terça-feira, 4 de agosto de 2026

AMIGOS DO PEITO (257)


HOJE ME DEIXEI LEVAR POR FAUSTO BERGOCCE NUM GLAMOUROSO PASSEIO POR SAMPA
Meu amigo Fausto Bergocce, reginopolense de quatro costados, nasceu aí nas imediações de Bauru, mas desde muito cedo aportou aqui por Sampa, morando desde sempre em Guarulhos, na Grande São Paulo e hoje, querendo reviver algo do seu passado ou mostrar para mim alguns dos descaminhos de sua vida, sabendo de minha estada por estas plagas, marca comigo de nos encontrarmos para um rolê, justamente num dos locais mais marcantes de sua vida, a Padaria Marajá, na rua Martins Fontes, há 50 metros de onde trabalhou boa parte de sua vida, na sede do Diário Popular, jornal publicando por décadas suas charges diárias. Almoçar no Marajá e ouvir suas histórias, dos tempos de antanho, quando se lembra, quem morava por ali, nas imediações, o cantante Geraldo Vandré, o jogador de bola Almir Pernambuquinho e, pasmem, depois ficou sabendo, o cachorrinho do delegado Fleury, cabo Anselmo.

A Martins Fontes era um agito e ele, saindo de madrugada, após o fechamento do jornal, a parada certa era na Marajá, ponto de encontro de jornalistas e boêmios. O jornal fechou há décadas e a Marajá resiste ao tempo. Bem defronte a padaria, um sacrosanto lugar, o Sebo Samba Discos, no nº 154. Eu e Fausto já conhecíamos o lugar e por ali, sempre boas novidades e preços baixos, mas se faz necessário sujar as mãos e vasculhar pilhas e pilhas, livros e discos, com muitas preciosidades. Para variar, escolho alguns e começo a carregar o peso na continuidade das andanças.

De lá, Fausto me faz adentrar o prédio da Biblioteca Mário de Andrade e defronte, além de uma foto juntos, explica do estilo arquitetônico, neo-nazista, onde a ideia é essa, a imensidão do prédio e a pessoa pequenininha nele. "Em São Paulo, dois outros projetos com essa característica, o estádio do Pacaembu e a Ponte das Bandeiras, todos da mesma época", me diz. De lá descemos até o Anhagabaú, pegamos o metrô, onde ambos, com mais de 65 anos, não pagamos passagem. Ele com sua carteirinha, que libera a passagem na catraca e eu de posse do meu RG. Descemos defronte o prédio da FIESP, em plena avenida Paulista.

O convite era para adentrramos o vetusto local, onde ali duas exposição, numa a Cartunistas, com fotografias de Paulo Vitale, todas tendo como pano de fundo cartunistas famosos. Um deles é o próprio Fausto e circulando pelos corredores, muita gente conhecida, desde os irmãos Caruso até o bauruense Gilberto Maringoni. Ao lado dessa, Fausto ri e me diz, ocorrer uma com alguém divindindo com ele o espaço, nada menos que a "Brecheret Modernista". Mais um edificante passeio, com ele me explicando das muitas fases do artista e do tempo, anos 40, como se deu seu trabalho na São Paulo da época.

Eu vou tentando assimilar tudo e quando saímos, poucas quadras, uma foto diante do parque Trianon, ambos sentadinhos no banco onde Maurício de Souza está junto de toda sua troupe, desde Mônica à Horácio. Atravessamos a rua e vamos descansar na cadeira de descanso junto ao vão do Masp. Não adentramos o museu e permanecemos um tempo por ali divagando e curtindo as pessoas que, como nós passeava por ali nesta tarde de terça. Fausto anota numa folha de papel o nome de dois livros, me dizendo ter que ler, pois me darão uma ampla visão da vida paulista de outros tempos, escrito por Roberto Pompeo de Toledo, o "São PAulo Capital da Solidão (Volume 1)" e "São Paulo Capital da Vertigem (Volume 2)". Guardo o papel e seguimos adiante.

Fausto me convida a seguir para descermos a Augusta e assim fecharmos uma volta pela cidade, desta feita caminhando até onde saímos. E assim começamos a descer a rua Augusta, com ele me comntando as muitas histórias dos tempos do jornal, quando a boêmia fervia por aquela rua e adjacências. Descemos numa prosa só, parando aqui e ali, adentrando galerias, espiando antigas boates, parando nas esquinas para explicações de como tudo funcionava décadas atrás. Eu conheci a Augusta tempos atrás, mas nãocomo Fuasto, alguns anos mais experiente e com maior vivência. Nunca morei em Sampa, só ia e via, convivendo en passant com tudo o que ia ouvindo.

Paramos no Cine Petrobras, parada obrigatória para se utilizar de um bom banheiro público e depois uma foto de Fausto ao lado de Oscarito e Grande Otelo. Na descidas, outra padaria, desta feita indicada por Juliano Guido, sabendo que queríamos tomar sorvete. "Essa meu pai me levava quando criança", nos diz. A Padaria Bologna tem um lindo piso, preto e branco, além de um ótimo sorvete. Foi uma parada pra descanso e na sequência, outra parada cheia de saudade, quando tiro foto dele diante onde antes funcionou o Spazio Pirandello, um bar cheio de charme de décadas atras. Fausto foi me contando de quando, num dia ali se encontrou com Henfil, numa tarde de longa conversa entre dois artistas do traço.

Passamos novamente defronte a Marajá e seguimos até a Barão de Itapeteninga, onde tenho que buscar uma mala, deixada para conserto. Nos despedimos na estação do metrô República, onde embarco no sentido Butantã e Fausto no contrário, indo até perto da estação Itaquera, onde seguirá até Guarulhos. Foi uma tarde e tanto. Primeiro reencontrei o amigo e com ele circulei por lugares que lhe dizem respeito. Uma tarde como essa é tudo o que precisamos para ser felizes, batendo perna por aí e fazendo com que, a vida tenha continuidade, aconteça de forma salutar e saudável. Fausto é como eu, alguém de bem com a vida e assim, vamos tocando elas adiante, desta forma e jeito, um visitando o outro de vez em quando.


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