ESTE AQUI É ALGUÉM DE MUITA LUTA, LULINHA, HOJE INTERNADO NO HOSPITAL ESTADUALLulinha é o Agnaldo Anastácio da Silva, um ser sindical durante todo o tempo que o conheço. Completou 64 anos e ano que vem iria se aposentar por idade, mas teve que antecipar a coisa, pois seu coração está dando sinais de enfraquecimento, após anos de intensa vida de reconhecida militância política. Não tem ato político em Bauru, destes relevantes, onde Lulinha não esteja por detrás. O danado agiu e viveu intensamente a vida até quando deu e agora, quando o coração começou a desapontar, passou poucas e boas, alguns AVCs e este último, uma semana aguardando internação numa UPA e desde a última sexta, internado no quarto 207 do Hospital Estadual. Fui visitá-lo, pois além de tudo, ele representa para mim essa luta da qual estou também envolvido dos pés à cabeça.
Seu estado não é grave, mas a filha, sua alma gêmea e cão de guarda, Natália, não esconde sua situação. "Meu pai tem hoje 30% do coração funcionando, algo irreversível e daqui por diante, precisa levar a vida com mais calma, sem correrias e sobressaltos. Ele é forte, vai vencer, mas terá que se enquadrar", conta. Hoje ele aprontou mais uma das suas. Passou por um atendimento médico e quando o médico lhe disse "dispensado", saiu hospital porta afora, sendo encontrado na calçada pela filha. Ela ao perguntar para onde iria, sua resposta só poderia ser uma: "Eu vou pro sindicato". Sim, o sindicato é a vida do Lulinha, tendo passado dentro de um a maior parte dos seus dias. Todos os que que já estiveram envolvidos nestas plagas em alguma luta operária, sindical e da esquerda, com certeza, esteve ladeado com Lulinha em algum momento. Inevitável. Ele esteve em todas e agora, quando o corpo pede calma, tenta entender como será sua vida daqui por diante.
Sento na beirada de sua cama e revivemos algo dessa intensa luta, desde os tempos da Causa Operária, que o levou junto do Partido Obrero, até a Argentina, depois com o PT, quando participou de todas as campanhas, as imagináveis e também as inimagináveis. Tendo eleição sindical por aí, lá estava Lulinha fazendo e acontecendo. Nos últimos tempos aflorou seu lado espiritual e eu, ateu convicto, ia até onde ele estava dando passes na Umbanda, só para receber os seus, pois nele eu acreditava. O tempo passa, o tempo voa e hoje, todos de minha geração, um tanto cansados, porém sem desistir da lida e luta. Com Lulinha não é diferente, continuando ativo lá nas hostes da CUT e Sinergia, só que, ele agora ciente de que, chegou a hora de continuar presente, mas numa outra alçada e pegada. Para quem foi mais do que ativo, a certeza, nada será fácil, mas como o danado quer viver mais um bocado de tempo, ele sabe melhor que ninguém, precisa pegar mais leve em tudo que faz. O coração assim pede.
Lá no hospital - pode receber visita no horário das 7 às 19h30 - lhe perguntaram após ser reencontrado já no portão de saída, se ele havia fugido. "Fugir? Que nada, você não sabe o que eu já fiz na vida. Eu só ia até ali na lua, mas iria voltar", disse. Para alguém como ele não é nada fácil permanecer retido dentro de um quarto de hospital. Porém, sabe que está dentro de um tratamento intensivo, no próximo sábado, passará por um exame mais detalhado, um cateterismo, até para se certificar do tratamento que terá pela frente. Sua filha está ao lado dele, os amigos o visitam regularmente, as ligações são contínuas e todos o estimulando para que, cumpra o prescrito e viva muito e bem daqui por diante. Lulinha é desses que, pela história que carrega nos costados, exemplo para tantos e uma espécie de amuleto da luta por dias melhores para este país. Personifica essa luta que teremos pela frente nessa tresloucada eleição deste ano, onde ele não poderá participar de forma 100% presente, como em todas as outras, mas para quem continuará pela aí, nada como se espelhar nele e tocar o barco adiante. Lulinha sempre esteve também junto do bloco Bauru Sem Tomate é Mixto, desde seu início, sendo já homenageado como muso e assim, reconhecido, como baluarte de nossas arruaças todas. Ele é mais que um dos nossos...
Em tempo: Antes de me despedir fomos pra varanda, 2º andar do hospital, um tanto desgastada, ele reclamão, dizendo que ali poderia ser uma área de lazer para os pacientes e de lá, debaixo de um toldo carcomido pelo tempo, muito puído, ladrilhos se soltando da parede do prédio, ele permanece algumas horas do dia, olhando para a rua e imaginando, como me disse, "passando um filme de minha vida" e acreditando que, muita coisa ainda virá de bom pela frente. A gente sabe que, não será um hospital que o irá prendê-lo, mas que essa curta estadia lhe sirva de reflexão, para ele e todos nós, irmanados com ele, saibamos vencer todos os próximos obstáculos que teremos em breve pela frente. A luta continua e a vida, mesmo que de forma mais suave, pode ser vivida intensamente. Ele exercitou isso de forma prática, sem pensar no dia de amanhã, tudo pela causa que o move. Lulinha é muito mais do que um mero militante.
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| A varanda no 2º andar, de onde Lulinha vê o mundo por estes dias. |






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