domingo, 24 de janeiro de 2010

CHARGES ESCOLHIDAS À DEDO (23)

ANIVERSÁRIO DE SÃO PAULO E UMA CHUVA QUE NÃO PARA DE CAIR
Nessa semana acontece o aniversário da capital paulista, são exatos 456 anos e na capa da minha revista predileta, algo mais: "confirma ser a capital da desigualdade". Para quem gosta muita da métropole, circula muito pelas suas ruas é dolorido ler isso, mas é a mais pura realidade: "Sem espaços públicos, a cidade se divide em guetos. Pobres e ricos não se misturam. Todos tentam improvisar o que o governo deixa de oferecer". Um panorama triste, de calamidade invadiu a cidade nesse mês de janeiro, com essas chuvas que não param de cair sobre nossas cabeças. O país todo tem sofrido muito (o descaso parece ter sido geral, poucos se prepararam para dias assim ou chegaram a pensar na solução de alguns problemas crônicos de nossas cidades), mas São Paulo, por ser a maior, sofre mais. São milhões e milhões de pessoas a cada nova chuva vivendo o caos urbano numa intensidade elevadíssima. E, todos nós sabemos muito bem, que a culpa não é só da natureza. Todo o estrago poderia ser evitado (ou amenizado). Isso vale para São Paulo e para muitos outros lugares: (1)"uma parcela considerável da responsabilidade pelas catástrofes ocorridas recai sobre a ação humana, como têm alertado alguns especialistas", (2)"em matéria do uso do solo, a regra nacional ainda é a ausência de regulação pública ou o descaso com as leis existentes, mantidas apenas no papel", (3)"contribuíram as construções precárias e irregulares das encostas e várzeas, características da ocupação territorial brasileira" e por aí adiante. Um mal anunciado. Diante desse estado todo, ressalto aqui o trabalho dos chargistas brasileiros, que nessa semana derão um banho em cima do tema. De norte a sul, de leste a oeste, pipocaram charges versando sobre a chuvarada contínua e os estragos. Reproduzo aqui alguns deles, terminando com a reprodução em fotografia de uma antiga do Nicolielo, publicada no Jornal da Cidade, edição de 16/01/2007.
OBS.: Cinco charges foram chupadas num Gilette Press do site mais famoso de charges brasileiro, o www.chargeonline.com.br , que o Mariano bravamente mantém na internet. Para ver todas elas grandonas, clique em cima de cada. Ploft, será uma aguaceiro por tudo quanto é lado.

sábado, 23 de janeiro de 2010

DROPS – HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (20)

DIREITOS HUMANOS, CHILE, COLLA BOLIVIANA E JORNADA ESPORTIVA
1. Já escrevi aqui sobre o Programa Nacional dos Direitos Humanos e minha tristeza pelo recuo do governo Lula aos direitosos, que fazem questão de direcionar o país para o lado mais obscuro da História. Sou favorável a quase todos os itens, principalmente a da abertura de processos contra os torturadores. Sobre essa questão leio nessa semana algo intrigante ocorrido no final da 2º Grande Guerra, no histórico encontro entre Stalin e Churchill. “Churchill disse a Stalin que teria sido melhor fazer a justiça sumária, de mão própria e sem indulgências, no momento da captura de chefes adversários. O georgiano respondeu de bate pronto: “Na União Soviética não se julga sem o devido processo”. Deixar impunes os crimes de lesa-humanidade consumados no Brasil durante a ditadura militar significa, realizado um juízo irrefletido como o de Churchill, afronta aos direitos naturais da pessoa humana e dos seus familiares”. Latuff, o chargista mais engajado que conheço foi na veia ao retratar a situação numa elucidativa charge.

2. "PRUEBA - El resultado de las elecciones en Chile “es una prueba de que no nos podemos dividir”, dijo el presidente brasileño, Lula da Silva, a sus colaboradores, al plantear que los partidos de izquierda brasileños deben integrar un frente único en respaldo de la candidata Dilma Rousseff, del Partido de los Trabajadores (PT). Al pronunciar un discurso en la primera reunión de gabinete, con la participación de 37 ministros y secretarios, Lula instó a conformar un frente único de la izquierda brasileña y evitar el error de la Concertación chilena, que se presentó dividida en los comicios", extarído do Contra Capa, diário argentino Página 12, edição de hoje, 23/01. “É difícil predizer as conseqüências desta virada à direita para o Chile e sabe-se lá quando a esquerda voltará ao posto máximo. Alguns julgam que joga a favor o fato de que Piñera é um sujeito patético, mas para um mundo que acaba de se livrar com muito custo da família Bush eu não apostaria minhas fichas nesta observação personalista, por mais que concorde com o adjetivo. O que me parece fundamental e urgente é observar o quadro atual de frustração popular nos países em que a esquerda é rosa. Talvez seja uma boa oportunidade para, em ano de eleições, aqueles que se definem como ‘esquerda’ no Brasil reavaliarem sua postura, seu modus operandi. Afinal, se a esquerda continuar morna no poder – ou se continuar a esquerda morna no poder – precisaremos de 20 anos para colocar um Berlusconi no Planalto?”, in O Fracasso da esquerda chilena, escrito por Marcelo Santos.

3. Evo Morales toma posse no seu segundo mandato na Bolívia, mas o que me chama a atenção por lá foi o fato da iniciativa governamental de usufruir comercialmente do consumo da folha de coca. Isso mesmo, a Bolívia pretende fabricar um novo refrigerante para industrializar a Coca. Nada se sabe da fórmula a ser utilizada, mas a garrafa já foi apresentada. Espero poder consumi-la em breve e enquanto esse dia não chega prevejo que os norte-americanos teriam problemas financeiros, pois sendo os maiores consumidores do extrato da outra coca, a cocaína, dado o aumento do custo que a droga teria, com o desvio de boa parte para a produção do tal refrigerante. Belíssima idéia, afinal são os verdadeiros produtores do seu principal ingrediente.

4. Não acredito mais no que leio na maioria dos nossos jornais. Ficam a bradar contra censura e censores, sendo que os maiores são eles próprios. Lemos somente o que interessa a eles e nunca algo, pequena coisa que for, atentando contra os interesses da empresa jornalística que atuam. Isso acontece em Bauru e em todos os locais. Essa a dita “imprensa livre”. Livre para escrever o que quiserem, mas desde que não sejam cutucados com a vara curta. Vergonhosa a atuação de nossa imprensa, pressionando e tentando comandar governos fracos, a ela submetidos e garantidos, um na submissão do outro. Até quando?

5. Aqui um voto de louvor para o que acontece no rádio esportivo bauruense. A rádio Bandeirantes AM mantinha uma programação esportiva, com horário pago e abdicou disso, pela grana emanada pelos evangélicos. Questão comercial, porém de péssimo gosto. Rafael Antonio, nosso melhor narrador esportivo está abrindo as portas para algo não só inovador, como uma “tendência” (como ele mesmo disse ontem na transmissão do basquete entre Flamengo x Bauru), transferindo tudo para transmissões via internet, no http://www.jornadaesportiva.com.br/ . Está conseguindo cada vez mais adeptos e conquistando públicos cada vez mais distantes. A vida dele, do Thiago e do Diogo deve estar uma verdadeira loucura, viajando por tudo quanto é lado, transmitindo os jogos do Noroeste e os do Bauru Basquete, mas deve estar valendo a pena, primeiro pela emoção da resistência e depois, num futuro que deve acontecer em breve, como opção consolidada de jornalismo. O exemplo serve para todos nós, que nos servimos da imprensa diária, quando não nos encontramos atendidos no serviço atual, busquemos alternativas. Rafael e equipe foram à luta e estão sabendo encontrar a luz no fim do túnel. Um exemplo de bravura e resistência, que o jovem do “capacete branco” (sua carapinha esbranquiçada) está dando a todos nós. Eles, como usualmente falam nas transmissões deram um "fio terra" (perguntem a eles o que seria isso) no quesito criatividade e inovação. Resistir é mais do que preciso.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

OS QUE SOBRARAM e OS QUE FAZEM FALTA (06)

ALBERT CAMUS - UM ATEU COM ESPÍRITO - Por Maria Clara Lucchetti Bingemer – site AMAI-VOS, 01/2010
No dia quatro de janeiro de 1960, há exatamente cinquenta anos atrás, morria Albert Camus. De acidente e prematuramente. De surpresa, como era sua vida e sua obra. Homem de extremo talento, francês argelino, filho de mulher simples e afetuosa a quem sempre dedicou grande afeto. O pai morreu na guerra de 1914, o que obrigou a mãe a mudar-se para um bairro operário, fazendo com que o filho conhecesse cedo a mordida da pobreza e da dificuldade de vida. Escritor brilhante e pensador instigante, Camus desde cedo se debateu entre a grandeza de seu espírito e o fascínio pela Transcendência que o levou inclusive a elaborar sua tese de doutorado sobre Santo Agostinho e, ao receber o Premio Nobel de literatura, a recolher-se antes de ir à Suécia, nos aposentos da filósofa e mística Simone Weil, a quem muito admirava e o absurdo da existência que o levava a questionamentos bem próximos da Teodicéia.

No entanto, não se devem simplificar suas posições sobre a existência de Deus dizendo-o simplesmente ateu. Camus é na verdade, anti-teísta. Critica o Deus que a Tradição das Igrejas cristãs disseminaram no Ocidente questionando-lhe a veracidade diante do sofrimento do mundo e da existência do mal. A existência humana é por ele entendida a partir do mito de Sísifo, que se esforça descomunalmente para levar morro acima uma enorme pedra e a cada dois passos que vence na subida, é forçado a descer outros tantos e mais pelo peso da pedra. O absurdo deste perpétuo e fracassado esforço leva Camus a questionar-se se realmente existe um sentido para a vida e a perguntar-se por que o Criador permanece em silêncio diante de tantos mistérios insondáveis.

Talvez entre seus livros, o que mais questione a teologia seja o maravilhoso romance “A peste”. Em uma cidade que pode ser o mundo, ratos desencadeiam uma mortal epidemia que não poupa ninguém. Pouco a pouco todos vão caindo: mulheres, jovens, crianças, vitimados pela horrível doença que não escolhe suas vítimas. O protagonista, o médico Rieux, ateu, se pergunta incessantemente, enquanto dedica o melhor de seus jovens anos a cuidar dos doentes terminais: "Por quê? Por quê?". Seu jovem auxiliar, Tarrou, morre em seus braços, e a pergunta não cessa de lhe vir aos lábios: Pode-se ser um santo sem Deus? Confrontado com o personagem de Rieux, o Pe. Paneloux afirma a existência de Deus com o discurso tradicional da fé. O romance termina e todos os que o lemos sabemos que a pergunta de Camus não é sem fundamento. Porque conhecemos tantos e tantas pessoas que viveram e vivem essa santidade sem Deus; esse ateísmo honesto e cheio de espírito que recusa um Deus imposto que nada lhes diz e que se resume a uma repetição de fórmulas e normas sem uma experiência que faça sentido e uma prática coerente.

As jovens gerações já não lêem Camus, sua obra literária e filosófica. Juntamente com Sartre, foi responsável por toda uma corrente de pensamento que revolucionou o pensamento do século XX, o existencialismo. Em tempos de razão tão cínica e cética como os nossos, haveria que volver a estudar Camus – ouso dizer – mais que Sartre. Como não voltar a seus fascinantes romances “O estrangeiro”, “A peste”, a seus ensaios profundos “O mito de Sísifo”, enfim como não debater todas as questões tão profundas e tão atuais que esse argelino levantou não apenas para uma geração mas para todas, inclusive a nossa? Do limiar da segunda década do século XXI, em plena secularização, quando a vivência da fé tem que enfrentar-se com uma cada vez maior desinstitucionalização, a teologia mesmo se pergunta diante da obra camusiana: como dialogar com os santos sem Deus, com os místicos sem Igreja do mundo de hoje? Não seriam talvez eles e elas os grandes parceiros e interlocutores dos quais deveríamos aproximar-nos para tentar construir um mundo melhor? Que os cinquenta anos da morte de Camus e sua celebração possam inspirar-nos neste sentido.
OBS.: Esse texto é bastante polêmico e é exatamente isso que quero levantar aqui. Poderia escrever muito mais sobre Camus, mas não estou bom, acometido por uma virose, não tenho ânimo para grandes escrevinhações.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

UMA AMIGA DO PEITO (33)

FÁTIMA PAVANATO: REENCONTRO COM ELA, AS COISAS DO MARCELO E DR. ÂNGELO MONAQUEU
Gosto muito de falar de minhas amizades e de estar com os amigos todos, principalmente nas saídas por aí. Falo de todos eles com grande entusiasmo. Nem todos podem ser considerados "do peito", aqueles verdadeiramente amigos, os que estão ao nosso lado em todos os momentos. Mas como gostaria que assim fosse, incluo todos numa só categoria. Tenho meus momentos de reclusão aqui no mafuá (gosto muito deles), mais do que necessários, mas estar ao lado de pessoas queridas é sempre muito bom. Faço disso uma festa, momentos raros para serem eternizados.

Semana passada dei uma passadinha rápida na casa da amiga (essa amiga mesmo) FÁTIMA PAVANATO, a ex-esposa do Marcelo, que dirigiu o Alfinete em Pirajuí até bater com a dez, numa morte besta e rápida. Depois da ida prematura dele, ela aguentou o baralhado no jornal até quando deu, depois passou-o para frente, tentou outras coisas em Pirajuí e sentiu a necessidade de cair fora. E o fez, ela e seus cachorros. Todos aportaram aqui em Bauru e nem bem chegou já estava trabalhando. Gerencia a cozinha de um restaurante dos bons nos Altos da Cidade e vive a vidinha do jeito que ela deve ser levada. Curte demais seu cantinho, cheio de recordações do passado, sózinha como acha que deve ser sua vida. E como gosto de conversar com a Fátima. Falamos sempre muito do Marcelo e ela acaba me presenteando com algumas coisas dele. Ela havia me dito para passar lá e escolher algo dele. Ganho um rádio, desses de válvula, funcionando, que instalarei com o máximo prazer aqui no mafuá e um quadro com uma caricatura dele. "Não posso mais ter esse quadro aqui, pois onde estiver aqui em casa, ele parece estar me olhando, direcionando o olhar para mim", me diz. Trouxe no embornal e junto vieram emprestados três livros que havia lido anos atrás, emprestados pelo Marcelo. Eram uma espécie de xodó dele, tive que fazer leitura rápida e devolver. São três obras do Dr Ângelo Monaqueu, reunidas pelo fiel depositário do legado deste, o professor universitário Omar Khouri (também de Pirajuí, radicado em Sampa). Na parede, um quadro com emolduradas recordações do Marcelo e num bilhete, já quase apagado, uma frase: "Eu não acredito em religião/ Mas tenho FÉ". Comemos um peixe assado, bebericamos cerveja e poetamos juntos, quando leio em voz alta para risos de ambos, uma poesia escolhida de forma aleatória de um dos livros: "Encontro, comovido, no sanduba, um pelo de xana./ Separo-o, acarinho-o e isto me inflama./ Num átimo, porém, sou levado a livrar-me do caco:/ -Seria aquilo um pelo de saco?!". Prometo reler os três e publicar as barbaridades todas da mente mais do que sã do Omar, investido (ou seria revestido, tomado?) do Monaqueu por aqui. Trago os presentes, venho rindo no caminho de volta, lendo os livros enquanto dirijo e em estado de graça fico, por poder compartilhar da amizade de gente dessa laia, tão boníssimas como a Fátima. Esqueço até que ando duro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

MEMÓRIA ORAL (78)

UMA SILVA E A LABUTA DO SEU DIA-A-DIA
As histórias da família Silva são infindáveis, talvez por serem uma das maiores desse país, já proporcionando até presidente da República. A grande maioria dos Silva são gentes de fibra, de luta, de muita resistência e uns eternos batalhadores. E são tantos, que a cada nova história, uma mais inebriante que a outra, relatos de uma persistência em busca da sobrevivência como dignos seres humanos. Dessa feita me envolvi com uma história vivida por uma nobre representante dos Silva, a Maria Helena, uma senhora grandalhona e lutadora, que aos 58 anos, divorciada, comanda uma barraca de lanches diante do mais movimentado hospital da cidade de Bauru, o HE – Hospital Estadual, sob supervisão do Governo do Estado de São Paulo.

São quase oito anos de muita labuta, desde que, com a inauguração do hospital, conseguiu a duras penas se fixar com uma barraca de lanches, junto com outros tantos, primeiro numa das avenidas laterais e depois, com novas determinações, tanto da Prefeitura, como da direção do hospital, sendo instalada quase em definitivo numa baia de estacionamento de carros, no prolongamento da avenida Nações Unidas, caminho do Zoológico Municipal. O lugar pode ser considerado privilegiado, pois desaguam diante das barracas, por um movimentado portão lateral do hospital, quase toda a imensa legião de assistidos diariamente em atendimentos variados.

O movimento incessante de pessoas não reflete diretamente em altos lucros, longe disso, pois dona Maria Helena, sua diariamente das 6h30 até por volta das 19h, de segunda a sexta, para continuar abiscoitando os fregueses menos abastados, os que deixam de consumir em duas lanchonetes internas do hospital. “Tem gente que passa o dia inteiro aqui no hospital e na grande maioria são de fora, vem em grupos, famílias inteiras. Quem já conhece a gente vem consumir aqui fora, pois o custo é mais da metade do preço do que é cobrado lá dentro. Imagine uma família de cinco pessoas, com o dinheiro contado, tem mais é que vir comprar aqui fora? E conquistamos uma clientela porque oferecemos um produto bom, nosso salgado vem todo pronto da Casa do Salgado, com certificado de higiene e tudo”, nos conta mostrando os papéis da Higiene em relação aos salgados.

Ali defronte o Hospital, nessa baia de estacionamento são cinco barracas, um carrinho de caldo de cana e uma perua Kombi com carroceria aberta, também de lanches. E todos nesse vai-e-vem, numa incerteza de não saberem ao certo se continuarão com as portas abertas na semana seguinte. “O que a gente queria mesmo é uma definição da Prefeitura, uma certeza de que poderíamos ficar por aqui, pois já não sou mais nova e perdendo esse espaço, vou fazer o que da vida? Eles precisam nos dizer se vamos ou não ficar em definitivo, pois isso tudo deixa a gente doente. Sofremos denúncias infundadas e provamos que fazemos tudo com muita higiene, mesmo não tendo água encanada e luz elétrica. Trago ali de casa, pois tive que me mudar do jardim Silvestre para cá. Aluguei uma casa aqui pertinho e aluguei a minha lá, pois não agüentava a distância. Com o alvará podemos pedir a ligação de água e luz”, relata Maria Helena.

A cada momento surge um problema novo e ninguém dentre os instalados por ali estão tranqüilos. A última foi uma solicitação verbal feita por funcionário da Prefeitura para que saíssem da baia e ficassem numa área adiante, na beirada da calçada, debaixo placas bem claras: “Proibido Estacionar”. Alertadas por funcionário do DER – Departamento de Estrada de Rodagem não saíram do lugar, pois sua fala foi bem clara: “Se saírem tiramos vocês daqui, pois aí já é conosco, estarão em lugar proibido e isso não teremos como tolerar”. E assim sendo, todos que estavam praticamente prontos para nova mudança, permaneceram em seus locais, com as incertezas todas renovadas. “Ninguém aqui tem sono tranqüilo, pois quando não é um problema é outro”, continua relatando Maria Helena.

E o estacionamento do lado de fora do hospital também foi dificultado há pouco mais de um mês. Do outro lado da rua paravam carros de pacientes e ambulâncias de outras cidades, debaixo de frondosas árvores, todas cortadas, mas agora estacionar na avenida é proibido e os que se recusam a pagar pelo estacionamento dentro do hospital, acabam parando muito distante, em ruas no bairro próximo ou abrindo brechas no mato, em terreno ali defronte. Tudo improvisado e a cada mudança, o fluxo do movimento de pessoas nas barracas diminui. Mesmo assim, percebe-se que muitos já conhecem o caminho e acabam consumindo algo para comer ali mesmo nas barracas, como se fosse uma espécie de única alternativa.

Justo nesse dia, Maria Helena passa mal ali diante do imponente hospital, mas ali ela não pode ser atendida (não existe pronto atendimento, só agendamentos). Pela manhã soube do falecimento de uma prima, juntou o stress do dia-a-dia, o calor por ficar embaixo de uma barraca praticamente o dia todo e quase precisou fechar mais cedo. Nesse momento, todas as outras vieram em seu auxílio, uma ficou tomando conta do seu negócio, enquanto era levada para o hospital, diante do olhar atônico de um paciente que comia lanche por ali: “Com um baita hospital aqui, menos de cem metros, precisa ser levada para o lotado Pronto Socorro lá no centro da cidade”.

E assim foi feito, Maria Helena entrou no carro de um conhecido, deixou tudo na confiança das outras amigas de labuta e foi levada às pressas para um atendimento médico. Por ali a rotina continua a mesma, já passava das 16h e da janela do carro, ainda levantou a cabeça e disse para quem quisesse ouvir: “Esse é o nosso dia-a-dia. É dessa forma que a gente ganha o nosso ganha pão. Somos lutadoras, batalhadoras e exigimos respeito. Queremos é continuar trabalhando com dignidade, pois fazemos isso há quase oito anos e sem reclamações. Seria tão fácil resolver isso para a gente, não?”. E lá se vai essa Silva, que amanhã, com melhora ou não em sua saúde precisará abrir às portas de seu pequeno negócio às 7h da manhã. Os Silva são assim, incansáveis.
OBS.: Maria Helena foi até o Pronto Socorro e na demora no atendimento (mais de três horas), foi levada pelos irmãos ao Prontocor e lá pernoitou. Ontem, terça permaneceu em casa, em recuperação, porém sua barraca funcionou com o auxílio de parentes e amigos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

UMA CARTA (42) e UMA ALFINETADA (64)

O VIZINHO NÃO É UMA FIGURA DISTANTE - carta publicada hoje, Tribuna Leitor, Jornal Cidade Bauru SP e no semanal O Alfinete, de Pirajuí, edição nº 566
O que aconteceu no Haiti, o país mais pobre e miserável de toda a América me fez lembrar da relação que mantemos com alguns vizinhos. Ouvi muita lamentação quando o presidente Lula se mostrou favorável a novos acordos econômicos com a Bolívia, em relação ao gás que importamos deles e ao Paraguai, com a energia elétrica que de uma certa forma compartilhamos de Itaipu. Em ambos os casos, ficou claro o relacionamento amistoso e de verdadeiro amigo, que o Brasil mantém com duas nações vizinhas, quase parede-meia. O entender a situação do outro, ajudar no sentido de que eles cresçam e melhorem é mais do que salutar, é imprescindível. Achei horroroso naquela oportunidade ler por aí que o Brasil deveria atuar de forma dura com ambos, como se fosse um déspota imperador. Agimos da forma mais acertada e a história mostra isso. Crescemos como nação humanitária e distante da força bruta.

Morei durante vários anos no núcleo Gasparini e vivenciei algo a me incomodar. Um dos vizinhos tinha uma casa caindo aos pedaços, nem luz e água estavam ligados. Uma pobreza que destoava dos demais, todos trabalhadores e com um mínimo de cuidado em suas edificações. Era impossível querer pintar a fachada de sua casa e não querer entender e ajudar o vizinho ao lado, em situação deplorável. Era o mínimo que todos poderiam fazer. Como trazer para sua casa o porta-malas do carro cheio de mantimentos e observar o outro, ali ao lado, quase sem nada para comer? Passado um certo tempo, com ajudas paliativas nada foi alterado, mas com o emprego formal de alguns, tudo mudou de figura. Na casa já eram vistas mudanças, uma reação e todos vivemos mais felizes.
O Brasil não se mostra indiferente aos seus vizinhos, como nós não devemos ser com os nossos. Existem aqueles que preferem retirá-los do seu campo de visão, pois assim o problema será esquecido, outros não. Os que se incomodam, arregaçam as mangas da camisa e as barras das calças e se mostram desde o início preocupados, propiciando uma ação transformadora, esses são valorosos. O caso do Haiti é crônico e foi sendo construído ao longo dos anos, com ditaduras que dilapidaram todo o seu patrimônio físico e moral. Chegaram ao fundo do poço e pouco foram os que o ajudaram de fato. Um país onde 75% da população está desempregada é um sinal alarmante de que tudo está falido. A ajuda ao Haiti não deve se militar a mantimentos e ajuda humanitária de mão de obra especializada em catástrofes (também muito importantes).

Olhemos nosso vizinho com outros olhos, o da transformação, o da revitalização e o da reconstrução também social e política. Enquanto o país for dominado por gangues, no poder e nos núcleos populares, nada avançará. O Haiti precisa é de uma revolução social, onde o povo acompanhe novamente o atendimento mínimo de suas necessidades básicas, principalmente no respeito ao cidadão. Tragédias como a ocorrida lá são horrorosas e de nada valerão toda ajuda que vier, de todas as partes do mundo, se algo não for feito para mudar o ritmo atual da vida haitiana. Nada de interferência estrangeira sem controle, mas que surjam lideranças populares a assumir um papel transformador naquele país (incentivemos isso). Aí sim, daríamos uma outra ajuda, mais palatável, para que o país se levante e dignifique o fato de ter sido o primeiro país a se ver livre da escravidão em toda a América. Haitianos construiram um bela história de luta e resistência ao longo dos séculos e isso precisa ser retomado. Estar ao lado da luta por isso é algo que qualquer vizinho consciente poderia fazer.

OBS.: Com a publicação dessa carta, duas coisas me vieram à mente. Escrevi essa carta no dia 15/01 e no dia 18/01, recebo do amigo Marcos Paulo, o seguinte texto, com um conteúdo um tanto parecido. Faço questão de publicar ao lado do meu:

"Quando aconteceu o furacão Katrina em 2005 que arrasou a cidade de New Orleans, o que George W. Bush, o presidente do país mais rico e poderoso do mundo, fez pelos flagelados? Nada. Pelo contrário, mandou para lá militares e policiais fortemente armados, para conter os distúrbios que estavam acontecendo. Pessoas (quase todos eles negros) sem água, comida, medicamentos e sem ter onde dormir, começaram a saquear lojas e mercados. Os militares e policiais atiraram neles. Obama, o presidente negro da "mudança", está fazendo a mesma coisa, está enviando para o Haiti dez mil soldados, armados. Não com alimentos medicamentos água cobertores, mas com fuzis e metralhadores. Para conter os distúrbios, que já começaram e garantir a proteção das mansões e dos negócios dos exploradores imperialistas no Haiti.

Os militares brasileiros, que por cinco anos prestaram serviços em defesa dos interesses norte-americanos no Haiti, estão sendo tirados da jogada. Obama e seu "maravilhoso país democrático" estão assumindo o controle, diretamente, como diz sua porta voz direitosa Hillary Clinton. Para mais rapidamente exterminar os flagelados, negros como Obama. Para deixá-los morrer mais eficazmente pela fome sede e doenças e balas dos seus militares. Coisa que os brasileiros fizeram, muito precariamente. Precisou um grande terremoto acontecer para o mundo voltar os olhos para o Haiti, o problema é que as informações do país pelas lentes dos noticiários burgueses, a verdade do que acontece neste sofrido e dominado país não é mostrado, o verdadeiro tremor imperialista que causou e causa mais danos ao povo haitiano do que este terremoto fica oculto nos jornalões. Revolução e libertação do Haiti é palavra de ordem. Sempre".
Por fim, isso tudo me faz lembrar da professora Lúcia Skromov, uma brasileira batalhadora e que vive pelo Haiti. A conheci aqui em Bauru em março de 2006, quando participou de algo singular na cidade, o I OLA - Observatório Latino Americano - Intervenções políticas, culturais e midiáticas e as resistências na América Latina. Aquilo tudo foi algo realmente revolucionário na cidade e em breve conto aqui um pouco do que presenciei e ajudei a trazer para cá. Lúcia é a representante do comitê Pró-Haiti Brasil e tento dela um depoimento sobre sua passagem por aqui e sobre o Haiti de ontem e de hoje. A charge sobre o Haiti é do Latuff, que também esteve aqui no OLA. Novidades em breve.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

CENA BAURUENSE (49)

SEXTA, SÁBADO E DOMINGO - UMA ATIVIDADE POR DIA
SEXTA, 15/01, 20h, abertura da exposição "Living Energy", do artista plástico e grafiteiro Luiz Gustavo Martins - Lg, na galeria de arte anexa ao Teatro Municipal. Iniciativa pioneira de Cris Jardim e Roberto Chinaglia, pois pela primeira vez adentra o nobre espaço público uma exposição de um grafiteiro. Conheço Luis, um pouco de sua arte, mas não a evolução da mesma. Apreensivo inicialmente, fiquei encantado com a técnica usada e a evolução do artista. Sexta à noite ele levou muita gente para presenciar esse seu momento artístico e de todos a mesma compreensão de sua obra: um artista em plena evolução. Conversei muito com seu pai, que ajuda como pode o filho de 24 anos e um outro, menor de idade, também iniciando algo no caminho do traço e da pintura. Foi bonito lembrar de algo lá atrás, quando ganhou um concurso da Prefeitura com várias escolas da cidade, sobre um desenho que homenageasse a cidade. Luiz ganhou e a partir daí não mais parou. Vê-lo explicando a técnica de como faz para conseguir o detalhamento com o uso do spray foi significativo. Essa não é sua primeira exposição, pois já esteve anteriormente numa na galaria da FM94 e acabou de voltar de Sampa, quando expôs junto do famoso grafiteiro Ricado Tatoo. Quem não compareceu foi o atual Secretário de Cultura, que parece não fazer questão de prestigiar artes inovadoras.

SÁBADO, 16/01, 16 às 18h, reunião da ABPFFB - Associação Preservação Ferroviária e de Ferromodelismo de Bauru, presidida por Ricardo Bagnato e pelo presidente João Donda. Tudo ocorreu debaixo de uma lage, dentro das instalações do estacionamento comercial do Donda, enquanto aguardam a cessão de um local mais nobre, dentro da estação central da NOB, para sede, local de reuniões e exposições variadas de ferromodelismo. As preliminares da reunião é algo a instigar, pois cada associado traz peças novas trabalhadas por eles, como a réplica da Estação da Sorocabana, com barracão e tudo, além da iluminação interior e exterior. Muitos carros férreos, trabalhados à mão e as técnicas utilizadas são mostradas em primeira mão e as avaliações coletivas são das mais interessantes. Na reunião, muito produtiva, além da solicitação da sede, notícias sobre o grande sonho de todos ali presentes (estávamos em 14 pessoas), os caminhos percorridos para o Museu do Trem, que com certeza, ocorrerá dentro de antigos barracões nas antigas Oficinas da NOB. "O Museu do Trem só se viabiliza se tiver um bom projeto, um plano museológico, arquitetônico, paisagístico e estrutural, além de um projeto de acervo. Temos tudo isso, mas precisamos viabilizar a verba para sua viabilização e depois pleitear a construção com verba pública, que ocorrerá no prosseguimento", diz Bagnato, munido de muitos documentos. O cuidado que cada um possui com os muitos carros férreos antigos, fora de circulação, espalhados pela malha de Bauru é marcante. Marcaram para o domingo pela manhã uma vistoria nas imediações de Triagem Paulista, onde fariam uma inspeção nos carros que chegaram e se os que foram requisitados como acervo do futruro museu estão em perfeitas condições. Verdadeiros garimpeiros dos trilhos, traçam uma organizada expedição, que infelizmente acabei não podendo comparecer. Da fala de Bagnato outra anotação muito significativa: "Infelizmente não temos apoio da Secretaria Municipal de Cultura, mas temos de outras secretarias, felizmente. Esse secretário não é pró-ativo e sim, anti-ativo, é contra nós e estamos apoiando esse movimento da Cultura de Luto, contrário aos desmandos atuais". Por fim, traçam esboços do 3º Encontro Histórico Ferroviário para setembro/outubro, com uma antecipação e planejamento já muito bem encaminhados.

DOMINGO, 17/01, 17h fui ver a brilhante estréia do Noroeste na Segunda Divisão do Paulistão, ganhando de 3 x 1 do União Barbarense. Eu e a Cláudia, filha do ex-craque do time, José Carlos Coelho fomos dar uma entrevista para o Rafael Antonio, do Jornada Esportiva (lindo presenciar os dois enaltecendo o velho craque ao microfone), quando lhe dei de presente o livro com a biografia do Juca Kfouri ("um grande do esporte e com a retidão de que o futebol não é somente um negócio, fico gratificado de ver que nosso melhor narrador, segue esse caminho", lhe disse). Do jogo, uma festa dominical. Até um helicóptero sai de trás do estádio levando Beto Garcia, filho do presidente e presidente da Kalunga de volta para Sampa (que ostentação, hem?). Quase no fim do jogo, reencontro véio Duka (a foto do aeroporto de mosquito é de sua careca) e vamos juntos para a inauguração da sede da Torcida Organizada Sangue Rubro, presidida pelo Pavanello. Alugaram, depois de 28 anos de existência uma sede e estavam contentes até por demais. Beberiquei cerveja da boa com muita gente de prosa elegante, falamos desse nosso amor pelo Noroeste e pelo futuro do clube ("até critico o presidente, mas não comungo da idéia de que temos que tirá-lo sem nada existir para sua substituição. Seria louco se agisse assim, pois futebol não é brincadeira de moleque", diz Pavanello). Constato isso numa análise simples da renda do jogo, com 1700 pessoas, deu pouco mais de R$ 12 mil reais. Não vai ser só com renda de jogos que o clube se manterá. Tem que existir investimento e como será feito se o velho Damião sair? Me digam... Quero ser convencido de que existe algo palpável do outro lado, do contrário, não apóio (abro espaço para isso aqui). Casa cheia, conheço a irmã do presidente, Helena Pavanello, que possui uma barraca de lanches defronte o Hospital Estadual e amanhã vou lá para conferir sua história de luta e resistência, oito anos de calçada vendendo lanche. Da Sangue, quando me fui, estavam combinando a ida na quarta para São José do Rio Preto, assistir o jogo com o América e no domingo, para Oswaldo Cruz. "Se estiver em Bauru, nessa eu vou, pois faz muito tempo que não vou para aqueles lados, nem conheço o estádio", disse me despedindo de todos.

FÚNEBRE NOTÍCIA DOMINICAL: O candidato da direita chilena, o empresário Sebástian Piñera ganhou o 2º Turno das eleições presidenciais naquele país, representando o nefasto período da ditadura pinochetista e governará o país. Com escárnio, cuspi de lado ao saber de tão fúnebre notícia. Na certa, ressaca dominical.