quinta-feira, 16 de julho de 2026

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (215)


HISTORIETAS ARGENTINAS

9.) NO DIA SEGUINTE, O JOGO ERA COISA DO PASSADO E FUI CONHECER ALGO MAIS SOBRE PERONISMO
Toni, o jornaleiro peronista, localizado bem aqui na esquina de onde me encontro nesta semana em Buenos Aires, vai me dando as dicas de onde devo ir e me apresenta pessoas em todas as vezes que passo por lá. Hoje mesmo, me apresenta um senhor. "É dos nossos, peronista, velha guarda, tradicional, dos bons", me diz. Tudo rende conversas. Pede para que vá papear um pouco na sede do Partido Justicialista, menos de 200 metros da banca, me informando serem peronistas tradicionais e assim, irei me aprofundando nos conhecimentos políticos da vida argentina.
Chego no local, com um "Cristina Livre" bem na frente e lá dentro, caricaturas e fotos dela espalhadas pelo salão. No balcão de entrada, quem ali se encontra é Matias Marucco, jovem dirigente justicialista. Me identifico como petista e a partir daí, iniciando a conversação com ele me falando de Perón e de Cristina Fernandez de Kirchner e eu de Lula, ali permanecemos por aproximadamente uns 40 minutos. Pergunto sobre todas as minhas dúvidas sobre a política local e ele prontamente me responde, dentro dos preceitos peronistas. Não desdiz do que acontece dentro do peronismo hoje, com muitos grupos, de certa forma antagônicos, porém lá na frente, com o mesmo ideal de luta. "Isso não é ruim, pois não nascemos iguais e do confronto, quando o ideal é o mesmo, sempre flui algo de bom".

Pergunto do confronto entre o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof e Máximo Kirchner, o filho de Cristina, seu sucessor político. Ele me explica que dentro de uns 40% do eleitorado convertendo para o peronismo, Cristina possui o grupo com maior percentual, depois o Kicillof, depois Sergio Massa, o candidato peronista que perdeu a última eleição para Javier Milei. "Tudo vai ser pegado agora, mas quando definir quem vai encabeçar como nosso candidato, estaremos todos unidos", me diz. Digo que, algo parecido acontece no Brasil, onde Lula comanda o PT, mas vários grupos comandados por políticos variados estão sempre em disputa interna.

E assim a prosa prossegue, inclusive com ele me dando sua versão sobre o papel da seleção argentina de futebol, onde somente uns quatro podem ser considerados mais à esquerda. "Os jogadores estão num outro patamar. Os que realmente vieram de classes mais pobres, continuam assim, mas quem é advindo de outra situação, dificilmente se posiciona junto de bandeiras populares". Por fim, no frigir da conversa, ele me diz que, para entender de fato o que venha a ser o peronismo, teria que ler, ao menos dois livros escritos por Péron, o "La Comunidad Organizada" e "Doctrina Peronista". Diz que, os encontro facilmente pelos sebos da cidade. "Foram escritos há mais de 50 anos, mas continuam mais atuais do que nunca", conclui.

A conversa poderia ter fluido muito mais, mas o tempo por aqui urge e tendo outros compromissos pela frente, nos despedimos, quando chega outro dirigente e me vendo brasileiro e admirador do peronismo, me dá a dica certeira para a parte da tarde: "Vá até a casa de Cristina. Hoje tem manifestação de apoio lá defronte e com grandes chances dela sair na sacada. Estamos na rua San Jose. Basta seguir um quilometro adiante, ela mora no prédio 1111". Foi o que fiz. 

10.) FUI VER CRISTINA, ELA NO BALCÃO, 2° ANDAR, CALLE SAN JOSE 1111
Na conversa pela manhã com pessoas ligadas a partidos peronistas, a informação de que, na parte da tarde, por volta das 16h, uma manifestação de apoio para Cristina Kirchner, a ex-presidenta da República, condenada injustamente pelo lawfare político, nova especialidade latinoamericana de prender opositores, hoje reclusa em prisão domiciliar, ocorreria defronte o prédio onde reside na calle San Jose nº 1111. A concentração de populares lhe prestando apoio é constante, diária e praticamente ininterrupta, numa clara demonstração do forte apoio popular que a líder peronista sempre teve. Cristina sucedeu seu marido Nestor Kirchner no poder e a Lava Jato argentina, denominada de Comodoropy, para impedir seu retorno ao poder, invencionou uma questão Cadernos, já desmontada, quando lhe imputaram crimes de corrupção, sem comprovação, só para tirar-lhe o direito de concorrer.

Cristinase mudou a pouco tempo para este novo endereço, mais popular do que o anterior, próximo do Cemitério da Recoleta. EScolhido a dedo, uma ampla sacada permite que ela tenha acesso para seus apoiadores e, desta forma, frequentemente sai na sacada e saúda o conglomerado popular ali presente. Desta feita eu estava ali e vagando dentre os presente, muitos fazendo uso do microfone , rodeados de pequenos comerciantes vendendo souveniers com temas relacionados ao peronismo. Desde botons, adesivos, camisetas, brincos, colares, canecas, chaveiros, cartazes, tudo feito de forma artesanalmente e proporcionando algum ganho para seus idealizadores. A criatividade de quem não desgruda de Cristina é latente e demonstra sua força, perseverança na lida e luta.

Aproximadamente umas cem pessoas estavam ali concentradas, atentas às falas e mais ainda na movimentação na sacada do 2º andar. Quando ocorre uma movimentação de abertura do janelão onde ela reside, as falas se interromperam e no lugar, música com temas ligados à Cristina. Ela permanece no balcão por aproximadamente uns dez minutos, faz gestos para todos, acena, aponta para alguns e monta um coraçãozinho com as mãos, indicando com a mãos alguns. É o momento que todos esperavam. Cristina, pelo que vê e constatei, continua sendo a grande liderança política argentina, a mais expressiva e popular. Foi também uma das que, nos últimos tempos promoveu a concretização de esperança de dias melhores para o povo mais marginalizado, principalmente o trabalhador. Depois dela, o peronismo elegeu Alberto Fernandes, que claudicou na continuidade de um governo popular e na sequência, enfraquecido, perdeu o pleito para JAvier Milei. A desconstrução do país se deu de forma arrasadora, praticamente colocando fim em todas atividades sociais. O país vive um caos social e o alento de uma virada de mesa, ocorre através do peronismo, sendo o nome de Cristina, mesmo proscrito o de maior alcance popular.

Cristina junto de Lula podem ser considerados hoje duas das mais significativas lideranças políticas do Cone-Sul, justamente nos dois países com maior importância no continente. Eu, na qualidade de jornalista, de historiador e de voraz leitor do tema da Pátria Grande latinoamericana, sempre me interessei muito, não só pelo peronismo, mas principalmente por quem pratica essa política mais voltada para os interesses poplares na América Latina. Lula em sua última visita à Argentina a visitou em seu apartamento e as relações entre eles sempre foi das melhores. Conversando com os presente, me descobrindo brasileiro, a primeira coisa que me diziam era a de gostarem muito de Lula. Respondio sempre retribuindo: "Eu também e milhões de brasileiros, entendemos o que se passa aqui e gostamos muito de Cristina e do peronismo".

Cristina não se omite de continuar dando opiniões e influenciado nos rumos do peronismo no país. Ela sabe e tenta de todas as formas reverter sua situação jurídica, porém diante das dificuldades de vergar um Judiciário comprometido dos pés à cabeça com o conservadorismo neoliberal, de gente como ex-presidente Maurício Macri, este ainda apoiando Milei, faz o confronto como pode e uma das possibilidades é essa, a de manter estreito contato popular nas aparições na sacada de seu apartamento. Hoje, por uma felicidade, tive o prazer de vê-la numa dessas saídas na sacada. O contentamento de todos os presentes, percebido por mim, circulando entre os presentes é a certeza de que, o povo não é bobo e mesmo diante de todas as adversidades, sabe muito bem quem pode fazer algo por ele. Cristina é uma dessas, com ação política comprovadamente popular. Aplaudi efusivamente quando saiu no balcão. Fiquei emocionado, como todos os presentes.

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