quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FRASES (165)


A DIFERENÇA DE FAZENDA E FAZENDEIRO ENTRE ITÁLIA E O BRASIL
Dentro do capitalismo nada é perfeito e disso até as pedras do reino mineral tem conhecimento. Imperfeição e ampliação das desigualdades é o padrão. O que ocorre na Itália difere do Brasil, mas em nenhuma das situações enxergo a solução definitiva para a questão fundiária, porém não nego a daqui melhor que a do meu país. Estou instalado numa região da província de Ravenna, na Itália, mais propriamente em sua zona rural e algo perceptível a olho nu é como são denominados os pequenos proprietários rurais, todos aqui chamados de “fazendeiros”.

Nisto uma grande diferença do Brasil. Circulando de carro pela região, não observei até agora grandes propriedades rurais, todas de pequeno porte, ao estilo dos pequenos sítios brasileiros. Em cada uma um casarão, quase sempre de dois andares, um barracão ao lado e no seu entorno a plantação. Nessa região o predomínio é por vinhedos, mas são também famosos pelo cultivo de frutas, desde maçãs, pêssegos até tâmaras. Franco Mazzotti, quem hospeda a mim, Ana Bia e Ana Rebello me explica: “Na Itália também existem os grandes proprietários rurais, mas o predomínio é por gente igual a mim, todos relativamente pequenos, uns mais outros menos. A grande diferença que vejo com os grandes proprietários brasileiros é que aqui, todos trabalham na sua propriedade. Todos estão à frente das atividades em sua terra, pegam no pesado o tempo todo, isso é da nossa cultura”.

O cenário é exatamente este por onde ande. A plantação e a casa com o barracão, tudo numa sequência que me faz lembrar os loteamentos dos atuais assentamentos rurais brasileiros, como é feito com os denominados sem-terra. Neles, além do cultivo principal, uma espécie de horta, onde se planta de tudo um pouco. A maioria do que eles consomem de comida é plantado por eles próprios. Franco é um ótimo exemplo, levanta 6h da manhã e mesmo durante o inverno, aqui muito rigoroso, não deixa de estar diariamente em sua pequena propriedade, cuidando pessoalmente de sua plantação. Já teve animais, principalmente porcos, mas hoje se restringe à uva. Frutas e legumes variados, esses só para consumo próprio. Quem circula pelas estradas entre as muitas vilas dá de cara com esse cenário, um atrás do outro e isso é bem diferente do Brasil. Não vejo por aqui áreas sem nenhuma espécie de plantação sendo cultivada. Tudo muito bem ocupado.

Claro, levo em consideração ser a Itália muito menor que o Brasil e nem sei se isso aqui vislumbrado pode ser considerado uma espécie de reforma agrária, mas essa divisão estabelecida me faz pensar como poderíamos ser uma nação mais justa com tudo melhor dividido e com a imensidão de terra improdutiva distribuída nas mãos de pessoas como o fazendeiro italiano Franco, com uma dedicação exclusiva para o trato com o seu pedaço de terra. O que faz, me diz, vem desde os tempos de seus avós, algo passado de pai para filho. Não sinto aqui a avidez deles por ter mais terras, pois isso também dificultaria o trato, o cuidado dado. Muito comum ver um ajudando o outro na colheita, a safra do vizinho, ainda mais quando ocorre em épocas diferentes.

O fazendeiro daqui da Itália, algo inimaginável no Brasil. Eis mais uma de nossas atávicas diferenças. Nenhum deles aqui é rico, mas com o suor de sua labuta seguem com uma vida das mais dignas, uma casa confortável, um bom veículo na garagem e uma boa renda. Os vejo e os sinto felizes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O QUE FAZER EM BAURU E NAS REDONDEZAS (98)


COMO SE DÁ UMA REFORMA OU RESTAURO DE IMÓVEL NA ITÁLIA
Neste terceiro dia na região de Ravenna, Itália, muita chuva e frio. Nem isso nos impede de perambular, bater perna e inquieto vou me inteirando do modo de vida italiano. Desde o inicio algo me intrigou, a quantidade de imóveis antigos em estado de pré-abandono. Fui saber dos motivos e isso tem tudo a ver em como se dá a preservação do patrimônio em solo italiano. Antes disso conto uma historinha bem bauruense, ainda dos tempos quando presidia o CODEPAC – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Bauru, 2001-2004. Ela demonstra como se dá o entendimento por parte dos proprietários de imóveis tombados pelo patrimônio histórico na maioria das cidades brasileiras.

Estávamos para tombar um imóvel dos mais importantes para a preservação da memória do patrimônio bauruense e o impasse pendente residia no fato dos proprietários serem contrários ao tombamento. Foi proposto uma reunião com os proprietários e nela, a futura herdeira foi bem explicita: “Viajo constantemente para a Europa e acho lindo ver aqueles imóveis antigos preservados. Lá sim eles merecem serem tombados, aqui não tem sentido. Quero fazer do meu o que bem entender”. O dito imóvel não foi tombado, mas foi conseguido as duras penas que, sua fachada fosse preservada. Um pequeno alento para quem trata da questão no Brasil. Hoje, passados menos de 15 anos, nem CODEPAC existe mais e o abandono é a mola mestra do procedimento para a questão na terra do sanduíche (que também não foi tombado).

Volto para a Europa, mais precisamente na Itália e do que ouvi sobre uma quantidade muito grande de imóveis antigos e históricos, algo bem diferente do Brasil. Quem possui imóvel antigo por aqui está impossibilitado de fazer qualquer alteração sem prévia alteração. O procedimento é o seguinte: de início um profissional da área, arquiteto é contratado para fazer um orçamento do que será feito, reforma ou restauro, imóvel antigo ou novo. Ele já sabe o que pode e o que não pode ser feito, dependendo do aspecto, idade e importância do imóvel. Informa ao cliente o orçamento dentro dessa diferenciação e sendo um antigo, somente material, tinta e um real trabalho de restauro, não de simples reforma. O projeto é enviado para o órgão competente de cada Prefeitura e ela autoriza ou não sua realização.Custos muito diferenciados de um para outro.

Vejo que também por aqui existe alguma chiadeira, mas não nego, uma maior compreensão do proprietário em ser dono de algo com valor histórico. Aqui não existe meio termo, sendo histórico, existe um prévio impedimento de se derrubar e em seu lugar ser levantado algo, por exemplo, moderno. Inconcebível e sem negociação algo nesse sentido. As multas são bem elevadas para quem foge do que é convencionalmente uma norma inquebrantável. Ninguém se atreve a fazer algo fora dos padrões estabelecidos. Daí vejo muitos imóveis antigos, fechados e com algumas construções modernas ao lado. Peço explicação e ouço que, na maioria das vezes o restauro fica mais caro do que se levantar um novo. O proprietário levanta um novo e depois, com o tempo, faz o restauro, mas não toca em nada sem ter autorização para fazê-lo.

Nas muitas vilas, províncias, distritos, aldeias e quetais por onde ando por aqui pipocam casas nessas condições e com a publicação de algumas fotos como exemplo, ressalto e tento comparar a legislação existente na Itália e no Brasil. Pelo que vi, por aqui, não existe o tal jeitinho, o que já é um baita avanço. Não conversei com proprietários dessas casas com valor histórico até o momento, mas o fiz com outros e vejo que, o endurecimento aqui não se dá somente para os com um imóvel histórico, mas com todos. Pelo menos aqui nesse pedaço de solo italiano nada ouvi sobre incentivos para o restauro, mas vejo também uma quantidade muito grande de museus em cada vilarejo e por tratar-se de região milenar, muita coisa preservada e protegida (hoje visitei um sítio arqueológico da época romana). O que salta aos olhos é quando na comparação, por exemplo, com a citação feita do caso bauruense, o proprietário do imóvel não faria livremente o que fez sem ter no seu encalço uma coercitiva fiscalização e punição. Infelizmente, no nosso caso ainda predomina o “sabe com quem está falando”. Passam por cima de qualquer possibilidade de se estabelecer uma legislação séria sobre a questão. E a preservação do Patrimônio Histórico como será que anda em Bauru, alguém poderia me informar algo a respeito...

OBS.: Nas fotos alguns exemplos desses imóveis considerados antigos ou históricos por aqui.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

MEMÓRIA ORAL (221)


COMO UMA COMUNIDADE RURAL ITALIANA RESOLVE PARTE DE SEUS PROBLEMAS

Aqui no interior da Itália, de onde me encontro nesse momento, acabo de observar algo encantador das relações entre autoridades e uma comunidade rural. Estou na região da Romagna, a que compreende Ravenna e Forli-Cesana, mais Rimini, parte de Bologna até Imola, parte de Firenze até Marrade e por fim Montefetro. Mas precisamente me encontro na província de Ravenna, numa fração, pequena localidade denominada como Amonite. O que mais me encantou por aqui foi tomar conhecimento de ser essa região denominada como as “regiões vermelhas” da Itália, sob o domínio do atual partido político no Governo, o PD – Partido Democrático, também denominado como “centro-sinistra (esquerda)”. Cai sem querer num conhecido reduto esquerdista europeu.

Conviver por duas semanas disso tudo é mais que um privilégio, rara oportunidade de tomar conhecimento de como se dá o processo da vida rural num país do denominado Primeiro Mundo europeu. Eu, na qualidade de descendente de italianos, os Perazzi, cá estou, sem saber uma só palavra do idioma, mas conseguindo captar muito, isso devido à hospitalidade de um casal, Franco Mazzotti, pequeno fazendeiro nessa região, casado com a brasileira Rosangela Mazzotti, carioca como minha Ana Bia. Falamos em português o tempo todo e pergunto muito, instigo, questiono e assim vou tomando conhecimento de detalhes da vida dos pequenos centros urbanos italianos. Todos os pquenos agricultores daqui são denominados de fazendeiros, diferentemente do termo no Brasil, quando são assim chamados somente os com extensas áreas de terras. Aqui, outra diferença, todos esses plantam e estão à frente de suas propriedades, colocam a mão na massa.

Ontem, segunda-feira, vamos todos para algo que só acontece por aqui durante o Inverno. Somente às segundas, por alguns meses uma grande concentração de pessoas se dirige das 18h em diante num lugar específico e produzem algo dentro do que de melhor pode existir de encantamento nas atividades dos seres humanos, a real confirmação de que “a união faz a força”. Em sua imensa maioria pequenos agricultores, cada um com sua propriedade, heranças de longa data, demonstram como pode ser feito algo de concreto para viabilizar melhorias para a comunidade sem o auxílio do Estado.

O estado italiano provém o básico, mas eles não esperam que tudo venha dessa forma. “Nem tudo o que é preciso é conseguido. Corrupção existe em todo lugar e aqui não é diferente. O que fazemos é buscarmos juntos recursos para fazer o algo mais, aquilo que, com certeza, não seria provido com o dinheiro estatal”, explica Franco, meu anfitrião. Vamos todos para um evento, algo onde toda a comunidade se dirige nesses dias, um jantar arrecadatório patrocinado pelo Grupo Cangina, uma espécie de associação, onde aproximadamente 70 voluntários produzem um grande jantar, com o preço fixo de 12 euros por cabeça. Nele se bebe vinho da região, come-se carne de porco de vaca, macarrão como entrada e doces também produzidos por eles. O sistema é simples, cada família ou grupo ao chegar pega uma senha e num salão aquecido na entrada aguardam serem chamados para adentrarem ao banquete. E ao final jogam "tomboleta", uma espécie de bingo.

Quando entram tudo é servido de forma farta e repetem-se os pratos quantas vezes for suficiente para satisfazer a todos. Regras básicas são seguidas por todos e uma longa fila de espera ocorre, com todos esperando num salão ao som de música italiana. Ali todo tipo de reencontro é possível e as conversas giram basicamente sobre a produção de cada agricultor, a safra, as inteméries da natureza (nevou dias atrás) e também sobre o destino do dinheiro arrecadado, ou seja, onde vai ser empregado a arrecadação desta e de todos os próximos encontros semanais. Ninguém fura fila e quem não chega cedo, sabe que esperará um pouco mais, mas também conversará mais dentre tantos conhecidos. Na fisionomia de todos, algo de muita alegria e contentamento.

A casa sempre cheia, como nesta última segunda, quando a temperatura estava próxima dos dois graus positivos. Quando o grupo onde me encontrava saciou a fome e se retirou do local já eram mais de 22h30 e na sala de espera, ainda tinham umas 80 pessoas esperando serem atendidos. No de bingo, outro salão, mais de cem se divertiam. A música rolava solta e o burburinho alto, espantando o frio. Sai do local tentando entender o que vinha a ser de fato aquela reunião. Franco no caminho de volta para sua residência me explica e respondendo todas minhas perguntas. Diz que o grupo já fez de tudo um pouco na região, desde quadra esportiva para jovens, com vestuário e tudo, como projetos coletivos em locais escolhidos a dedo, além de cursos, palestras, oficinas, eventos e doações assistenciais. Escolhem algo que entendam necessite ser feito e tendo a certeza de que o Estado italiano não os proverá com sua realização, destinam tudo para essa finalidade.

Percebo eles todos terem plena consciência de que o Estado não consegue suprir tudo o que necessitam. Continuam cobrando e muito dele para tantas outras coisas, mas fazem um algo mais e com as próprias pernas e mãos. Foi lindo ver como conseguem, como se mostram unidos em seus objetivos, comprovando algo encantador, o das possibilidades da atuação coletiva. A região toda, por ser considerada a mais a esquerda italiana, mantém acesa a chama de um coletivismo gostoso de ser visto na sua praticidade. Nas paredes do lugar, as regras publicadas da comilança, onde arrecadam e em outros cartazes, todos os lugares onde o dinheiro é destinado. Conhecer uma experiência como essa, com uma engenharia tão rica de detalhes, com cada peça girando tão magistralmente bem, cada um com aquele sentimento de doação e de dever cumprido para com o lugar onde mora, para com seus semelhantes é algo calando fundo num forasteiro, tomando conhecimento de tudo somente ao chegar no local. Cai dentro de uma bela experiência humana e me senti na obrigação de passar a ideia assimilada adiante. É o que faço neste momento.

HPA - Amonnite, Itália, terça-feira, 20 de fevereiro de 2018.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

BEIRA DE ESTRADA (90)


BOUQUINISTES NA BEIRADA DO RIO SENA
Quem gosta de livros, leituras variadas e múltiplas quando num lugar diferente, uma das primeiras coisas que faz, muito além de comer, beber e ver onde vai se instalar é ir em busca do seu objeto de prazer. No meu são livros e um lugar onde sempre quiz conhecer, se um dia viesse em Paris são os BOUQUINISTES, os históricos e antológicos livreiros na beirada do rio Sena. Tinha lido muito sobre a forma inusitada como sobreviveram a tudo, inclusive ao tempo e às intempéries da natureza. Em antológicas fotos, aquilo deles exporem seus livros em pequenas bancas, muitas sofrendo todo tipo de ação, a pior delas a da chuva é algo desse maravilhamento propiciado somente pelo amor à leitura. Aquele amontoado de livros, resistindo ao mofo de um lugar não tão apropriado, com fiéis e ávidos leitores no seu entorno me fazia querer mais e mais conhecer, não só o lugar, como os tais livreiros.

No último domingo realizei meu sonho, quando junto de Ana Bia fomos perambular pelas imediações do Sena. Com um frio dos mais intensos (nem demos bola para ele), caminhamos muito, nos perdemos em muitas viagens de metrô, saltando de uma estação a outra, tudo seguindo um roteiro de perdição dentro de nossas cabeças, bem longe dos famosos pontos turísticos, os tais que todos turistas precisam e devem conhecer em Paris (fugimos deles). Chegamos na tal beirada do rio Sena e quando me vi diante dos bouquinistes, os tais livreiros, embasbacado, boquiaberto e em extado de puro êxtase, passei a percorrer cada milímetro com o que ainda me resta de visão e mesmo não tendo encontrado por lá os tais livros, sai de lá plenamente satisfeito.

Conto algo mais da visita. Para minha decepção, os bouquinistes não mais vendem livros e sim pequenas lembranças de Paris. Se achei livros por lá, foram algo para se contar nos dedos. Da decepção, passo a entender dos motivos. Vivemos nesse mundo onde o negócio é dar certo, vender, auferir lucros e dentro desse espírito, o negócio de livros antigos, ou mesmo um sebo na beirada do rio mais famoso da França é algo romântico, mas devia ser uma penúria financeira. Daí, concluo eu, os herdeitos ou os que vieram na sequência dos velhos, arrojados, desbravadores, persistentes e antológicos bouquinistes não resistiram e mudaram de ramo. Deixaram os livros de lado e foram todos em buca de algo mais lucrativo. Vendem de tudo para o turista, aquele sempre ávido por trazer uma recordação da bela cidade. Quem hoje ainda viaja e nada trás de recuerdos banais, imãs de geladeira e afins. Todos, inclusive eu. Vasculhei tudo, principalmente a estrutura das barracas, como são fixadas na lateral, a murada do rio, mas não tive coragem suficiente para trazer nada dali. Fossem livros traRia alguns, mesmo nada lendo em francês (tive aulas no Ginásio, mas isso já faz tanto tempo).

Pelo sim, pelo não, conheci os tais bouquinistes. Missão cumprida.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (152)


A FOTO QUE MAIS ME TOCA DA DESCIDA DO BLOCO DO TOMATE EM 2018
Essa foto me intriga. Digo dos motivos. Praticamente todos os anos, quando da descida do bloco farsesco, burlesco e algumas vezes carnavalesco, o BAURU SEM TOMATE É MIXTO pelo Calçadão da rua Batista de Carvalho, no sábado da folia, se juntam aos foliões vários personagens do centro bauruense. Adoramos quando acontece essa integração e a cada ano uma personagem nova é vista toda feliz da vida bailando junto de nós. Nesse ano foi essa simpática moça da foto e como tirei a foto, conto algo mais de como a fiz.

Eu a vi toda pimpona, alegre da vida, dançando conosco e já a havia visto nas ruas bauruenses, mas precisamente nas imediações da Baixada do Silvino. Fui tirar uma foto dela e ela se mostrou séria. Tirei e fui conversar, disse que todos estávamos muito felizes dela estar ali. Ela me deu um baita sorriso e disse se podia pular conosco. Dei um abraço nela e disse: "Claro, a rua é nossa". Ela sorriu e seguiu conosco até quase o fim do desfile, quando não mais a vi.

No dia seguinte, seguindo de carro pela avenida Nuno de Assis, quase perto do cruzamento com a Nações UNidas, paro no sinal e quem vem no meu vidro, a moça. OLho para ela e me assusto: "Você". Ela não entende nada e lhe digo: "Você pulou Carnaval ontem conosco lá no Calçadão. Gostou?". Ela se lembrou de mim, disse que morava ali perto, debaixo da ponte, mas estava tendo problemas. Eu vi os tais problemas dias atrás quando a Polícia Militar retirou moradores de rua debaixo da ponte e os expulsou do lugar, a parte coberta debaixo da ponte. Momentos depois, como todos voltaram, os mesmos policiais, percebendo ter bastado eles terem virado a esquina para todos voltarem pra debaixo da ponte, atiraram bombas de efeito moral no lugar. Foi uma correria. Assim dispersaram os sem teto do lugar.

Agora sei, dentre eles, a tal moça, que não tem moradia fixa. Mora como pode e a ponte era um desses lugares. Sua imagem não me sai da cabeça. São tantos na mesma situação, sem eira nem beira, sem abrigo, sem ter um lugar para chamar de seu e nem para poder encostar o corpo e descansar. Cada vez que olho para sua expressão, forte, resoluta, brava, dessas que nem um pouco resignadas, o coração fica apertado. O Brasil nunca vai dar certo enquanto tanta gente continuar morando nas ruas e sem esperanças de sair dessa vida.

Eu não mais a vi. Toda vez que passo por ali, olho pra debaixo da tal ponte, mas nada dela. Se foi impedida de ali permanecer, deve ter buscado outro lugar. Nem sei o que poderei fazer por um deles, quando vejo tantos, mais e mais gente pelas ruas, todos em andrajos, gente que poderia ter outro destino. Eu a queria ver feliz como naquele dia da descida do bloco de carnaval, mas sei que sua vida deve ser das mais duras e aquele foi um rompante, raro momento em que sorriu alegre. A moça que embelezou nosso desfile está sumida, perambulando pela aí, sabe-se lá onde. Como ser totalmente feliz diante da repetição de cenas como essas, cada vez mais comuns em países como o nosso, reinado capitalista? A gente tenta ser feliz e mesmo se considerando privilegiado, impossível o ser totalmente. Em cada esquina trombo com alguém na mesma situação, daí, o coração segue apertado.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÕES DO SUPER-HERÓI BAURUENSE (110)


O QUER FAZER DIANTE DE UMA ENCRUZILHADA?
Decisões são mais do que importantes na vida, pois derivam dela quase tudo o que ficará da gente para a posteridade. Estar em dúvida diante delas, algo mais natural deste mundo, ainda mais quando interesses dos mais conflitantes estão em jogo. Dar aquela parada para pensar, refletir e ver onde o próximo passo deverá ser dado é algo a envolver todo o futuro. Guardião, o super-herói bauruense escreve nesta semana sobre o impasse que o prefeito bauruense Clodoaldo Gazzetta está metido desde o começo de sua administração. Vejam sua fala:

"Por quais interesses o prefeito Clodoaldo Gazzetta foi eleito? Isso demonstra muito bem os passos dados até o presente momento. Se ele pende para o lado dos interesses opostos aos da população, talvez entendamos com isso, quais outros interesses ele tem em jogo e pesando na balança, o fazem não abandonar o barco daqueles que o fizeram chegar ao Palácio das Cerejeiras. Tudo bem que, por detrás de sua campanha e de seu primeiro ano de Governo, fez quase tudo o que lhe impôs os que bancaram e bancam sua governabilidade, mas ele não pode esquecer que, além deles, quem o elegeu de fato foram as camadas populares e virando as costas para seus interesses, poderá estar caminhando rumo ao precipício", alfineta Guardião.

O comentário ocorre numa semana decisiva para o prefeito, quando ele é retratado pelo bloco carnavalesco Bauru Sem Tomate é MiXto como algo parecido como um "bonecão de Olinda", muito pelo seu tamanho, jeito meio desengonçado e pro claudicar, momento querendo ir para um lado, momentos seguindo para outro. "O prefeito precisa decidir para quem veio ou sua popularidade que já não é alta, vai despencar. A saraivada de críticas é pertinente e deve prosseguir. No caso da aprovação das OSs - Organizações Sociais, não pegou nada bem ele bancar o acordo com o Governo estadual e fazer ouvido mouco para o que virá pela frente, algo impagável para os cofres municipais. Quem o empurra nesse sentido? Está na hora de abrir o jogo do que o governador lhe propôs de tão interessante, que não queira ser demovido da ideia nem com reza brava. O triste dessa história toda é que, infelizmente, ele vai demonstrando o seu lado preferencial quando das decisões. Tudo bem, é sabido das pressões das tais "forças vivas", as que impõem como deve ser a conduta de um prefeito, mas fugir disso e atender os anseios populares é muito mais salutar, pois esses decidirão seu futuro", diz nosso super-herói.

A encruzilhada é a melhor forma de demonstrar a dúvida do momento. "Estaria mesmo ele com alguma dúvida ou sua opção preferncial pelos mais abastados já está mais do que escancarada? É o que veremos no próximo capítulo desta intrigante novela. Ele não está com o pé em duas canoas, como querem alguns, pois até a presente data não disse uma única vez sonoro NÃO para os que lhe dão sustentação. Só que, do tamanho que se apresenta, pode perder o equilíbrio e se bater um vento mais forte, não vai ter onde se segurar e poder tombar. A decisão é dele e dos seus. Com ela ficará marcado para todo sempre", conclui o intrépido capa e espada bauruense.

OBS.: Guardião é obra da verve e traço de Leandro Gonçalez, com intercorrências e maledicências escrevinhativas de um tal mafuento HPA.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

COMENTÁRIO QUALQUER (172)


SEMPRE EXISTIRÁ SAÍDA PARA QUEM GOSTA DA VERDADE DOS FATOS – EM BAURU EIS O “JORNAL DOIS”
Ela nunca vai ser só por uma via, mas hoje com os jornalões em descrédito, algo novo pinta nas paradas de sucesso e cai nas graças de quem gosta de ler algo dentro da verdade factual dos fatos. Quando os ditos órgão da imprensa tradicional deixam de investigar e publicar algo sobre os desmandos dos poderosos (o fizeram um dia?), nada como observar se não existe algo alternativo cumprindo esse papel. Sempre tem um ou outro resistindo, algo coletivo ou mesmo pessoal. Boas lembranças tenho do portal Participi (https://www.facebook.com/participi), cria de dois jovens universitários, cheios de ideal e juntando força para produzir informação qualificada. Minguaram os anunciantes e eles não resistiram mais do que um ano. Cada um seguiu seu caminho. Outras iniciativas surgiram, cito uma.

Quem ocupa esse espaço neste momento é o JORNAL DOIS, também oriundo de uma iniciativa universitária. Eis o link deles para constatar algo do que já é feito: https://medium.com/jornaldois e também a página no facebook: https://www.facebook.com/jornaldoisbauru/. Nesse exato momento, alguns dos títulos demonstram como é a pauta do que fazem, bem diferente do jornalismo tradicional: “Por trás do desfile: samba, suor e labuta no carnaval bauruense”, “Em Bauru, não tem como viver de drag”: conheça Danielly Angell, Rainha da Diversidade do carnaval” e “Quem paga a folia de carnaval?”. Textos gostosos de ler e mostrando uma versão com uma pegada perdida pelo jornalismo tradicional, o de escarafunchar o que está por detrás de tudo, mas com a ótica do oprimido, do povão, seu lado B, o que labuta, o do ultrajado trabalhador.

No QUEM SOMOS do site algo sobre a formação do grupo: “Princípios editoriais - O JORNAL DOIS surge com a proposta de ampliar o debate em Bauru. Somos um grupo de jornalistas, designers, colunistas que pretende apresentar a informação de um jeito diferente: o da mídia radical. Mídia, um meio que dá suporte à produção e compartilhamento de conteúdo. Radical, que procura chegar à raiz dos problemas. Acreditamos que a diversidade de informação é fundamental para um jornalismo mais justo e democrático. Isso significa que estamos do lado que coloca em xeque as notícias dos grandes jornais, TVs e rádios. Muitas vezes, esse tipo de mídia trata dos assuntos com vista grossa e prezam mais por interesses econômicos do que pela responsabilidade com o público”.

Iniciativas dessa natureza oxigenam o jornalismo em qualquer cidade e diante de faculdades de Jornalismo na cidade, nada mais justo do que algo ser devolvido para a comunidade na forma de um jornalismo saudável, até para que o tradicional se toque. Tenho comigo que, não vamos mudar algo jornalístico que foi criado desde a concepção para defender os interesses da minoria privilegiada. Quem veio, surgiu com essa finalidade, sempre atuará dessa forma, daí não dá para esperar nada de diferente vindo deles. Quando surge no ar algo como esse JORNAL DOIS, uma luz no final do túnel e uma esperança renovada de que o jornalismo de verdade não morre nunca. Incentivar essa molecada (sangue novo, disposição na ponta dos cascos) a transgredir mais e mais o sistemão carcomido pelos vícios jornalísticos é algo mais do que necessário. Viva o Jornal Dois! Conheçam a proposta deles e os incentivem a não desistir da boa ideia.