sexta-feira, 22 de junho de 2018

BAURU POR AÍ (___)


ROSE TRABALHA ENQUANTO O BRASIL JOGA NA COPA E DIZ NÃO GOSTAR DE FUTEBOL
O segundo jogo do Brasil na Copa do Mundo da Rússia estava prestes a começar e como tudo previamente combinado, o país parou e os avisos espalhados por todos os lugares anunciavam: “Em função do jogo abriremos na sexta somente às 12h”. Pouca coisa funciona no país do futebol no período da duração de um jogo de Copa. Alguns não têm como parar seus ofícios e trabalham. Um amigo dono de restaurante me disse ontem que foi difícil escolher quem poderia preparar o almoço da sexta, algo que tem que ser feito impreterivelmente no horário da contenta com a Costa Rica, marcado para 9h, com término por volta das 11h. Findo o jogo, batendo a fome, a comida terá que estar pronta à espera desses todos. Conto a história de uma senhora, moradora do Geisel e me dizendo um dia antes: “Irei trabalhar como sempre o faço às 8h. Não gosto de jogo e meus compromissos não me permitem o luxo de parar nesse dia”. Conto abaixo algo dessa pessoa, uma dentre tantas fazendo vista grossa para a Copa e ralando todo dia.

ROSE é diarista, faz faxinas e antes possuía agenda cheia, de segunda a sábado e também em alguns domingos. A renda advinda do trabalho é primordial para manter os gastos de sua casa. Hoje sua rotina se alterou, pois não consegue mais ter os dias preenchidos. Quem fazia faxina toda semana, com o que ocorre ao país atualmente, esse intervalo foi dilatado. Daí, profissionais como ROSALINA DA SILVA, 46 anos, uma trabalhadora braçal como tantas outras, buscam hoje ampliar o número de clientes, para no mínimo, não deixar sua renda cair mais do que ocorreu de uns anos para cá. Mora no bairro Geisel, quase ao lado da Perdigão, numa modesta casa, ao lado do marido e de três filhas, uma maior de idade. Num dia como hoje, o marido conseguiu só iniciar seu trabalho após as 12h, mas ela não. A “patroa” que a receberia nesse dia, disse que poderia chegar mais tarde, mas ela pensou consigo mesmo, “se o fizer, terei que ficar até mais tarde e como não gosto mesmo de futebol, para mim nada muda e a só por ter conseguido mais uma nova casa, me sinto recompensada”. Sua rotina é essa, sai de casa bem cedo, desce de ônibus até a cidade e de lá, se a distância for grande, outro até o local. Combina sempre 8h e fica até por volta das 18h, mas pedirem, acaba ficando até mais tarde, pois sabe muito bem, “com as coisas mais do que difíceis, melhor agradar do que desapontar e impor a saída no horário combinado”.
No trabalho do dia de hoje a deixaram a vontade, mas nem espiou o jogo e só ficou sabendo do resultado no final, ou pelos gritos ouvidos da sala. Rosa, como gosta de ser chamada não escolhe serviço e vai aonde é chamada. Cobra um preço considerado justo e dentro da média das outras exercendo a mesma função. Ruim mesmo quando num dia pega uma casa menor e noutro uma imensa, cobrando o mesmo preço para ambas. Sua rotina não termina ao sair do duro expediente de cada dia, pois ao chegar em casa, mesmo com as filhas já tendo adiantado muito, sempre encontra muitas outras tarefas para serem realizadas. Por fim, vê pouca TV, mesmo até gostando e só não o faz mais por absoluta falta de tempo. Quando sua rotina se encerra já está na hora de deitar e descansar, para tudo começar no dia seguinte. Chato mesmo, diz, quando acorda e não tem nenhuma casa para limpar no dia. Sabe que, o dinheiro que muito a ajudará nas despesas da casa naquele dia não vai entrar e assim, um buraco a mais no orçamento.

ESSE SIM FOI PÊNALTI E ESCANDALOSO: https://www.facebook.com/Globoesportecom/videos/10156625002675409/

quinta-feira, 21 de junho de 2018

RETRATOS DE BAURU (215)


DAMIÃO COM SUA INCREMENTADA BICICLETA ALEGRA AS RUAS DA CIDADE
Paro no sinal e uma moça simples me entrega um folheto de revenda de carros. Lá o último lançamento, um que custa a bagatela de R$ 200 mil reais, fora a manutenção. Ao meu lado, vejo um senhor passar com um galão nas mãos e seguindo cabisbaixo em direção ao posto de combustível. Com certeza vai gastar algo além do que pode, tudo para manter rodando seu meio de locomoção. Sigo em frente e na Baixada do Silvino eis que encontro alguém a me alegrar o dia. Barra das calças amarradas por um saco plástico feito cordão para não enroscar no cilindro de sua “magrela”, alguém com um sorriso a me fazer ganhar o dia. Paro tudo, o abordo e aqui conto algo de sua história. Assim como ele mudou o meu dia, espero que mudem o de muitos vendo algo no horizonte descolorido, insosso, inodoro e insípido do mundo atual. Sempre existirá algo para nos ajudar a reverter o desânimo, eis um exemplo.

DAMIÃO DE OLIVEIRA BARRETO, 56 anos, mora na Pousada da Esperança e diariamente cruza a cidade, ida e volta, mais de 8 km, até seu local de trabalho, a sede da editora Edipro (a da Jalovi) na rua Primeiro de Agosto, circulando e pedalando sua incrementada bicicleta, seu meio de locomoção. É porteiro há 22 anos e nesse tempo todo fez muito pouco uso do ônibus circular, pois circula mesmo é com sua potente “magrela”. O que chama a atenção é como foi ao longo do tempo a transformando numa peça colorida e chamando muito a atenção por onde passe. Fui lhe perguntar como tudo começou? Religioso, diz ter “sido um projeto divino, dos céus. Ele me deu a inteligência e eu a usei”. Ele a adesivou com logomarcas de várias empresas, uma ao lado de outra, numa composição tipo a dos parangolés do Hélio Oiticica ou mesmo as peças do Bispo do Rosário e assim as expõe à visitação pública, advinda dos olhares a ele dirigido pelas ruas. Em cada nova abordagem, explica em detalhes cada colagem e do que vai juntando, do gosto por embelezar aquela que o leva cidade afora e como produz com esmero a manutenção do aparato. Nas horas vagas, numa oficina em sua residência ainda encontra tempo para manter ativa uma oficina de conserto de guarda-chuvas, essa funcionando há 18 anos (pedidos podem ser feitos na portaria da Edipro). Um senhor de bem com a vida, fazendo algo que gosta, feliz por ter conseguido com o que fez, atraiar novas amizades, conversas variadas e dessa forma, não passar despercebido. Estampado em sua face um permanente sorriso, advindo das explicações nas abordagens. E na despedida, monta na sua possante, que diz custar mais de R$ 2 mil e segue seu caminho. Diz ter que sair mais cedo de casa todo dia, pois muitos o param e daí, com as conversas tem receio de chegar atrasado ao serviço.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

DICAS (173)


REENCONTROS BAURUENSES

1.) MANZANO, OS TRÊS MOSQUETEIROS DA ENCADERNAÇÃO
Tem história que não pode passar em branco e muito menos ser esquecida. A da encadernação em Bauru passa por um famoso sobrenome, muito conhecido na cidade. Trata-se de uma profissão meio que em extinção ou cada vez mais restrita e segmentada. Tempos atrás, mais precisamente em 2009 contei a história de outro com a mesma persistência, seu Clóvis de Garça. Eis o link: https://mafuadohpa.blogspot.com/search…. E a do seu Vaz, de Novo Horizonte: https://mafuadohpa.blogspot.com/search…. Em ambos, algo muito triste, fizeram sucesso, mas não tiveram solução de continuidade. Nenhum filho ou parente deles deu continuidade na atividade exercida brilhantemente pelos anfitriões. Conto algo desses três irmãos de Bauru.

MARCOS, BETO E LAERTE MANZANO estão na atividade de encadernação há exatos 55 anos. São uma referência na cidade e região quando o assunto são a "capa-dura, teses, encadernação, espirais, livros fiscais, binder, restauração e TCC". O lema da empresa está expresso no cartão de visitas, "a qualidade ao lado da arte". A imensa maioria das bancas de revistas os indicam para encadernar revistas e enciclopédias, além do mesmo ocorrer nas universidades para os trabalhos acadêmicos. Trabalhando num mercado muito segmentado, muitas empresas já atuaram nesse ramo, mas com o passar dos anos, muitos não resistiram e foram em busca de outras atividades. Eles permaneceram, sempre no mesmo lugar, estabelecidos ali na rua alto Acre nº 3-42, começo do jardim Bela Vista. A atividade ainda é o sustento da família desses três abnegados irmãos, tirando leite de pedra e tocando o barco para a frente. Não perdem a esperança de quando cansarem, chegarem o tempo de parar, consigam entre os seus encontrar algum Manzano para dar prosseguimento ao negócio. Quem circula por lá e vê todo o maquinário conseguido ao longo dos anos, muitos hoje quase ociosos, não imagina o quanto fluia de movimentação e barulho naquele recinto. Hoje, eles mesmos dividem as tarefas e se safam com maestria e sutileza, buscando um mercado junto a quem sabem ainda necessitam de um trabalho bem feito. Seguindo rigorosamente as normas estabelecidas para armazenamento de trabalhos acadêmicos, seguem por saberem atuar num filão, que mesmo diminuido a concorrência, seguirá sempre necessário. Os Manzano são a cara da encadernação na cidade, sabem disso e até por causa disso não deixam a peteca e nem a qualidade cair.

2.) ZÉ DA VIOLA NOS DEIXOU...
Ontem ciurculando e pagando contas pelo centro velho da cidade, rua Gustavo entre Ezequiel e 1º Agosto sou abordado por um cidadão me chamando pelo nome. Abro um baita sorriso, desses de boca a boca. Era seu ZÉ DA VIOLA, um violeiro e sanfoneiro que já comandou na aldeia bauruense casas noturnas aos estilo arrasta pé da maior responsa. Foi meu número 1 dos relatos que faço regularmente aqui, o Personagens Sem Carimbo - O Lado B de Bauru. Era lindo vê-lo nos shows cidade afora com a disposição de quem é grandioso, mas adora observar o que os colegas aprontam pela aí. Certa vez um garoto de uma orquestra lhe disse ser maestro. Ele me disse: "Tive que rir, pois estudei música a vida inteira e não cheguei nem perto disso". Triste foi vê-lo tempos atrás vendendo picolé pelas ruas da cidade, mas o fazia com a devida galhardia e dignidade, algo que nunca dele estiveram distantes. Grande figura humana, um que abrigou em seus forrós n ada menos que Toninho Ferraguti, hoje um músico universal, mas sendo de Botucatu, começou sanfonando com ele na periferia bauruense.

Pois bem, Zé da viola estava sumido e já comentava comigo mesmo: Por onde andará o Zé? O via muito lá pelos lados do Pingueta, mas desaparaceu misteriosamente. Estaria doente? Hoje elucidei a charada. O velho bardo não está mais morando em Bauru e sim, no Guarujá (pertinho do tal apartamento que os malvados enfiaram como sendo do Lula só para tirá-lo do pleito já ganho). Foi abrigado por uma sobrinha generosa e no sorriso diz estar feliz da vida. Me passa o mapa e diz para passar a notícia adiante. Está localizado bem defronte o Hospital Santo Amaro, ali ao lado a Amanda Cosméticos, da sobrinha e também ali perto o restaurante Nino's (três na cidade), da irmã Cecília, onde almoça e janta todos os dias. Mora na rua Rivaldo Fernandes 368, 3º andar, apartamento 31, jardim Tejereba (nome de um peixe). Passo a notícia adiante, como me pediu, pois pedido de Zé da Viola é para mim uma ordem. Esse é um daqueles que adoro reencontrar pelas ruas, bate papo alvissareiro garantido. Gente da melhor estirpe.

terça-feira, 19 de junho de 2018

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (113)


CONVESCOTE ESQUERDISTA NAS BARBAS DO GENERAL E NA NOITE DE SEGUNDA

Antonio Pedroso Junior hoje morando em Sorocaba, quando retorna para a cidade, nem que seja por alguns dias, não gosta de permanecer sozinho. Já vai fazendo contatos na viagem de volta e tenta aglutinar amigos para que o esperem com a devida pompa no seu quartel general, o General Bar, ali ao lado do clube Nipo Brasileiro. Dessa feita os consistentes chamativos despertaram a atenção de alguns e mesmo numa segunda-feira um tanto friorenta, os motivos eram mais do que fortes.

Numa mesa do lado de fora do estabelecimento, sem a proteção de uma mera cobertura, todos sujeitos às intempéries da natureza, o convescote foi de todo animado, pois um dos requisitos básicos para a convocação era o de pertencer ao segmento da esquerda bauruense. Lá estiveram além do proponente, Darcy Rodrigues, o sempre lembrado como braço forte do sempre saudoso capitão Carlos Lamarca, Milton Dota, um ex-vereador desses que faz falta em qualquer Casa de Leis, José Canella, um que não mudou de lado mesmo tendo auferido sucesso nos seu empreendimento comercial, Jeferson Rodrigues Barbosa, o Jeffé, emérito professor de Ciências Sociais da Unesp Bauru e mentor político de uma pá de boas histórias dos bastidores dessa cidade, Eduardo Piotto, o vigilante, ou simplesmente um dos diretores de um dos Sindicatos dos Agentes Penitenciários da região e este escriba.

Imaginem os senhores a conversa que rola num encontro como esse, regado a algumas doses de uma boa cachaça e muita cerveja, gelada como só o Wagnão, dono do bar numa das encruzilhadas mais politizadas da cidade e de sua esposa e partner, prestativa até a medula em petiscos de grande valia intestinal? Sentiram o clima? Na verdade, nem sei por onde começar. Assunto não falta a todos para, não só se reunirem, como deitarem muita falação. O convescote durou bem umas quatro horas e não teve a presença feminina, não que elas não fossem convidadas, mas pelo não comparecimento. Seriam e são sempre bem vindas, pois estariam muito bem enfronhadas com a temática pairando no ar.

De cara um compromisso assumido. Pedroso está realizando encontros de bate papo futebolísticos, com mistura de temas políticos com nada menos que Afonsinho, o primeiro jogador a receber passe-livre no futebol brasileiro e o irmão do Zico, o revolucionário Nando, o primeiro jogador anistiado do país. Uma mistura que dá um papo desses de adentrar a noite. Definido que, quando estiverem em agosto na vizinha São Carlos, o grupo de Bauru os trariam para fazer o mesmo em algum lugar ainda sendo pensando por aqui. Falou-se de todos esses que, de uma forma ou de outra infernizaram a vida dos dirigentes esportivos deste país, desde os dois, mais Sócrates, Almir Pernambuquinho e outros capetas. Em agosto a coisa vai acontecer por aqui, compromisso selado na mesa do bar.

A novidade na mesa e desses que circula por aqui com maior espaçamento de tempo ficou por conta do Jeferson, uma espécie de guru político de muitos ali presentes e de outro tanto ausentes. Da conversa sobre quem lançou quem na política, quem fez isso e fez aquilo, viro para ele e lhe provoco: “Isso tudo que ouço aqui não está ainda contado em nenhum livro, registrado em lugar nenhum. E por que não escreve isso? Tem muita história para contar”. E provocado pelos da mesa, as histórias fluem, umas cabeludas, outras picantes, mas todas por demais interessantes. Poderia dar nomes a alguns bois aqui, para ir levantando a lebre de tanta coisa que falta ser revelada sobre o passado político bauruense, mas não o faço, até por não ficar publicando pequenos fragmentos. Num bar, esses são esmiuçados no pé do ouvido, mas colocar no papel, mereceriam melhor acabamento. Fica para outra ocasião, mas ouvir coisas que ainda não tinha tomado conhecimento de bastidores.

Darcy rivaliza, no bom sentido, sem que nenhum tenha necessidade de fazer uso da faca na algibeira, com o Pedroso. São histórias compridas de um lado e de outro. Eu e Zé Canella, ouvidos atentos, mais calados que falantes, aprendendo com a sapiência da somatória dos anos ali desfraldados. Divertido ver como ocorrem as interrupções nos relatos. Esses tem muito o que falar e quando diante de uma rica oportunidade como o dessa noite, a aproveitam nos seus mínimos detalhes. Outro que esbanja histórias é o Dotão, um sempre procurado para se lembrar de algum detalhe esquecido no meio de uma história. “Quem é mesmo aquele que...?”, buscam a revelação pela mente sempre atenta e acervo de valorosa consulta coletiva. Eu sei que num certo momento, nem sei quem dos presentes, mas relembraram de uma reunião, nem sei se clandestina ou não, mas ocorrida numa mesa de bordel. Um deles reafirma: “Muita coisa eram decidida nessas mesas”.

Jeferson contou uma linda história da rua onde mora em Natal, a São Matias, sobre a escolha de Cristo para ele completar o quadro de discípulos após a traição de Judas. “O mais simples, o menos empoado, o com menos cabedal e pompa”, diz. E explica dos motivos. O assunto recai no tema comida e por fim num especialista, o folclorista Luiz Câmara Cascudo. Todos versam sobre ele e eu para encerrar o assunto conto algo dele sobre comida. “Perguntaram a ele, entendido de todas as comidas brasileiras, qual a melhor de todas. Ele não vacila, responde curto e grosso, a melhor mesmo é a que produz uma boa bosta”. Um assunto vai puxando outro e dentro das possibilidades e do poder de convencimento de cada um dos presentes, cada um fica por instantes com a palavra e a faz uso da melhor maneira possível.

Ali ninguém quer convencer ninguém de nada, nem ser um pedante com o outro, querer aparecer, nada disso. Trata-se de uma conversa entre velhos amigos e conhecidos. Em alguns momentos a roda se divide, um ou outro se afasta para uma conversa mais ao pé do ouvido, um assunto entre paredes, mas logo o grupo está refeito e o furdunço tem continuidade. Claro que o assunto permeando as boas discussões foi a política atual e o momento vivido com essa insano e cruel golpe sob os costados de todos. Todos com Lula e alguns até mais confiantes. “Sai essa semana”. Outros menos. “Sai só quando não representar mais perigo para os canalhas no poder”. Esquerda reunida, vários segmentos dela ali juntados, todos com uma longa história de vida política, mas com uma convergência, a de estarem perfilados com Lula neste momento da vida nacional. A cada menção são sacados relatos do arco da velha, histórias revividas e enquanto cada um conta uma, na preparação muitos outros relatos, uma na sequência do outro, mal dando tempo para a fungada respiratória.

Quem acabou a festa foi o Wagnão, com o seu jeito de simples de resolver isso da última mesa a ser fechada num bar, sempre com aqueles renovando a cada chamado a saideira e isso tendo prolongamento sem definição garantida. Mesas são retiradas no entorno, cenário ficando pelado, mas essa resistindo. O dono dá uma de elefante numa loja de cristais, entra na conversa mais para dispersar o grupo e só consegue no adiantado da hora. Assunto existia para muito mais e a promessa é algo dessa natureza ter prolongamentos em outras oportunidades, talvez na próxima visita do Pedroso à Bauru. Foi só o pessoal se levantar, até a mesa foi recolhida e quando um olhou para o outro, todos em pé, luzes sendo apagadas, o jeito foi ir dormir. Mesmo com a desfeita, a conta foi paga.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

COMENTÁRIO QUALQUER (176)


FRAGMENTOS DE UMA CONTURBADA SEGUNDA


1.) O CARA VEIO QUERER DISCUTIR SOBRE NÃO VIVERMOS NUM ESTADO DE GOLPE, GOLPISTAS E TENTEI EXPLICAR, NÃO CONSEGUI...
Vou até meu limite com esses. Tento fazê-los entender da besteira que fazem ao estarem do lado dos que vendem o país a preço de banana. Insistem em me denominar petista (como se o termo fosse depreciativo), pelo simples fato de me opor ao que pensam. Fazem uma defesa extremada do neoliberalismo, mesmo o país se encontrando num afundamento nunca visto, quebradeira generalizada, instituições todas comprometidas com o que de pior temos. Defendem como lhe vendem a ideia de se desfazer de tudo, privatizar tudo e não aceitam reconhecer o óbvio, o de que tínhamos um país muito mais decente e viável do que o atual nos tempos de Lula. Por fim, para um desses, envio essa frase de Fidel e isso, creio eu, mais o enfureceu do que melhorou a situação, pois não deve ter nem lido (nem sei se entenderia a mensagem) e já me chamou de comunista. Não perdi mais tempo, deletei e fui tomar um copo de vinho. Não sou pedante, metido a besta, desses que se acham superior a ninguém (até por que isso é uma grande besteira), mas em alguns momentos não existe nenhuma chance em continuar perdendo tempo com quem está enfileirado com a derrocada do país enquanto nação soberana. Triste Brasil.

A frase de Fidel caindo como uma luva para tentar encraminholar algo mais na cabeça de quem está iludido pelo capitalismo neoliberal e não aceita mais nada, mesmo não sabendo direito o que lhe enfiam goela abaixo:


“... Não admitam que ninguém acredite em nada que não compreenda. Assim se produzem fanáticos, se desenvolvem inteligências místicas, dogmáticas, fanáticas. E quando alguém não compreende algo, não parem de discutir com ele até que compreenda, e, se não compreende hoje, compreenderá amanhã, compreenderá depois de amanhã, [...]. Que ninguém vá a nenhuma escola revolucionária para ser doutrinado. Que ninguém se deixe doutrinar, que ninguém aceite absolutamente nada que não compreenda. Que vá educar-se, aprender a pensar, aprender a analisar, a receber elementos de juízo que compreenda ....", Fidel Castro, 1 de dezembro de 1961.

Eles não compreendem o que se passa de fato com o país, mas insistem em continuar o destruindo e ao lado dos piores. O vinho me salva.

2.) O QUE ESSA CARMEN LUCIA FAZ AO BRASIL É ALGO DE INTOLERÁVEL - MINO CARTA FOI NA VEIA NO SEU EDITORIAL DESTA SEMANA EM CARTA CAPITAL: https://www.cartacapital.com.br/revista/1008/a-medusa

3.) LA MANO DEL 10 – MARADONA E VICTOR HUGO MORALES
O programa de TV que fez muito sucesso na Copa do Mundo no Brasil está de volta. O bate bola entre esses dois craques, cada um na sua especialidade com os pormenores da transmissão da Copa da Rússia, exclusividade da Telesur para mais de 60 países é algo que faço questão de indicar. Coloquei de fundo aqui nas atividades das quais estou incumbido de cumprir aqui pelos lados do Mafuá e deixo a coisa rolar solta. O papo flui e preenche os espaços. O link dos primeiros programas está abaixo relacionado e para quem gostar, vasculhem pelo google, youtube e continuem assistindo algo fora dos padrões que vemos nos programas esportivos brasileiros. Ótimo ver declarações como essa dos ouvintes/telespectadores: “Abrazo fraterno de los pueblos comprometidos con la liberación del "neoliberalismo"!! Abrazo latinoamericano!! Estamos de pie y muy vivos,más que nunca!!!”. Imperdível a homenagem de Maradona para o ex-presidente Lula, algo que nenhum jornalista brasileiro na Rússia teve a ousadia ou a coragem de fazer até o presente momento. Nesse cruel momento vivido por Brasil, Argentina e a maioria dos países latino-americanos, a fala dos dois versando livremente sobre futebol, política e nossos povos é um alento, algo para recarregar baterias:

1ª transmissão - https://www.youtube.com/watch?v=CbL5JuW8uQ8
2ª transmissão (convidado especial: presidente boliviano Evo Morales) - https://www.youtube.com/watch?v=CW4aptCZ118
3ª transmissão - https://www.youtube.com/watch?v=x3AdLXAwTE4
Outras transmissões - https://twitter.com/DeLaManodelDiez?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.telesurtv.net%2Fnews%2Fmexico-alemania-maradona-mundial-rusia-2018-de-la-mano-del-10-20180617-0071.html
A chamada da Telesur - http://delamanodeldiezmaradona.telesurtv.net/

4.) COXINHAS SÃO BOÇAIS, BESTIAIS E INSANOS POR ONDE PASSEM, AQUI OU ALHURES...
Eis o mais novo exemplo, torcedores brasileiros envergonhando o Brasil por onde passem. Isso vai além de torcer, vai além de ser um cidadão universal, mas demonstra muito da bestialidade dos que estão pela aí pululando malversações contra nossos costados.

Eis o link da bestialidade desses na Rússia: https://www.diariodobrasil.org/russia-atitude-grotesca-de-torcedores-brasileiros-repercute-no-mundo/

5.) CADÊ O ÂNIMO BRASILEIRO, ERIC NEPOMUCENO, IN PÁGINA 12
Ótimo para dar o pontapé inicial em mais uma semana enfronhado neste cruel e insano golpe arrastando o país para o caos. Elis o link para ler o texto: https://www.pagina12.com.ar/122360-un-brasil-sin-animo

domingo, 17 de junho de 2018

COMENDO PELAS BEIRADAS (56)


DUAS HISTÓRIAS DO DIA DE ESTRÉIA DO BRASIL NA COPA DO MUNDO


1.) ACORDO DOMINGO E VOU REVER MEU AMIGO...
A rotina dominical passa pelo Gustavo Mangili. Ele é filho de outro amigo, o Claudio Vieira, dono da banca de jornais e revistas do Paulistão na Nações. Antes tiveram uma banca na Duque, quase esquina com a Gustavo Maciel e era ali que comparecia todo domingo pela manhã. O faço para ir buscar a revista semanal que faço questão de ler, a Carta Capital. Enquanto o pai hoje toma conta da banca lá na frente do Confiança da Falcão, o filho abre essa na Nações e aqui permanece durante o dia todo. Ele já me confessou que o negócio de revistas está em baixa e para não fecha-lo, inovou e o incrementou com uma charmosa tabacaria. O local atrai clientes variados, fumantes de toda estirpe. Vejo desde seda como fumo para todos os gostos. Tem até para o nargilê, aquele que todo mundo fuma na mesma embocadura. Sei que o Gustavo não abre tão cedo como pai fazia, daí chego sempre entre 8h30 e 9h. Sou um dos primeiros a levar a revista. Não saio do estacionamento enquanto não a folhear por inteiro. Minha rotina dominical.

Hoje pego o Gustavo abrindo a banca e carregando para dentro uma pilha de jornais, os mesmos que ele espera saírem de lá nas mãos dos clientes. Nesse período de Copa, me diz, apareceram alguns a mais, tudo pelo motivo do futebol estar dominando a cena. Tiro uma foto sua carregando a pilha e ainda com a olheira da noite mal dormida. Jovem, mesmo apaixonado pela companheira colombiana, não tem cara de quem dorme cedo. O conheço desde muito moleque, dos tempos que o pai vindo de Marília aqui aportou e nunca mais parou com esse negócio de vender revistas. Moravam ao lado da banca ali na Duque e até em festas na casa deles acabei indo, amizade nascida do contato com isso de frequentar bancas.

Tenho uma linda história com o Gustavo e já a contei num longo texto no Mafuá. Ana Bia Andrade, a companheira de todas as horas herdou a biblioteca do pai após seu falecimento e depois de muito tempo no meio dos livros, alguns foram vendidos para um livreiro de Araraquara. Mas como levar os livros do Rio de Janeiro para o interior paulista? O Cláudio me emprestou sua pick-up e fomos ao Rio eu e o Gustavo. Passeamos um pouco, lhe apresentei a cidade, circulamos pelos pontos turísticos e voltamos com ela abarrotada. Descarregamos tudo na livraria em Araraquara. Coisa de amigos. Como não gostar deles? Minha fidelidade hoje demonstro comprando minha revista semanal ali com ele todo domingo pela manhã. Mantenho o contato e seguimos em frente com a amizade.

São dois batutas, cheios de boas histórias para contar. Se tivesse mais tempo sentaria lá numa das cadeiras de um bar que montaram junto da banca das Nações e ficaria registrando seus causos. Todo ambiente como o deles produz belos relatos de vida. Eu mesmo já presenciei gente paciente como eu esperando do lado de fora da banca, sentadinho no meio fio, até que o dono chegue com o seu objeto de consumo. Hoje compro o pouco que leio em duas bancas, essas dessa família e algo mais na da Ilda, lá defronte o Aeroporto. Até poderia fazer assinatura do que leio, mas não o faço, pois perderia o contato com eles e sem motivo para ir visitá-los com a frequência que faço, não tomaria conhecimento das belas histórias que me contam. E como sabem, não fico sem elas. Nada como acordar num domingo de manhã sabendo de antemão do roteiro a ser seguido, primeiro a banca, folhear a revista preferida e depois ir pra feira, a do Rolo e lá se esbaldar no recanto mais democrático desta cidade. o que vem demais eu não tenho programado, mas desses dois não abro mão.

2.) O SORVETEIRO SOZINHO NA PRAÇA
Meia hora antes do jogo começar eu volto pra casa. As ruas já estão vazias. Tudo bem, hoje é domingo e mesmo que alguns continuem afirmando não irão torcer pro Brasil, dificilmente deixarão de ao menos assistir o jogo de estréia na Copa. Venho subindo pela rua Antonio Alves e já na praça Rui Barbosa, pouco movimento. O movimento que vejo são dos apressados tentando de tudo para chegar em casa antes do apito do juiz. Eu um deles. Acelero, chego nos sinais, olho dos dois lados e atravesso, outros fazem o mesmo. Somos os apressadinhos de última hora.

Ao passar defronte a pista de skate junto do Aeroclube algo me chama a atenção. Uns três jovens ainda estão na pista, mas do lado de fora mais ninguém. Epa! Vejo alguém e é dele que quero escrever. Um sorveteiro, jeitão queimado pela inclemência do sol, desses que devem permanecer muitas horas por dia rodando por aí atrás de uns caraminguás. Está ali com seu carrinho e em busca de perdidos clientes. O dia não está tão quente, o que já é motivo para não ter uma clientela como nos dias onde suamos à cântaros. A sua imagem me faz até parar o carro e esquecer por instantes da pressa para chegar em casa.

Paro o carro e vou lá chupar um picolé. Comprei um de goiaba e puxei conversa. Perguntei se não iria assistir o jogo. Ele me disse que gostaria, mas pegou o carrinho cedo e ainda tem muito para vender. "Não foi um dia bom, está frio. Não posso devolver o carrinho pela metade. Vou insistir por aqui, pois os meninos lotam aqui de domingo à tarde, mas hoje vejo que não vai ser a mesma coisa. Sempre pinta alguém e depois me contam o resultado. Vejo os gols à noite, pois tenho que levar algum para casa", me diz. Nem um radinho de pilha o acompanha na sua rotina de trabalho.

Não lhe perguntei mais nada. Volto para o carro e antes de sair em disparada para casa, dou mais uma olhada para trás e ele lá, agora praticamente sozinho com seu carrinho. Quantos não estão pela aí tentando algo a mais para sanar buracos enormes no orçamento? E volto pensando cá com meus botões algo ainda mais triste: se agora, quase 15h, temperatura ainda quente, ninguém nas ruas, quando o jogo terminar, depois das 17h, o frio e vento vai estar se instalando lá naquela região da cidade e as chances de vender serão cada vez menores. Triste deixá-lo para trás. No caminho outros apressados e retardatários correm para chegar em casa antes da contenda começar. A TV ligada, jogo começando e eu pensando no sorveteiro lá na praça, ele e mais ninguém lá na praça. Uma hora dessas até os garotos já se foram. Tô quase saindo no intervalo só pra ver se ainda está por lá e escolher mais um picolé de fruta. Um pra mim, outro pra Ana Bia.

sábado, 16 de junho de 2018

FRASES DE UM LIVRO LIDO (128)


ESCREVER DAS PEQUENAS COISAS, MINÚSCULOS MUNDOS, COMO FAZIA JOÃO ANTONIO, ISSO É O QUE ME INTERESSA

A desilusão com esse país é incomensurável. Suas instituições estão todas, ou falidas ou comprometidas com o retrocesso, essa bestialidade neoliberal que tudo faz em prol de uma ínfima minoria e apronta de todos os jeitos e maneiras com a maioria do povo. Mais do que cansado, não vejo mais nenhum outra saída para o país. Ou vamos pro pau ou vamos camelar e muito daqui para frente. Minha fuga se dá pela leitura. O faço com quem escreve com os olhos voltados para os desvalidos. Tenho minhas preferências. Um deles, JOÃO ANTONIO, cronista de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, um clássico das quebradas, das ruas deste país. Ele me inspira e com sua releitura, tento sobreviver a esses brutais e insanos tempos. Reli quase de uam sentada um livro sobre esse grande escritor, o “João Antonio – Coleção Remate de Males nº 19” (Revista do Departamento de Teoria Literária, Unicamp, Campinas SP, 1999, 174 páginas). São textos acadêmicos e jornalísticos sobre o que representa escrever sobre esses tipos enfronhados nas quebradas das cidades. Nas frases recolhidas muito do que quero fazer e produzir daqui por diante, meu campo de ação, algo assim:

- “Adorava o mundo da gente simples, classe baixa e desendinheirada. (...) Tudo o que rompia com os padrões estabelecidos, com a falsa moral burguesa, lhe agradava. (...) Uma bosta muito grande é o desfile das vaidades pequeno-burguesas, a limitação mítico-religiosa em que vivem nossos pais, avós, etc”, Caio Porfírio Carneiro.
- “...flagrador da realidade paulista urbana e suburbana. (...) Ele escrevia frequentemente à mão, para ter o gosto físico de sentir as palavras saindo diretamente de seus dedos para o pouco do papel, prolongamento da ebulição artística que implodia de seu corpo. (...) Convivendo com os malandros que encontrava em suas aventuras andarilhas pelas ruas, becos e bocas de São Paulo. (...) Acredito nos meus vagabundos, amei de verdade os meus vagabundos. (...) Prefiro criaturas e viventes que se mexam com humildade, que tenham tolerâncias”, Ilka Brunhilde Laurito.
- “Suas criaturas são esfoladas pela lâmina da desproteção social. (...) Se a rua é uma escola, o bar é uma universidade. (...)O escritor dos párias e dos enjeitados sociais”, Lourenço Diaféria.
- “O gosto de olhar livremente as pessoas anônimas e deixar acontecer por elas um sentimento atávico, uma intuição que faz vasculhar personagens e imagens. (...) Não é pequena a tua coragem ao escrever sobre as pessoas comuns. (...) As pequenas coisas, desde que sejam tratadas com arte, possibilitam uma revelação de destinos. Justamente porque são pequenas e aparentemente insignificantes. (...) Perdido em largas caminhadas pela cidade. (...) Se atém a coletar sinais do imediato no mundo. (...) A cor e o volume das pequenas coisas só chegam ao texto pelo esforço da atenção sensível – atitude cada vez mais rara em quem escreve, convenhamos”, Fernando Paixão.
- “A arte de verdade é estar livre e assim conseguir se livrar da vontade de poder, de usar o poder de mandar. Competir para mim é imoral. (...) Detestava estar ao lado de quem venceu”, Ellen Spielmann.
- “Se eu fosse escrever como falo ninguém me lia. (...) Capacidade de desmistificação e a coragem de remar contra a maré. (...) Sua narrativa nos joga no universo noturno de São Paulo, ao redor de alguns marginais moídos pela vida, procurando um jeito de sobreviver por meio da trapaça, da esperteza, da brutalidade. (...) A sobrevivência depende de uma lei espúria do mais apto. (...) Usa sua cultura para diminuir as distâncias, irmanando a sua voz à dos marginais que povoam a noite cheia de angústia e transgressão. (...) A possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. (...) Desvendar o drama dos deserdados que fervilham no submundo; dos que vivem das lambujens da vida e ele traz com a força de sua arte, a consciência dos que estão do lado favorável, o lado dos que excluem. (...) A coragem de mostrar as entranhas da cidade, o jogo triste da vida. (...)”, Antonio Candido.
- “A combinação perfeita do popular com o refinamento. (...) Sua gente é típica, mas nada caricatural. (...) se especializou em explorar o coeficiente de marginalidade das categorias humanas menos legitimadas. (...) Cotidianidade individual elevada a drama histórico. (...) Uma arqueologia dos significados da grande cidade. (...) Uma gramática de vagabundos, pilantras, malandros, piranhas e marginais; enfim, um levantamento da poesia do agreste humano. (...) Contista do ordinário, tudo para conduzir o leitor ao choque de ambientes, aos contrastes de visões do mundo. (...) Há um ataque à compostura, ao bom-tom e ao decoro burgueses. (...) Lugares em que normalmente as pessoas estão dispostas a se divertir: bares, cabarés, prostíbulos, casas de jogos. (...) Os centros e bairros mais sofisticados apresentam-se como zonas privilegiadas, reservadas para poucos, os outros que produzem a diferença e as hierarquias. (...) ter fixado em nossa literatura personagens inesquecíveis da marginalidade social, os despossuídos, os que vivem de expedientes e espertezas, os prestadores de serviços que não ingressaram no mercado construído sobre a cobiça do lucro. (...) João Antonio seria o Lima Barreto de São Paulo. (...) Trata-se do relato de um exílio. (...) procura na famosa cidade as personagens confinadas no submundo. (...) Adicionou à nossa literatura uma camada da população que ainda não tivera seu legítimo interprete. São tipos massificados e excluídos das expectativas de ascensão social, banidos do processo produtivo. (...) Aqui estão as pessoas que, sob o toque mágico do escritor, viram personagens, pois são fotografadas em seus momentos de esplendor. (...) É visto como um captador da essência do Rio e de seu povo, em golpes intuitivos de síntese, espontaneidade e irreverência. (...) Vai fundo na dramatização dos costumes brasileiros”, Fábio Lucas.
- “Redescoberta do povo brasileiro, povão das periferias e dos grotões, os esquecidos. (...) Os personagens de João Antonio não habitam o céu, nem o inferno, pois este estaria reservado aos carrascos e os hipócritas. (...) O inferno estaria reservado para os membros das classes dominantes e seus testas-de-ferro que fossem os verdadeiros responsáveis pelo rosário de misérias que seus contos destilam. (...) Peregrinação daqueles que não têm nas mãos o próprio destino. João Antonio não bate fotos. Pinta quadros apaixonadamente deformados. (...) Não escrevia para o público que descrevia, os remediados, mas, sim, para leitores basicamente de classe média, e de elite (a que lia tais coisas). (...) Um escritor da República das Bruzundangas e outras formas atuais de vida brasileira que estão aí, inéditas, esperando intérpretes e interessados. (...) Decidiu (descobriu) que vive no inferno, e é disso que nos conta, sem pudor, nem temor. (...) O outro lado que pagamos para não ver, ou para ver do palanque pelos distanciamentos estéticos. (...) Habitantes de sua noite deixam de ser excrecência e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. (...) Um escritor que tinha consciência da miséria em que vivíamos. (...) drama de sobrevivência neste mundo literalmente e simbolicamente sem eira nem beira. (...) recriar o mundo da marginalidade brasileira urbana. (...) Ele se torna um visitador de infernos, como Dante, e, como este, vem dar notícia ao leitor do que viu e sabe. (...) Expunha o nervo da desigualdade, seus personagens enfrentam situações-limite”, Flávio Aguiar.
- “A escrita profissional avessa ao diletantismo. (...) Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. (...) Escolheu seu foco: circunstâncias da vida dos pobres, criaturas sem eira nem beira, suas misérias, seu abandono, mas principalmente sua linguagem, cultura e tradições. (...) Estátuas e placas por todos os lados, mas de ilustres desconhecidos de todos. (...) Denuncia as tensas relações de classe na sociedade brasileira. Não se trata aqui, portanto, de descrição como referência pacífica, representativa e neutra do mundo. (...) Pode tanto caber num conserto de teatro como num botequim. (...)Um artista dos tipos vivos e dos grandes miúdos flagrantes do dia-a-dia carioca. (...) O país oficial, esse é caricato e burlesco. (...) O Brasil não tem interesse concreto por suas próprias coisas, de onde se origina sua tendências ao engrandecimento e mitificação de personalidades. (...) Pagou alguns preços altos por essa escolha”, Vilma Arêas.
- “Apesar dos grandes reveses que este povo brasileiro tem enfrentado, uma herança de seus ancestrais indígenas permanece inabalável: a força da alegria. (...) tem jogo de cintura para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. (...) Personagens não são heróis nem vilões, mas apenas impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência. (...) Pequenas vidas, minúsculos mundos e grandes lutas, soberbas, heroicas e trágicas. (...) Para quem a fome é apenas matéria de ficção fica difícil aprender a tragicidade de um estômago quase sempre vazio. (...) É como se ele também estivesse entre os quebrados quebradinhos. (...) neste mundo de carências, de grandes derrotas e pequenas vitórias, o homem está debatendo, procurando sobreviver”, Wania Majadas.
- “As vozes dos eira-sem-beira e dos vidas-tortas com quem dividiu a literatura e em parte a própria existência. (...) Mania ambulatória e a convivência com os deserdados. (...) Tipos comuns que acabam afinal se misturando ao desgosto do ressentimento sempre pronto a estocar poderosos. (...) Parando nos bares até altas horas em conversa animada com viciados e gente sem rumo. (...) É impossível não reconhecer as marcas do repórter no cotidiano miserável dos subúrbios, entremeadas ao sarcasmo e à revolta inspirados na solidariedade dos despossuídos. (...) histórias dos heróis anônimos, tipos que ele recolhe das transformações da cidade devastada pela especulação do capital para situá-los no pólo extremo de um passado ideal que os alimenta enquanto artífices de sua própria inutilidade. (...) Por em evidência a sobrevivência difícil dos destituídos, esquadrinhados a fundo nas galerias da miséria. (...) Cotidiano sem brilho daquela vida de necessidades e de abandono. (...) Incursão estética pela melancolia da pobreza. (...) Articula a fala dos pobres e dos sem lugar e se articula ela mesma, no plano da forma, com os movimentos da condição precária. (...) Esse cotidiano incorpora na crônica a fala dos pobres e dos botequins, que está nos muquinfos e nos trens de segunda. (...) Escrever o mais próximo possível das aspirações e das mágoas do povo. (...) desconsidera os bens postos e o mundo em que circulam, o mundo – nos diz ele – dos que vivem longe de nós, nas altas esferas políticas, mundanas e nos enxergam para simular desprezo pela nossa pobreza e pela nossa fé na honestidade. (...) O solidarismo dos pobres de Lima Barreto reaparece em João Antonio com força redobrada. (...) Reiventa a própria linguagem dos excluídos. (...) desqualifica a ordem dos bem postos no melhor estilo de Lima Barreto”, Antonio Arnoni Prado.