terça-feira, 22 de outubro de 2019

CENA BAURUENSE (193)


NAS DEZ CENAS DA ALDEIA BAURUENSE UM CADINHO DO PAÍS, QUIÇÁ DO MUNDO
Aqui se escreve de tudo um pouco e do pouco um bocadinho do mundo todo. Em mais dez cenas, algo desta Bauru, aldeia onde resido, trabalho, atuo politicamente, bebo, como, peido e defeco. Em cada foto, algo não só visual, mas também propondo reflexão e alguma discussão:
01. Na esquina da entrada da comunidade além do Jardim Europa, fundos do Jardim América o começo de outra realidade e isso estampado na juntada de dezenas de postes de energia, levando luz e energia elétrica para os de baixo, na sequência da estradinha/rua de terra batida.
02. Quem nunca teve uma história com o leão de pedra nos altos das Nações que levante a mão? Já foi pintado, despintado, mijado, lavado e ali permanece um tanto impávido para com o movimento à sua volta. Na última, o professor Geraldo Bergamo conta história de seu amigo morador de rua, que ao abraçar a escultura de pedra, ela lhe sorri, atribuindo isso ao "surrealismo". Por essas e outras, nunca pela real finalidade dele ali estar, o dito cujo tem suas virtudes e qualidades.
03. O colorido exposto na calçada da Casa São Jorge, na rua Azarias Leite provem das chitas, espécie de cartão de apresentação de uma das mais antigas lojas de tecidos de Bauru.
04. Mesmo após décadas fechada, permanece na parede do prédio na avenida Rodrigues Alves a inscrição de boate num primeiro andar, que agitou a periferia, fazendo muitos caminharem a pé de distantes bairros para ali se divertirem: a Flash Dance marcou época.
05. Na Fortunato Rocha Lima, rua lateral à rodovia Bauru/Marília, quase ao lado da pista, moradores montaram painel com bonecas de todos os tamanhos e tipos, surreal cartão de apresentação do bairro.
06. Retrato de um, retrato de todos os túmulos do Cemitério da vila Independência, quando tudo o que tem algum valor é saqueado, restando somente o invendável, sem comércio possível.
07. Na rodovia Marechal Rondon, entre o trevo principal acesso à cidade e posto da Polícia Rodoviária, passarela de pedestres, passagem obrigatória dos moradores do Jardim Nicéia e usuários variados, intensa movimentação diária, mas com a nova pista surgindo, em vias de ser derrubada, deixando tudo, todas e todas em estado de alerta. Comentários no local: sem passarela, a rodovia deverá parar em sinal de protesto até a solução final.
08. Espalhados principalmente por boa parte do Jardim América, guaritas para guardas noturnos e seguranças particulares são colocadas em várias esquinas, locais diminutos e nas calçadas, onde esses profissionais passam à noite fazendo a vigília para quem dorme.
09. Aproveitem, últimos dias ainda com portas abertas, essa loja na rua Virgílio Malta, duas quadras acima da Rodrigues, especialista em artesanato e tradicional há décadas no mesmo lugar, anuncia numa faixa estar encerrando atividades, cansados de dar murros em ponta de faca. Qual será a próxima?
10. Ele chegava de bicicleta, ela abarrotada com seus pertences, praticamente tudo o que possuía e fazia performances pelas praças, sendo uma das preferidas a em frente homenageando Zumbi, na Nações esquina com Julio Prestes. Sumiu, escafedeu-se e não o vejo mais faz certo tempo, causando preocupação nos muitos admiradores, observadores e curiosos que o seguiam com os olhos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (146)


ÓDIO CONTINUA ENTRONIZADO NA MENTE DE PARCELA SIGNIFICATIVA DOS BRASILEIROS
Não vai ser tarefa fácil a compreensão por parte de quem teve a mente praticamente danificada por um lento, gradual e constante processo de lavagem cerebral contra as esquerdas, os movimentos sociais, o PT e o ex-presidente Lula. O processo atingiu seus objetivos, o PT foi criminalizado, o golpe ocorreu de fato e de direito destituindo do poder a presidenta Dilma Rousseff e em seu lugar, algo hoje comprovado como imensamente pior do que o que tínhamos até então. A divulgação das gravações do The Intercept desmontaram uma farsa jurídica, política e midiática de grande vulto, mas aqueles que antes tiveram a mente distorcida, não conseguiram até agora entender de fato o que se passou e continuam acreditando nos heróis construídos. A prova dessa destruição de parte do entendimento do que de fato ocorre nas entranhas políticas se faz presente nas manifestações pelas redes sociais, onde muitos do que foram ludibriados ainda continuam repetindo como mantra as mesmas mentiras a eles repetidas tantas vezes como verdade.

Cito um exemplo. No sábado postei nas redes sociais algo sobre o que se passa com Olavo de Carvalho: “Você é idiota assim mesmo ou fez curso? Fiz curso”. Bastou isso que o ex-vereador bauruense, dono de autoescola e funcionário terceirizado do DAE por certo tempo, Paulo Eduardo Martins Neto tentasse ironizar, talvez na defesa do Olavo: “Professor não contrarie o Lula ele quer ficar preso”. Respondi assim: “Pelo contrário, o que ele não quer é sair pela porta dos fundos com tornozeleira, sendo humilhado por gente como esses Moro e Dallagnol, que depois das descobertas reveladas pelo The Intercept, é quem deveriam estar enjaulados no lugar do grande líder Lula. Não acha o mesmo, caro Paulo Eduardo? Essa prisão injusta de Lula é algo a envergonhar o país mundo afora, tudo cruel montagem para afastá-lo se ser eleito presidente. E hoje, com esse Bozo como presidente, o país no fundo do poço e pior, reverenciado gente como esse Olavo de Carvalho, que não vale nada”. Ele volta à carga com algo pior: “Professor, eu trabalhei 65 anos e ainda estou trabalhando e continuo pobre. O Lula nunca trabalhou e é trilionário. Pode explicar essa mágica”.

Me enfezei e retruquei de imediato: “Sim. Fácil. Eu nunca soube ser ele trilionário e já que sabes, pois propaga isso, por favor me conte. Gostaria muito de saber, pois pelo que sei ele continua morando no mesmo apartamento em São Bernardo. Diferente do FHC, se me perguntasse desse eu te responderia das sacanagens que fez para ter apto em Paris com salário de professor. Já do Lula fico ansiosamente aguardando as suas informações, pois ouço falar dessa mentira, mas nunca ninguém me elucidou. Pelo visto você vai fazê-lo. Faça, por favor, no aguardo. Enfim, divulgar mentiras é feio e sei que não fazes isso, tanto que deve saber do que escreve...”. Outros vieram no meu apoio: “...pelo visto é um daqueles que acredita na mídia, e segue a cartilha suave ainda..... não consegue pensar e analisar além do que lhe apresentam para ser repassado. Lula sempre foi perseguido..... a vida dele sempre foi vasculhada..... isso também deve ser algo novo para vc......”, Vera Lucia e “Milionário é quem tem um milhão, bilionário e quem tem um bilhão, trilionário e quem tem um trilhão..... Sua informação tá correta ou você e mal intencionado mesmo.....????”, diretamente de Curitiba, Baracat Neto.

O tempo foi passando e Paulo não mais se pronunciou, ou seja, acusa de forma leviana e depois foge, pois não existe consistência no que faz, uma repetição cruel e insana, sem base legal, até doentia de algo muito comum hoje em dia. Eu o inqueri para que apresentasse provas do que disse: “É sempre assim, acusam Lula, o melhor presidente que este país já teve (para a classe trabalhadora) de tudo, inventam coisas horrorosas, repetem sempre a mesma ladainha, conduzidos por uma mídia pérfida e na hora de provar o que dizem, não sabem nem dizer de onde retiraram aquilo, onde leram, onde estão as fontes. Simples, elas não existem. Estou farto de mentiras repetidas a todo instante e no primeiro aperto todos fogem, somem, se esvaem. Lula não é santo, mas fez muito por esse país e nem isso sabem reconhecer. Vivem com ódio nas ventas e isso tudo representa esse atraso onde nos enfiaram com o golpe de 2016, primeiro destituindo Dilma e depois nos enfiando goela abaixo essa aberração chamada Bolsonaro. Lula está ano luz acima dessa gente toda. E como mentem a respeito dele...”. Por fim o memorialista Antonio Pedroso Junior surge com um fato novo: “O cidadão diz que continua pobre. Já torrou a grana da propriedade rural que vendeu para um certo ex-prefeito...que está inelegível”.

Não sei se a contenda terá novos desdobramentos, pois é mais que certo o Paulão, como o chamam na cidade, não tem as provas do que repete boca pra fora. Ele não é o único, muitos o fazem e com aberrações continuadas. Outro dia mesmo, Pedroso brincou com o porteiro do hotel onde se hospeda na cidade, quando esse disse da riqueza de Lula amealhada com falcatruas e lhe disse: “Estou ligando agora para a PF e pedindo para um delegado vir aquilo te ouvir, pois tudo o que tentaram descobrir até agora, você diz saber em detalhes e contando pra eles, vai ajudar a elucidar algo até hoje incerto e não sabido”. Claro que o porteiro mijou nas calças e enquanto não teve confirmado ser brincadeira a ligação, tremia como vara verde. É o que todos temos que fazer diante das repetição desse exacerbado ódio, proveniente de uma classe média ressentida mais com o avanço das classes menos favorecidas nos governos do PT, do que qualquer outra coisa.

Noutra contenda, eu escrevi uma carta para a Tribuna do Leitor defendendo o Lula Livre e desdizendo desse endeusamento do ex-juíz Sergio Moro, hoje desmascarado, mas ainda todo poderoso. Um leitor, Márcio M. Carvalho me desancou, mas não conseguiu rebater o que escrevi, ironizei com ele, “pra que discutir com madame”, citando o samba cantado por João Gilberto e na edição de ontem, na mesma Tribuna, outra carta, publicada quatro semanas depois da primeira, ainda reverberava algo do ressentimento por esses estarem em vias de terem seus ídolos (Bolsonaro, Moro, Dallagnol) desmascarados: “PARABÉNS SR MÁRCIO! - Fique certo que o artigo que o senhor escreveu rebatendo o professor de história lavou a alma de muita gente! Li três vezes seguidas e minha filha também o leu e adorou! Se me permite, só para complementar: Sérgio Moro é herói nacional, ele quer passar o Brasil a limpo, enquanto o professor aloprado quer a volta da quadrilha e consequentemente a corrupção desenfreada que tanto mal fez ao nosso País! O professor ainda não se conformou com a derrocada do PT. Seus alunos com certeza tem o discernimento de separar o joio do trigo! É sempre bom ler um artigo como o seu! Saudações de Meire Cacciolari Moretto”.

Como discutir dentro de algo compreensível quando não conseguem nem compreender algo mais do que comprovado, a ilegalidade onde Moro atuou? É chover no molhado...
OBS.: As ilustrações são todas da Laerte, bem dentro do espírito da coisa.

domingo, 20 de outubro de 2019

MEMÓRIA ORAL (246)


GRADEARAM A MARQUISE*
* Crônica dominical de quem tirou algumas fotos e queria muito escrever algo a respeito delas. Sentei, matutei e sai isso:

Uma foto é uma foto. Ao registrar o que vejo acontecendo pelas ruas tento entender algo da resinificação no dia após dia, naquilo que dizemos ser um dia após o outro, enfim, hoje assim, amanhã nem tanto, depois tudo mudado. Passo diariamente pela Nações, subo e desço por ela várias vezes e os olhos não se cansam de observar as mudanças e transformações. Uma delas era o movimento ocorrendo debaixo de uma marquise na quadra 14, estabelecimento fechada há um bom tempo, onde já foi um dia padaria, depois loja de tintas automotivas, depois portas fechadas. Desde quando fechou, a crise tomando rumos e contornos cruéis, essa marquise passa a ser ocupada por população em situação de rua (nova denominação para os antigos moradores de rua), com esses a mobiliando fazendo uso ao seu modo e jeito.

desde então eu os observo à distância. Nunca me aproximei e nem tenho motivo para tanto. Sou um curioso social, assim me denomino. Marquises vazias, principalmente de pontos comerciais fechados em locais centrais da cidade sempre foram ocupadas rapidamente por gente em situação de rua. Ninguém gosta de dormir totalmente ao relento e ao sabor das intempéries todas, frio, chuva ou mesmo violência. Se o teto não existe na forma de uma casa, pelo menos se faz com uma cobertura, algo como tentativa de inaudita proteção. Principalmente à noite as marquises são quase totalmente disputadas e ocupadas. Nessa ira percebendo como seu deu a ocupação, sua rotatividade e a forma como as coisas iam se sucedendo. Dispor de um lugar é também lutar por ele. Ninguém chega assim do nada e vai ocupando um lugar onde já existam outras pessoas na mesma situação. Existe todo um conjunto de regras básicas a serem seguidas e quem não as cumpre, as penalidades são pagas no ato, sem direito à ampla defesa.

Em cada passada pelo lugar, a parada no semáforo da esquina ia tentando construir mentalmente algo sobre o império da lei do mais forte, muito presente nas ruas e por todos os lugares. Tempos atrás me foi dito por alguns desses para que observasse com atenção a existência de uma ampla população de rua no entorno da Câmara Municipal, quase ao lado do Plantão Policial, esse funcionando 24h por dia. "Aqui muitos se sentem mais seguros e a violência é bem menor que nos demais lugares onde possa encostar meu corpo e tentar descansar durante a noite", disseram. Num lugar com a marquise ali na Nações existiam lideranças e o domínio de uns sobre os demais se dá por variados motivos, sem tempo para enumerá-los no momento. A lei das ruas é bem diferente da conhecida pelos demais seres habitantes do espaço público. Não existe nada registrado em compêndios que a sedimentam, mas é assim e pronto, descumpriu, paga-se o preço. Poucos o fazem.

O lugar passou a ser não só ponto de pouco, mas também outros móveis, como sofás, poltronas e muitos colchões, além de vasta roupa de cama. O ajuntamento chamava a atenção. Deve ter incomoda e muito o dono do imóvel, tanto que, dias atrás ele contratou trabalhadores serralheiros e esses fixaram uma grade na calçada, isolando na parte interna o espaço debaixo da marquise. O que havia dentro desapareceu e não presenciei se foi colocado na calçada e dali cada um deu um destino. Um sofá eu vi logo depois na praça do Líbano, também ponto desses todos, que durante o dia ali se reúnem. Alguns deles ganharam fama tempos atrás por fazer churrasco ali na praça com carne ganha de populares. Desde então, uma marquise a menos para o descanso corporal necessário da carcaça desses já mais do que prejudicados ao longo de suas vidas. Não quero me ater dos motivos sociais dos aumentos desses em situação de rua, pois já são por demais conhecidos. Na qualidade de mero observador da variação populacional debaixo de marquises e pontes, constato a crueldade do sistema onde vivemos nos seus mínimos detalhes. Não discuto também dos motivos do dono do imóvel ter tomado a providência de ter fixado o gradil. Fico só observando, juntando dados mentais para construção de algo mental, uma sociedade onde isso não possa mais ocorrer e propiciar, como nesse momento, o gradativo aumento dos amontoados pelas ruas. Esse são só uma pequena amostragem de tudo o mais acontecendo pela aí.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Se me perguntarem qual o melhor técnico do Brasileirão, digo sem pestanejar: o Roger, do Bahia.
Se me perguntarem qual o time mais antenado com o país onde vivemos e além de um futebol pra frente vivencia de fato o que se passa no Brasil, respondo assim de bate pronto: Bahia.
E mais, na qualidade de corintiano, torço esse ano daqui por diante para o Bahia e os motivos são esses aqui expostos no texto abaixo e muito mais. Esse time cheira povo.
Primeiro o Roger deu a entrevista assumindo o racismo deste país, depois abriu o campo de treinamento para os meninos de rua vendedores de sinal assistirem o time ali no CT e agora no jogo deste domingo entram em campo com a camisa manchada de óleo. Sou Bahianense (enfim, quem torce pro Bahia é o que mesmo?) de carteirinha...

Eis o link: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/time-do-bahia-vai-jogar-com-camisa-manchada-de-oleo-em-protesto-a-desastre-ambiental/?fbclid=IwAR3ArFoJKzcjsmZapQPwC76SfBy_NYo61HZHk548Xhf_jP4ixYm2EL62Cf0

sábado, 19 de outubro de 2019

COMENDO PELAS BEIRADAS (77)


ALGO DE QUEM IDEALIZOU O PRONTO SOCORRO CENTRAL DE BAURU

Pedro Romualdo é, sem sombras de dúvidas, um dos maiores fotógrafos (não no tamanho, mas na altitude de seu trabalho) destas plagas. Registrador contumaz da história da aldeia bauruense, possui em seus arquivos registros históricos de vários momentos do dia-a-dia de sua vida, não só política, como social, esportiva e também a das entranhas nem sempre publicáveis. Ultimamente ele vai divulgando, distribuindo em forma de drops, ao poucos, muitas dessas imagens, guardadas a sete chaves em seu banker, ou o dos altos da avenida Moussa Tobias ou do seu Mafuá, localizado no Mary Dota, num local onde cultiva até jabuticabeiras. No último registro divulgado, fotos da inauguração do Pronto Socorro Central de Bauru, ali na parte detrás do antigo e sempre funcional Hospital de Base, ou como queiram, sede da Associação Hospital de Bauru (local também do Mensalão bauruense, quando verbas públicas destinadas à saúde foram desviadas aos borbotões por tucanos de rica plumagem para suas contas pessoais).

A foto tem como foco principal a fala de David Capristano, então secretário da Saúde municipal, ladeado pelo prefeito Tuga Angerami e outros, dentre esses, de punho estendido e com um gravador à moda antiga, registrando para todo o sempre a fala (onde estaria guardada essas gravações?), o jornalista Aurélio Fernandes Alonso, jovem e intrépido, início de carreira, primeiro estagiário naquela secretaria e, mais que tudo, testemunha ocular de parte importante da vida local. Com David na Saúde, algo mais que auspicioso, lembrado até hoje como o melhor que tivemos no setor. Os motivos já são mais do que conhecidos, tanto que, após sua passagem por aqui, foi dar com os costados em Santos e acabou se transformando no prefeito da cidade praiana. Por aqui, só não o fez, por ter batido asas e daí, caímos em Izzo Filho. Essa primeira administração do Tuga foi dessas coisas inimagináveis na cidade. Fala-se muito em Franciscato, Sbeghen como os melhores prefeitos, mas o revolucionário mesmo foi esse barbudo, com uma guinada até então nunca vista em todas as áreas do serviço público. Com uma reunião mais do que insólita, fez e aconteceu de uma forma nunca mais alcançada e nenhum outro patamar. No segundo mandato consolidou sua imagem para todo o sempre, quando sem recursos plausíveis, saneou as finanças, deixando no caixa valores que salvaram a administração posterior, a de Rodrigo Agostinho. Foi o cara, até por ter ao seu lado gente do quilate deste David.


Dito isso, entro de cabeça no que me foi contado pelo Aurélio sobre como agia este David diante de tantos Golias. A ideia do Pronto Socorro Central naquele local é obra exclusiva do médico David, hoje também considerado como exponencial figura melhor representando o que venha a ser o SUS - Sistema Único de Saúde, leio dizer ser mesmo o Pai do SUS. Simples, objetivo e pontual, sacou que, o hospital da cidade atendendo tudo e todos indistintamente era o Base e nada melhor do que o PS, local que atenderia todos em pré-atendimento básico, gravidade ao não, estar localizado bem juntinho deste. Num atendimento a requerer algo mais especializado, como RX e outros exames, o encaminhamento seria imediato, via corredores. E assim foi feito e assim ocorreu durante décadas. Quantas vezes eu mesmo me servi disso, indo tirar RX em madrugadas lá no final de um dos tantos corredores do hospital. Não foi preciso ser nenhum bidu para antever o previsto por ele, mas ele soube juntar os pauzinhos, unir e conciliar interesses, bater o martelo no local, hoje consagrado. São peculiaridades como essas o grande diferencial de pessoas como David, olhos voltados quase em exclusividade para o atendimento público de qualidade.

A foto me fez lembrar desse detalhe me dito por Aurélio numa mesa de bar na semana passada e aqui a deixo registrada como símbolo de tantas outras boas histórias envolvendo tempos memoráveis da história bauruense. Relembro isso tudo, na certeza que, se gente imbuída do mesmo espírito se juntasse hoje em busca de uma nova cidade, algo de muito bom poderia voltar a ocorrer de fato. Que essa união ocorra.

MAIS DUAS FOTO EXCLUSIVA DO PEDRO ROMUALDO:

"Além dos postos de saúde (13), que inaugurou por toda Bauru, uma das maiores satisfações do Dr. David Capistrano, foi a inauguração do Lactário de Bauru (Banco de Leite Humano). O Banco, para quem não sabe, recebe doação de leite humano para dar às crianças cujas mães não produzem leite para amamentação. A idéia do Banco era do saudoso ex-vereador, José Walter Lelo Rodrigues, que a administração Tuga Angerami adotou. No dia 11 de maio de 1996, David acompanhou com imensa alegria a realização do sonho do Lelo".

"Quando chegou a Bauru para assumir a Secretaria de Saúde, o médico sanitarista, David Capistrano da Costa Filho, foi recepcionado com ojeriza da classe médica e outros setores burgueses da cidade. Hábil político, David passou a convidar setores organizados da socidedade bauruense ligados à saúde para visitar a rede pública que queria montar em Bauru e diminuir a rejeição à sua pessoa.
Na foto, David visita com a Rede Feminina de Combate ao Câncer uma unidade de saúde. Na foto, também, o assessor André de Souza, à esquerda, ao lado de David, o prefeito Tuga Angerami (barbudinho) e o jornalista Gérson de Souza, da sua assessoria de imprensa, à época".

Pedrinho quando resolve abrir seu baú de recordações, tem coisas lá dentro que só ele mesmo foi juntando, coleção inigualável da História desta aldeia bauruense.


O MARÍLIA ESTÁ VOLTANDO...
https://www.facebook.com/watch/?v=431316937518445

Nesse final de semana a consumação ou não do retorno do Marília, saindo da mais baixa divisão profissional do futebol paulista, a Bezinha para a AIII, a onde se encontra o glorioso e centenário time de minha aldeia, o Esporte Clube Noroeste. Nem Marília, nem Noroeste, muito menos América de Rio Preto, Rio Branco de Americana, Francana, XV de Jaú e tantos outros, diante de tudo o que já representaram no futebol merecem estar na rabeira das divisões do futebol. Sei que muitos noroestinos irão me criticar, pois talvez precisem de um inimigo, um adversário mór pra continuar se digladiando e propondo toscas guerras, mas eu aqui do meu canto, me declaro em primeiro lugar inveterado amante do futebol e esse, o dos pequenos, o do interior, o que aprendi a frequentar e amar desde a mais tenra idade. Torcerei sempre pelo Noroeste vencer não só o MAC, mas todos os demais, mas não nutro ódio por nenhum desses, mesmo diante de muitas inenarráveis histórias já vividas dentro e fora do campo. O Noroeste vive hoje em compasso de espera, dor para todos seus abnegados torcedores, pois nem presidente temos, quanto mais uma diretoria pra chamar de sua e mesmo assim, vejo sendo anunciado aos quatro ventos a participação das divisões de base na Copa Paulista 2020, uma das etapas em janeiro aqui em Bauru. Do MAC, recebo esse vídeo e ao assisti-lo inteiro, me vejo trocando a camisa azul do MAC pela vermelhinha do Noroeste e já penso em como deverá ser as duas partidas do campeonato da AII do ano que vem, uma aqui outra lá, envolvendo as duas equipes. Que o MAC volte, se fortaleça, mas que o mesmo também possa ocorrer com o Norusca. Não vejo a hora de voltar a frequentar o estádio Alfredo de Castilho. Eu sou Norusca de quatro costados, mas não odeio o Marília suficiente para deixar de torcer para que saia da Bezinha. Que volte logo e vamos nos pegar só no campo de jogo ano que vem.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (118)


BALAIO DAS GATAS TERÇA QUE VEM E HPA COM FOTOS "MULHERES LADO B"

A teatral artista Marisa Basso no comando da ATB - Associação Teatro de Bauru está as voltas com algo grandioso para a entidade teatral bauruense e para tanto movimenta tudo a sua volta no sentido de gerir dividendos e movimentação no entorno do que fazem. A mais nova iniciativa é a realização do BALAIO DAS GATAS, atividade cultural com muitas performances e apresentações simultâneas ocorrendo no Dona Pingueta Bar, ali da rua Hermínio Pinto, na próxima terça, 22/10, a partir das 19h, com couvert artístico de R$ 10 reais (para suprir as necessidades da ATB). Dentre o que vai rolar lá no dia, a apresentação do já concorridíssimo grupo musical Canto das Gatas, exposição de Lu Bernardes, Catia Machado, Simone Scaglione, mais cantorias e por fim, algo do único gato junto delas todas, este HPA com a mais nova repaginada da exposição PERSONAGENS SEM CARIMBO - O LADO B DE BAURU, agora somente com a versão mulheres, ou seja, serão 50 fotos, todas tiradas por mim e ali expostas das tantas mulheres que fui fotografando pela Bauru nos últimos anos.

Enviei para Marisa um texto básico de apresentação e aqui reproduzo para apimentar e aguçar a visitação. Eis:

"MULHERES LADO B - O Henrique Perazzi de Aquino, o do Mafuá do HPA sai fotografando tudo o que vê cidade afora e desses registros algo já vingou, uma exposição de fotos, a “Personagens sem Carimbo – O Lado B de Bauru”, já realizadas em três locais diferentes da cidade, o Bar do Genaro, o Poupatempo e o Bar do Barba, esse junto da Feira do Rolo. São fotos das pessoas nas ruas e nos seus momentos mais inusitados, dentro do dia-a-dia, envolvidos com suas questões, querências e atividades. Nenhuma delas registra os figurões da cidade, os ditos importantes, “forças vivas” de Bauru e sim, as pessoas simples, comuns e as que estão pela aí, nas ruas, bares, esquinas, pontos de ônibus, circulando por todos os lugares. Nada diferente de todos nós, os realmente movendo a cidade. Com esse olhar, a intenção é a de focar sua lente em cima dos pouco observados, daqueles que podem até passar batidos, mas na verdade, são a locomotiva, o motor principal a mover a cidade. A exposição faz sucesso exatamente por isso, por retratar gente como a gente.

Depois desses três lugares, público variado, uma nova vertente, um novo convite e todo o aparato se muda agora para outro local e ganhando outra conotação. Pouca coisa muda, pois o enfoque é o mesmo, mas as abordagens nessa nova exposição será somente com as mulheres. Serão 50 fotos, todas fixadas em caixas de madeira e expostas numa montagem em forma de estante, uma sobre a outra, todas formando um imenso painel. O mais saboroso é as pessoas irem reconhecendo pelas fotos gente conhecida e num outro momento surge o questionamento: por que também não faço parte dessa exposição? Sim, todos e todas fazem não só parte desse painel, como são o próprio. Agora, valorizando as mulheres, num momento onde a violência as agride com um afinco de maior intensidade que a masculina, a perspectiva de realçar não só a beleza, mas a garra, disposição, perseverança, persistência e altruísmo de todas elas em busca de seus objetivos. Pelas fotos esse algo a mais é ressaltado e colocado à prova, diante do olhar de quem irá visitar mais essa experiência feita nas ruas bauruenses".


O convite está feito: terça, 22/10, Dona Pingueta, a partir das 19h. Quem faltar perderá oportunidade rara de botar o bloco na rua.

FORA BOLSONARO e LULA LIVRE - PRA NÃO PERDER O COSTUME
1.) Existem aqueles ainda acreditando que a inJustiça brasileira irá soltar o ex-presidente Lula, tendo uma recaída e recomeçando a legislar seguindo a Constituição e as leis do ordenamento jurídico e não ordens vindas de grupos militares e políticas neoliberais excludentes. O STF, sempre pisando em ovos, pressionado pelas "forças ocultas" recomeça o julgamento e esses acreditando em história da carochinha prendem a respiração, cruzam os dedos, fazem oferendas aos santos, mas experiências anteriores adiantam que, nada nesse país ocorre por acaso e sem pressão popular não teremos devolvido o país usurpado pelo golpe de 2016, muito menos Lula Livre e Bolsonaro sendo posto pra correr.

2.) Na manchete de ontem de um dos jornais mais virulentos da mídia massiva a nítida percepção de que, não se entendem mais a contento nem entre eles próprios. Se mantém juntos pelo interesse do que estão a fazer contra os interesses nacionais e pelo apego ao poder, algo do qual não querem se afastar por nada neste mundo. O bolsonarismo faz água por todos os poros e a rachadura tende a aumentar (toc toc toc), o que não deve diminuir o ímpeto do povo estar nas ruas e exigir o fim da destruição do país. Está tudo tão escancarado, não faltando mais nada para a revolta que dará início à virada desta mesa.

3.) Empresas genuinamente brasileiras sendo entregue praticamente de graça para os norte-americanos, que riem de tudo isso, pois dominam novamente o país, sem grande esforço, graças ação dos entreguistas. Eis o caso das duas retratadas na charge, a BOEING norte-americana e a EMBRAER brasileira. O Brasil não merece ser governado por gente desprezando suas riquezas, traindo nossos interesses de soberania. Com esse pessoal bolsonarista nos governando o país não terá chance de ser altaneiro e livre, pois pregam a dependência e subserviência. Pior são os que riem, ajudam a sabotar o país, como se agindo ao contrário viessem a ajudar o adversário. Nem percebem a traição feita ao Brasil e quando percebem, gente da pior espécie, negando tudo o que tivemos de alvissareiro.


Dia após dia, uma atrás de outra, Bolsonaro merece as estocadas e Lula merece ser solto. E nós, o povo, precisamos ir pras ruas o mais rápido possível.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (134)


BOBEANDO QUEM AINDA PODE NOS REVELAR ALGO DA HISTÓRIA PODE DESAPARECER E COM ELES SE ESVAIRÁ UMA POSSIBILIDADE DE CONHECER ALGO MAIS DO PASSADO - DE UM BATE PAPO NUM BOTEQUIM
Joaquim Mendonça e esposa Nádia Naura - Foto JC
Esse título é doloroso, mas parte da História não está gravada e ainda perpetuada em escritos, registros gravados ou coisa parecida e sim, na mente de alguns dos personagens que dela fizeram parte. Quando esses se vão e nada foi registrado, parte da História se vai com eles, ou pelo menos a versão das quais participaram. Ontem, sentado numa mesa de bar, a do Japa na rua primeiro de Agosto, ao lado do Banco do Brasil, eu, o memorialista Antonio Pedroso Junior, que com seus livros e registros muito já produziu nesse sentido e um dos personagens a me fazer escrever esse texto, JOAQUIM MENDONÇA. Ali tomando um café com sorvete, papo vai, papo vem, em pouco mais de uma hora tomei conhecimento de muita coisa que nem imaginava, bastidores da vida bauruense, posses, demissões, conchavos, como se deram muitas promoções, muitas delas arrumadas de uma forma bem conhecida na vida nacional, pelo tal do jeitinho. Joaquim esteve presente nos bastidores do período nefasto militar da última ditadura, a que por 22 anos transformou a vida nacional e de certa forma, institucionalizou o que vemos hoje como norma: o amigo do amigo é mais importante que tudo. Em Bauru, como não podia deixar de ser, o ocorrido não merece ser esquecido, até para podermos dar nomes aos bois, saber de fato como se deu algumas das passagens vistas até então gloriosas, mas em muitos casos, pouco virtuosas. E nada como, falar com quem vivenciou aquilo. Difícil é fazer essas pessoas falarem, gravarem, perpetuando um registro que vai além da História.
Joaquim Mendonça dia homenagem comunista Arconcio.

Lancei a bola ontem para o Pedroso. Gostaria muito de conseguir ver gente como Joaquim Mendonça contando de tudo um pouco do que já vivenciou na vida, as entranhas com o poder. Ele sabe muito e igual a ele, cada vez menos pessoas, poucos, dando até para se contar nos dedos, talvez de uma só mão. Perder essa rara oportunidade é algo pelo qual qualquer historiador não pode deixar passar. Deixei o Pedroso instigado para em cada retorno seu, uma gravação e disso um livro, não só com ele, mas com outros. Certa feita, creio que um ano antes de falecer, o memorialista Gabriel Ruiz Pelegrina, que muito sabia da história dessas plagas, mas pouco contou de fato em seus livros, me disse textualmente: "Por muito tempo eu não pude contar muitas coisas nebulosas da história de Bauru. Hoje talvez já possa fazê-lo, pois os personagens já se foram há muito tempo e mesmo seus herdeiros também". Eu e tantos outros perdemos a oportunidade e com ele se foram muitos fatos pelo quais não se guardam registros escritos, mas somente na memória de quem os vivenciou. Eu e Pedroso, ambos já alquebrados, não podemos perder muito tempo. Só o bate papo de uma hora de ontem já seria suficiente para dar uma boa agitada no que foi produzido até hoje, a tal História Oficial que até então temos conhecimento. Desvendar isso é quase uma obrigação, algo ainda a ser feito, com algo surgindo nos dias atuais e já mostrando toda sua eficiência. Dois livros recém lançados dão luz a essa minha tese. Algo deles conto num texto escrito por mim com exclusividade para o jornalista Chu Arroyo publicar na edição saindo amanhã do seu jornal, o Pedra de Fogo e aqui reproduzido:

"ISSO A GLOBO NÃO MOSTRA
A história de nossas cidades, tanto de Bauru, Lençóis Paulista ou todas as demais ainda é escrita pela visão dos vencedores. Em casos esporádicos se encontra a versão dos derrotados, a do povo trabalhador, campesinato, obreiro, o que rala no dia a dia e carrega tudo às costas, ou seja, a da imensa maioria da população. Esses possuem pouca voz, pelo menos entre os memorialistas e historiadores a registrar o passado. Olho para uma estante que possuo só com livros contando a História de Bauru e constato isso. A versão oficial predomina e ela escamoteia, falseia com a verdade dos fatos, pois na maioria das vezes aquele retratador possui algum vínculo com os donos do poder e desta forma, faz a abordagem puxando a brasa para o lado destes.

Triste constatação. Por sorte, tenho visto o surgimento de uma nova visão sobre fatos do passado e isso é mais que alvissareiro. Uma nova geração de pesquisadores querendo fugir do trivial e fuçando nas origens de nossas cidades, no que de fato ocorreu e mostrando uma visão dando a devida importância para o protagonista até então deixado de lado. Os índios massacrados na região, vistos como quem impediam a chegada do progresso, dizimados por truculentos grupos contratados por fazendeiros passaram batido ao longo do tempo e hoje sendo mostrados como de fato o foram, perversos, cruéis, insanos, produtores de muita violência. O progresso em nossa região sempre foi travestido de uma disfarçada forma de violência, pois o mais forte sempre impôs sua vontade a fórceps, de cima para baixo, calando a voz do mais fraco, do dito oprimido. Ler essa versão após ampla pesquisa, inclusive tomando como base os livros até então produzidos, traz luz para revelações até então nunca lidas.

Dois livros em Bauru retratam isso de maneira bem evidente e demonstram estar surgindo algo novo, desvendando de fato a História como de fato se deu, sem aquela cobertura de que o processo foi suave, tranquilo e sem traumas. Cito a ambos. Em "Fronteira Infinita: índios, bugreiros, escravos e pioneiros na Bahurú do século XIX", os professores Luís Paulo Césari Domingues e Edson Fernandes dissecam o que foi de fato o período mais obscuro de nossa história, o do desbravamento da região onde está hoje assentada nossas cidades. Noutro, o “O pulsar da resistência – A história de Alberto de Souza, um homem entre revoluções”, o advogado e jornalista Arthur Monteiro Alves disseca a história de um contestador, desses que larga tudo e luta pelo ideal de muitos, sofrendo por causa disso, uma vida inteira tentando reverter o poder vigente, sendo penalizado e privações perdurando até o fim de sua vida.

São retratos bem precisos desse outro lado, ainda pouco desvendado de uma história clamando por ser revista, desvendada e contada de fato e de direito. Li a ambos e confrontei com tudo o que havia até então sido publicado e a constatação é somente uma: a carência, não só de boa leitura, como de revelações verdadeiras, originais e substanciosas de um passado ainda nebuloso, acobertando fatos que se deram de um jeito e nos foram repassados de outro. A História clama por isso. Num momento de obscurantismo, com a chegada de um desGoverno remando para tornar o país cada vez mais dependente, subserviente e alicerçado em interesses nada populares, ter ao menos quem nos mostre algo do passado, com esse viés de que a mentira não perdura para sempre, um alento. Que muitas outras obras surjam e desvendem aos nossos olhos algo ainda não totalmente entendido".


OBS.:
Na primeira foto Joaquim Mendonça e sua esposa, a jornalista Nádia Naura, registro do Jornal da Cidade e na segunda, evento ocorrido em junho de 2008, tendo Joaquim junto a demais numa homenagem ao ativista político comunista Arconcio Pereira.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (172)


MENINO JUAN, CINCO ANOS E JÁ CIENTE DAS AGRURAS DESSA VIDA
Sou muito emotivo e me empolgo quando diante de algo que quero ver resolvido e não consigo. As injustiças e dificuldades estão pela aí e por todo canto. São tantas e acabo observando com mais afinco as no meu entorno, fazendo delas exemplos para tudo o mais, as imensas e quase intransponíveis mundo afora. O mais fraco no mundo onde o que vale não é o indivíduo, mas as suas posses, pertences e saldo bancário, tudo ditado pelas leis de mercado, vou juntando histórias, relatos bem doídos, sentidos e tentando ao meu modo e jeito ir encaminhando alguns, sempre em busca de, ao resolver algo aqui, estar dando uma valioso contribuição para o todo. Essa história aqui relatada me toca fundo, pois muito próxima de mim, me desdobro, não só em passá-la adiante, como sensibilizar mais e mais pessoas, para algo além da solidariedade, uma ação social coletiva, proposta governamental de um país, que bem sei hoje não é o desses atuais desGovernantes.

JUAN GUILHERME FERREIRA DE SOUZA MORAES tem esse nome comprido e o soletra inteiro, mesmo com cinco anos de idade. Quando o faz, deixa bem claro: "Meu nome é com J e não com R". Ele já sabe ler e recém chegado em Bauru de Bariri, isso se deve aos ensinamentos da rede básica municipal daquela cidade. Família muito humilde, mora com a mãe e uma tia, essa a única trabalhando na casa e com salário de R$ 1.200 reais mês. A mãe bem que quer trabalhar, mas não consegue conciliar a escola do filho com os horários. Conseguiu vaga em escola municipal, horário parcial e para conseguir vaga no integral precisa comprovar trabalho e para comprovar trabalho não tem como levá-lo e buscá-lo trabalhando. A vaga, já descobriu não virá sem trabalho. A solução encontrada pelas duas irmãs foi a de levá-lo para a cidade de onde vieram, interior de Minas e ele ali permanecer aos cuidados de outra irmã, até pelo menos tudo se normalizar por aqui. Com o trabalho de uma as dificuldades se acumulam e a esperança é quando ambas tiverem emprego. Juan mora ao lado do Mafuá, não pode me ver e já puxa conversa. Lê tudo o que lhe cai nas mãos, entende tudo de futebol, joga bola batendo a mesma na parede de seu quintal e está agora contando nos dedos quanto falta para ir pra Minas. Dói a cada dia ele vir e me dizer: "Hoje um dia a menos para ficar aqui em Bauru".
Na última festa aqui no Mafuá ele impressionou a muitos, pois leu tudo, praticamente alfabetizado e tendo ao lado, muitas outras crianças com até dois anos a mais e lendo quase nada. Juan, "com J, viu!", é a simpatia em pessoa, sonhador, falante, joga bola com chinelinho de dedo, diz que sua mãe já explicou tudo, que não vão ter outra saída, terá que ir pra Minas, ficar longe dela por uns tempos, mas vai voltar, assim que a mãe estiver trabalhando e puder conciliar os horários com a escola. Na daqui, já lhe disseram que nesse período até pode não comparecer todos os dias na escola, pois está num estágio mais adiantado que os demais, mas não pode deixar de ir. Ele já não sabe se continua indo na daqui ou espera chegar em Minas. A mãe já arrumou o dinheiro para ir levá-lo, mas está também em vias de gastar, pois contas e outros gastos batem à sua porta a todo instante, porém, não conseguiu ainda nada para o seu retorno, daí nem sabe o dia certo de fazê-lo. Já recusou dois empregos, por não ter onde deixá-lo, pois a irmã trabalha o dia todo e ela nem pensa em deixá-lo sozinho. Os dias passam rapidamente e a cada retorno, lá está Juan batendo bola em seu quintal e ao me ver vem correndo, pergunta se não quero brincar e me diz da viagem, dos jogos de hoje no Brasileirão de futebol, de uma única amiguinha já feita numa casa ali perto e fica assim cheio de dúvida sobre o querer ir e o não poder ficar. "Eu sei que não tenho escolha", me diz e isso me dilacera por dentro.

OBS.: Pronto, a história está contada, feita numa só golfada, sem correções e muito pensar. Despejei no papel como os náufragos fazem quando diante de uma garrafa e jogam uma mensagem ao mar em buscar de encontrar um porto seguro. Existem milhares, diria mesmo, milhões de Juans espalhados por aí, alguns com histórias até mais doloridas que a dele, porém, mesmo ciente de tantos, esse aqui está bem aqui do meu lado, converso com ele todo dia e essas coisas me remoem por dentro e fora. Tinha que escrever, mesmo muitos me criticando. A intenção não é expô-lo, mas falar das injustiças deste mundo, das desigualdades e por que não, alguma solução para ele e tantos outros. A vereador Marcos Souza acaba de dizer que a Prefeitura está em vias de abrir uma creche no centro da cidade para crianças como ele. Não consegui me conter, as desigualdades deste mundo são imensas, incomensuráveis e aqui um só pedacinho de tudo o mais acontecendo neste mundo.