quarta-feira, 8 de julho de 2026

UM LUGAR POR AÍ (212)


A CASA E A RUA
Passo boa parte do dia entretido com escritos para minha apresentação no Congresso Acadêmico da UP - Universidade de Palermo, Buenos Aires, onde na próxima quarta, 17/7, das 12h30 Às 14h30, apresentarei texto de minha lacra, o "História das REPÚBLICAS e a importância do Carnaval em Taquaritinga". Talvez mudem o horário, pois como estarei na Argentina e neste dia e jogando as 16h, se eles passarem para a Semifinal da Copa, 16h, jogarão disputa para ir à final da Copa do Mundo. Estou nos preparativos junto de Ana Bia - que vai apresentar, junto com seus alunos, mais de 5 trabalhos -, não só para a viagem, como para o que falarei por lá. Divido o trabalho com o taquaritinguense Rodolfo Nucci, hoje morando em Florença - Itália, que me auxiliou e muito me descrevendo histórias da festa maior em sua cidade.

Escolhi um tema dentro do quer mais gosto de estar envolvido: a rua. Já contei por aqui que estive recentemente em Taquaritinga, quando por lá descobri casas coloridas espalhadas em algumas ruas no centro da cidade e essas me intigaram, ainda mais por conterem na fachada a inscrição "REPÚBLICAS". Fui ver do que se tratava e me espantei, eram casas alugadas o ano inteiro só para realização de melhor acomodação dos foliões durante o CArnaval. Mantidas com mensalidades de abnegados foliões, vi ali traduzido como essa festa se mantém forte por lá, numa cidade com 53 mil habitantes, conseguindo levar pras ruas mais de 40 mil pessoas diante dessas "repúblicas". Tentei desvendar a história por detrás delas e algo mais da grande festa, do que eles por lá consideram, como o maior Carnaval de todo o interior paulista. 

Foi lindo ter vivenciado essa história, pois enquanto na maioria das cidades, a festa arrefeceu, devido a tanta coisa embutida na cabeça das pessoas, como "carnaval é coisa do diabo", por lá acontece o contrário e quem assim tenta dizer algo, padece, pois a festa é mais que forte, sendo condutora da cidade. E para contar isso, além da retaguarda do amigo e catedrático Rodolfo, cujos pais pularam nas ruas até quando tiveram forças, contei com a ajuda substancial, de última hora de uma leitura mais que auspiciosa, a do livro do antropólogo Roberto da Mattas, "A CASA & A RUA - ESPAÇO, CIDADANIA, MULHER E MORTE NO BRASIL" (Editora Guanabara RJ, 1987, 184 páginas). O texto de apresentação eu publico por aqui num outro dia. Adianto que, está sendo encantador a revelação de ainda ver o Carnaval, nossa maior festa popular, sendo a condutora da vida de uma cidade e dentro dela, essas casas coloridas, espaço de reunião de pessoas, com o intuito de diversão, congraçamento humano na sua acepção mais saborosa, recheada de um prazer incontido e insubstituível. Não existe nada mais contagiante do que ver o povo nas ruas, "grávido de prazer", como disse Gonzaguinha numa de suas magistrais canções.

Assim se expressou Damatta, tudo caindo como uma luva para minhas frias mãos escrevinhativas: 
- "Casa e rua são categorias sociológicas para os brasileiros. Essas palavras não designam somenet espaços geográficos ou coisas físicas comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas. (...) Englobar a rua na casa, tratando a sociedade brasileira como se ela fosse uma grande família, vivendo debaixo de um amplo e generoso teto".
- "...é possível ler o Brasil de um ponto de vista da casa, da pespectiva da rua e do ângulo do outro mundo. E mais: essas possibilidades estão institucionalizadas entre nós. (...) ...a sociedade brasileira se singulariza pelo fato de ter muitos espaços e muitas temporalidades que conviviam simultaneamente. (...) ...o espaço é demarcado quando alguém estabelece fronteiras, separando um pedaço de chão do outro".
- "...nas cidades ocidentais, as praças e adors (que configuram espaços abertos e necessariamente públicos) servem de foco para a relação estrutural entre o indivíduo e o povo, a massa, a coletividade que lhe é oposta e o complementa. (...) Mas nossos espaços nem sempre são marcados pela eternidade. Há também espaço transitórios e problemáticos. No caso da sociedade brasileira, que espaçossão esses que permitem a atualização da própria vida social?".
- "...é que casa, rua e outro mundo demarquem fortemente mudanças e atitudes, gestos, roupas, assuntos, papéis sociais e quadros de avaliação da existência. Por causa disto é que também gostamos de falar, no Brasil, que tudo tem ou outro lado...".

Ou seja, tentar descrever este acontecimento bem a cara deste Brasil, que insiste em continuar sendo original, mesmo com toda força contrária é algo de um inenarrável prazer. O faço, caio de boca na pesquisa e leitura, envolvido por isso, o arrebatador brasileiro resistindo a tudo e a todos. E assim, desta forma e jeito, ao meu modo e jeito, "historiador das insignificâncias", tento ir tocando a vida em frente, demonstrando em todas minhas atitudes, que é pelas arestas, frestas e vicinais, estradinhas pouco movimentadas, até pouco frequentadas, essas sempre nos dando lições de vida, por onde ando e me inspiro, que sigo em frente. Como vai ser lá em Buenos Aires, dentro da semana final desta insólita Copa do Mundo, não sei. O que sei é que, além dessa apresentação por lá, baterei perna e voltarei cheio de novas histórias. Vou contando-as por aqui, na medida do possível. 
EU E RODOLFO NUCCI ESCREVINHANDO SOBRE O INUSITADO CARNAVAL DE TAQUARITINGA.

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