domingo, 7 de março de 2010

UMA ALFINETADA (65)

ESCRITOS RÁPIDOS NUMA MANHÃ DE SEXTA (E UMA CONTINUAÇÃO DOMINICAL) - parte desse texto foi publicado originalmente n'O Alfinete, de Pirajuí, edição ontem, de 06/03
1. Escrevo essas poucas linhas ouvindo uma voz maravilhosa, a de Johnny Alf, que ontem faleceu aos 80 anos. Esse sim foi um dos precursores da Bossa Nova. Duas rádios de Bauru tocam música de qualidade, a Veritas e a Unesp Fm e ainda conseguimos escutar essas preciosidades. Nas demais, aquele batidão de doer os ouvidos e quase nada para se aproveitar. Johnny é da mesma geração de Tito Madi, o pirajuiense que aprendi a gostar e não paro de reverenciar. Vou estar com ele neste mês e só por poder vivenciar isso nos meus poucos retornos ao Rio, sinto-me um privilegiado. Vê-lo resistindo, fazendo sua fisioterapia e com uma fonoaudióloga a lhe atender todos os dias é algo para encher os olhos d’água. Tito vive uma situação privilegiada, conseguindo se recuperar, de forma lenta e gradual, mas segura e percebida por todos ao seu lado. Johnny sofreu um bocado nos últimos tempos, meio que esquecido numa casa de repouso na grande São Paulo. Como é triste ver a situação dessa maravilhosa geração musical.
Na foto, a capa de um dos LPs que tenho dele aqui no mafuá e gasto de escutar aqui na reclusão do mafuá.

2. Continuo viajando por essas estradas paulistas e não me conformando com a quantidade de novos pedágios. Antes só num sentido, agora de ida e volta, ininterruptos e arrancando de nós, pobres usuários, nossos suados caraminguás, sem que tenhamos estradas de primeiro mundo. Como é rápido o processo para se erguer um posto de pedágio e como é lento o processo de revitalização de nossas estradas. Fujo o mais que posso desses urubus em cima de nós e virei adepto das estradas vicinais. Estou até preparando um roteiro com algo de cada uma delas, particularidades, paradas de lazer, essas coisas. Em quase todas observo placas do Governo do Estado de SP sobre algo que não consigo visualizar na prática: sua recuperação. As placas estão lá, junto dos buracos, lado a lado. A placa avisando chega muito antes do dinheiro da recuperação. Desvio de buracos mil e outros tantos pedágios. Desses, como já disse aqui, parecem urubus enfileirados a espera de nossa obrigatória contribuição. E o manager disso quer ser Presidente da República? O Brasil vai se transformar numa imensa praça de pedágio. Preparem-se ou fujam de riscar um “xis” no seu nome na próxima eleição.

3. Falo aqui de pirajuienses. Semana passada cruzo com um que ainda não conhecia pessoalmente. Marquinhos do PT estava na Barra Bonita quando da passagem por lá de Cândido Vaccarezza, líder do governo federal na Câmara dos Deputados e batemos papo alongado sobre seus projetos e esperanças mil para sua cidade. Conheci também o vereador de Reginópolis, o Iumir Raduan, que me falou bastante da exposição do cartunista Fausto em sua cidade. Também na semana troco e-mails acalorados com Francisco Bonadio Costa, um pirajuiense radicado em São Paulo. Preciso aprender a sintonizar seu programa de rádio semanal, uma preciosidade, de muito bom gosto. Por fim, Omar Khouri, o professor da FAAP, que adora sua terra e após férias por lá, volta para Sampa. Dele, escreverei aqui em breve. Acabo de ler todas as obras reunidas do dr Ângelo Monaqueu, reunidas por ele, afinal é fiel depositário de sua vasta obra. Leio muito de Pirajuí em todos esses livros e acredito ser esse o mais polêmico personagem da cidade. Aguardem o que escrevinharei dele e desde já aviso, tirem seus filhos da sala, pois esse tipo de leitura provoca desvios em comportamentos ditos "prontos e acabados". E viva a irreverência!
OBS.: O texto para o Alfinete termina aqui. Aproveito o domingo, com mais tempo livre e publico mais dois breves relatos:
4. O jornal BOM DIA em sua edição de hoje, 07/03, publica como principal manchete, “Burocracia impede passeios da Maria Fumaça em Bauru” e com o subtítulo, “Exigência de seguro e nova documentação atravancam projeto cultural” (http://www.redebomdia.com.br/Noticias/DiaaDia/14176/Burocracia+impede+passeios+da+Maria+Fumaca+em+Bauru ). Matéria assinada pela jornalista Cristina Carmargo, dá uma espécie de desdobramento para o que havia escrito aqui em texto do dia 03/03, o “Um começa e o outro não quer saber de continuar”. No texto do jornal a citação da carta de Ricardo Bagnato e algo muito bom de ser visto no jornalismo, todos os lados da questão ouvidos. Falta só a agilização para solucionar as pendências e recolocar nosso trem turístico nos trilhos. Em tempo: O pau come lá nos Comentários desse meu texto entre dois representantes do que conceituo como Direita Raivosa X Esquerda Consciente. Toma lá dá cá entre um, que assina o nome e outro a se esconder atrás de uma sigla, RA. Chegaram aos 20 comentários.
Na foto, Alex Gimenez, do Projeto Ferrovia para Todos, em foto do BOM DIA.

5. Não posso deixar de fazer menção aqui ao show do Salsaloka, ocorrido na última quinta, 04/03, no Jeribá Bar. Pronto para deitar, a mana Helena e a amiga Zezé Ursolini me ligam e me forçam (nem precisaram colocar arma na minha cabeça) a lá comparecer. Adoro o som da batera do Ralinho e a voz da Denise Amaral. Casa não muito cheia, vi e escutei maravilhado, quase na fila do gargarejo o belo som do grupo, espremidos num pequeno palco. Música cubana, caribenha para amenizar o ânimo dos contendores da nota de cima. Tudo muito contagiante, como pode ser sentido pelo vídeo que fiz de uma das últimas músicas:

sábado, 6 de março de 2010

MEMÓRIA ORAL (82)

DR HERMANN, UM ADVOGADO NADA USUAL E O CASO DE BARIRI
“Advogado é tudo igual, tudo parecido”, ouço por aí. Não concordo e para comprovar acabo reencontrando um bem diferenciado do trivial. O que seria esse trivial? Aquele comportamento todo certinho, gravata no lugar, escritório dentro do padrão, essas coisas. José Hermann Schroeder, 50 anos, foge disso tudo. Chama a atenção por um monte de coisas. Seu escritório está localizado numa das principais ruas do centro da cidade de Bauru, no último andar do edifício Caravelas. “Não estou no último andar, assim você me deprecia. Eu estou no topo, por cima. Aqui é um local de tranqüilidade e preciso disso para raciocinar. Quer lugar mais tranqüilo que esse dentro da agitação da cidade? Aqui no topo tenho mais privacidade. Não vejo o trânsito de pessoas, elevador tocando a toda hora e até a temperatura é melhor. Eu sempre quis o 17º, meu interesse era esse. O sete sempre me acompanhou, isso é meio cabalístico”, me corrige, pouco depois de iniciar um bate papo.

Dr Hermann é formado pela ITE – Instituição Toledo de Ensino, na turma de 1989. Lá se vão 21 anos e muitas histórias. Sua mesa está sempre atulhada de papéis e coisas inusitadas (num vaso uma espada de São Jorge), com um visual fugindo à regra. Mal chego e me mostra um pacotinho com comida para gato. “É um matinho. Você planta, seu gato come isso e passa bem”, me diz. Esse advogado joga nas onze posições, um polivalente, como se diz por aí. Isso da graminha para gato é por ser advogado de uma ONG de Defesa Animal, cuja esposa é presidente e por prestar assessoria a empresas ambientais. Peço-lhe um cartão de visitas e na minha frente surgem três. “Qual você quer?”, me diz. “Esse é o de advogado, esse outro da Naturae Vitae e por último esse onde apareço como cover do Ratinho. É que me apresento para crianças, sou meio parecido com ele, não?”, conclui.

Fui conferir os cartões e no da ONG algo a chamar a atenção. Ele em cima de uma moto, todo paramentado e com uma frase em letras miúdas no canto direito: “Motoqueiro é a puta que o pariu! Nós somos motociclistas!”. “Essa paixão por motos vem desde meus 15 anos. Uso o carro, mas a moto é paixão. Tenho curso de pilotagem da Honda e encaro isso com uma seriedade cruel. Do meu grupo já enterramos três, corremos riscos permanentes. Faço tudo dentro de regras e quando quebradas, tudo não funciona muito bem”, é sua explicação. Ainda do fato de estar no alto, no 17º andar volta à carga para me explicar, sobre os clientes que aparecem do nada em sua porta. Apontando para a ficha dos seus clientes, onde bem no alto está lá a inscrição do “Indicado por”, ele me diz: “Tecnicamente estou escondido. Quem é que vai me localizar aqui? Estou encastelado. As pessoas me localizam por indicação, com referência. Quem chega até aqui ou foi indicado ou está perdido. Essa referência para mim é fundamental. Advogado não está aqui para agradar ninguém. Quem chega do nada, deduz-se já ter consultado todos os outros advogados do prédio nos andares de baixo. É o tipo de cliente que não me interessa”.

Tudo ali tem uma explicação e Hermann não se intimida diante de questionamentos. “E essa caravela na tela do seu computador, tem algum significado?”, lhe pergunto. “Claro que sim. São três as maiores invenções do mundo. A lareira é a primeira. Voltando no tempo, ela deu a chance para tudo o que existe hoje. O resto tudo é decorrência. Depois as caravelas, pois elas buscavam o poder ecológico, atravessavam o mundo com o vento, ou melhor, contra o vento e por último o aparelho de Raio X. Esse alterou tudo, deu um novo rumo para a medicina”, me responde. Bem diante de nossos olhos um recorte de jornal da 12ª festa do Peão do Mary Dota, colado num papel. “Nunca houve Festa do Peão nesse bairro, eminentemente residencial. Esse negócio de 12º é para induzir em erro. Seus organizadores estão agindo na ilegalidade. Montaram tudo ao lado de uma escola, o que é vedado por legislação municipal, depois sou contra os maus tratos aos animais. Construíram até uma arquibancada. Cadê o engenheiro? Entrei com uma medida liminar e tento impedir sua realização, movido pela ONG ambiental”, diz com a papel na mão.

Aproveito para lhe perguntar: “O que te move? Tem ações que não ganha nada. Me explique isso”. Foi rápido no gatilho e sua resposta sai como um tiro: “Primeiro o amor aos animais. Não posso combater diretamente os rodeios, porque hoje peão é esportista e a festa é considerada um espetáculo. Combato as irregularidades. Eu não vivo de dinheiro público. Isso é uma benção e tem um nome, independência. Permite dar credibilidade às pessoas. Compro algumas brigas, uma reclamação de moradores pedindo providências, lá vou eu. Formulo uma ação a partir de denúncias e lá mostro as irregularidades. Pode ter rodeio? Pode. Imagine um ao lado do Colégio São José. Se aqui não pode, lá também não, a lei diz isso”.

Falamos sobre a vocação para vir a ser advogado, como isso aflorou. “A vocação aflora, aparece. É assim com todo mundo, ela te impulsiona para um lado. Aproveitei e fui embora. Observo muito os outros. Um policial que queria ser músico, passa o tempo tocando nas horas vagas e só vai fazer mesmo o que gosta quando se aposentar. O Direito, o meu trabalho não é um sofrimento. Se me perguntam quando vou aposentar, digo: Aposentar de que? Isso não consta no meu dicionário. Eu não vejo a hora passar. Tem funcionário público que passa a vida inteira esperando o momento de ir para casa. Eu não”, foi sua resposta. “Você pode fazer milhões de outras coisas com o Direito, enveredar para outras áreas. Hoje tem uma área do direito só cuidando de genética e outras bem específicas. Quando um advogado te diz que entende de tudo, caia fora. Um pedreiro que entende de tudo, caia fora. O advogado acaba se especializando em algumas áreas. A tendência natural te encaminha para certos caminhos”, conclui.

Hermann é muito bom de conversa e se o deixam, continua por um tempo indeterminado. A parede atrás de sua mesa está atulhada de rádio gravadores, um grande aparato de gravação, que impressiona os que não o conhecem. “Trabalhei muito tempo como técnico em eletrônica e conheço esse negócio de gravações. Tenho uma paixão por eletrônica. Atuo muito nessa área”, me diz. Esse assunto lhe fez lembrar que agentes da Polícia Federal estiveram no prédio para desmontar uma operadora de telefone sem credenciamento. Como tudo estava no teto do prédio, o furdunço aconteceu no corredor, bem, defronte sua sala. “Chegaram sem mandato e queriam ir metendo o pé na porta. Nem ordem judicial tinham, tive que intervir, pois presto serviço para o condomínio do prédio. Vieram com algo perigoso, nem usado durante o período da ditadura, que é fazer pressão psicológica. Fizeram o serviço deles, mas não de forma autoritária e nada foi arrombado”, explica.

Antes de deixar sua sala, uma placa na entrada me chamou a atenção: “Não atendemos pessoas da cidade de Bariri”. “Que é isso”, lhe pergunto. Nesse momento ele dá uma parada, respira fundo e começa uma longa dissertação sobre os motivos de tal decisão: “Décadas atrás arrumei um emprego em Bariri e um amigo me disse. ‘Você tem certeza que quer ir?’. Demorei trinta anos para entender e responder aquilo. Ele já queria me dizer, esse cara vai entrar num brejo. Eu fui e constatei que lá existe uma sociedade complicada. A padroeira da cidade é Nossa Senhora das Dores. Isso já é algo a causar uma dor. Os italianos que foram para lá confundem até hoje a pronúncia arrastada de dizer terra ‘rossa’, com terra roxa. Terra roxa não existe. Lá são 800 pequenas propriedades agrícolas familiares com uma característica difícil. Dão muito valor para o trabalho braçal e menosprezam o intelectual. Gradear um terra vale muito e escrever um livro não vale nada”. O negócio vai longe e ele quer explicar mais detalhadamente os seus motivos: “Fui lá no Fórum numa ação e a santa chegava na praça. O juiz parou tudo e junto dos figurões da cidade foram todos para a praça. O Fórum ficou esperando. Nas procissões deles aparece toda a cidade. O footing na praça é assustador. E o carnaval em família, todos reunidos, algo que resiste e preocupa. Se você chega na cidade dirigindo uma Brasília fica sem ela. Eles te compram. Adoram uma Brasília”.

Isso ainda me parece pouco, algo como uma birra, porém, mais ainda viria. “A maior birra é que eles não dão valor nenhum para o trabalho intelectual. Um me disse se eu só sabia bater essas folha e que cobrava muito para bater uma mera folha. Trabalho para eles é gradear a terra, castrar os porcos. Aí eu falei para ele por que não mandava o pai dele bater a folha. Nem ele, nem o pai sabiam fazer isso. Levei 50 anos, desde o pré para chegar aqui e bater essa folha. Não foi um caminho tão curto. Essa folha que eu bato tem um valor de conhecimento agregado para cada problema, para cada pessoa. Isso tem um preço. Eles desmerecem isso e não aceito”. Falaria mais, inclusive o fato de sua esposa ser de lá, justamente de Bariri. Quanto a isso, diz não ter problemas. “Aprendi a conhecer a fundo a cidade por causa dessa convivência que tive”. E antes de me despedir, aperto-lhe a mão e digo: “Agora sei um pouco dos motivos por ser bem diferente do trivial”. E desço os dezessete andares, de elevador.

sexta-feira, 5 de março de 2010

RETRATOS DE BAURU (77)

PERCY, UM TARIMBADO ARTISTA DAS TINTAS E DAS CORES
Percy Coppieters é um nome pomposo, parecido com uma sopa de letrinhas, daquelas difíceis de acertar a escrita correta (sempre erro numa letra) . Esse ser inquieto não nasceu aqui em Bauru. Tudo começou lá em Ourinhos em 1954, onde viveu até os 18 anos, tendo uma bela iniciação artística. Aos oito anos já pintava e aos treze o negócio pegou fogo e não parou mais. Foi para São Paulo, casou, separou e conheceu uma pá de gente importante, alguns deles amigos até hoje, como Ignácio de Loyola Brandão. Quer mais nomes, lá vai: João Antonio, Jorge Amado, Zélia, Rubem Braga, Lígia Fagundes Telles e Vânia Bastos, essa também ourinhense. Publicou um livro, o “Tocaia”, com 15 mil exemplares, vendidos ao estilo de Plínio Marcos, de porta em porta e algumas vezes junto do próprio colega escritor, dividindo as calçadas da vida. De 1986 a 1990 viveu na Europa, onde continuou pintando, estudando, freqüentando galerias e ateliês. Quando voltou, veio visitar a mãe em Bauru, acabou ficando e logo ficou conhecido. Seu ateliê já esteve em três endereços na cidade e hoje, na rua Antonio dos Reis, produz sua pintura "considerada contemporânea, indo do abstrato ao figurativo" (segundo suas palavras). Percy conheceu os dois lados da vida e toca seu barco, pintando como nunca, amando seus pimpolhos e vivendo ao seu modo. Uma inspirada e boníssima pessoa. Olhem para essas fotos dele com um inseparável (e destrutivo) companheiro, o cigarro: não seria o nosso Bogart?

quinta-feira, 4 de março de 2010

CENA BAURUENSE (54)

UMA AUDIÊNCIA, UM SHOW E UMA CONVOCAÇÃO
Estive ontem na 2ª Audiência Pública para discutir a questão da Terra em nossa região. Muita gente de fora, de cidades da região, casa cheia e quase ninguém da imprensa local. Explanações esclarecedoras sobre a questão fundiária na região, com uma verdadeira aula de História sobre como foram conseguidas e mantidas ilicitamente ao longo do tempo por fazendeiros, usineiros e endinheirados. Terras públicas invadidas e não devolvidas ao povo. A reforma agrária precisa ser feita para corrigir essa distorção, esse mal uso da terra. A vereadora de Iaras, a mesma que havia sido presa recentemente, Rosimeire Serpa, fez um relato emocionado da situação dos assentados. Uma digna representante feminina do movimento, na véspera do dia comemorativo das mulheres. Um ex-assessor do INCRA comprova com documentos todo o ilícito e isso irá continuar intramuros, pois pelo visto, nossa imprensa preferirá passar ao largo sobre a tema. Gente representativa de todos os segmentos fundiários e uma pequena repercussão. Diante disso, a certeza de que é assim que nossa “democracia” age. Uma fotinho no jornal (olha lá, eles existem) e nada mais. É dessa forma que a temática é discutida por aqui. Quem quiser saber de verdade, o que venha a ser os desdobramentos do assunto, solicite o vídeo para a TV Câmara, que filmou tudo. Saí de lá ciente da verdadeira história, sabedor de quem é o verdadeiro invasor de terras nesse país, mas de mãos atadas, pois aguardar decisões judiciais é para quem tem o coração normal demais ou não liga mais para essas coisas (meros detalhes, não?). Outras ações se fazem necessárias. O vereador Roque Ferreira, o único lá presente merece aplausos. Nessa trilha age só, pois nenhum outro edil passou por lá.

Saio correndo da Audiência, sem vê-la chegar ao fim (perdi a fala de Gilmar Mauro, representante do MST, de quem gosto muito) e fui com amigos assistir ao show da cantora ourinhense Vânia Bastos, de quem sou fã desde os primeiros shows assistidos dela, no final dos anos 80, na antiga sede da Oficina Cultural, quando essa ainda promovia shows, lá pelos lados da avenida Pedro de Toledo. Quem estava ao meu lado, o artista plástico Perci Coppieters, amigo de infância da cantora (ambos ourinhenses, bateram altos papos), Marisa Fernandes, Ana Bia, João Bráulio e Marcos Paulo. Cada um assistiu ao seu jeito e maneira o show, uns curtindo isoladamente, outros em grupo. Levo três LPs e um CD para os autógrafos e curtimos ao máximo aqueles momentos ao lado de pessoa tão solícita e carinhosa com os fãs. Vânia, uma das que mais vi pelos lados bauruenses (devo ter assistido a uns seis shows seus), personifica, além da boa música, algo em especial para mim, um estilo musical de fino trato, diferenciado e que se encaixa como uma luva no que gosto de ouvir. Diante de muitas opções no passado, hoje só o SESC propicia algo nesse sentido e sem custos, tudo gratuito. Ver uma pessoa como o Marcos Paulo levando um disco do Arrigo para ser autografado, o “Clara Crocodilo”, onde Vânia foi uma das vocalistas originais do vocal Sabor de Veneno é emocionante para quem gosta de música, um resgate raro. Saio desses eventos com a alma mais do que lavada e até me esqueço que tenho compromissos bancários inadiáveis no dia seguinte. Ah, como gostaria que o dia seguinte não chegasse nunca mais...

Meu amigo, quase homônimo, PH (eu sou o HP), que poucos chamam pelo nome de Paulo Henrique, conclama todos os amantes do cinema para estarem hoje às 19h, no Automóvel Clube, numa Assembléia renovadora do Cine Clube Aldire Pereira Guedes. Muitas idéias para este ano e uma oxigenação sempre necessária, com a entrada de novos associados (assino ficha hoje) e a eleição de uma nova Diretoria. É para lá que eu vou hoje.

quarta-feira, 3 de março de 2010

UMA CARTA (44)

UM COMEÇA E O OUTRO NÃO QUER SABER DE CONTINUAR - VERGONHAS POLÍTICAS
Como já escrevi por aqui, estive no último sábado (27/02) na Barra Bonita, num encontro com petistas em torno do deputado federal Vaccarezza, líder do governo federal na Câmara dos Deputados. De sua fala algo significativo e uma grande preocupação: todo o empenho de militantes, que estão sendo reunidos Brasil afora, tudo para que o país, após os oito anos com Lula não sofra uma interrupção maléfica, daquelas quando um outro segmento político vence o pleito e dá aquele breque em tudo de bom que foi feito. Uma insanidade, que acontece muito, não só a nível federal, como em todas as instâncias (o caso mais gritante a nível nacional é o abandono dado aos CIEPS no RJ, obra de Darcy Ribeiro e Brizola). Na reunião, a grande preocupação de Vaccareza e de todos os atuais governistas é sobre um provável retrocesso, principalmente nos projetos sociais em andamento, isso sem contar a entrada em cena do modelo privatizante do PSDB (toc toc toc). Daí a necessidade de reuniões como a ocorrida lá na Barra e do empenho eleitoral, tendo Dilma como candidatíssima. Estou nessa.

Ainda na Barra, presencio no próprio local escolhido para a reunião algo bem em cima desse tema. O local escolhido a dedo foi a antiga sede da Legião Mirim daquela cidade, que nos últimos quatro anos havia abrigado um projeto social dos mais edificantes, o do CICRABB – Centro de Integração da Criança e do Adolescente de Barra Bonita. Um amplo espaço com quadra de esportes coberta, salas de estudo diversas, academias e até uma big-band. O mandato do prefeito anterior terminou e durante o ano passado, só para não levantar a bola do sucessor, tudo foi fechado e mais de duzentas crianças se viram na rua da amargura. Um despropósito sem fim. Sem contar que o local foi entregue às moscas e tudo foi depredado. Virou um lixão e até dois vagões da antiga Sorocabana lá recuperados foram dilapidados. Tudo em petição de miséria, até que Marcelo Cavinato, decide abrigar ali a sede de um Ponto de Cultura e com a ajuda de antigos diretores da entidade desativada, dá início a uma nova cara ao local, sem contar com nenhum tipo de ajuda do poder público municipal. E a tal da cara nova já pode ser sentida pelos participantes da tal reunião.

E aproveitando a deixa sobre não dar continuidade ao trabalho anteriormente feito, divulgo aqui uma carta assinada pelo engenheiro Ricardo Bagnato, endereçada a autoridades do município de Bauru sobre os atuais caminhos trilhados pelo Projeto Trem Turístico de Bauru. No domingo passado, 28/02, o Estadão publica matéria sobre o tema, com destaque para a situação de Bauru, o grande motivador para o teor da carta, reproduzida abaixo:

Prezados Senhores,
Não podemos mais desperdiçar o potencial turístico e econômico latente de possuir uma Locomotiva Histórica a Vapor e Carros de Passageiros antigos, um Trem Histórico da NOB completo, material este restaurado em plena condições de operação. São muitas as Prefeituras em nosso estado, e em todo Brasil, que estão investindo milhões de reais para ter uma estrutura próxima a da cidade de Bauru, e criar Projetos de Passeios Turísticos Ferroviários.

Precisamos agir de forma premente, e tornar o “Projeto Ferrovia para Todos”, que na verdade hoje é de ninguém, pois não é operante, em um amplo “Projeto Trem Turístico de Bauru”. Não vemos nenhum interesse, muito menos foco, por parte da Secretaria Municipal da Cultura, especialmente pelo seu Secretário, hoje detentora do Projeto inoperante, em implementar a operação dos passeios ferroviários, pois não vemos ações práticas e efetivas para tal.

O “Ferrovia para Todos” precisa ser revisto com urgência, e sua gestão mudar de mãos sob pena de Bauru continuar ficando à margem da História e da Preservação Ferroviária, e negligenciada por desperdiçar tal Patrimônio. Em tempos de mudanças e definições dos órgãos como o DNIT, IPHAN e Liquidação da RFFSA, Bauru corre o risco concreto de ter esse Patrimônio Histórico Ferroviário estagnado, reivindicado e confiscado por outras cidades ou Associações de Preservação Ferroviárias, que vêem nesse material, grande valor Histórico e econômico.

A Prefeitura Municipal de Bauru, através da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, bem como da EMDURB, têm total apoio da APFFB - Associação de Preservação Ferroviária e de Ferromodelismo de Bauru, na modificação desse quadro deprimente, principalmente por sabermos que temos tudo nas mãos. Vamos juntos transformar essa situação estática e projetar Bauru na posição que faz jus, como a de principal entroncamento ferroviário do interior do estado de São Paulo, onde se valoriza e se investe no Patrimônio Histórico e Cultural Ferroviário, e promover a implantação do “Projeto Trem Turístico de Bauru”, devidamente autorizado pela ANTT – Agência Nacional dos Transportes Terrestres, e credenciado pela ABOTIC – Associação Brasileira dos Operadores de Trens Turísticos e Culturais.

Para nós da APFFB - Associação de Preservação Ferroviária e de Ferromodelismo de Bauru, preservacionistas que somos, e que amamos Bauru, será uma grande conquista ver nossa cidade incluída no holl restrito de cidades detentoras de Trens Turísticos, como as abaixo mencionadas no artigo “Trens turísticos avançam pelo País” - 28/02/2010 - O Estado de S.Paulo.
Contem conosco!

Eng. Ricardo Bagnato
APFFB - Associação de Preservação Ferroviária e Ferromodelismo de Bauru / SP
CODEPAC - Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Bauru
CMC - Conselho Municipal de Cultura de Bauru
AMB - Associação Amigos dos Museus de Bauru

terça-feira, 2 de março de 2010

ALGO DA INTERNET (29)

UMA COISA MUITO LEGAL E OUTRA MUITO TRISTE
Primeiro a triste. Anunciei aqui ontem, num texto no blog o falecimento da professora ADRIANA CHAVES, da Unesp Bauru. Tinha uma profunda admiração por essa verdadeira mestra, com todo seu trabalho voltado para o lado social e pelo muito feito pela educação e concepção de idéias. Nem sei o que escrever dela. Não tive o prazer de conviver com ela na Universidade, nem na primeira administração de Tuga como prefeito, mas sim na segunda. Ela abrilhantou com sua postura um dos momentos mais dignos de como deve ser o trabalho dentro de uma administração pública. Adorava subir no terceiro andar da Prefeitura, só para dar uma paradinha lá na sala onde ela trabalhava, sempre cheia de questionamentos e proposituras. De sua cabeça iluminada fervilhava projetos mil. Vibrava nessas poucas passagens e saia de lá revigorado. Ela, sempre rodeada de projetos, de idéias e fazendo sempre questão de instigar quem ousasse pisar no seu recinto de trabalho. Aprendi a gostar ainda mais dela e de sua postura, pela forma como deixou seu cargo e reassumiu a cátedra na universidade. Estava numa festa entre amigos ao saber da notícia de sua morte e isso bastou para me estragar o dia. Tenho certeza, perdi muito ao me distanciar dela quando venceu o dela e logo a seguir o meu prazo de trabalho na Prefeitura. A velha mestra deixou um belo legado por aqui e alguns ainda estão predispostos a tocar o barco para a frente, haja vento a favor ou não.
Obs: Na foto, Adriana, à direita, ao lado de Ana Daibem e outra professora (retirada de um site da Unesp).

Agora a bela notícia. Passo ela adiante com um certo atraso, depois que muitos já o fizeram, mas não deixo de ajudar a divulgar um fato inédito no cenário do futebol brasileiro. Já nutria um profundo respeito e admiração por PETKOVIC, o jogador sérvio que faz sucesso no futebol brasileiro. Um craque como poucos. Foi o responsável pelo título do Flamengo ano passado, muito mais do que o Adriano, dito Imperador. Agora fico sabendo que ele também bate um bolão fora de campo. Dia desses foi convidado a aparecer no programa da Ana Maria Braga. Na apresentação, ela lê um breve histórico do que foi a antiga Iugoslávia, nação onde nasceu o jogador e o que virou hoje, sendo dividida em seis nações. Ao jogar a bola para ele a loira platinada lhe faz a seguinte pergunta: “Como foi nascer na hoje Sérvia, um país com grandes dificuldades?”. A resposta foi linda e rápida, pois afirma que seu país não tinha “dificuldade nenhuma, todos tinham emprego, viviamos bem, num regime socialista. Os problemas vieram depois”. Isso mesmo, vieram com o fim do socialismo. Depois dessa acho que nunca mais dará entrevistas para a TV Globo e já aguardo para ver quando se iniciarão as perseguições. Adoraria ver a cara da loira, mas o vídeo do Youtube vai só até esse momento. Confiram: http://www.youtube.com/watch?v=B80AsDP2IaM

segunda-feira, 1 de março de 2010

DIÁRIO DE CUBA (48)

REVENDO HILDA MARIN E FÁBIO GONZÁLEZ NUMA TARDE DE TERÇA
Aqui o relato de uma parte da segunda metade do dia 25/03/2008, uma terça-feira, passado em Havana. Era pouco mais de 13h30 quando chegamos, eu e Marcos Paulo até a casa de Hilda Marin, a mãe da pianista Rosa Tolón, nossa amiga e professora de música na USC em Bauru. Quem nos recebe é seu filho Lázaro, ferroviário, que de folga nesse dia, fazia uma visita à mãe e a ajudava numa pequena reforma que realizava em sua casa. Hilda, de bobes e lenço na cabeça nos recebe alegremente, como é de seu feitio. Disse estarmos adiantados, pois nos esperava bem depois das 14h.Tomamos a água que tanto queríamos e eu um café cubano, feito na hora. Sentamos e descrevemos um pouco do que havíamos visto na nossa viagem pelo interior do país. Lázaro entra na conversa e nos faz uma descrição da situação férrea de Cuba e como na época ainda trabalhava no setor de Cultura do município de Bauru, esse assunto tomou boa parte de nosso tempo.

Lázaro, 52 anos é magro, não muito alto e trabalharia nos dois dias seguintes, 16h em cada, folgando os dois subseqüentes. Essa sua rotina. É maquinista e viajou muito pelo país todo, hoje não mais, permanecendo somente em Havana. Diz já ter trabalhado com locomotivas de vários países. Das máquinas soviéticas diz serem muito resistentes, todas durando já muito mais de quarenta anos. "Recentemente Cuba comprou algumas chinesas e sua durabilidade é de somente uns dois anos, sendo muito duras, porém confortáveis, possuindo até ar-condicionado", nos diz. Fez muitos cursos para manobrá-la, mas afirma não possuir a resistência da soviética e segundo ele, apresenta problemas constantes. Ficamos de trocar prospectos ferroviários.

Disse que uma viagem entre Havana e Santiago de Cuba chega a durar por volta de umas quinze horas, isso quando tudo corre bem, podendo chegar, em alguns casos até a 24 horas. Não existe vagão restaurante em Cuba e sim, uma ferromoça, servindo bebidas e lanches diversos. Quando nos despedimos de Hilda, com um forte abraço, ele caminha conosco por várias quadras e o papo foi rolando até a despedida. tenta nos explicar umas alternativas de caminhos para nosso próximo compromisso, localizado nuns dois quilometros dali. Nossa decisão é sempre a mesma, ir caminhando. Adoramos a placa de uma escola, "Circulo Infantil - Futuros Comunistas". Tiramos a foto para mostrar nas escolas brasileiras e esperar a reação. Num outro local, um marco usado com a inscrição da rua, tendo a mesma utilidade das placas de rua brasileiras.

Por volta das 16h, outro reencontro, dessa vez com o Fábio S. González, do ICAP. Descemos a avenida 19 e tivemos uma certa dificuldade para achar a numeração correta. Demos umas boas voltas e quando cai a ficha, de que o local estava ao lado de uma igreja, adentramos logo. Ele falou conosco por quase uma hora. Ficamos sabendo que estaria em São Paulo em maio daquele ano e de sua fala extrai o seguinte: “Tenho grande preocupação com o reconhecimento dos títulos de universidades cubanas. O multipartidarismo é nocivo a revolução, pois a maioria dos partidos está ligado à corrupção. A única maneira de se conseguir a unidade é tendo somente um partido. Muitos neoliberais desconhecem totalmente a realidade social que os cercam e quando a descobrem, até refazem suas vidas. Não temos problemas com a continuidade da revolução, pois o povo cubano sabe muito bem o que quer, como sabe muito bem o que não quer. A revolução está muito bem consolidada. Temos uma admiração muito grande por Chávez e pelo seu posicionamento a nosso favor. Ele é um dos poucos que, por onde ande, faz questão de sempre mencionar a questão dos cinco prisioneiros cubanos nos EUA. A religião já foi grande preocupação nossa, hoje não é mais, pois existe um relacionamento de respeito para conosco. A igreja em Cuba sempre foi classista, fez a defesa de uma classe. Dizem que quando tem dois cubanos no mesmo lugar, fica-se diante de três problemas. O cubano discute de tudo, conhece um pouco de tudo e não se furta de emitir sua opinião”.

Nos despedimos reafirmando nossa vontade de reencontrá-lo no Brasil e se possível, levá-lo até Bauru quando de sua estada (não foi possível o reencontro no Brasil). Passará pelo Rio e depois São Paulo. Anotamos todas as datas. Tanto ele como Hilda nos deram algumas lições e explicações sobre o funcionamento do país, que reproduzo aqui no próximo texto.