segunda-feira, 27 de julho de 2026

DICAS (271)


O QUE ACHAM DE ALGUÉM TROMBANDO COMIGO, NUMA MANHÃ DE SEGUNDA, DENTRO DE UM SEBO?
O Sebo é o do Bau, ali na rua Treze de Maio, quase esquina com a Rodrigues Alves, centro nervoso da cidade e onde seu proprietário, o Roberto - o filho do Bau - está fazendo uma promoção dessas de arrepiar o pelo dos abnegados por livros e discos. Tudo pela bagatela de R$ 2 reais a unidade. Não tem quem não resolva, hora ou outra, passar por lá e conferir se ainda encontra algo, pois a devassa foi grande, mas pelo que fiquei sabendo, com um acervo de caixas e caixas ali acumuladas, décadas a fio, muita coisa nem os proprietários sabiam de sua existência. Ou seja, a garimpagem está em pleno curso na cidade de Bauru, mais precisamente neste sacrosanto lugar.

E assim sendo, impossível também nas idas e vindas não encontrar com alguém sujando as mãos, vasculhando velhas estantes, tudo em busca de algo dentro do seu gosto e preferência. Eu, desde quando começou essa última liquidação - Roberto afirma não irá fechar o sebo, é só para acertar o estoque -, já estive por lá umas quatro vezes e sempre me surpreendo. Hoje, quem dou de cara é o jornalista João Pedro Feza, um que residiu em Bauru por um bom tempo, trabalhando em vários de nossos já não mais existentes órgãos de imprensa e depois quando as portas se fecharam, foi em buscar de ar fresco lá pelas bandas de SAntos, onde reside há poucos metros dos botecos na beirada da Vila Belmiro, onde recolhe histórias e estórias para nos encher de inveja. Nada como viver num cais de um porto, ainda mais o de Santos, onde a história de estivadores briguentos, algo narrado tempos atrás por Plínio MArcos, no encantou. Feza dá prosseguimento ao inesgotável tema.

Vez ou outra o danado aporta por aqui, para algum trabalho dentro de sua área. Ontem circulou num dos pouquíssimas e raros eventos ainda promovidos pelo saudoso e hoje fechado Museu Ferroviário Regional de Bauru - MFRB - uma vergonha nenhum dos três bauruenses estar aberto. Hoje, como quer não quer nada, aportou lá pelas bandas do Bau e na virada de uma encruzilhada - lá dentro tem várias -, damos de cara e assim, iniciamos uma conversação para lá de boa. Nas estantes sempre algo de bom. Ele se agarra num velho LP do Roberto Carlos, desses de início de carreira e o livro cucaracha do Henfil, tudo pelo inimaginável preço de R$ 2 reais cada. Proseamos até lhe informar que, infelizmente, meu alvará estava vencido e teria que retornar ao meu bunker caseiro.

O que ve ser uma delícia mesmo é poder desfrutar de mais um tempinho, ouvindo suas histórias de beirada de porto, botequins com cheiro de sardinha, algo que, com certeza, ele deve ter acumulado ao longo dos últimos tempos. Feza é destes poucos que, por essas plagas, a gente pode denominar de jornalista de verdade. Eu, vez ou outra me intitulo como jornalista, mas não chego nem perto de alguns, cujo ofício realmente esteve no cerne de suas vidas. Eu brinco com a coisa, gente como Feza leva a sério. Tomara fique mais uns dias por aqui e possamos prosear mais um bocadinho, ele me contando as últimas do Neymar e eu, lhe atualizando sobre as últimas da thurma de Birigui que se apossou de Bauru e nem colocando a vassoura atrás da porta, não arreda mais o pé daqui. Enfim, eu e ele saímos com algumas preciosidades literárias e musicais do Bau e confesso, nenhum de nós gastou mais de R$ 20 pratas. Vale ou não a pena aparecer por lá? Só pelos reencontros já valeria e depois da garimpagem, sempre preciosidades.

EXPOSIÇÃO SEDENTÁRIA DE DOUTRINAS ALHEIAS
Mário de Andrade batizou certa feita, referindo-se a um verdadeiro vício ocupacional o de se deixar levar e ficar praticando a teoria do auto-engano, ou seja, mesmo ciente de estar errado, o sujeito continua defendendo o modus operandi de quem é o mentor do que pensa. Ele já não pensa mais por ele mesmo, mas pela ideoa do mandatário do seu mundinho. Preferiu ficar ali, aceitando tudo, do que ter que enfrentar e desdizer de quem supostamente o protege ou o ampara e assim, virou um repetidor idolatrado de algo mentiroso. Passa isso adiante, como verdade fosse, briga por causa disso, mesmo sabendo que aquilo não corresponde com a verdade e que, o outro lado, talvez faça melhor o que o seu deixa de fazer. Mas aceitar isso é outra coisa, inaveitável dentro do padrão de ações onde está encralacrado. Como desdizer do seu mentor, mesmo mentiroso, o que lhe proporcionou uma boquinha, tudo para valorizar a verdade?

Pensei nisso tudo quando vi uma pessoa conhecida, ontem enaltecendo com loas de melhor homem do mundo, o governador Tarcisio de Freitas, após este ter ido visitar a cidade de Taquaritinga, após a tregédia do vendaval da última sexta. O governador foi lá, tiraram fotos juntos e ele passou, so por causa disso a ser a melhor pessoa do mundo. Nada havia ainda de concreto em auxílio ou ajuda, somente palavras, promessas. Do outro lado, vindo do Governo Federal uma ação concreta, porém para viabilizá-la a cidade precisaria publicar um decreto se apresentando em estado de calamidade pública. Para este, por se tratar de advsersário de onde está situado, a pessoa elogia quem ainda não fez e nada diz de quem já fez algo.

Este é só um exemplo do mundo onde estamos situados. Lembrei da teoria de Mario de Andrade, a da "exposição sedentária de doutrinas alheias" e concluo que, com essa observÂncia, vou tentando alinhar mentalmente que a relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo. Enfim, como é possível para uma mesma pessoa enganar-se a si própria? Num belo livrinho, o economista Eduardo Gianetti, o "Auto-engano", ele destrinchaalgo disso: "como nos desincumbimos de proezas como crer no que não cremos, mentir pra nós mesmos e acreditar na mentira ou remar de costas rumo a um objetivo?".

Cada vez mais difícil aquele que está envolvido na mentira pensar na possibilidade de estar enganado, desdizendo do que fez até hoje, as crenças, valores e paixões que os governa. Penso vendo essa gente se pronunciar: existirá uma possibilidade de rever algo e avançar ou continuará a vida inteira dominado, inerte e sendo conduzido como manada, enganado e ludibriado, tudo em troca de meras migalhas? Poucos conseguem sair deste moto contínuo. Sinceramente, pelo que conheço dele, acho um tanto difícil o governador se sensibilizar e doar dinheiro a fundo perdido para reverter o momento de cidades como Taquaritinga, pois a extrema-dierita age exatamente ao contrário, ela subtrai e não acrescenta, já o proposto pelo Governo Federal é palpável, está exposto e só não aceita quem está absorto pelo outro lado da moeda. Este é só o começo de uma divagação que vai longe...

"É SEMPRE BOM LEMBRAR QUE NÃO É BOM MEXER COM A MALUCA... ENTÃO NÃO ME CUTUCA...QUE EU NUNCA DEI VIDA MOLE PRA FILHA DA..."
Outro dia me perguntaram: "Você ouve ou já ouviu ANITTA?" Tive que confessar, gostava dela, de seu firme posicionamento da vida e político, mas musicalmente conhecia muito pouca coisa. Agora, dia 23 de julho ela lançou o álbum EQUILIBRIVUM II, continuidade da primeira parte, lançada em abril. Me convidam para ouvir e me enviam por e-mail o álbum - agora não existe quase mais disco físico, tudo no mundo virtual - e me foi dito: "Ouça do começo ao fim e me diga o que achou". Ouvi, ela influenciada nas raízes brasileiras, explorando gêneros como samba, forró e MPB com fortes referências à espiritualidade de matriz afro-brasileira, contando com participações especiais de grandes nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença e Mart'nália, tive que confessar: além de já ter gostado - e muito - de sua postura como artista, agora me vergo e confesso ter gostado também de sua música. Creio eu, demorei muito. Sim, continuarei gostando muito mais do que ouço desde sempre, essa maravilhosa MPB, mas sempre estarei aberto para novas possibilidades. Assim sendo, escolhi para aqui compartilhar a NÃO ME CUTUCA, onde Alceu Valença tem uma pequena participação. Só posso dizer para todos os que, como eu, estavam reticentes, para que capitulem e a ouçam. Seus vídeos são de um visual extremamente competentes. Assim, ouvindo ANITTA, começo a semana.
Eis Anitta e Alceu numa das canções do novo álbum: https://www.youtube.com/watch?v=PSB7uxRtpaU

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