dos motivos do atraso do país, deve-se em grande parte pelo motivo do empresariado nacional não ter seus olhos voltados para a nação e o grandes problemas nacionais, e sim, e tão somente, para seu próprio negócio. Não estão nem aí para a nação, querem manter seus privilégios e pronto. Existem as exceções. E elas devem ser enaltecidas. Aqui reproduzo o pensamento vivo de um empresário, cuja ação é voltada para o social, dando uma importância elevada para a participação popular. ODED GRAJEW é seu nome. Nascido em 1944, em Israel, chegou ao Brasil aos 12 anos, em 1972 criou a Grow Brinquedos, dirigiu entidades de classe e em 1990 criou a Fundação ABRINQ pelos Direitos da Criança e do Adolescente. Desempenha um papel, que ele mesmo chama de "empresariado social". Concedeu uma entrevista para a Revista E (edição de julho 2008), do SESC SP, cujos pensamentos reproduzo abaixo:

- "Sabe aquele cara que tem um enfarte e resolve cuidar da saúde? Porque o enfarte é resultado de um monte de coisas: alimentação ruim, vida sedentária, estresse, colesterol. Ou seja, é sintoma de uma doença. Aí o sujeito tem uma chance e resolve cuidar da vida, fazer exercício, etc. Essa é a esperança para São Paulo. São Paulo enfartou. Enfartou, mas não morreu, então tem uma chance de se cuidar".

- "O problema da corrupção diz respeito à sociedade como um todo, porque existe o corrupto e o corruptor. Na realidade, o que alimenta muito a corrupção é a impunidade".

- "Finalmente descobriu-se que o mundo tem limites, que o planeta tem limites, que as cidades tem limites e que não se pode fazer as coisas sem atentar para esses limites. É preciso se desenvolver de outra forma. Por isso, se fala em desenvolvimento sustentável, um desenvolvimento que faça com que a vida não piore amanhã".

- "Cada indivíduo tem que se sentir, primeiramente, um cidadão no seu dia-a-dia. Não adianta xingar o prefeito se você não paga imposto, se joga lixo no chão, se limpa a calçada com água, se ultrapassa sinal vermelho, pára na faixa de pedestre. É uma questão de cada um assumir a sua responsabilidade na cidade em vez de sempre apontar o dedo para o outro. É como dizia Gandhi (1869-1948): "nós temos que ser o mundo que nós queremos ter. Se quer que o mundo seja ético, você tem que ser".