quinta-feira, 23 de julho de 2026

MÚSICA (262)


A OBRA PRIMA DO ALDIR, PELO QUE VEJO, NUNCA SERÁ ENTENDIDA POR PARTE DOS BRASILEIROS - EIS O EXERCÍCIO DA DIFICULDADE COGNITIVA QUE NOS MOVE: ESTOU COM ALDIR BLANC E JOÃO BOSCO, PRECISO EXPLICAR? TÁ AÍ...

1.) A primeira coisa que me chama atenção no post do Estadão (que, como sabemos, não tem compromisso com a ética e muito menos responsabilidade em suas publicações) é o depoimento de um João magoado, indignado mesmo, com todo direito a sê-lo. Um João que sempre foi doce, gentil, sorridente, cujo rosto se ilumina quando nos mostra acordes, canções inteiras, suas referências de vida, espetáculos. Na entrevista, o João estava sendo provocado, instigado pra falar da canção Gol Anulado, com aquela má-fé tão característica da im-prensa em questão . Obviamente o Estadão publicou o exato momento em que a fome mostrou raiva pra interromper. Ora, se o João tá falando desse jeito, antes das pedras, seria bom nos questionarmos sobre o nosso entendimento da sociedade brasileira ao longo desses 50 anos que se passaram desde o lançamento da canção composta por ele e por meu velho, Aldir Blanc. Aliás, para os muito poucos conhecedores habitantes de internet, a letra É do Aldir, que completaria, assim como João, 80 anos. Não queiram imaginar o que meu velho faria com sua tinta giratória se soubesse que suas composições foram atacadas por pseudos “miliciantes” que não compreendem lições básicas de arte - aquela das nove musas. A canção maldita pelos fascis-lacradores de causas encontra-se no lado A, segunda do disco, e é elemento constitutivo de uma obra-prima, um álbum (objeto de arte formado pelas obras que o sustentam como produto concreto das expressões pretendidas). Tem o casal que quer se separar pela mais completa Incompatibilidade de Gênios, tem o feminismo no Estácio, tem a solidão urbana na Vida Noturna, tem a dor do luto e da desigualdade social no Rancho da Goiabada, tem galã suburbano com suas conquistas amorosas em Latin Lover, tem o lirismo de Galos de Briga que fala da coragem dos oprimidos contra os opressores, enfim, tem toda uma representação artística daquela década de 70 que só quem sofreu sabe. Sobre a re-ação do João: alguém aqui já re-agiu bem a ambientes e situações de profundo desconforto? Se sim, és um psicopata. Se não, é gente, feito o João, que inclusive nos ensinou a ser gente. Vida longa ao Boscão, tão humano que é divino! Aldir Blanc, presente! Protege seu mano daí que a gente protege daqui. Que falta você nos faz. PATRÍCIA FERREIRA

2.) Para me cancelar de vez... Esta semana as redes sociais foram sacudidas pela entrevista do compositor João Bosco ao jornal O Estado de São Paulo. Em sua fala ele criticou a patrulha ideológica identitária e as críticas a uma música sua, "Gol Anulado", que descreve uma mulher que vibra com o gol do Zico. Seu marido, contrariado por ser vascaíno, bate nela "até cansar". A reação de censura à violência explícita da letra provocou o comentário de João Bosco, mas o debate mostrou de um lado o próprio compositor defendendo a liberdade de retratar a sociedade daquela época (50 anos atrás) e do outro grupos identitários que reclamam de uma suposta banalização da violência contra a mulher.
Ao meu ver, a explicação do João Bosco e seu posicionamento contra a patrulha identitária são perfeitas. O que se vê agora é um monte de gente tentando usar um dos maiores compositores do Brasil como escada para fazer vídeos na Internet e lacrar, usando essa divisão para ganhar notoriedade. Aliás, esse debate é igual ao debate da direita que defende a pena de morte: se você se posicionar contra a pena capital, então é automaticamente a favor de bandidos e do crime. Neste caso da música de João Bosco, se você abomina a censura e defende a liberdade de expressão ampla, você esta ao lado dos espancadores de mulheres. Falso dilema, perceberam?
Essa esquerda liberal - que adora censura - acredita que se você não falar de alguma coisa ruim esta coisa desaparece. Basta não falarmos de violência e.... pufff, acabam as guerras, as lutas, as agressões e os ataques covardes. Estamos diante de um real delírio identitário: ao invés de expor a realidade, apresentar os problemas, trazer o pus à flor da pele, escondemos, censuramos, cerceamos, calamos e proibimos palavras e pronomes. João Bosco descreve um personagem em suas músicas!!! Woody Allen também, Machado de Assis e Chico Buarque idem. Como censurar literatura e música baseando-se nessa leitura torta e oportunista dos identitários? Como aceitar que um personagem não seja a imagem exata de um problema social? Como podemos, no século XXI, defender abertamente a censura mais abjeta, que amordaça a arte e detém a transformação social?
Pois quando alguém perguntar as razões do crescimento da extrema direita aqui teremos um bom início de conversa. Sou um sobrevivente dos anos de chumbo e lembro bem do clima da época da ditadura militar. Naquela época gritávamos contra a censura, que usava da violência para nos calar a voz. Se não aceitávamos que milicos grosseiros e ignorantes passassem caneta vermelha nas nossas músicas, por que deveríamos aceitar a censura dos identitários? Por que continuamos a aceitar que o neoliteralismo empobreça nossa literatura? Leiam as justificativas de hoje para calar os artistas: o bem maior, o drama da violência, as ideias que ameaçam a estrutura da família. Estas não passam de ecos tétricos das desculpas de ontem! Tanto antes como agora estas vozes representam as forças conservadoras, a serviço da direita. Enquanto isso, a esquerda está cada vez mais parecida com o que outrora combatia, tornando-se paulativamente mais moralista, antidemocrática, censuradora, oficialista, oportunista, identitária e desconectada dos reais desejos nacionais.
Censurar músicas? Sério? E a literatura? Cinema também? RICARDO HERBERT JONES

3.) Nas seis horas seguintes à derrota de um time do coração, em média a violência doméstica aumenta 6%. Quem diz isso é um estudo cruzando resultados do Brasileirão com boletins de ocorrência de violência doméstica no Rio e em SP.
Isso é uma coisa. Outra coisa é a entrevista que o João Bosco deu ao Estadão em que critica excessos dos que ele chama de identitários. Esta discussão é gigantesca. Eu, pessoalmente, apoio toda luta por direitos das minorias E o respeito integral às diferenças.
Mas o que trato aqui não é isso, e sim o samba Gol anulado, do João com o Aldir, do álbum Galos de briga, de 1976. Que narra exatamente a situação descrita no primeiro parágrafo: "Quando você gritou Mengo / No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar". Que João citou como exemplo de cancelamento. Vou tratar apenas desta canção.
Falei outro dia da praga contemporânea da neoliteralidade ( conceito criado por mim até onde sei), que consiste em não diferenciar autor de obra, eu lírico de autor, personagem de enredo. O viés de leitura que faz com que a representação de um crime seja sempre vista como apologia do crime, nunca como crítica.
Pois bem. Numa narração artística há ao menos três instâncias: o autor, o personagem e o enredo. Eles se imbricam, mas não se confundem, porque, por mais que o autor crie a partir de suas vivências, ele não é o que narra.
Gol anulado narra uma agressão covarde a uma mulher. Muito bem, agora vejamos o contexto: João canta o samba num tom suave que contrasta com a brutalidade do que é narrado, mas também melancólico, triste mesmo.
A melodia perambula entre notas graves - a única exceção é no verso "E ainda é Vasco doente", em que ele nitidamente rememora uma alegria, mas ainda assim sem nenhum entusiasmo. E a harmonia em tom menor acompanha a tristeza.
O eu lírico da canção não vai preso, como deveria. Ele apenas perde a alegria de viver, a ponto de abandonar o futebol que o levou ao ato violento. É pouco? É. Mas não há uma sílaba nessa canção que exalte o feito. Muito pelo contrário, o que há é puro arrependimento.
Não sei de identitarismo. Mas sei um pouco de análise musical. E isso é o que eu tinha a dizer. TULIO VILLACA

4.) Sobre João e sua teimosia - Por um professor ainda preocupado com o futuro. Acho lamentável que os movimentos ditos progressistas, até os partidários, entendam que a exclusão seja uma inevitável manifestação desses movimentos. Em nosso país, o que não falta é reacionário, supremacista e classista em qualquer molde e medida. Gente que diz coisas absurdas em nome de fé religiosa e da “tradição” conservadora. No entanto, parece que, para algumas pessoas, falta energia e coragem para lidar com esse óbvio perigo, na urgência algorítmica dos “likes”. Por mera “sinalização de virtude”, termo cunhado por um grande amigo, que não quero envolver, apontamos dedos para o que nos incomoda, de um jeitinho bem seletivo, sem qualquer demonstração de inteligência estratégica, apenas para manter seu álibi, gerando assim o tal fogo amigo. Como paladinos da “verdade, pois é o que eu sinto”, estamos a todo momento a gerar mais e mais ressentimentos. Toda minha vida como educador baseou-se em uma troca real com aquelas e aqueles com quem trabalhei em sala de aula. Quando Paulo Freire escreveu sobre o amor necessário para nosso trabalho, defendia uma ideologia baseada em mútuo envolvimento para a compreensão da vida de todas as pessoas ligadas ao processo de ensino/aprendizagem. Todo movimento que se faz para qualquer tipo de esclarecimento é educacional já que todo mundo é capaz de entender tudo desde de que aberto para isso, mas com abertura que deve acontecer naturalmente e não por arrombamento. Sim, é preciso ter alguma paciência com pessoas com histórico, quando sua contribuição foi relevante e nos possibilitou chegar até aqui, livres para opinar e viver como nos convém e sem culpa. Sim, as pessoas têm direito a crítica, especialmente se nela não existe intenção de destruir. Sim, pessoas têm direito a própria defesa quando sentem-se injustamente julgadas, até porque não estão em julgamento, ou estão? Temos que reconhecer que muito de ruim foi naturalizada simplesmente por não atingir uma dita “maioria”. Que grupos sofreram e sofrem por simples descaso, pelo “a vida é assim”. O mundo segue mudando. Mas não podemos nos dar ao luxo de abrir mão de alianças como essa com o João, cada voto conta. Por uma conveniência política momentânea, aliaram-se a tudo do mais perigoso em nome de protagonismo, perdemos Brizola e Darcy e “ganhamos” Macedo e Malafaia. Depois ninguém compreende porque, mesmo com tantos crimes tão evidentes, uma eleição não está garantida. Estamos alimentando antagonismos, há tempos. Aí está o ovo da serpente. CARLITO MACHADO

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