sábado, 11 de maio de 2019

MEMÓRIA ORAL (239)


COZINHANDO PELO MUNDO - VIAJADO PELAS COZINHAS MUNDO AFORA, MAURÍCIO TENTA VOLTAR AO OFÍCIO*
* Escrevo a pedido, primeiro por gostar de ouvir histórias, boas histórias, depois por acreditar nas pessoas e nos seus relatos de vida e, por fim, por tentar dar seu quinhão de contribuição para os que buscam algo nesse cada vez mais perdido mundo, não deixando de acreditar numa possível e provável saída.

Boas histórias surgem assim do nada, tipo pegar ou largar. Estava a comer uma kafta (não um Kafka, como o ministro da desEducação o fez) no Turco, no Banana Pastel, ali na Primeiro de Agosto, quando seu proprietário, Hamilton Suaiden, velho amigo de andanças do passado, faz questão de apresentar alguém o ajudando por alguns dias. Trouxe lá de dentro o Maurício Antonio Maddalena, senhor de fino trato, chef renomado de cozinhas e que, aos 53 anos traz na bagagem uma imensidão de quilômetros rodados, tudo conquistado ao longo de sua vida, com muitas idas e vindas, todas tendo como pano de fundo algo que faz com esmero, dedicação e sapiência, o trato com a cozinha e o saber fazer comida. Muitas coisas te despertam não só curiosidade, mas também acendem um sinal lá no fundo, o de estar diante de algo de difícil reincidência, daí nada como tomar conhecimento da história num todo, desde o começo. Me interesso de cara, ouço seu relato e por ela me encanto, daí já quero passá-la adiante e o faço neste momento com minha forma e jeito.


O que dizer de um ousado cidadão que, tendo nascido e criado na pequena e pacata Piratininga, descobre ter a cidade ficado pequena diante de tanta coisa pela aí? O melhor mesmo é cair no mundo e assim foi feito. Desde muito pequeno, Maurício descobriu seus dotes culinários e para aprimorá-los teria que bater asas, ir ter com o mundo e ele com o seu sonho. Dos ensinamentos em casa, aprimorados nos primeiros empregos, o dom se acentuou e daí não parou mais. Foi então conhecendo cozinhas pelos mais diferentes lugares do país e do mundo. Hoje, com um currículo invejável, assim como uma memória privilegiada, conta tudo em detalhes, misturando o hoje com o ontem, sem se atrapalhar. Relata algo de uma pequena cozinha no interior da Alemanha com a mesma desenvoltura com que o que faz para tentar ajudar o Turco na sua e assim vai alternando histórias, relatos vividos, que o tornaram um personagem cheio de vida, essa vivida intensamente.

Poderia ter se acomodado por essas plagas e até ter se arrumado em empregos ligados à sua família, mas algo o impeliu para outros cantos. Não se arrepende de nada, nem do retorno alguns anos atrás, primeiro para rever sua aldeia, depois para cuidar da adoentada mãe, já falecida. Voltou depois de rodar o mundo, conhecer de fato o outro lado e aqui deu uma aquietada, porém sem nunca perder a vontade de voltar a se perder mundão afora. Fui tomando conhecimento de um pouco dos caminhos percorridos e tento juntar aqui num breve relato, dessas compilações a merecer um livro, mas resumida por mim em alguns poucos parágrafos. Maurício é também um contador de histórias e de nomes. Foram tantos os restaurantes e as experiências, tendo guardado algo de bom de cada um deles. Não ouvi relatos depreciativos de nenhum lugar, mesmo tendo passado perrengues pelas estradas da vida. Tenta guardar o lado bom, o que tirou de aproveitável de cada lugar e assim me passa numa curta conversa continuada na sala de sua casa, tendo do lado de fora um carro esperando para levá-lo num final de dia de volta para Piratininga.

De sua memória sai tudo tão rapidamente que, se o ouvinte não estiver atento, mistura nomes e locais, pois tudo é despejado sem nenhuma ordem cronológica. Hoje, tenta se reerguer numa modesta cozinha em sua casa, num canto de Bauru, “atendendo quem gosta de comer bem”, como mesmo diz, fazendo patês e kiichis em potes plásticos. Tentou uma barraca na feira, em três agendadas, mas teve que desistir, pois sem veículo, não estava conseguindo fazer tudo, levar barraca e os alimentos no lombo. Enquanto me relata o hoje, fala também do passado. “Já rodei esse mundo, Empório Santa Maria na capital, fiz jantar para a Tânia Tancresi, para o Holiday Inn...”. Ele não para e quando lhe pergunto sobre sua formação, diz ter trabalhado na CEF, lá pelos idos de 2009, quando também fez Culinária no Senac, Águas de São Pedro, depois cursos em Campinas e especialização em finos lugares. Em 53 anos de vida, hoje diante de lembranças, todas revividas assim como um filme em sua memória, elas o atordoam, tanto que ao contar de suas passagens, muito conhecimento, nomes e mais nomes, glamour em todos, a esperança de que com isso reconstrua seu futuro.

De 2009 para cá, os últimos passados aqui, foram menos de dez anos e muita coisa, uma atrás de outra. Os nomes e lugares vão sendo despejados, como as lembranças do Cruzeiro Eugênio Costa, ele na cozinha, o restaurante Canto na Granja Vianna e em todos citando os nomes dos seus respectivos proprietários. “Sonho constantemente estar voltando para esses lugares, todos os que me marcaram profundamente”, diz. A conversa continua e não consigo colocar ordem nem sequência lógica nos muitos relatos. Da Cidade Jardim foi direto para as Ilhas Canárias, Espanha e quando volta, após dois anos, uma amiga vem e o convida para conhecer outros lugares. Diz ter trabalhado até em churrascaria brasileira na Europa, tendo sido também ajudante de cozinha na cidade de Cassel, interior da Alemanha, em eventos luxuosos, como o Documenta. Cita também lugares e pessoas em Milão e Bologna.


O interlocutor desatento mistura tudo, pois são muitos relatos, despejados assim de bate pronto e de difícil junção. Num momento, diz dos convites, “vem trabalhar comigo, vamos montar algo em nova York”, para depois dizer da recusa e das justificativas para estar aqui e ali. “Em alguns momentos eu não queria, noutro estava mal num lugar e fui em busca de outros ares, mas no final de tudo, tive até muita sorte e estou aqui te contando tudo isso. Consegui circular por lugares muito sofisticados, conheci vários donos de restaurantes, andei demais, vivi num universo meio que outro mundo. Sempre fui instigado a fazer coisas novas”. E fez, porém de dois anos para cá, quando a mãe faleceu, tenta voltar, se recolocar e percebe que o tempo passou rápido demais. Hoje, faz de tudo para reencontrar o caminho, uma nova colocação, uma oportunidade para voltar a bater asas, agora sem nenhum tipo de amarras.


Maurício circula com um CD embaixo do braço, nele a comprovação de algumas de suas histórias e também um minucioso currículo, que o interessado pode imprimir no ato. Ele tenta, ao seu modo e jeito, falando com interessados, expondo sua vida pregressa, sua experiência como motor de ligação para abertura de portas. “Eu posso também sugerir caminhos. O que daria certo em algumas situações. Sou acostumado a trabalhar com qualquer tipo de orçamento, inclusive com os baixos, só não consigo fazer a transformação de uma merluza em salmão, mas no mais faço tudo. Conheço tudo de restaurantes, de cozinhas, desde as mais simples, como as mais sofisticadas. O que não está dando é eu tentando me virar sozinho, pois assim dificilmente voltarei ao mercado”, diz. E dessa forma, ele se expõe, pois acredita ser essa a oportunidade, não só de contar um bocadinho do que já viu pela aí, como surgir disso tudo alguém apostando nele como o revitalizador de seu espaço, de seu restaurante, de sua cozinha e do seu negócio. Diz estar preparado para o que der e vier, aberto para conversas e com muita história para contar.

Obs.: Para contatar os serviços profissionais da Cozinha Maddalena, do chef Maurício, o fone é (014) 99610-6363 e o e-mail é mauricio-mad5@outlook.com

Um comentário:

Ale Pato disse...

Muito bom!!!
E Mauricio então... somente experimentando suas maravilhas para poder entender com precisão o seu dom.