quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

UMA CARTA (42)

2009, O ÂNUS QUE FICOU PARA TRÁS
Acabou! Foi-se 2009. E com ele deixo aqui meus últimos escritos. Nada de tão provocador, só alguns registros de última hora. Fui abrir um grande jornal e lá uma lista dos “DEZ LIVROS BRASILEIROS DA DÉCADA”, eleitos por críticos. Vejam a lista: “Dois irmãos” de Milton Hatoum, “Acenos e afagos” de João Gilberto Noll, “O vôo da madrugada” do Sérgio Sant’anna, “O filho eterno” do Cristóvão Tezza, “Máquina de escrever” do Armando Freitas Filho, “Elefante” do Francisco Alvim, “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, “Nove noites”, de Bernardo Carvalho, “Leite derramado”, do Chico Buarque e “Eles eram muito cavalos” de Luiz Ruffato. Eu, que chego ao final do ano com 51 livros lidos (já li muito mais em passado recente), chego à triste constatação. Acho que não estou lendo os livros certos, pois nenhum desses passou pela minha mão. Outros tantos sim (listo dez lidos), como o “Manual de Sobrevivência dos butiquins mais imundos” do Moacyr Luz, “Diário Selvagem” a biografia do Carlinhos Oliveira, juntada por Jason Tércio, “Serpente encantadora – Veneno e doçura de Telmo Martino no JT”, “A viagem do Elefante” do Saramago, “Leila Diniz” do Joaquim Ferreira dos Santos, “Carlito Maia – A irreverência equilibrada” do Erazê Martinho, “Tim Maia – Vale Tudo” do Nélson Motta, "Diário de viagem - De moto pela América Latina" do Che Guevara, "As veias abertas da América Latina" do Eduardo Galeano (4ª reeleitura) e “O abajur lilás”, peça do Plínio Marcos. Não devo ter ficado tão mal assim na ficha. Foi uma ano onde privilegiei os amigos (até em detrimento do trabalho) e isso está ressaltado na carta publicada hoje na Tribuna do Leitor, do Jornal da Cidade, onde falo de pessoas queridas e das quais sinto falta. Vivo com, para e junto de pessoas. Leiam minha última cartinha do ano:

Gente no meu final de ano
Em primeiro lugar, uma justa homenagem a um dos artífices da Casinha do Papai Noel.
Nas andanças por lá, diante de tudo o que vi, destaco a presença de uma ilustre pessoa, um batalhador, trabalhador braçal das artes mais do que populares de Bauru. Idealizador, criador e executor de peças maravilhosas. Ver Chico Cardoso, o artesão dos trens de madeira, envolvido naquele espaço imaginário foi verificar como é fácil valorizar o trabalho de quem realmente faz. Chico merece o destaque dado a ele. Tenham todos os envolvidos com esse projeto uma certeza: Chico é daqueles a engrandecer qualquer iniciativa e como possuidor de uma luz mais do que própria, irradia simpatia por onde passa e contribui decisivamente para o sucesso de tudo o que foi apresentado lá na Praça Portugal.

Em segundo lugar, algo negativo e a merecer mais do que um registro, um alerta. Estávamos todos mais do que acostumados com as apresentações teatrais de final de ano dos grupos dirigidos por Paulo Neves. Foram anos seguidos com parte do mês de dezembro reservados para suas apresentações no Teatro Municipal. Só no ano passado foram 16 peças e nesse nenhuma. Paulo cansou, desistiu, adiou ou simplesmente, diante do momento nada salutar porque passa nossa mais nobre sala de espetáculos, decidiu não fazer mais nada como forma de protesto? O fato é que dezembro não é mais o mesmo sem as apresentações de final de ano das Mostras Teatrais Paulo Neves.

Por fim, sentidas ausências dentro do próprio JC. Dois chargistas da melhor cepa não estão mais presentes nas páginas do jornal e como admirador do traço, da graça e sutileza do trabalho de Fernando Dias, o craque da página 2 e Nicolielo, com seu peculiar traço meio reticulado, torto, sendo inclusive um dos remanescentes do grupo fundador do jornal, conclamo uma informação sobre o paradeiro de tão boníssimos personagens das páginas de nosso jornal diário.
Em tempo: O título lá do alto, o do "Ânus" não é de minha autoria, foi chupado da página de humor explícito do "Agamenon", d'O Globo RJ, de 27/12/2009.
DIÁRIO DE CUBA (44)

RETORNANDO PARA HAVANA NUMA TARDE DE DOMINGO
O dia era 23 de março de 2008 e estávamos dentro de um ônibus retornando para Havana, após passagens por Santa Clara, Cienfuegos e por último, Santiago de Cuba, permanecendo por ali quatro dias. Viajar o dia inteiro pelas estradas rodoviárias cubanas é algo para muitas observações. Oportunidade rara, pelo menos para nós, de conhecer o interior do país, com a visão restrita à uma simples janelinha. Com um livro na mão e outro na paisagem rural, o que plantam, como o fazem, vivem e se locomovem. E como pedem caronas. São caronistas juramentados. As pequenas vilas são quase em sua maioria muito modestas, com uma saneamento básico ainda um tanto precário. As ruas mantém um bom aspecto de limpeza e nas casas, se muitas delas deixam a desejar na sua parte externa, tudo é compensado na parte interna. Os cubanos possuem um esmero muito grande com o interior de suas casas e isso é nítido em todas que adentramos nos dias por lá. Pena ter fotografado pouco esse aspecto e não poderia ser diferente, pois sem autorização, não é recomendável ficar invadindo a privacidade de ninguém. Vou acumulando essas informações ao longo da viagem e tentando entendê-los melhor.

Às 17h25 nos encontramos com um outro ônibus da Via Zul, quebrado no sentido contrário e parado quase no meio da pista. Não entendo tudo e essa é uma delas, pois as pistas em Cuba já não são lá muito largas, acostamento praticamente não existe e esse grandão está parado bem no meio fio. Ficamos por uns quinze minutos por lá e depois seguimos viagem. Mal saímos de lá, uma novidade, logo após passarmos pela cidade de Ciego de Ávila, quando o ônibus parou para um rápido abastecimento. Olhamos e não careditamos, pois lá estava um velho conhecido, a lanchonete El Rápido. Enquanto Marcos foi ao banheiro peço dois lanches grandes de "jamón e quejo" ($ 3,90 pesos). Logo a seguir outra parada, essa de quarenta minutos, num restaurante à beira da estrada, do tipo choupana, muito bonito. Desço só, pois Marcos que havia acabado de comer preferiu ficar confabulando consigo mesmo. Fui andar, fazer uma espécie de reconhecimento do lugar. Divirto-me observando como eles tratam os clientes, sem aquele interesse capitalista, onde o lucro é o que comanda tudo. Tudo é feito com muita calma, sem atropelos. Entende quem quer, mas estamos no país dele, no regime político deles e estamos ali por vontade própria. Curto essa tranquilidade, bem contrastante com a nossa pressa no dia-a-dia.

Saímos desse restaurante por volta das 19h20, quando finalmente começa a escurecer. O sol já se pôs e ainda temos chão até Havana. Passamos por Saint Espiritus por volta das 20h40. Na saída da rodoviária os motoristas, sempre em dupla e muito atenciosos, trocam o vídeo e para nossa surpresa quem aparece cantando é o brasileiro Roberto Carlos, num show gravado no Chile em 1994. Olhamos um para o outro e damos boas risadas, pois nem no Brasil assistimos mais o RC (pelo menos nós, né!). Muitos cantavam as músicas do Roberto, demonstrando conhecê-lo bem. Na viagem foram vídeos e mais vídeos, que acredito foram gravados de alguma TV. Depois não vejo mais nada, durmo e quando acordo acreditava estar adentrando o terminal de Santa Clara, mas na verdade estávamos era de volta à Havana. Eram aproximadamente 0h40 e de volta no terminal Via Zul. Embarcamos num táxi ($ 5 pesos) e vamos até nosso último hotel na ilha, o Saint John's. Na segunda, logo cedo, nossos últimos quatro dias em Cuba.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (19)

ENCONTROS INESPERADOS, INUSITADOS E INESQUECÍVEIS
Esses dias de final de ano são mais lentos, modorrentos e demoram a passar. Uso eles para rever pessoas, ler muito e colocar as conversas em dia. Comento aqui dois desses inusitados encontros.

No primeiro, domingo passado, 27/12, revejo mulheres queridas, primeiro na Toca do Açaí e depois no Fran's Café, ambos na Getúlio. Todas maravilhosas, em estado de graça, reunidas numa mesa, fugindo de uma chuva que caia a cântaros do lado de fora. Vera Tamião, uma professora (a mestra de todos nós), Zezé Ursolini, outra professora (presença constante neste mafuá) e as irmãs Paula e Má Velozo. Essas duas além de tudo o que fazem na vida, cantoras de algo a engrandecer qualquer currículo, MPB de classe. Ficar entre elas todas e ouvir/participar de um raro diálogo de final de ano é sempre revitalizante. Ali, planos foram traçados, histórias revividas e revoluções plantadas. Como são finas, sucos e depois um café, nada de álcool. Me sentindo um peixe fora d’água extrai o máximo de ensinamentos e tentei (ainda tento) reunir as duas irmãs para ouví-las noite dessas, num desses bares que só nós sabemos onde fica, antes que o novo ano chegue e as separem, para voltarem a se encontrar só lá sabe-se quando. As conversas nesses momentos são todas uma forma de deleite, onde cada presente conta passagens interessantes do ano, destacam os acertos, sinalizam os sonhos e fazem algo ainda mais interessante, buscam formas de entrelaçar as vidas presentes, em prováveis encontros para logo mais ali na frente.

O segundo encontro foi hoje, 30/12, das 9 às 11h e ocorreu lá no estúdio central da rádio Veritas FM, no programa matinal do Wellington Leite. Um grupo queria conversar, procuravam um lugar para fugir da chuva e aliado do homem do microfone, enquanto esse trabalhava, algo de grande e reconhecido valor foi realizado, jogaram conversa fora. Do inusitado encontro, algo como os “Quatro batutas e um coringa” (não me pergunte quem seria o tal coringa?), lá estiveram além de mim e do já citado jornalista, o poeta Lázaro Carneiro e o professor e também poeta Duílio Duka. Logo na chegada, damos de cara com outro adepto do bom papo, o professor de música Cláudio Corradi e logo na seqüência, o diretor da rádio, Reginaldo Viana. Lázaro trouxe uva engarrafada e bolinhos de bacalhau; eu, guaraná e salgadinhos. Wellington entrou com os copos e o furdunço só não foi mais longevo porque tínhamos um horário limite. Que papo agradável, bem cultural e fluindo como se estivéssemos num programa de rádio, batendo um papo, com irreverência e criatividade (olha que grande idéia para um programa). Ganhei um velho LP do Dominguinhos, presente do Lázaro e da música principal, lembranças e risos, como se falássemos do atual secretariado municipal: “Ah, isso aqui tá bom demais, quem tá fora quer entrar, mas quem tá dentro não sai”. Quase na hora do desmanche chega mais um, o ex-secretário de Cultura, Zé Vinagre e tudo recomeçou, com renovada galhardia. Cada um dos presentes rendeu boas histórias, mas final de ano, mesmo com esse tempo todo mais livre, a vontade de escrevinhar anda remota e fico por aqui. Sair de lá foi um sufoco danado, com o funcionário tendo que empurrar a trupe escada abaixo. E caíamos dentro dessa chuva que insiste em não parar de molhar nosso cocoruto.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

UMA FRASE (45)

ALGO QUE ME CHEGA PELO E-MAIL E POR UM JORNAL, LEMBRANCINHAS DE FINAL DE ANO
1.) Esse me chegou da professora MARIA CRISTINA ROMÃO SILVA (com ele agradeço tudo o que recebi nesses dias):
A TODOS MEUS AMIGOS, FAMILIARES e CONHECIDOS....
Para todos aqueles que em 2009 me passaram correntes dizendo que, se reenviasse, ia ficar rico ou milionário, informo que NÃO FUNCIONOU!
Em 2010 por favor mandem dinheiro ou presentes.
Obrigado.
PS: Também aceito vale-alimentação, vale-transporte, bolsa família, bolsa gás, bolsa pinga...erva-mate...rapadura... pinhão... pares de meias, umas tubainas... etc & etc.

2.) A cantora MANU SAGGIORO enviou um vídeo dela que circula no Youtube (recomendo a leitura do texto lá embaixo com a voz dela ao fundo). Que sensibilidade tem essa menina, vai longe:
"Envio com carinho este vídeo que fizeram enquanto eu cantava na noite de natal na casa dos pais da minha amiga Rê! http://www.youtube.com/watch?v=vvOLdW-cEK0
Uma alegria triste, mas ainda assim uma alegria, rs! O pessoal gosta muito dessa música. Ela é quase sempre a “bola da vez”, rs... essa e “Aguita” da Bea uruguaia!
Feliz ano novo a todos,
Grande beijo e abraço da Manu"

3.) O carioca PASCHOAL MACARIELO me envia algo de comprovado valor:
"Finalmente terminada a tourné entre as nações: ESTÁTUA VOLTA À ITÁLIA DEPOIS DE TOURNE NOS EUA. Depois de dois anos nos Estados Unidos, a estátua de David, de Michelangelo, vai embarcar de volta para Itália. Com o patrocínio de Mc Donald’s, Burger King, KFC e Starbucks Coffee. Constatem aqui o antes e o depois..."

4.) A recém aprovada professora de Design Gráfico da UNESP (assume aqui no começo do ano), ANA BIA ANDRADE (amiga de meu amigo Paulo Betti e uma das colaboradoras da griffe DASPU) veio do Rio de Janeiro para Bauru à procura de apartamento para aqui se instalar e ainda do Rio me diz o que deveria me trazer de lembrança. Lhe digo: "Traga os jornais". E assim foi feito. De um deles, O Globo, edição de sábado, 26/12, caderno Prosa & verso, uma entrevista com o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm, 92 anos, intitulada Voz da Razão. Trechos lidos em estado de êxtase dentro de um jornal conservador, demonstrando os motivos de continuar seu eterno díscipulo:

- "Eu me interessei pela História e por sua relevância para nossos problemas desde o momento em que descobri o Manifesto Comunista na biblioteca da minha escola secundária. (...) Eu acredito que três questões são centrais para nossa compreensão intelectual do passado e do presente. Embora homens e mulheres sejam biologicamente os mesmos que eram quando deixaram a África para se espalhar pelo mundo, a Humanidade evoluiu da Idade da Pedra para a Idade da Internet num espaço incrivelmente curto da escala de tempo geológica. Como e por que? Como e por que sociedades humanas entraram nessa história de transformações constantes e (desde 1800) cada vez mais rápidas? Como os variados fenômenos que vemos num período histórico particular se conectam - o econômico, o social, o político, o cultural, o psicológico? Tenho constatado que o método criado por Karl Marx é de longe o melhor para responder a essas questões. (...) Se olharmos para trás é claro que a História se moveu numa certa direção. A Humanidade avançou em todos os sentidos materiais... a tecnologia avançou, mas a filosofia não, nem o amor nem a maneira pela qual os humanos organizam e regulam suas relações com os outros".

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (20)

MESTRADO EM 2010 E UM TEMA ESCOLHIDO: PLANTÃO DAS SEIS - BESTIALIDADES E PERSEGUIÇÕES AO SAPO BARBUDO
Quando me formei em História, Licenciatura Plena lá na USC - Universidade do Sagrado Coração acabei deixando de lado o Mestrado, por motivos profissionais. Nos últimos meses, ouvindo rádio como faço, em quase todos os momentos disponíveis, acabei encontrando algo bem peculiar e interessante. O tempo para o trabalho talvez pinte em 2010 e o tema é sobre a brutal perseguição que alguns ditos jornalistas e outros, empunhadores de microfones, promovem sobre a pessoa do atual presidente da República, o Lula. O foco do preconceito e da perseguição de muitos é sobre a sua pessoa, alguns atacam o Governo num todo, mas fazem questão de insistir nas gozações pessoais, chacotas, ironias e algo mais do que descabido e vil, tudo o que de mal acontece no país e até no mundo, é dado um jeito de se estabelecer uma relação com o presidente. Cheguei a juntar e-mails diversos que fui recebendo ao longo do tempo sobre o mesmo tema (muitos já publicados aqui), mas diante do que venho ouvindo num só programa de rádio, a escolha foi certeira.

Encontrei o tema e para não ser muito extenso, irei me fixar num exemplo bem local, retirado de falas diárias numa rádio local, a Jovem Auri-Verde AM, no programa jornalístico (sic) "Plantão das Seis", apresentado das 18 às 18h20, de segunda a sexta, por Luiz Carlos Silvestre (diretor da rádio), Chico Cardoso (radialista) e e um tal de "Consultor" (comentarista esportivo). Pretendo seguir mais atentamente, para respaldar bem o trabalho, a partir de janeiro de 2010, mas antes disso, fiz algumas gravações/anotações, bem pertinentes, que, definitivamente, me fizeram optar por este tema e por este programa. Vejam as pérolas resgatadas das falas desses três citados e observem se tudo nesse campo, não passou de uma simples oposição para algo perigoso, sistemático e talvez até com um cunho mais de influenciar os ouvintes menos esclarecidos:

1) "Belluzzo tá viajando muito, hem! Tá parecendo o Lula" (Silvestre). "O Lula foi escorraçado ontem na inauguração de um aeroporto. Mas pode inaugurar agora? Tudo ele leva a Dilma junto" (Silvestre, Chico e Consultor). "Líder do Governo na Câmara. Mas ainda existe líder do PT? (Silvestre) "Ainda existe PT?" (Consultor): 15/09 terça

2) "O MST colocam uns zé oreias como boi de piranha e os grandões manipulam a grana" (Consultor). "O negócio deles é pegar terra e revender" (Chico). "O Correio é a única autarquia que funciona e o Governo deixa fazer greve" (Chico). "Esses aí mandam no país junto com o Zé Dirceu" (Chico). "Três senadores, sendo que o Mercadante não é mais senador, é pau mandado do Lula (Consultor): 16/09 quarta

3) "O Tóffoli do STF é amigo do Lula, então tá tudo bem" (Silvestre). O próximo ministro poderia ser aquele que está no presídio, o Fernandinho Beira Mar (Consultor). "O índice Daw Jones sobe mais um ponto e cada vez que sobe o Lula viaja de novo" (Chico). "E ele precisa disso para viajar. Esse viaja de qualquer jeito" (Silvestre): 21/09 segunda

4) Chico lê o resultado de uma pesquisa favorável à Lula e ao Governo federal: "Eu não fui perguntado sobre essa pesquisa. Nem eu nem a Valdete. Não que eu queira ser entrevistado, mas nunca pudemos emitir nossa opinião": 22/09 terça

5) "O Obama estava bravo hoje na ONU" (Silvestre). "E o discurso do barbudo na ONU" (Consultor). "Ah, deixa o sapo pra lá, chega!" (Silvestre). "Mais uma coisa que o Lula não deveria ter feito, fez novamente coisa de moleque. O Zelaya foi na embaixada porque é coisa do Lula. É claro que foi com ordem do Lula. O cara só entra na embaixada se for autorizado" (Silvestre): 23/09 quarta

6) "Nunca na história desse país antes foi emprestado dinheiro para o FMI. E os professores? Aumento para eles, nada" (Silvestre) "O PT já está mais sujo que pau de galinheiro" (Silvestre): 25/09 sexta

7) "A sanção ainda depende 'dele'" (Chico e na sequência imita o Lula). "Nunca vi um governo tão agiota como esse, me disse um gerente de banco" (Silvestre). "E nós somos os ingiotas" (Consultor). "O FHC tentou acabar com isso de cartório ser vitalício, aí chegou o Lula e mudou tudo. O FHC queria o fim disso, mas o Lula" (Silvestre). "Brasília é privilegiada porque nem tsunami tem" (Consultor). "Cerca de 200 famílias do MST acamparam em Iaras, aquele movimento que treina junto das FARC e acobertados pelo atual Governo" (Silvestre). É lido algo sobre um professor ter apanhado e professoras ligam. Citam que o Governo não faz nada, só que omitem que o problema é Estadual e não Federal. Aqui, fazem questão de confundir a cabeça dos ouvintes: 29/09 terça

8) Fazem uma brincadeira entre o Lula presidente e o Lula, radialista da rádio. "Lula não, o nosso Lula, o gente boa" (Chico). "O nosso, porque o outro é cachaceiro" (Silvestre): 06/10 terça

9) "Cenário deixado pelo MST em Borebi é de baderna" (Chico). "Esse pessoal é incentivado pelo Governo para fazer o que fez. E pelas FARC" (Silvestre). "Chega no Senado a Ideli Salvatti, Sarney, Mercadante, todos apoiam isso" (Silvestre). ""Esse é o governo do sapo barbudo, que jogava pedra no outro que tava lá" (Consultor). "Ele tirou foto com o boné do MST" (Chico): 07/10 terça

10) "A CEF é quem vai fazer a campanhado Lula. O cara abre a conta lá, cada família tem cinco pessoas, ganha mais de cinco sem fazer nada" (Silvestre). "Trocar de sexo pode, tudo de graça. Tirar o bilau. Tratar o drogado de graça e trocar de sexo, de nome, isso tudo é de graça. É coisa do Lula" (Silvestre): 28/10 quarta

11) "Essa rapaziada ganha 75 mil por mês, a Dilma no Conselho da Petrobras. A primeira coisa que o Lula disse para a Dilma é que quando for eleita quer ser presidente da Petrobras. Esse é esperto" (Silvestre). "Vocês viram que coisa mais ridícula ele tocando corneta no dia do seu aniversário" (Chico). "Mas o povo gosta disso" (Silvestre) e Chico passa a imitar o jeito de falar do Lula.
12) Uma de hoje, fresquinha: "Três Lagoas está em franca expansão. O Lula de vez em quando fica lá numa fazenda e algumas vezes leva junto o Lulinha" (Chico). "Já não gostei" (Silvestre): 28/12 segunda

Tirem vocês mesmos suas conclusões. O negócio dá até mais do que uma extensa tese. Sou ouvinte da Rádio Jovem Auri-Verde desde criança e sei que as pessoas vão e a instituição fica. Não a vejo num bom momento, totalmente influenciada por interesses de um grupo político, os dos atuais proprietários. Críticas a Lula, o PT, o MST, Evo, Chávez, Cuba, rádios comunitárias, movimentos sociais e grevistas são uma constante, mas nada ouço contra os tucanos, o PSDB, Serra, Alckmin, fazendeiros grileiros, Uribe, Pedro Tobias, AHB, golpe no Panamá... Escolhi ou não um bom tema para meu trabalho de Mestrado? Vou precisar de ajuda para continuar catalogando o material disparado nos microfones da rádio e o faço, não no sentido de censura (longe disso) e sim, do da irresponsabilidade no uso do microfone. Nem todos os programas da Auri-Verde possuem a mesma conotação arrivista, tanto que me utilizarei somente deste para minha pesquisa. Mais notícias em breve.

domingo, 27 de dezembro de 2009

BAURU POR AÍ (31)

SHOW NA PRAÇA CENTRAL DE AGUDOS NUM SÁBADO PÓS-NATAL - LÁ SIM, AQUI NÃO
Abro o Jornal da Cidade de hoje para ler a entrevista com o prefeito Rodrigo Agostinho e lá algo a traduzir a política brasileira: "O Brasil tem muitos partidos. Ninguém governa sem partido, sem composição política. Isso é difícil. Por mais que você tente contemplar os partidos que estiveram junto com você, sempre vai ter aquele outro que se sente preterido". Constato, é mesmo muito difícil fugir disso. Vejo o presidente Lula e sua batalha, todos muito parecidos nessa luta. O que me chamou mesmo a atenção foi um trecho da Coluna "Entrelinhas", na nota" Trombada de Nariz", quando afirmam: "Ao Jurídico é esperado o intrínseco papel de apontar caminhos, desconstruir obstáculos e mencionar falhas em editais e artigos de contratos, tendo como essência busca da proteção a legalidade e ao interesse público". Parece simples e tão fácil, mas não é. Eles também complicam um pouco e dificultam outro tanto. Vivenciei isso quando trabalhei na Cultura municipal. Ouvia nos corredores que se algum setor não queria aprovar algum projeto e não sabia como dizer não ao proponente, bastava enviá-lo para o Jurídico, pois a negativa era certa. O contrário também ocorre, quando alguns querendo fazer algo, tocam o barco, sem buscar a tal aprovação, pois enviando a eles, além do entrave natural, demora excessiva, nada ocorreria. Tradução de minha lavra: O Jurídico da Prefeitura, como a grande maioria dos setores públicos municipais é "cagão", medroso e não assina quase nada. Se borra todo e assim sendo, muitas coisas interessantes vão sendo adiadas e nem acontecem.

Fui me lembrar disso ontem quando estive à noite em Agudos, assistindo na praça central a um show de vanerão gaúcho com o tradicional Gaúcho da Fronteira e banda, junto de diletos amigos, o vereador Roque Ferreira, a amiga Zezé Ursolini e a mana Helena Aquino. Praça cheia, a cidade inteira em volta de alguns eventos natalinos de fim de ano. Shows de artistas pagos pela municipalidade e um parque a movimentar as crianças. Roque Ferreira num certo momento desabafa: "O que alguns precisam entender é que para se contratar um artista, por exemplo, um Ney Matogrosso não é preciso fazer licitação. Aliás, como você vai fazer três orçamentos e escolher o mais barato, se existe um só Ney". Faz mais do que sentido e sua fala foi bem em cima de algo vivenciado na questão municipal envolvendo as artes e espetáculos. O Jurídico emperra algumas contratações pela inexistência de licitação. Talvez não seja o caso desse tão cuidadoso setor da Prefeitura, dar uma espiada básica em contratos feitos em variadas Prefeituras vizinhas. Solução existe, mas tem que ter assinatura de quem analisou o processo e isso é uma dos grandes problemas. Ninguém, mas ninguém mesmo gosta de assinar nada, com um medo mais do que neura disso resultar em problemas futuros. E assim sendo, não se contrata ninguém. E os que querem ver show em praças, como nós quatro ontem, que coloquemos o pé e o carro na estrada.

Do show do Gaúcho da Fronteira, além do vanerão bom para dançar e da música gauchesca da fronteira com o Uruguai, extraimos pouca coisa, pois o som não estava dos melhores. Curtimos o máximo que pudemos e na saída, por volta das 23h30, algo a obstruir a rua central da cidade. Logo na frente nos deparamos com um caminhão de limpeza pública recolhendo o lixo da cidade em pleno sábado pós-Natal. Por aqui, ficaremos quatro dias sem coleta, mas aqui é um grande centro e lá é um pequeno. Não sei o que uma coisa tem a ver com outra, mas é que lá se consegue e aqui não. Como lá se consegue realizar shows de artistas na praça e aqui não.
Cliquem no vídeo abaixo e vejam, mesmo com a gravação ruim feita por mim, como uma praça cheia pode trazer felicidades múltiplas e variadas para a população de uma cidade,qualquer uma, inclusive a nossa:
video

sábado, 26 de dezembro de 2009

ARTIGOS NO JORNAL BOM DIA (52 e 53) e INTERDITO PROIBITÓRIO

ESPÍRITO DE NATAL - texto publicado no diário BOM DIA, edição de 19/12/2009, sábado passado
Tenho uma história guardada dentro do baú de minha memória. Foi-me contada faz muito tempo, nem sei por quem (ou a teria lido por aí?). O que sei é que dela não mais me esqueci. Reparto com todos vocês, pois é muito oportuna neste momento consumista de nossas vidas. Um homem simples vendia coxinhas num tabuleiro, todas feitas por sua mãe. Muito gostosas por sinal. Fazia o maior sucesso, vendia toda a produção diária. Umas trinta. Vivia alegre, senti-se importante, pois, como dizia, era um pequeno empresário. Certo dia veio até ele um sujeito cheio de perguntas: “Quanto é uma coxinha?”. “Um real”, respondeu. “E duas?”, rebate o perguntador. “Dois reais”, responde sem pestanejar. “E se eu quisesse cem coxinhas?”, retruca. “Aí cada uma custaria dois reais”, foi sua resposta. “E mil coxinhas?”, questiona o tal sujeito, não entendendo a lógica do negócio. “Nesse caso custaria cinco reais cada”, foi sua pronta e rápida resposta. E deu mais explicações: “Está todo mundo feliz lá em casa com a coxinha a um real. Se a coitada da minha mãe tiver que trabalhar o dia inteiro para fazer mais e mais coxinhas, terei muita pena dela, pois não sobrará tempo para mais nada e terá que ser muito bem recompensada por causa disso”. Não houve jeito do homem simples entender a lógica do capitalismo. O que não queria era ter sobressaltos em sua vida, feliz ao seu jeito e maneira. E se era feliz, por que deveria mudar? Estragar sua vida para que? O que ganharia com isso além do dinheiro?

QUESTÃO FECHADA - texto publicado na edição do diário BOM DIA, de 26/12/2009, hoje.
Uma sessão extraordinária na Câmara de Vereadores de Bauru, com o intuito de discutir e aprovar o reajuste da Contribuição de Iluminação Pública (CIP) na última segunda foi algo a demonstrar como de nada adiantam debates, teses de convencimento e discussões acaloradas, quando aqueles que estão a decidir já se dirigem ao local na certeza de como será dado seu voto. Infrutífera discussão com o ambiente político em voga. Questões fechadas antecipadamente são o que de pior existe na política, péssimas para tudo, pois demonstram que não existirá mais espécie alguma de diálogo. A mesma coisa que semear no deserto. Quando um político nem se digna mais a ouvir o outro lado, fica demonstrado que o jogo político é feito de interesses e esses, nem sempre são os melhores. O ser humano comprova com atos dessa natureza o quanto existe de irracionalidade em todos nós. De que valem estudos, propostas e análises cheias de detalhes, quando num acordo de bastidor, um grupo quer demonstrar o quanto é mais forte que o outro, vergando-o ali na hora da onça beber água. Situações como essa deveriam envergonhar a todos. Eu tenho na vida um lema e o sigo sempre, o da discussão à exaustão e é com ele renovado que adentro um novo ano.
Em tempo: Com este artigo, o de nº 53, completo um ano de participação aqui no BOM DIA. Agradeço a todos pela tolerância e total liberdade de expressão, uma dádiva. Não havendo questão fechada contra meus escritos, toco o barco em frente.

OUTRA COISA PERTINENTE - A QUESTÃO DO PROTESTO CONTRA A CENTROVIAS E ROQUE FERREIRA
Roque Ferreira sabe quanto o admiro. Além de amigo, sou seu eleitor e falo abertamente, é o nosso melhor vereador. Todos ficamos muito revoltados com a situação criada pela Centrovias, que administra a estrada Bauru/Jaú e o assoreamento de água ocorrido, resultando na catástrofe dentro do nosso Zoológico Municipal. Uma tragédia. Algo precisa ser feito e tudo é tão lento pelas vias normais. Roque foi em busca de fazer uma manifestação. E como elas estão difíceis nos dias de hoje. É mais fácil conseguir arregimentar gente para ver a passagem de um artista no shopping do que algo que destrói um cartão postal da cidade. E ele diante disso tudo, começou a organizar uma manifestação de protesto via imprensa e internet. Foi a derrocada do ato, pois a empresa buscou junto a Justiça (sic), através de um tal de "Interdito Proibitório", que o ato não pudesse ocorrer e na insistência, multa no lombo do organizador. Meu amigo é escolado nesses quesitos e deve estar arrependido pelo ato tomado. Se feito na surdina, já teríamos feito (sim, estaria lá de bandeira em punho, pronto para tudo) o ato e a situação poderia ter sido outra. Vale seu protesto para entendermos de uma vez por toda como são essas coisas. Quando que a Justiça daria para o Roque um "Interdito Probitório", do fechamento dos pedágios até a empresa resolver de uma vez por todas a questão do assoreamento? Para a empresa foi concedido e na primeira tentativa. Vamos sim, Roque, fazer essa e outras tantas manifestações, mas mais uma vez fica comprovado como devem ser feitas essas coisas (e você, mais do que ninguém, é conhecedor de todos os caminhos possíveis e até dos impossíveis). Pior que tudo, a situação lá pelos lados do Zoológico continua inalterada e isso não parece incomodar juízes, o dono da tal Centrovias e nem o povo bauruense, que inerte continua, esperando que tudo caia dos céus. Epa!, cuidado, nos últimos tempos, dos ceús tem caído muito granizo em forma de grandes pedras. Só isso.
Obs.: Todas as tiras aqui publicadas são de autoria do REP, retiradas do jornal argentino Pagina 12 (www.pagina12.com.ar). Entro nesse site diariamente e devoro, além de guardá-las, pois são todas ótimas.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

MEMÓRIA ORAL (77)

HISTORINHAS DESCONEXAS E FRAGMENTADAS DE UMA VÉSPERA NATALINA
Saio de casa e logo ali na curva da esquina, jogados ao léu, duas telas e um CPU de computador. Paro para uma foto. É a tal da limpeza de final de ano, onde o lixo brasileiro é descartado em qualquer lugar. Pode ser até na frente da casa do vizinho, uma maravilha. Um senhor de bicicleta se aproxima e me pergunta: “Está bom, parece novo, não?”. Não o iludo, nem incentivo a carregar e gastar tempo com negócio ruim. Digo a ele que lixo tecnológico não vale nada, sendo totalmente descartável e detestável. Conto uma passagem ocorrida comigo quando quis me desfazer de um de minha propriedade. Fui numa dessas lojas de aparelhos antigos e o dono foi breve e sucinto: “Não vale nada. E te peço mais, não jogue ali na esquina, pois tem uma turma de desocupados por aqui, que catam tudo e vem aqui me oferecer e enquanto eu não der uns dois ou três reais eles não sossegam”. Se não apodrecer por ali, o tal comerciante terá nova oferta em breve.

No caminho para a cidade, após a última alta dos combustíveis paro no novíssimo posto Bárbara, na esquina das ruas Araújo Leite e Júlio Prestes. Pergunto se estão trabalhando 24 horas e o frentista passa a me relatar uma história de nossas madrugadas. “Que nada, a intenção era essa, mas já vamos parar. Semana passada, num só dia, fomos assaltados três vezes e a cada retorno menos grana eles levavam. Numa delas, até um travesti que faz ponto aqui perto veio com uma faca. Voltou ontem, ficou rondando o posto. Não dá mais, o patrão acha que não compensa”, me diz. E tudo vai ficando mais escuro e perigoso nas noites do velho centro de Bauru.

Sigo em frente e na padaria Villa Buena, bem ao lado da Maternidade Santa Izabel, tomo um suco acompanhado de um dileto amigo. Ao nosso lado, um casal e a moça com uma inscrição tatuada no braço direito, das grandes, ocupando um espaço considerável. Lá está um “Só Jesus pode me julgar!”. Com exclamação e tudo. Ela fala alto e mesmo não querendo ouvimos o motivo de sua alegria: “Vejam que dádiva, nosso filho vai nascer justamente no dia 25 de dezembro. Um predestinado, deve de ter alguma missão especial já preparada para ele”. Se estivesse a beber algo alcóolico, pediria outra e engoliria tudo de um só gole, sem jogar nada pro santo.

Sai dali em busca de ar puro e paro na Jalovi dos Altos (essa a do lado nobre – rico – da cidade, existe outra, a do centro, mais popular), a famosa livraria/papelaria da cidade. Queria renovar meu estoque de canetas para o Ano Novo. Questionei uma jovem vendedora sobre antigas promoções de livros, cito já ter adquirido uma grande quantidade deles dessa forma. Quase rindo, virando-se para mim com fala baixa, exclusiva, me diz: “Aqui é a loja dos Altos, atendemos os clientes das classes A e B e para esses não pega bem fazer promoção. Eles não gostam disso, nem de serem vistos vasculhando promoções. São chiques”. Fico sem meus livros baratos, mas os caros estão todos ali, diante dos meus olhos e distante de minhas possibilidades.

Paro na praça Rui Barbosa, bem no centro da cidade, em busca de um original Papai Noel e o encontro logo de cara. Celsão é um famoso artesão da cidade, remanescente de uma geração quase extinta de hippies (existem uns dez na praça com suas bijuterias e outras cositas), trabalhando em madeira, cortando uma peça com uma serrinha elétrica. Conversamos sobre o fato dele estar ali com um chapéu noelino e da alegria de tê-lo visto na revista Revista do Brasil (edição de outubro), quando afirmou ter sido um dos últimos a deixar o Festival de Águas Claras, realizado décadas atrás em Iacanga, 50 km de Bauru. Abre um sorriso e me diz, sem medo de ser feliz: “Aquilo foi tudo de bom, tinha cachaça, maconha e cogumelo a vontade. Não queria mais sair de lá. Hoje tô calmo, em outra, mas não abandono o estilo de vida. Vivo de minha arte e da calçada da praça”. Esse é meu Noel. Ainda na praça, observo em estado de puro êxtase algumas crianças se banhando no novo chafariz, diante de um calor de mais de 30º. Dá uma vontade difícil de ser contida de seguir o mesmo caminho. Imagino qualquer dia desses, Celsão e sua turma lá dentro d’água.

Circulo um pouco pelas ruas centrais do comércio e diante de um grande magazine, uma senhora fica sentadinha no chão, como tantas outras, com o gesto habitual da mão estendida aos passantes, todos muito apressados e com as mãos ocupadas. Do outro lado da rua, permaneço uns cinco minutos e nada, nem lhe notam a presença, mais uma das tantas invisíveis a ocupar as calçadas dos centros urbanos. Sua foto ilustra esse lado desumano das cidades, quando num momento de festa e contentamento, muitos compram e outros nem tem o que comer. Do retrovisor do carro se aproxima outro, com a mão estendida, velho conhecido, que não me reconhece e pede algo para sustentar “família grande, crianças doentes”. Dou o de sempre e sigo em frente, pois num dia como esse, minha mente fervilha com tantas outras coisas, que nem atenção para eles acabo dando.

Quem bate palma aqui em casa no finalzinho da tarde do dia 24 são os lixeiros da EMDURB. Recebo dois deles, o Marcos e o Valdemir, que haviam deixado um envelope personalizado com a fotos dos cinco servidores do lixo, devidamente identificados, onde deveria deixar minha gratificação natalina a eles. No envelope, além da foto de todos, um mensagem: “Não se engane com falsos coletores! – Entregue somente para os coletores que estão identificados no envelope...”. Ficamos conversando no portão e ele me conta: “É muita gente querendo tirar vantagem do coletor. Passavam antes de nós e na hora que batíamos palma para buscar nossa parte, éramos até xingados, pois muitos já o haviam feito antes. Mandamos fazer por conta própria o envelope com as fotos para diminuir o problema e ajudou bastante. Agora só é enganado quem quer”. Minha mãe coloca um valor e eu dobro, mesmo sabendo que eles estão empregados e recebendo 13º salário. Lembro que outro dia pegaram um gaiato que com o uniforme da EMDURB arrecadava gratificações de comerciantes do centro pela limpeza diante de suas lojas, mas nem funcionário era. Espertalhões existem aos borbotões.

Teria muitas outras, mas deixo para outro dia, pois hoje, dia de Natal, me chamam para o farto almoço. Levanto e ouço da rua um sorveteiro acionando sua buzina. Vou almoçar me perguntando: "Esse não pode escolher dia nem hora e até no dia de Natal tem que sair com seu carrinho pelas ruas, em busca de seu ganha pão. Triste sina a sua, não?".


AGRADECIMENTOS DESSE MAFUÁ:
Tenho que render justas homenagens a duas pessoas aqui por algo feito em prol deste mafuá. O primeiro é o Alex Palopoli, novo proprietário do semanário O Alfinete, de Pirajuí, que imprimiu graciosamente mil cartões de visita com a estampa do mafuá. Aceitei e constrangido fico em distribuir, pois acho muita pretensão ficar entregando-os de mão em mão com solicitação para adentrarem esse espaço. Estive recentemente lá em Pirajuí na festa de final de ano do jornal e algo a comover, a festa foi quase que exclusiva para os que entregam e vendem assinaturas, o s que realmente lutam pela sobrevivência do jornal. Conheci gente danada de boa, daqueles a suar a camisa e acreditar num projeto. O segundo agradecimento vai para a eterna amiga, Zezé Ursolini, que surpreende novamente confeccionando duas camisetas com a estampa do cabeçalho desse mafuá. Ganho as duas de presente e novamente, mesmo tendo adorado, constrangido fico, mas visto na hora. Agora, ninguém me aguenta mais, saio todo pimpão ostentando o mafuá numa camiseta e em cartões de visitas.