terça-feira, 24 de março de 2020

UM LUGAR POR AÍ (134)


O ISENTÃO

Eles pululam hoje pelas redes sociais. Hoje, evidente que todos estamos cá nela, viajando mais do que fazíamos até alguns dias atrás. A quarentena nos obriga a buscar informações, querer saber do outro e assim, cá estamos, mais e mais. Até mais do que deveríamos e nessas idas e vindas, muita coisa flui, aparece assim do nada. Uma delas são os que se mostram arrependidos por terem votado no Bolsonaro, mas nem tanto, não dão o braço totalmente a torcer e nem fazem um mea culpa completo, com direito a expor o erro, se mostrarem de fato diferentes, mudados. A maioria não o faz e ao colocarem suas ideias aqui pelas redes sociais, ainda possuem a cara de pau de afirmarem não o terem apoiado e quando o fizeram, foi para sacar o mal maior do país. Sabiam onde estavam se metendo, o fizeram conscientes, senhores de si, arrogantes até a medula, sem querer ouvir e entender o outro lado, mas hoje, diante das repetidas cagadas do miliciano, de algo pelo qual nem os mais despirocados possuem condições de continuar apoiando e referendando, voltam atrás, mas não muito. Continuam em cima do muro, ou seja, continuam com a mesma linha de pensamento e ação, conservadores até a medula, porém, mais perdidos que cego em tiroteio, pois sem reconhecer, se mostram pérfidos, ainda em busca de quem os encaminhe pelo caminho da exclusão, do apartamento social, pois nem ousam estar ao lado dos que defendem os interesses dos trabalhadores, dos movimentos sociais e dos que lutam para transformar esse país em algo bem mais palatável.
Avessos à mudanças, são os almofadinhas do atual momento, com aquele papo cerca lourenço, tentando se posicionar como nem uma coisa nem outra, ou seja, não são nada. São na verdade uns bostas, boçais, banais, vazios, gente pelas quais não vale a pena a convivência. Adulam a Havan, a Madero, a Riachuelo e agora, só nesse momento se voltam contra a Rede Globo, como se ela nunca estivesse agindo da mesma forma e maneira. Abomino conservadores, principalmente os moralistas e cavernosos sem opinião formada, vaquinhas de presépio, loucos para encontrar mais um louco e seguir ao lado dele danando com o país. Os que hoje afirmam, "mas eu nem fui votar", "era o que tinha que fazer", "o fiz só para titrar o PT", mas bateram panela e endossaram o coro dos que hoje deixaram o país de tanga, sem lenço e sem documento, parabéns, pois são tão culpados quanto todos os que ainda seguem junto da bestialidade em curso. Um dia a ficha cairá por completo e, espero, não seja tarde demais. Nunca foram de luta, de resistência, de buscar algo realmente transformador, pois na verdade são tão conservadores quanto Bolsonaro, aliás, são iguaizinhos a ele e hoje, desmascarados, estão envergonhados, olhando para os que nunca abandonaram a cancha de jogo de cabeça baixa, mas ainda arrogantes, prepotentes e sem conseguir esconder o que de fato são. Esses nunca me enganaram, ainda mais agora. Não existe como continuar adulando essa gente, pois nunca existiu regras de imparcialidade e do distancimento, elas sempre estiveram intercaladas. A mim não enganam.

NÃO PAPARIQUEM, NEM O DÓRIA, MUITO MENOS O MANDETTA

Explico, ou melhor, tento. Principalmente num momento como esse, todos em casa (quase todos, existem os impossibilitados) e diante de nós, na qualidade de telespectador, ouvinte ou leitor incauto somos iludidos por uma falsa pluralidade e o gajo ali na nossa frente, reconhecidamente um pulha, acaba se tornando uma pessoa não só tolerável, deglutível, como merecedora de elogios. Tenho o maior cuidado com esses. São os casos de quem está neste momento a elogiar o governador João Dória e o Ministro da Saúde, o Luiz Henrique Mandetta. Dória não é flor que se cheire (como professor, o abomino) e agora, diante da inércia mais que reconhecida do Bolsonaro, tenta tirar proveito. Faz o que todo administrador deve fazer em situações como as que vivemos. Quem não faz, pau nele, são os muito incompetentes. O Mandetta não mija muito fora do penico ditado pelo patrão miliciano e assim o fazendo, trai até seu juramento médico. Lembrem-se que já foi investigado por Caixa 2 num passado não tão distante. Falsos pluralistas. Não podemos cair na esparrela e, ingenuamente, ficar repercutindo e elogiando manifestações ocasionais de racionalidade de gente como eles - tanto mais que elas costumam vir coalhadas de afirmações duvidosas, dessas de quem esconde o jogo.
Posso até ser um pouco sectário e intransigente, mas não cedo. Eles não são pessoas convertidas à nossa linha de pensamento e ação, longe disso. Hoje mesmo, Dória já mostrou as garras e quando Bolsonaro lançou a MP dando cabo dos salários dos trabalhadores por quatro meses, ele já se mostrou favorável. Bonzinho de araque. Mandetta não pode ser bom, pois desconheço algum que o seja trabalhando ao lado do Bolsonaro. Para ali estar, o requisito primeiro é ser horroroso. Eu tomo o maior cuidado com esses cristãos novos, gente de uma espécie pela qual quero continuar sempre e sempre mantendo a maior distância.

DIÁRIO DA QUARENTENA
EU, GASPARINI JR E A LIVRARIA DA TRAVESSA - DIVAGAÇÕES DE QUEM SE ENCONTRA DETIDO ENTRE QUATRO PAREDES

Abro um livro e nele um selo colado na primeira página, "Livraria da Travessa". Tenho várias histórias desses, um dos lugares onde passo regularmente todas as vezes quando no Rio de Janeiro. Conheço três lojas, uma em Ipanema, duas no centro, uma na rua da Travessa, a pioneira, hoje também ocupando novo espaço, virando a esquina. E a que mais frequento no Rio, na avenida Rio Branco, uma quadra depois da presidente Vargas, num casarão antigo, todo remodelado, espaçoso e transformado num dos locais mais aprazíveis para os amantes de livros. São oásis dentro da balbúrdia carioca. Aprendi a entrar e não só comprar. Seguindo os passos dos frequentadores, escolho um livro, sento e folheio, leio, sem sem importunado. Isso aprendi lá. Frequento desde muito tempo, quando ia regularmente vender minhas chancelas (eles são meus clientes, compraram algumas máquinas), coisa de 20 e poucos anos e essa na rua da Travessa, a quadra com a estátua do Pixinguinha tocando sax, me dá bruta saudade. Hoje vou menos, pois escolhi outra, a Folha Seca, na rua dou Ouvidor, essa dos amigos Ferrari, Rodrigo Ferrari e sua mãe Maria Helena Ferrari, nela bato cartão, também para ouvir boa música e beber cerveja nos bares ao lado, parede meia. Enfim, o Rio possui lugares pelos quais vale a pena a gente frequentar.

Mas a história que queria contar não é essa. Tempos atrás voltava num vôo para Bauru e dentro do avião vejo se aproximando no corredor, nada menos que Gasparini Jr, o hoje defenestrado ex-presidente da Cohab, o que em sua casa encontraram quase dois milhões em espécie. Na época era só o presidente e também voltava para Bauru. Ele me conhece e eu o conheço, mas só, nunca conversamos e nem naquele dia. Nem sei se nos cumprimentamos. Sei que o vi e o fato a me chamar a atenção foi ostentar junto aos pertences que trouxe para dentro do avião, sacola abarrotada de livros, ostentando a logo externa, Livraria da Travessa. Com certeza, voltava do Rio (eu e Ana de um Congresso acadêmico - não me perguntem qual e donde). Ele passou por mim, esbarrou a sacola e fiquei matutando comigo mesmo sobre o seu conteúdo, livros. Sempre volto com livros de todas minhas viagens e quando não faço, das duas uma, estou duro ou doente. Gasparini Jr voltava com livros para Bauru, no esbarrão senti a sensação da proximidade e a única coisa que ainda me lembro do encontro foi de permenecer por bom tempo imaginando os passeios deste lá na Travessa: Em qual delas teria ido? O que lê? Essas futilidades. No momento, confesso, fiquei com vontade de puxar conversa, tricotar sobre o que trazia e abriria também meus pacotes. Ele sentou longe de mim e a oportunidade foi perdida.

Hoje, passados mais de dois anos daquela viagem, ele vivendo seu inferno astral, mas em casa e com todos seus livros, alguns trazidos da famosa livraria, folheio os meus, batendo bruta saudade, primeiro pela distância, depois por imaginar aqueles lugares fechados e os livros temporariamente adormecidos. Essas lembranças não possuem pé nem cabeça, nenhum elo assim consistente para fundamentar um bom texto, mas tento, pois nutro algo incontrolável quando diante de livrarias, ainda mais sendo a Livraria da Travessa. Já quero entrar, folhear, cheirar os livros, gasto sempre além da conta, em parcelas dolorosas, pesando no orçamento, porém sem nenhum tipo de ressentimento ou remorso. A diferença talvez resida aí, eu sempre paguei a perder de vista, nunca em espécie. Já dele, leio que o costume era pagar tudo na grana viva. De uns tempos para cá, leio cada vez mais (ainda mais agoera, recluso e isolado), porém gasto pouco em livros novos, preferindo os sebos (e a banca do Carioca, na Feira do Rolo - ele guarda para mim livros com a minha cara), mas na primeira volta ao Rio, tenham certeza, passarei pela Travessa e é claro, também na Folha Seca, pois esses são para mim os melhores pontos turísticos da Cidade Maravilhosa. Deixo de ir em praia para permanecer junto aos sebos, livrarias e afins. Creio eu, se pudesse fazer o mesmo, Gasparini voltasse outra vez com mais e mais sacolas. Enfim, gostar de livros não é exclusividade de nenhuma linha de pensamento e ação, de boas livraria idem. A Travessa cruzou nossos caminhos.

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