terça-feira, 14 de julho de 2026


HISTORIETAS ARGENTINAS
4 - NÃO SE METAM COM O BOCA, UM DOS MOTIVOS DE TORCER PRA ARGENTINA
Ana Bia, a esposa, esteve o dia todo participando de atividades junto do Congresso de design, na UP - Universidade de Palermo e fiquei encarregado de levar nossa hóspede, sua aluna, Letícia Gomes Fagundes para conhecer o bairro de La Boca, onde está concentrada a nação azul e amarela, o Boca Juniors. Devo ter executado a missão a contento, pois pelo que senti, ela gostou demais de tudo o que viu, inclusive de minhas observações sobre o local.
Para mim, o reduto onde está encravado o estádio da Bombonera não está ali por acaso, pois o time e sua torcida são muito relevantes dentro do contexto dos aguerridos contestadores do status quo mundial. O bairro de La Boca é um porto de água doce, por onde fluia o comércio via fluvial argentino e junto deste porto, uma imensidão de trabalhadores. A história destes é louvável e demonstra toda a bravura dos que ali resistiram, com poucos recursos, levantando suas moradias com latas e madeiras advindas de sobras do que fluia do trabalho.
Hoje, almoçando no bairro, um jovem garçon me explica em detalhes algo mais dessa linda história. "Essas residências resistiram por mais de uma centena de anos, pois a região da cidade não possui acidentes sísmicos, nem maresia, pois aqui um rio, o da Prata e não o mar. E as cores, cada casinha pintada de uma cor, tudo proveniente do que conseguiam de sobras das empresas onde trabalhavam. Daí, um pintava sua casa de azul, outro de verde, outro de laranja e assim por diante. Pulsa neste local algo da força do trabalhador argentino", nos conta.
E depois o time do Boca, hoje encabeçando com seu presidente, o ex-jogador Juan Román Riquelme, lutando bravamente contra as investidas do ex-presidente do país e também do Boca, Maurício MAcri, neoliberal e junto de Milei e da Fifa, fazendo de tudo para que os clubes argentinos se tornem SAFs. A AFA - Associação de Futebol Argentino, presidida por Chiqui Tapia sofre todo tipo de ataques pelo mesmo motivo, o de resistir as investidas neoliberais. Isso tudo é cara de uma resistência argentina mais do que louvável. Acompanho a luta destes pelo que me diz diriamente Victor Hugo Morales em seu programa na rádio 750AM, reforçando o que já pensava: o Boca é hoje um espaço de resistência ao conservadorismo de gente como Milei, Macri, Infantino e a extrema-direita.
E como andar por este bairro e não ver isso tudo com os próprios olhos sem se emocionar. Impossível. Isso tudo está mais do que latente em todas as equinas. Este um dos motivos de gostar demais desta cidade, povo e nação. Estou do lado destes que lutam, resistem e enfrentam o touro à unha. Dessa união do bairro de La Boca com seu time, o Boca Juniors viceja algo grandioso, exemplo para o mundo todo. Os vejo num posicionamento muito parecido com o que o Corinthians teve com o grupo Democracia Corintiana, Sócrates & Cia. Aliás, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira e Diego Maradona muito me representam. Hoje, eu e Letícia, andando pelo bairro nos emocionamos com tudo o que vimos. A faixa exposta lá ao lado do estádio, "Boca contra todos", me diz muito e cala fundo quando leio críticas contundentes contra os aregtninos. Se existem os racistas, os preconceituosos, os extremistas de direita, eles também existem entre nós brasileiros, mas também existem os que resistem bravamente, como os moradores do La Boca e dos atuais dirigentes do time do Boca. Estou com eles e não abro.

5.) UMA FEIRA PERMANENTE DE LIVROS, DEZENAS DE BARRACAS NO MEIO DA PRAÇA ITÁLIA
Eu já conheço a maioria dos belos museus e teatros de Buenos Aires. Não escrevo isso para me gabar. É que retorno para essa cidade há mais de 15 anos, quase ininterruptos, só deixando de vir durante a pandemia. Ana Bia, a esposa é coo-fundadora de um Congresso de Design por aqui e volta todo ano para participar, o deste ano o 20º e junto dela, cá estou, anos após ano. Aprendi a gostar da cidade e dos argentinos. Não volto aos museus todos os anos, preferindo estar nas ruas e sentir o sentimento da população, principalmente agora, neste dias difíceis, quando um desGoverno, o do extremista de direita Javier Milei praticamente coloca o país numa posição de aniquilamento, com imensidão de trabalhadores perdendo seus empregos todo dia e sem condições de recolocação no mercado de trabalho.
Nas ruas eu não saio, "daqui ninguém me tira", dizia uma velha música. Sou assim, rueiro e livresco, adorador de livros. Leio ainda pouco em espanhol. Me esforço e não deixo de conhecer novos lugares onde livros estejam presentes. Hoje mesmo, voltei a um lugar que não retornada há pelo menos uns dez anos, a Feira de Livros da Praça Itália, bairro de Palermo Soho. Encravado no meio da praça, uma fileira de barracas, ocupando aproximadamente uns cem metros, uma de costas para outras, ou seja, duas fileiras de barracas,um sebão ao ao livre. Saimos do bairro de La Boca e fomos de ônibus circular, parando bem defronte a ela.
O passeio por lá, para mim é sempre divinal, pois me encontro e também me perco em lugares assim. E o mais importante e legal de tudo, percebi que minha companheira nessa empreitada, o jovem estudante de Design em Bauru, aluna de Ana Bia, Letícia Fagundes, nutre a mesma paixão por livros e assim sendo, mergulhamos de boca no que víamos ali diante de nossos olhos. A perdição é divinal. Logo na entrada, numa placa quase oculta por caixas de livros, uma frase de Adolfo Byoi Casares, "A eternidade é uma das raras virtudes da literatura". Seguindo este lema, de banca em banca, a via separando livros e por fim me disse: "Creio não gastarei nada em livrarias com obras novas. Aqui encontro tudo e por muito menso que a metade do preço".
Trago um do Quino e uma biografia em HQ do cantante uruguaio Zitarrosa e paquerei, o que provavelmente me fará voltar, por mais dois, um com ensaio fotográfico do escritor Ernesto Sábato e outro do chargista Miguel Rep sobre Charly Garcia. Ainda não sei fazer a conversão direito do peso para o real, nem para o dólar, mas sei ter pago muito barato pelos dois que trouxe. Letícia tinha em sua sacolinha uns quatro e assim, como dois perdidos num dia não tão limpo, com algum frio - termômetros marcavam 8º -, saímos de lá, não saciamos, porém satisfeitos. Na saída, na banca de uma senhora, a única que vi comandando um espço por lá, a famosa frase do John William Cooke (1919-1968): "Os pobres que votam na direita são como cães que cuidam de mansões, porém dormem do lado de fora". Melhor impossível.
Livros nos fazem pensar e também agir. Quem lê se renova a cada instante e isso, com osabemos é mais que um perigo, pois um povo mais culto, nunca de deixará enganar por falsos profetas e nem por políticos inexcrupulosos. Daí, leio muito e divulgo livros, a leitura como fonte libertadora. Feira como essa me seduzem e sou arrebatado por elas. Numa outra barraca, outra frase, "Hoje pode ser um grande dia", usada acertadamente para o local, pois para quem lê, sempre o novo dia é mais do que grande.

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