quarta-feira, 23 de agosto de 2017

COMENTÁRIO QUALQUER (166)


A LEITURA QUE ROLA NAS CLÍNICAS MÉDICAS DE BAURU
Não sei se isso é também predominante nas demais cidades. Creio que, no dito estado mais rico da federação isso role como praga, uma que desvirtua o pensamento humano. Conto o que vejo. Semana passada e nesta, tanto eu, como Ana estamos peregrinando por clínicas médicas e em todos tenho observado algo em comum. Algo entristecedor. Nas salas de espera, um amontoado de revistas e a a imensa maioria delas, a revista VEJA. Ela bate recordes em todas as clínicas bauruenses. Tirei algumas fotos para exemplificar o que escrevo.

Sei que o governador paulista, o SANTO, também chamado de vez em quando de Geraldo Alckmin, para dar aquela ajuda de amigo pra editora Abril e a Veja, fez assinaturas e distribui graciosamente para todas as escolas da rede pública. E assim, a gurizada se vê obrigada a encontrar pelas escolas o que de pior temos em matéria de informação jornalística. E tudo se repete nas clínicas médicas da cidade. Dificilmente se encontra na cidade uma clínica onde não tenha a tal Veja ali aguardando os que esperam pacientemente serem chamados para consultas e exames variados.

Me recuso a tocar em qualquer uma. Mas por que esse predomínio? Das duas uma. Ou a classe médica toda é influenciável e assinante dessa porcaria jornalística e acredita em tudo o que ali está publicado ou se repete o mesmo que nas escolas públicas. Já ouvi de variadas bocas que, dentro da tiragem da revista uma boa parcela é distribuída exatamente para finalidades como essa, deixar ela em lugares estratégicos, propiciando a leitura de incautos leitores. Pode ser e isso não me assustaria. Como recebe verba publicitária de muitos governantes interessados na produção do sai publicado naquelas páginas, uma parte pode muito bem ser direcionada para distribuição gratuita.

Levo muito em consideração que, a classe médica paulista é conservadora, apoia não só o Alckmin, como apoiou o golpe em vigência e permanece ao lado de Temer e suas estripulias mirabolantes, as que estão afundando o país de vez e de irremediável forma. Daí, deixar uma Veja ali é mais uma tentativa de cooptar incautos e continuar enganando um público leitor que não lê mais quase nada e quando o faz, encontrando pela frente a revista, passa a crer naquilo como verdade absoluta dos fatos. Chamo isso de jogo sujo. Sujíssimo. Colocar a revista ali sem nenhum inetresse, esse a alternativa menos viável.

Ver a revista espalhada pelos consultórios é de uma tristeza incomensurável. Quando me deparo com tudo o que está em curso, com tudo o que está sendo feito para destruir o país, enxergo nitidamente nesta revista um dos pilares do baú de maldades despejado sob nossas cabeças. Daí, quando me deparo nos consultórios com alguém ávido por algo para ler enquanto aguarda ser chamado e o vendo de mão estendida em sua direção, me dá uma vontade imensa de ir em sua direção e lhe alertar dos perigos: “Não faça isso. Além de esmerdear as mãos, fará o mesmo com sua mente. Essa publicação não vale nada, mente e engana quem dela se serve. Aliás, não serve nem para embrulhar peixe ou limpar a bunda”. Tenho feito algumas maldades (ou seria ajuda substancial para engrandecer aqueles ambientes?) em alguns desses lugares e jogo as mesmas na lata do lixo, o único lugar onde merecem estar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

RETRATOS DE BAURU (205)


ANTONIO PEDROSO JR, SEUS LIVROS E A RESISTÊNCIA COM OS DIREITOS HUMANOS
Tenho uma clara sensação de sermos tão poucos hoje na resistência, os que colocam verdadeiramente a cara para bater diante deste cruel golpe afundando este país. Essa sensação foi reforçada após ter acompanhado Ana Bia nas compras do mês no supermercado Tauste aqui em Bauru. Olhava para os lados e pela fisionomia das pessoas, as conversas travadas ali pelos corredores, não via ninguém com aspecto preocupado e nem disposição para entender o que se passa. A indiferença de todos para com tudo o que está sendo feito com o Brasil me assusta, parece que nada ocorre e nada é com eles. Daí, nada como ressaltar mais e mais os que resistem e insistem em colocar o dedo na ferida. Um típico exemplo: a existência de uma turba circulando entre nós que confunde o que venha a ser Direitos Humanos com algo a defender bandidos. Perdemos a noção de entender de fato o real significado de muita coisa. Parece que nos querem emburrecidos e brutos. Cito um resistente, um que não abandona a cancha de luta. Escrevo algo dele, o meu 900º perfil por essas plagas.

ANTONIO PEDROSO JUNIOR é um nome por demais conhecido em Bauru e todo o estado de São Paulo. Os motivos são muitos. Pedroso, como é mais conhecido, escreve e se posiciona ao lado da luta dos que padeceram atrocidades nesta cidade e país. Compra homéricas brigas por causa disto. Fez uma escolha de vida e dá seu quinhão para reestabelecer direitos para quem os perdeu durante o golpe militar de 64. Conhecendo os caminhos facilitadores jurídicos, tem prestado imensa ajuda para os esquecidos, desvalidos e ignorados. Os defende e também escreve deles todos. Seu histórico de resistência vem do pai, ferroviário, dono de bar e hoje nome de rua em Bauru. Morou na cidade até quando aguentou, depois constituiu família em Sorocaba, lá nasceu seu filho e para ajudar tocar a vida, abriu uma livraria, primeiro num shopping, hoje em sua casa. Antes aberta ao público, hoje mais virtual, mas também aberta à visitação no mesmo lugar onde mora. O tempo passa e os problemas surgem, principalmente os físicos. Pedroso adoeceu e mesmo com renda para tocar bem sua vida, vende hoje um combo com quatro de seus livros (Márcio, o Guerrilheiro; Sorocabana União e Luta; Sargento Darcy e Subversivos Anônimos), tudo por R$ 135,00, para ajudar-lhe no custeio das despesas que tem tido com medicamentos (Bradesco agência 0152 – c/c nº 9963-5). Os pedidos podem ser solicitados junto a ele pelo seu facebook. Pedroso Jr tem história e sempre foi da turma dos lúcidos, dos que sabem o que de fato acontece com este país. E como sabemos, os lúcidos sofrem mais dos que os indiferentes.
OBS: Todas as fotos dele foram retiradas de seu facebook e a dos livros é deste HPA.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (92)


CHUVA, FRIO E FEIRA DOMINICAL
Carioca, Roque, Gui, Tatiana e HPA
O importante é sair de casa, botar o bloco na rua e tirar a bunda da poltrona, faça sol ou chuva, calor ou frio. Ver, ser e estar nas ruas é imprescindível para o bem estar de mentes, ainda mais quando em tempos banais, brutais e sob a batuta de cruéis e insanos golpistas.

Pois bem, fazia frio de lascar ontem pela manhã. Tudo começou com sol e já fui tirando a blusa, colocando em seu lugar uma camiseta escolhida a dedo, louvando o mexicano comandante Marcos, mas quando botei os pés para fora do mafuá e tendo como destino o lugar onde ocorre a reunião mais democrática nesta cidade dita como “sem limites”, eis que o céus já estava escurecendo e em poucos minutos caia chuva. Daquele calorzinho gostoso propiciado pelo sol, voltou o frio e eu sem meias e de alpargatas nos pés.

Esperei a chuva passar e me fui a pé até a feira. Não será uma chuva ou mesmo frio que me amarrará as pernas e braços. Passo primeiro pelo Bar do Barba e vejo sinais de que o movimento hoje promete. Fui ter com o Carioca, pagar minhas pendengas e ver das novidades. Ele é muito prestativo e havia separado para mim, seus produtos com a minha cara, vídeos e CDs sobre Cuba e cubanos. Como recusar isso? Impossível. Com o tempo nublado, eis que alguns como eu saem da toca. Foi o caso do Guilherme Reis, o Tio Gui, que veio de sua casa a pé, numa gostosa caminhada dominical de aproximadamente uns seis quilômetros. Desceu de lá até a feira, enfim, na descida tudo favorece e ele veio vindo, chegando no epicentro da confusão e da movimentação.

Não existe outro agrupamento em Bauru com a característica desta Feira do Rolo. Eu e ele vendo os pingos caindo, conversando ora sentindo as gotas escorrerem pela face, ora se protegendo da chuva na marquise da Associação dos Aposentados. Eis que na curva da esquina surge um casal, Roque Ferreira e Tatiana Calmon e se juntam a nós. A conversa flui e vai desde os destinos do Carnaval de Bauru até isso de com o passar dos tempos perdermos cabelo, paciência e a fleuma de aguentar provocações e admoestações.

O brilho da água reflete de forma diferente sob o paralelepípedo e a bagunça colorida propiciada pela movimentação dos rolistas ali reunidos. Não existe frio externo para quem sai às ruas e encontra papos e conversações calientes internas de grande monta. O tempo passa rápido nessas circunstâncias. As fotos que fui tirando desse rico e insubstituível momento comprovam o que digo. Puro estado de êxtase vivenciar isso.

Existem os que não querem e não se misturam com os da feira, como se produzissem bosta de qualidade superior a todos os ali presentes. São sim, esses uns merdas. Os grandes merdas desta e de todas nossas cidades. Estar junto dessa parcela que ainda faz feira, bate perna, quer ver as novidades num agrupamento popular, num ajuntamento com calor humano e periférico e reconfortante e também energizante, diria, recarregador de baterias. Eu me recarrego na feira. Outro dia ouvi de um besta que não gosta de vir na feira por sentir um certo medo, falta de segurança. Trata-se de um idiota, pois tenho muito mais medo de andar com a desenvoltura que tenho na feira é lá pelos condomínio destas plagas.

Cariocamos na banca mais agitada da cidade, ontem com um plástico cobrindo as preciosidades, livros, LPs e CDs. Nas brechas da água que caia do céu, íamos vendo o que Carioca tinha nos reservado para o domingo. Mesmo assim o danado sorria, pois disse ter vendido mais do que esperava. Seus clientes além da fidelidade, saem de casa, mesmo com chuva. De lá vamos para o Bar do Barba e lá o complemente de tudo. Chovia e o aglomerado era mais intenso que nos dias normais. Escolho uma mesa, tomo uns chopps com Tio Gui, Kyn e sua guapa. Junto desta mesa passam muitos e a chuva aumenta, com ela o vento e dali presenciamos o desmonte da feira num dia surreal, quando os feirantes sofrem em dobro, pois trabalham debaixo d’água.

O mais bonito, a cena mais impactante da manhã é a solidariedade entre esse pessoal todo que está e atua nas feiras. No final, mesmo com inclemente chuva, chegam os trabalhadores da EMDURB, os que farão a limpeza das ruas. Barba os chamam para o coberto e oferece a todos uma laranjada, um baita jarro disponibilizado para todos e eles ali se reúnem antes da contenda com pás e vassouras. Do lado de fora do bar, passam os com suas barracas desmontadas e sendo carregadas para seus carros, outros puxam tudo como esquimós e quase todos acenam, param para conversar com Barba e também com Carioca, que desmontando sua barraca, veio se juntar aos que estão buscando um esquenta peito antes de ir-se para casa ou mesmo comer algo.

Vivenciei isso tudo como aprendizado de vida. Foi uma manhã e tanto. Não vejo ontem em Bauru outro lugar para obter todo o aprendizado a mim propiciado do que o adquirido na feira e juntos dos seus personagens. Tenho a sorte de estar junto a esses e desta forma, ganhar uma sobrevida. Momentos de um sabor inigualável para os que gosta mde desfrutar o que de melhor a vida possui.
Viva a rua e todas suas possibilidades!!! A minha fuga nesses bestiais tempos é permanecer mais e mais junto do que for mais popular possível. Quero cada vez mais distância dos esbulhadoires do povão.

domingo, 20 de agosto de 2017

MEMÓRIA ORAL (214)


A VOZ DA CONSCIÊNCIA

Eis meu artigo para a seção que abre a revista, BRASILIANA e ARGENTINA da última edição de Carta Capital, a de nº 966, páginas 12 e 13, chegando às bancas de Bauru hoje pela manhã. Nele um relato do que já conhecia ouvindo um dos melhores programas de rádio da atualidade, o La Mañana (www.750am - prefiro ouvir eles no horário do que os a defender o bestial modelo economico brasileiro e golpistas por natureza), de segunda à sexta das 9 às 12h. Algo impensável no Brasil de hoje, alguém ainda conseguindo fazer o (necessário) contraponto ao neoliberalismo predatório em nossos países. Ele faz e de forma brilhante, o que me motivou na visita que fiz à Argentina no começo deste mês em conhecer pessoalmente essa experiência. Virou escrevinhação para a revista, num texto prontamente aceito e que, creio possa ser utilizado como exemplo latente e vivo, da necessidade de algo dessa natureza ter início aqui também no Brasil, onde vivemos o péssimo momento do jornalismo pelas ondas radiofônicas ocorrer somente por uma via, a permitida pelo dono do meio de comunicação massiva. Jornalismo com somente uma via, a do patrão, do dono do negócio. Meu texto tem o intuito de demonstrar a necessidade de um outro lado. Mais tarde disponibilizo aqui mesmo o texto na íntegra. Agora, vou para feira dominical e à tarde disseco meu texto final de mestrado. Rever Victor Hugo, que já conhecia de dois anos atrás quando fui levar um livro seu para autografar e dessa vez poder escrever dele, é para mim motivo de jubilo e contentamento e agora ampliado ao conhecer pessoalmente também Gustavo Campana e Fernando Borroni, baluartes do bom jornalismo argentino. Sua experiência é mais que única, exemplo de dignidade jornalística na acepção da palavra. Citem um aí que ainda consegue fazer isso aqui no Brasil em rádio massiva e sem represálias? Não mais existem.

A VOZ DA CONSCIÊNCIA
Juan Carlos, o taxista

Vítima do expurgo ideológico da mídia, o radialista Victor Hugo Morales resiste pelos microfones da 750 AM.

A 750AM é uma pequena rádio do Grupo Octubre, que concentra investimentos dos sindicatos argentinos em mídia tradicional. Além da emissora, o grupo mantém participações acionárias no jornal Página 12 e nas revistas Caras & Caretas, El Planeta Urbano e Diário Z. O alcance e a notoriedade do canal são potencializados pelo vozeirão de Victor Hugo Morales, perfeitamente adequado aos seus quase 2 metros de altura. De segunda a sexta, entre 9 da manhã e meio dia, Morales, uruguaio de origem, entrincheira-se diante dos microfones da 750 AM para dar sua visão sobre os fatos na Argentina e no mundo.

No ano passado, ele perdeu o emprego na rádio Continental, seu antigo trabalho, por fazer oposição ao governo de Maurício Macri. Muitas outras portas no mainstream midiático se fecharam. Se perdeu uma vitrine, o jornalista ganhou em liberdade. O La Mañana, sob seu comando, exercita a crítica da maneira mais desabrida possível. Ao lado de Gustavo Campana, Fernando Borroni, Adrián Stoppelman e Gabriel Mororini, o uruguaio não poupa o Clarín, espécie de Globo argentina, que define como “máfia jornalística”, o neoliberalismo (“não existe sem traição”) e o fenômeno da “fake news” (“ela não existe sem a mídia hegemônica”).


No caminho até a sede da 750 AM, sondo as impressões do taxista que me conduz. “Vai conhecer um homem muito interessante”, ouço de Juan Carlos. “É único no que faz. Muitos jornalistas são mercenários e trabalham por interesses. Ele é digno, coerente e esclarece a população contra os retrocessos do governo de Macri

Enquanto espero a entrevista, acompanho o programa do estúdio. Morales discorre a respeito da situação da Venezuela. “O periodismo que quer mostrar da melhor maneira possível a verdade não pode repetir o que todos dizem. Assim vivem os meios de comunicação na Argentina, 95% dominados por uma máfia, mentindo descaradamente para a população, favorecendo uma minoria que explora o povo. Uma imundice dominada pelos interesses mais inconfessáveis que existem. Mentem sobre a Venezuela, mentem sobre o Brasil, mentem sobre Cristina Kirchner e adulam Macri e tudo o que faz, vivem para seus negócios e a informação correta vai para a lata do lixo”.

Há entradas ao vivo de diversos pontos de Buenos Aires. O noticiário acompanha o fechamento de fábricas ou casos de demissão em massa, frutos da crise econômica que, como aqui, abala o vizinho. La Mañana abre os microfones aos trabalhadores, que têm voz e vez no programa. “Na Argentina, está cada vez mais difícil fazer o que faço, as perseguições são enormes e ocorrem de todas as maneiras. Os espaços livres, do verdadeiro jornalismo, têm sido bloqueados e cerceados e acredito que o mesmo ocorra no Brasil”, afirma.
Morales na porta da rádio



Falo que a 750 AM é um milagre e que não há nada comparado no Brasil. Ele me interrompe para mostrar as notícias na tevê sobre a decisão do Congresso brasileiro de impedir a continuidade das investigações contra Michel Temer. “Há alguma possibilidade de ele perder o mandato?”, questiona. Digo que não, pelo fato da maioria dos parlamentares terem recebido “estímulos” para salvá-lo. “Não muito diferente daqui” argumenta. “Pelo que vejo, no Brasil, se não impedirem Lula de concorrer, o futuro reside na próxima eleição. Aqui o Judiciário tenta impedir Cristina Kirchner de concorrer, no Brasil fazem o mesmo com Lula. Cerceamento da lei em situações muito parecidas. Resta a nós, aqueles que ainda conseguem falar, não nos calarmos nem ser cooptados. Nosso papel é denunciar tudo, esclarecer os cidadãos”.

Para não perder o pique, Morales reveza o café com mates em uma xícara com as asas quebradas. Na saída, o radialista é frequentemente abordado por ouvintes, que levam sugestões de assuntos a serem abordados, dicas de espetáculos e eventos e CDs ou fazem pedidos. O radialista os atende com paciência no pequeno espaço entre a porta da emissora e a calçada. Tira fotos, anota os pedidos, aceita papéis e envelopes. No estúdio, a programação não destoa. A 750 AM continua a criticar Macri, o poder financeiro, os golpes na América Latina. Neste dia em especial, a rádio não deixa de noticiar o desaparecimento forçado de um militante de esquerda, Santiago Maldonado. Por um instante, o fantasma da violência da ditadura dos anos 1970 parece campear pela rádio, um oásis de diversidade e resistência.

*Jornalista e professor de História em Bauru, São Paulo. Mantém o blogwww.mafuadohpa.blogspot.com.
A capa da edição de Carta Capital, destaque para o Desastre Meirelles.
Victor Hugo durante o La Mañana na 750 AM
Gustavo  Campana
Fernando Borroni

sábado, 19 de agosto de 2017

O PRIMEIRO A RIR DAS ÚLTIMAS (44)


POR QUE NADA QUE DESMEREÇA ALCKMIN E O PSDB SAI NA IMPRENSA DESTA ALDEIA SEM LIMITES? EXEMPLOS COMPROBATÓRIOS.

Detesto fazer citações neste espaço vinda dos ainda grandes jornalões brasileiros, pois são hoje palco de mentiras e falácias. A podridão e excrecência na sua magnitude. Produzem o que de pior existe em matéria de jornalismo. Assim mesmo, vejo aqui pelas redes sociais que, um desses, a Folha de SP, sai com manchete hoje neste sentido, “Alckmin negociou pessoalmente caixa dois com Odebrecht, diz relator”: http://m.folha.uol.com.br/…/1875264-alckmin-negociou-caixa-…. Isso ainda sai na Folha, mas não no Jornal da Cidade e nem nas FMs 94 e 96, todas de Bauru. Existe um cordão de proteção para o PSDB na imprensa bauruense. Vergonhoso isso. Para o que se convenciona denominar de jornalismo sadio isso é uma lástima.

Acham que exagero? Conto duas historinhas ocorridas comigo hoje pela manhã. Almocei no Gamboa, um restaurante de preços módicos lá defronte o Bauru Shopping e lá encontro com o Padre Beto, meu antigo colega de USC, ambos cursando História. Falamos de várias coisas, quando na TV algo sobre o atentado de Barcelona, o caminhão invadindo as Ramblas e matando três pessoas. Um absurdo, como sabemos, mas Beto me dá um toque de algo além disso:


- No Brasil morrem por ano 65 mil pessoas por ano, provenientes da violência urbana e o espalhafato não é o mesmo dessa quase ininterrupta transmissão do ocorrido em Barcelona. Nossa violência está banalizada, ela não assusta mais, a de um outro grande centro sim. Essa nossa imprensa.

Sim, concordo em gênero, número e grau. Relembro o fato das Torres Gêmeas e de tudo o que foi feito e depois, mundo afora, outros tantos massacres passando ao largo nos noticiários. Aproveito e falo para o Beto do texto que consegui emplacar na edição chegando as bancas amanhã, contando a história de um radialista em Buenos Aires, Victor Hugo Morales, que faz um contraponto ao neoliberalismo. Pergunto a ele: “Quem ainda faz isso no Brasil, Beto?”. Eu mesmo respondo antes dele responder: “Não temos nenhuma rádio realmente hoje atuando dentro da verdade dos fatos. Nem seria permitido que o fizessem, tais os interesses dos donos das mesmas”. Beto ri e me conta algo a ilustrar muito bem isso tudo que escrevo neste momento:

- Sabe qual o motivo de terem me tirado do ar em Bauru? Conto para ti. No programa as pessoas ligavam e falavam ao vivo, sem censura. Uma senhora liga e faz um duro relato do sucateamento da Maternidade Santa Izabel. Quando se despede, deixo uma pergunta no ar sobre dos motivos do sucateamento. Não demorou muito liga um médico de lá, se identifica e esclarece ao vivo. Diz que o sucateamento faz parte de algo planejado, primeiro sucateiam, para depois a Famesp chegar e dar o seu jeito. Como sabem, a Famesp é o braço da Saúde de Alckmin. Foi a gota d’água. Fui chamado na direção da emissora e desligado do programa.
Um SANTO, mas do pau oco.


Na imprensa massiva tupiniquim, a da aldeia bauruense não existe possibilidade de críticas para Pedro Tobias, Geraldo Alckmin e o que representa o tucanato e o PSDB no poder. Nem adianta procurarem algo neste sentido por aí, pura perda de tempo. Eu e Roque Teodoro, servidor da Saúde de Bauru que o diga. Ano passado foi denunciado um descarte de vacinas vencidas no Postão lá na rua Quinze de Novembro. Um escândalo denunciado por mim no blog e no meu facebook. Ligo para a imprensa local e todos se interessam. Seria manchete nos diversos órgãos. Nada saiu em nenhum deles. Descubro o motivo. O descarte não foi feito pela Prefeitura Municipal, ou seja, pelo município e sim pelo Estado, por gente do Governo Alckmin. Alegaram falta de tempo, espaço e nada saiu. Querem mais? Exemplos outros existem aos borbotões. Eu, padre Beto, Roque Teadoro e metade desta cidade sabemos muito bem como tudo ocorre nas hostes da mídia da “sem limites”. Cito só mais algo para ser acompanhado pelos interessados de plantão. Escolha qual, se no rádio, TV ou jornal e veja em qual deles vai sair o que a Folha SP deu hoje em destaque. Respondo como bidu: Nenhum.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (106)


OS BRADESCOS DE ONTEM E OS DE HOJE – ESVAZIADOS, OCOS E SEM GENTE
Bradesco Bariri
 

Sou ex-bradesquiano. Foram quase quinze anos de minha vida. Aos 17 anos abandonei o emprego na FEB - Fundação Educacional de Bauru e fui ganhar o mundo, trabalhando nas hostes da Bradescor, a então corretora de seguros do banco. Aos 18 anos fui direto para Bariri, onde morei por quase dois anos. Morei numa república, a única na cidade e lá quase fui preso por junto de outro colega, ele bancário da CEF, um “Fora Prefeito” num dos muros da cidade. Lá vivenciei algo não mais existente nas agencias do Bradesco de hoje. A cidade deve ter mudado pouco o número de habitantes, mas algo mudou e muito, o número de funcionários naquela agência. Ela continua lá, como dantes, bonitona e impávida, dois andares e ocupando o garboso lugar no centro da cidade, numa esquina na lateral da praça principal da cidade. Éramos em aproximadamente 40 funcionários e cada um trabalhava e muito e hoje, passamos 30 dias se tiver cinco funcionários na mesma agência deve ser muito. O que mudou? Tudo. O banco tinha autonomia, tinha um setor só para analisar os financiamentos rurais. A agência era a mais movimentada da cidade e tudo acontecia por ali. Só de funcionários da limpeza, copa e cozinha tinha mais funcionários que todo o quadro atual.
Bradesco Jaú


De lá fui para Jaú e a mesma coisa. Trabalhei naquele prédio da hoje agência principal do Bradesco, aquela grandiosa ali na esquina da praça principal. Se em Bariri tinham 40 funcionários, aquela tinha muito mais. Tanto em Jaú como em Bariri, até hoje, nas idas e vindas, reencontro gente amiga daqueles tempos e a conversa rola solta. Passei por Jaú dia desses e fiz questão de entrar na agência. Pouca gente trabalhando por lá e aquele predião vazio. De Jaú vim trabalhar em Bauru, primeiro na agência principal, onde hoje é a Riachuelo e depois na inaugurada agência de três andares ali no cruzamento da Rua Ezequiel Ramos com Agenor Meira, tinha até um organizado setor Jurídico. A sede da Bradescor estava no terceiro andar e lá fui supervisor de seguros por alguns anos. Não sei nem mensurar quantas pessoas ali trabalhavam, mas sei por ver aquilo tudo deserto, que está tudo hoje muito pessimamente utilizado. Todos aqueles órgãos de uma antiga Diretoria Regional foram desativados e nem sei se ainda existem. Aquilo virou terra de ninguém, verdadeiro deserto do Saara. De lá fiquei mais dois anos em Marília, na agência central da Sampaio Vidal e a mesma história, dois andares hoje vazios, o andar de cima interditado.
Bradesco Bauru


Escrevo tudo isso nesse momento, comparações com trinta anos atrás para constatar como com a dita modernidade tudo piorou. Num mundo com menos gente mais empregos e hoje, num mundo com muito mais gente, muito menos empregos. Que raio de lógica é essa? A lógica do MERCADO, a lógica do CAPITALISMO, a lógica do NEOLIBERALISMO, a lógica dos DONOS DO PODER, a dos que fazem e acontecem e não estão nem aí para sanar, resolver ou pensar em como acomodar esse mundaréu de gente, cada vez mais na sarjeta, sem emprego, eira nem beira. A modernidade é mesmo uma bosta e todos os envolvidos com esse pomposo nome não possuem nenhuma sensibilidade para entender dos problemas intestinais do planeta, sendo um de seus ponto mais problemáticos, a superpopulação. Cada vez mais uma minoria comanda e dá as ordens para tudo e que se lixe o resto. O que seria isso de Leis de Mercado? São leis para regência dos que não aplicam mais grana em trabalho e sim, na especulação, dinheiro parado e lucrando muito mais do que quando investiam em fábricas, dando emprego para tudo, todas e todos. Que fazer com esse povão sem emprego?
Bradesco Marília
Vida famélica, vivendo das sobras, migalhas e cada vez mais desprotegidos, com pífia legislação a defendê-los, ou seja, um salve-se quem puder, vida de cão ou até pior, selvagem. Esse o quadro do capitalismo atual, que nem emprego garante mais para a população.

Penso nisso tudo e junto minha vivência bradesquiana para pensar sobre tudo isso? Se o mundo fosse uma bela progressão geométrica, hoje o Bradesco de Bariri teria uns 100 funcionários, o de Jaú uns 200 e o de Bauru uns 500. Mas, tudo foi computadorizado e o ocioso, não mais necessário foi parar no olho da rua e hoje, pode até estar vendendo doce naquele carrinho na frente do banco. É o que lhe restou de oportunidade.

OBS.: Na sequência das fotos, as agências de Bariri, Jaú, Bauru e Marília.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (106)


CRÔNICA DA PORTA FECHADA


Saio do banco Santander, agência na rua Rio Branco, entre a rua Primeiro de Agosto e Ezequiel Ramos, onde estava tentando saldar de forma suada umas pendengas (contas vencidas) e me deparo com algo mais do que comum no cenário do centro comercial da cidade de Bauru: uma porta comercial fechada. São tantas, mas resolvo escrever desta e por ser única no centro da cidade, a da Padaria Central, há tantos e tantos anos, diria décadas, ali incrustrada naquele cenário.

Fico parado e olhando para aquela porta abaixada e pergunto para um amigo que vem me cumprimentar, o visionário do centro, personagem típico das andanças, conhecedor de cada secreto cantinho da região, o performático Denis Marques: “Faz mais de um mês. Simplesmente não aguentaram mais o alto aluguel e a queda das vendas”.

Trata-se da única (e última) padaria do centro da cidade e isso não pouco (a do Paulistão da Treze de maio não vale). Boas lembranças trago da Torre de Belém, ali na rua Primeiro de Agosto e funcionando 24h por dia, algo hoje meio que impossível nesta "moderna e sem limites" cidade. Aquilo sim era uma padaria e um tempo relembrado só pela saudade de algo ali vivido. Mas essa também possui uma importância muito grande para o comércio central, pois com ela aberta, um marco estabelecido, fincado e resistindo. Esse ponto de peregrinação já não mais existe.

Encontro Kyn Junior, hoje tentando lançar um programa com conversas no Calçadão da Batista, na TV Preve e dele ouço: “Henrique, se tivesse capital, investiria neste ponto comercial, pois não existe padaria aqui no centro. Com ela se foi a última”. Sim, lembro de outra, mas não tão no centro, lá nos altos da rua XV de Novembro, “a do homem que não ri”, como é denominado seu proprietário por uma frequentadora, a pipoqueira Maria Inês Faneco. Lá um pão delicioso, com farinha por cima, inigualável em Bauru. Mas, confirmamos, no meio da muvuca central era a “última dos moicanos”. Lhe digo que, se tivesse dinheiro não investiria mais nada com este governo impopular, cruel, insano e carrasco do povo no poder, ia é combatê-lo com mais força.

Outro que conheço e não lembro o nome disse que “o pão deles já deixava a desejar, esfarelava demais, não era dos mais saborosos”. Isso pouco me importa no momento (eu percorro distâncias enormes atrás de pães de boa qualidade), o que me importava é a nostalgia de não ver mais aquela porta aberta. Poder subir aquela rampa (sim, lá tinha uma rampa para adentrar seu recinto principal), sentar numa das poucas mesas ou mesmo sentar no balcão e pedir um café com pão na chapa já não é mais possível. Se deixavam a desejar (o que não confirmo) no quesito pão, tinham algumas funcionárias, atendentes de primeira linha, atenciosas e conversadoras, como qualquer velhinho como eu adora e clama. Passava pouco por lá e isso foi o que talvez os quebraram, quando muitos deixaram de frequentar com mais frequência o lugar. Ouço horrores do preço dos aluguéis no centro e da irredutibilidade de proprietários em não se sujeitar a rebaixar valores de aluguéis, preferindo manter portas cerradas. Para mim, burrice, para eles, melhor especular.

Mais que isso, a porta baixada é reflexo desta cruel crise, aumentada e ampliada com esse desgoverno golpista de Temer & Cia. O país está sem graça, sem ânimo, sem nenhuma empolgação, se arrastando com tanta desgraça nos seus altos escalões e os do lado de baixo, nós todos aqui ralando na sobrevivência, cada vez mais difícil, impossível para alguns. Esse fechamento é simbólico, de uma incomensurável tristeza. Virando a esquina o bar do Japa, onde muitos se reuniam para um café pela manhã também fechou. Numa placa escrita à mão diz ter mudado de endereço. Não fui conferir para não me entristecer.

Eu que ando muito pelas ruas, entro em cada botequim, muito me entristece ver portas fechadas e elas se espalham em profusão hoje, parecendo praga, doença sem cura. Que a grana anda curta, disso nenhuma dúvida, pois com a sacanagem toda lá do Planalto e de quem apoia aquilo, nada sobra para os da rua. Nem mais migalhas. Não me sairá da lembrança a fisionomia dos donos deste lugar, pai e filho. Nos últimos tempos, via mais o filho e nunca conversei nada com ele além dos cumprimentos normais. Por onde andará? O que foi fazer da vida? Perguntas que gostaria de fazer para todos os que foram obrigados a fechar definitivamente suas portas.

A Padaria Central é somente mais uma, pois tantos outros no entorno padecem do mesmo mal, das mesmas dificuldades e já não sabem mais o que fazer. Fechar ou fechar. Continuar aberto para que, se os clientes se evaporaram com o vento, muito pelo momento bestial vivido pelo país. Antes de me ir, fui lá na porta e dei três batidas, numa espécie de amuleto, chamado para com o além, um clamor para que o som possa ser ouvido por alguém numa instância desconhecida. Nem café tomei em outro lugar naquele dia.


PS.: E o banco Santander onde fui pagar as contas, esse não fecha de jeito nenhum. Se o fizer é só mundança de local de recolhimento de nossa suada grana.