* Algumas historietas, gravadas pela memória e aqui transcritas, registros do que vou vendo e achando por bem deixar algo escrito.
AS FOTOS DO GROSSMAN VENDIDAS PELA FILHA EM CAMISETAS (01)
"As fotografias são uma seleção dos trabalhos que Eduardo Grossman capturou durante sua extensa carreira jornalística. Sua visão se reflete em cada uma delas", com este título, Lucia Grossman, filha do famoso fotógrafo argentino, expõe algo criado por eles, pai e filha, para levar adiante o trabalho de décadas registrando pessoas na Argentina. Tudo está registrado no site https://www.grossmanstore.com.ar/, onde boa parte da historiografia musical e literária do país está agora exposta em estampas, sendo vendidas via online e pessoalmente por Lucia na dominical Feira de San Telmo. Para quem, como eu, ainda nada conhecida nada sobre o fotógrafo, com uma viajada pelo seu site, o https://www.eduardogrossman.com/, com a viagem pelas suas fotos, a contatação de ser realmente um dos maiorais na Argentina.
Tudo isso só para lhes contar do encantamento que tive ao, no domingo, 12/07, passeando pela famosa feira, dou de cara com a pequena banca de camisetas, todas negras, para dar melhor visualização das fotos ali impressas. Vi reproduzidas a imagem de gente conhecida no cenário argentino, como Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Fito Paez, Charly Garcia, Spinetta, Goyeneche, Elis Regina, Índio Solari, Bioy Casares, Borges, Sábato, Fontanarrosa, Favio e outros (as). Foi um encanto à primeira vista. Tentei dar uma volta e não levar nenhuma, mas pra lá voltei e fiquei, além de escolher uma - qualquer uma delas por 38 mil pesos -, conversar e saber mais de sua origem.
Lucia conta que o pai está bem, com 75 anos e na ativa. Ela, diante deste triste momento argentino, com a chegada de Javier Milei ao poder e todas as atividades econômicas um tanto estranguladas, precisava impulsionar a vida, pois essa não tem como parar. E daí, a ideia de transpor o trabalho do pai para as camisetas, num projeto de alga significação, primeiro pela escolha das estampas e depois para, numa malha que os dignificasse. E assim nasceu a Grossman Store, que são nada mais do que as camisetas com arte. A receptividade foi imediata e assim como eu, quem passa defronte a barraca, conhece um pouco que seja da Cultura argentina, se deixa levar e além de fazer uma viagem no tempo, acaba sendo mais que seduzido e traz, ao menos uma para casa.
Na Argentina de hoje, não é difícil encontrar espalhado em várias manifestações como as ali presenciadas, de uma invenção de sobrevivência, onde junta-se a continuidade de um trabalho existente com a criatividade necessária em tempos bicudos. Não entro neste detalhe com ela, mas a vendo, a própria filha ali na frente da barraca e podendo, antes de mais nada de falar de seu pai, algo para mim de incolvidável valor. E cada estampa tem sua própria história e momento dentro da Cultura nacional. Junto da camiseta um pequeno cartão, com a explicação do registro. Tem alguns realmente significativos, como a da mão do Charly Garcia ou a do abraço entre ele e Mercedes Sosa. Enfim, trouxe uma com a estampa de Mercedes e assim, este o meio encontrado para não mais me esquecer de algo realmente digno de registro. Essa história, não só pela venda das camisetas em si, mas por tudo o que envolve os registros, merece ser passada adiante, assim como os sites de contato deles, o do pai e da empresa da filha.
Na Feira de SanTelmo algo assim está presente em cada virada de esquina, nessa inusitada reunião de artistas, cada qual com uma bela história por detrás do balcão de uma barraca. Quem gosta de colher histórias, ouvir algo mais e se aprofundar no conhecimento de como se deu e se dá de fato o desenrtolar dos acontecimentos, este é o lugar. Escolhi contar aqui a história de uma das milhares - por mim, creio eu, passem de mil -, do que está por detrás de uma delas. A arte está no ar por lá, transpira em cada pedaço e flui rapidamente, se transportando de um lugar a outro, de acordo com o andar, os passos dados. Arrebatador como cada um dos artesãos ali presentes, até pela expressão de cada um deles, consegue levar adiante, não só um meio de sobrevivência, mas um local onde isso é possível e flui de maneira divinal. Isso me toca muito em cada caminhada pelas ruas de Buenos Aires. Procuro e vou atrás de lugares assim, pessoas que nada tem a ver com essa baboseira que vejo hoje rolando pelas redes sociais, quando insistem em tentar perpetuar do racismo existente na Argentina, como se isso fosse exclusividade deles. Eu sigo provando, pelas andanças que faço, a existência dessa Argentina que resiste, insiste e persiste em se apresentar e ousar ser, fazer e acontecer.
Tudo para mim vale o registro. Andávamos pela calle \Florida, onde pululam bancas, antes locais de venda de periódicos diversos e hoje, em sua maioria souveniers variados e múltiplos. Dentre eles, este com Javier Milei, o atual presidente argentino, polêmico e extremista de ponta, destruindo a dignidade e soberania do povo hermano. Chega ao poder e com ele isso que está em seu discurso e imagem, o uso de uma motoserra, como símbolo da mudança que havia proposto. O símbolo viralizou no país, assim como a propaganda enganosa de salvar o país. O que acontece por aqui é exatamente o contrário, mas isso já é outra história.
Contava das bancas atuais, onde encontrar jornais é algo raro, mesmo muitos deles continuarem existindo por aqui e em até maior número que no Brasil. E nessas bancas, outrora reduto de leituras, hoje de mimos variados. E dentro de todo o contexto, vejo o boneco do Milei com a motoserra numa delas. Não resisto e pergunto ao barraqueiro - não mais posso chamá-lo de jornaleiro -, o preço, mas o que queria mesmo saber é se ainda é procurado o boneco. Consigo o intento. Ele me conta que, no auge, quando foi lançado, logo após ele assumir o Governo, coisa de dois anos atrás, vendeu muito, mas hoje, está um tanto encalhado. E ainda por cimas me faz uma alusão com o boneco e as tais figurinhas da Copa do Mundo, que também ali são revendidas.
"Vendi razoavelmente bem, tanto o boneco, como as figurinhas. A Copa vai chegando ao fim e com ela a procura das figurinhas diminui. Sei que mais um breve tempo terá fim. Eu ainda tenho muitos álbuns e dificilmente os venderei. Assdim como este boneco. A desilusão por aqui com este presidente foi imensa. A maioria dos que votaram nele já não apregoam isso por aí como antes. Ou estão quietas, pelo que observbam acontecendo ao país ou estão envergonhadas por terem sido ludibriadas. E assim, continuo com as figurinhas expostas e também os bonecos, pois preciso vendê-los", me conta um senhor, de mais ou menos uns 50 anos, dizendo por ali atuar há mais de vinte anos.
Ouço dele já ter visto de tudo e que, no comércio ali nas ruas, muita coisa é renovável, hoje em evidência, amanhã não mais. "Tem coisas como estampas com o Maradona, essas eternas. Tudo o que tem Messi e a seleção atual vende muito. Sofremos muito com a política por aqui e este hoje no poder ér só mais uma das decepções, mas está sendo cruel demais. Não posso me identificar, pois sofrerei consequências, mas tenho certeza, ele vai passar e ainda pagará por tudo o que faz", conclui. Saio de lá triste pela constatação do que faz ao país este insano governante e feliz por perceber (toc toc toc), que logo mais estraá devidamente sepultado no latão do lixo histórico, como algo desprezível e lamentável, assim como Bolsonaro no Brasil e Trump nos EUA. No momento, o boneco ainda continua sendo vendido, mas como vasculhei, ainda em poucas bancas na movimentada calle Florida.
Estou de domingo passado até o próximo 20/07 instalado num Airbnb na calle Santiago del Estero, algumas quadras do famoso Obelisco, em Buenos Aires. O lado onde me encontro é mais popular e assim sendo, consigo figir um bocadinho daquele monte de luz neon propagada pela calle Corrientes. Gosto deste contato com gente que pulsa exatamente o quero filtrar por aqui nessa minha estada: as reais condições da população neste desGoverno de Javier Milei. Ao andar e sentir a pulsação das calles, sinto por todos os lados os reflexos de como se dá, realmente e de fato, a vida dos buenaristas, principalmente os populares, se desdobrando para sobreviver e tocar a vida adiantes nestes bicudos - e frios - tempos.
Na esquina de onde me encontro um jornaleiro dos mais simples, revendendo quase que esxclusivamente jornais - poucas revistas - e muitos dos souveniers hoje expostos em todas as bancas do mundo. Acordo cedo e já estabelecendo um diálogo, trata-se de TONI, como me diz gosta de ser chamado, está no mesmo local há mais de trinta anos e já viu de tudo por estes lados do mundo. Na outra esquina, distante 100 metros, um Centro de Estudos Peronista, com a fachada "Aqui se aprende a amar a Pátria", além de algo mais na fachada "As Ilhas Malvinas são argentinas". O peronismo, como se sabe é frontalmente contrário ao proposto por Javier Milei e os tais neoliberais, propondo a destruição do Estado como o temos. Ele se aproxima em muito do petismo e do Governo Lula. Guardadas todas as proporções, um segmento respeito o outro e combate o mesmo inimigo, esse descabido neoliberalismo predatório e excludente.
Dito isso, vamos ao jornaleiro Toni. Ele representa dignamente essa Argentina que insiste, persiste e resiste nos tempos atuais. Sua banca é uma espécie de reduto peronista. "O peronismo é por aqui o fator pulsante do povo. Este jornal que vens aqui comprar, o Página 12 é o baluarte de todos nós. Ele está nas bancas há mais de 40 anos e é uma espécie de farol a nos guiar. Essa banca não existiria sem o Página 12, toda manhã aqui com matérias sérias, mostrando o país que temos e por onde devemos continuar a luta. Eu aqui, conhecido por todos, sou peronista desde sempre e sou referência, com muitos marcando encontros aqui defronte e até deixando algo para ser entregue para outros, com a mensagem: pegue lá com o Toni", me diz.
Ele me mostra o jornal com todo orgulho e outros mais como o Le Monde Diplomatique. "Estou aqui de segunda a sexta. Aos sábados e domingos, faço outra coisa da vida, mas durante a semana estou aqui a filtrar algo dessa luta que é viver e buscar dias melhores para os argentinos. A luta não tem sido fácil, muito maior do que enfrentar o frio. Com este já estamos habituados a conviver, mas com esse espírito conservador, propondo destruir empregos e com as possibilidades dos fracos e oprimidos, isso faz parte de um processo de luta, que desunidos não os venceremos. Eu só vendo publicações que são uma espécie de farol. E o Página 12 é o maior de todos, mantendo em suas páginas fotos dos desaparecidos e da luta das Madres da Praça de Mayo. Obrigado mesmo por estar comprando comigo e ter vindo conhecer e divulgar as minhas histórias. Espero poder conscientizar pessoas lá do seu país de que, estamnos resisistindo aqui na Argentina e que, unidos, nós latinos não vamos permitir que nos vençam. Nós somos fortes, mas unidos", diz. Desde que o conheci, compro nessa estada, o jornal com Toni, um jornaleiro destes que podemos botar a mão no fogo.

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