quinta-feira, 31 de março de 2011

MEMÓRIA ORAL (102)
FORMIGUINHA FAZENDO BAITA VERÃO

O ditado é claro, “uma formiguinha só não faz verão”, mas no caso do trabalho desenvolvido pelo alagoano Fernando Antonio Vieira Barros, 47 anos, segurança bancário dentro de agências do Banco do Brasil a coisa ganha outra conotação. Doze anos atrás observando algo acontecido no bairro onde mora em Bauru, interior paulista, quando um adolescente mata outro no portão de casa, sumindo a seguir, teve a seguinte reflexão: “Era meu amigo, jogava bola comigo e com todos do bairro, estragou sua vida e a de outra família.

Daí passei a observar melhor todos eles, chegando como formiguinhas. Falei isso para minha mulher e acabei achando o nome sugestivo”. Daí surgiu a idéia da criação do Projeto Formiguinha – Ação Comunitária Pousadense, exatamente no bairro onde mora e atua socialmente, a Pousada da Esperança, um dos mais carentes da cidade. “Queria juntar os meninos todos num lugar onde pudessem fazer algo mais do que ficar nas ruas. Ver as crianças daqui dá dó. Tudo o que você fizer aqui mobiliza. Pensei em algo com o esporte, o futebol. Fui jogador até meus 21 anos no CRB alagoano, estourei o joelho e parei. Fui igualzinho a eles. Fui novamente para o campo, onde passo meus conhecimentos. Juntei algumas pessoas, conseguimos um terreno, cada um doaria R$ 10 reais por mês para pagarmos. Isso da Diretoria ao Conselho Fiscal, mas já no primeiro mês ninguém pagou. Paguei o terreno quase todo sozinho e do próprio bolso. Tirei do meu salário, mas segui em frente. Sigo sempre em frente”, começa seu relato.

Emocionante ouvir como tudo foi levantado. “Digo que a construção foi levantada com papel picado, pois ia juntando papel e revendendo. O Banco do Brasil, aonde trabalho até hoje, vendia o papel com as sobras deles e repassavam tudo aqui. Acreditaram no que fazia. Vendia computador usado, o que doavam e a construção seguia. Cada hora alguém doava algo diferente. A morte do menino foi em 2000, em 2002 legalizamos o projeto, vim de Alagoas para cá em 94 e desde 95 moro aqui no bairro. Não parei em nenhum desses anos de lutar pelo Projeto Formiguinha. O bazar da pechincha, com colaboração dos funcionários do banco sempre existiu e com a renda toda voltada para o projeto. Devo muito a isso”, vai seguindo na retrospectiva de sua trajetória de sonho sendo concretizado.

Precisava atender os menores, os que ainda não estavam perdidos. Eles são o retrato da sociedade. Meu público é mais masculino e vai dos 7 aos 16 anos. Aqui forneço três refeições diárias, priorizando os até 12 anos. Veja hoje, aqui estão professores e monitores da UNESP de Bauru, meus parceiros. Tudo voluntário e bolsista. No dia-a-dia sempre tem umas três meninas para darem o reforço. Se eu chamo só para o curso eles não vêem. Se for para o futebol, ficam esperando sua vez, fazem fila. Não tenho internet e isso também é difícil na hora de segurar eles por aqui, mas o que é mostrado aqui, sugere a eles que aprendendo algo novo, podem mudar de vida. Já temos exemplo nesse sentido e incuto isso em cada um deles”, prossegue Fernando.

Na tarde desse sábado, 26/03/2011, Wilson Massashiro Yonezawa, professor de computação na UNESP Bauru prossegue no trabalho de inclusão iniciado ano passado, chegando a afirmar que o ocorrido ali já ultrapassou essa fase. “O feito aqui não é mais de inclusão, estamos alfabetizando digitalmente as pessoas. Eles passam a entender o computador como uma ferramenta, depois vislumbram o seu uso profissionalmente. Tudo é uma ampliação, abrimos um leque diante deles. Hoje, sábado, trabalho com os meninos junto a textos e na quarta a noite o trabalho é junto aos adultos. Esses tem mais dificuldades, mas são mais focados, mais disciplinados”, diz. Está ali com dois monitores, Márcio e Nayara, alunos de Graduação, Educação Física e Biologia, respectivamente, contando também com a presença de dois voluntários, um casal, Pedro Vannini e Marcela Camargo, casados e unidos no trabalho iniciado também no ano passado.

Marcela veio inicialmente por intermédio da universidade, convidada pela professora Maria Sueli, de sua área, a de Biologia, no projeto de extensão, trazendo consigo o marido, funcionário do Correios. Ao observarem os avanços protagonizados por muitos dos meninos, como Dhiovani Henrique, 14 anos, morador da Nova Bauru, nas redondezas, nem pensam em desistir. “Eu jogo no time vizinho ao do Fernando e ele me pediu para vir conhecer. Vim, gostei e estou até hoje. Já sabia alguma coisinha de computador, hoje digito mais rápido, sei salvar. O futebol treino durante os dias da semana e aos sábados venho fazer computação”, conta o menino. Marcela envolveu-se tanto que acabou trazendo a mãe, moradora em Rio Claro, distante 200 km de Bauru para ministrar uma Oficina de Guirlanda no final do ano. Um envolvido acaba trazendo mais pessoas, isso ocorre não só entre as crianças, mas entre os a atuarem nos bastidores.

Fernando me acompanha para conhecer melhor a edificação. Mostra um depósito, com as doações e já se mostra preocupado quando tudo estiver terminando. “Tem muita coisa a ser feita. A chuva intensa desse começo de ano mofou as paredes, as pessoas passam pela rua e se não nos conhecerem não sabem que é aqui a sede do Formiguinha. Só mesmo quem conhece. Queria uma fachada melhor, bem grande, com aviso lá na entrada no bairro. Quero ampliar tudo, ter assistente social e um patrocínio para ter a internet via rádio. Para a Prefeitura me ajudar falta sempre alguma documentação, as certidões eu já tenho, mas falta o balancete. Deixei a presidência por alguns anos e agora estou reorganizando isso. Além da computação e do futebol, sempre ocorrem palestras, com temas variados e o Chico Maia, da Prefeitura está conseguindo uma Sala de Telecentro. Diz ele que falta só a mobília”, vai me dizendo.

O refeitório sobrevive só com doações e presencio um lanche no meio da tarde, feito com refrigerantes e bolachas. “Quando não tem, compro tudo, mas ninguém fica sem comer. Hoje o projeto abrange 86 crianças e só não temos mais porque nos faltam computadores. Dificuldades ocorrem todos os dias. Hoje mesmo alguns estão meio bravinhos, pois iríamos num torneio de futebol em Reginópolis, mas o ônibus custaria R$ 300 reais e seriam mais de 60 meninos, todos sob minha responsabilidade. Faltou o dinheiro e correria muitos riscos sozinho. Noutro dia queria colocá-los num torneio de futebol junto à Prefeitura. O cara lá da Liga queria me cobrar R$ 240 reais de inscrição. Não teve jeito, ficamos de fora. Aqui não tem finalidade lucrativa, tudo é ação social e isso precisa ser mais bem entendido. O meu sonho é que eles possam sair daqui e conseguir um emprego. Vislumbro isso, é por isso que estou aqui”, conclui Fernando, uma formiga que resolveu certo dia fazer algo mais do que todas as demais. Não parou mais e muito ainda tem para ser feito.

quarta-feira, 30 de março de 2011

PERGUNTAR NÃO OFENDE ou QUE SAUDADE DE ERNESTO VARELA (26)

DUAS TENTATIVAS DE ENTREVISTAS DESSE MAFUENTO ESCREVINHADOR

PRIMEIRA TENTATIVA - PERGUNTA MAFUENTA: Caro deputado estadual tucano Pedro Tobias, gostaria de poder estar entrevistando-o para que sane de uma vez por todos os laços umbilicais entre todos os problemas vividos dentro da instituição Associação Hospitalar de Bauru, com os seguidos e rotineiros desvios de altos valores, todos feitos por pessoas lá colocadas pelo senhor. A preocupação desse mafuento entrevistador é que nesse momento, quando te levantam a bola, sobre algo de consenso na cidade, ou seja, a luta pela criação de uma Faculdade de Medicina na cidade não sirva para encobrir algo escabroso ocorrido dentro de nosso maior hospital a atender os mais necessitados. Preciso tirar algumas dúvidas. Poderia me conceder uma breve entrevista...

RESPOSTA DO ENCURRALADO DEPUTADO PEDRO TOBIAS: Não.


SEGUNDA TENTATIVA - PERGUNTA MAFUENTA: Caro general de cinco estrelas ou mesmo Ministro do Exército, gostaria de poder estar entrevistando-o sobre a data de Primeiro de Abril (prefiro essa data, caindo exatamente no Dia da Mentira), quando ocorrerá a passagem de exatos 47 anos do nefasto Golpe Militar que infelicitou (infelicita até hoje com suas repercussões) esse país. Outra coisa a instigar curiosidade nesse escrevinhador é dos motivos de países vizinhos conseguirem culpabilizar antigos infratores da lei e aqui não. Trinta e cinco anos após o golpe, 196 criminosos foram condenados por violações dos direitos humanos na Argentina e aqui continuamos pisando em ovos, patinando, sem solução a definir o assunto e sem nenhum tipo de manifestação a lotar nossas praças públicas. Gostaria de discutir um bocadinho dessas coisas de forma clara, franca e sincera. Poderia me conceder uma breve entrevista...

RESPOSTA DO ENCURRALADO MILITAR: Não.

PS.: A idéia desse tipo de entrevista não é minha, sim do Sr Cloaca News, ilustre blogueiro dessa nação, que quando da visita de Obama ao Brasil tenta fazer o mesmo com o ilustre visitante. Identico resultado.

terça-feira, 29 de março de 2011



MÚSICA (72)

CEM ANOS DE ASSIS VALENTE, REENCONTROS E ALGO MAIS NA LAPA CARIOCA - Ontem, de passagem pela cidade do Rio de Janeiro ao abrir um jornal, lá algo a me indicar o que faria à noite: Show em homenagem ao CENTENÁRIO DE ASSIS VALENTE, com MARCOS SACRAMENTO, no teatro Carlos Gomes, Praça Tiradentes, 19h30, R$ 1 real. Do cantor lembranças de sua passagem por Bauru, coisa de uns cinco anos atrás, trazidos pelo trabalho desenvolvido por Vinagre e Sivaldo na Cultura Municipal, através de parceria com a Funarte, tramites envolvendo a hoje ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Marcos veio e viemos todos a conhecer Maria Braga, a produtora do show. Boníssima pessoa, empatia imediata com todos e na seqüência a dupla bauruense traz por duas vezes à cidade Francis Hime. Tenho saudades desse tempo, onde com muita criatividade, grana nenhuma, sabendo escarafunchar as coisas onde elas estivessem muita coisa foi conseguida no cenário a envolver a cultura municipal. Prevejo com Elson Reis um retorno a esses tempos.

Bauru merece. Fui ao show com o amigo e jornalista Flavio Lenz. Boquiabertos, primeiro com o repertório divinal e depois com a desenvoltura do cantor no palco. Um belo quarteto, que alguns chamam de Regional e uma hora de inebriante revivida sensibilidade musical. Um primor e a constatação de que Sacramento está a aprimorar seu trabalho, quase todo voltado no resgate de velhas canções no cenário musical carioca. Está se aprimorando nisso, já sendo reverenciado como um dos que melhor faz esse trabalho.

De lá, voltamos à mesa de um típico botequim carioca, o Vaca Atolada, enfincado na rua Gomes Freire, coração da Lapa. Trouxemos junto um amigo do Flávio encontrado por lá, Lúcio, que tendo trabalhado na extinta editora Codecri (a do rato que ruge, d’O Pasquim), me fez recordar de uma estante recheada desses livros lá no mafuá. Na mesa nossas mulheres, Ana Bia e Gabriela Leite, que não foram ao show e ficaram bebericando no bar e apreciando uma descoberta auspiciosa.

Ali algo a resistir no Rio (em Bauru nenhuma), uma Junk Box, onde você por R$ 50 centavos escolhe uma música e ela preenche o espaço. Vejo isso espalhado por aí, mas só com músicas bregas, mais populares, não o que Cláudio, o proprietário fez. Esse, um ex-policial civil carioca, que certo dia após levar uns tiros e facadas, na recuperação decide abandonar o meio policial e abrir um bar, um reduto de carioquice, como está apregoado na fachada. Em Bauru, alguns bares apregoam estarem buscando inspiração em bares cariocas, mas nada igual a esse. No andar de cima, algo para dançar com um conjunto em plena apresentação, no de baixo, na parte interna amigos reunidos e tocando só clássicos do samba. E na entrada do estabelecimento, ao lado de uma geladeira cheia de apliques com fotos de Noel Rosa, inspiração do proprietário, a maquininha de música.

Babei na fronha com a tal engenhoca. Abracei e beijei, queria trazê-la comigo, mas fui impedido e convencido a voltar lá quando estivesse a necessitar de escutar boa música. Cláudio, mesmo contrariando os proprietários da máquina (ela é alugada e vão sendo adicionados músicas e mais músicas, ampliando o leque de escolha do cliente), que queriam ver ali o mesmo repertório de outras instaladas na cidade. Ele bate o pé e fez algo só seu, só música reconhecidamente boa, com Aracy, Elizeth, João Nogueira, Candeia, Nelson Cavaquinho, Cartola, Beth, Guineto, Zeca, Martinho, enfim, gente dessa laia, a nossa, a dos freqüentadores do local. Estampou as fotos e colou na peça, que além de linda, já pode ser considerada de museu. Em todo o tempo que passei por ali fiquei a escutar João Nogueira, Aracy de Almeida, Jamelão e clássicos da velha guarda. A cumbuca de feijão preto estava divinal, a companhia melhor impossível e Cláudio nos brindou com seu amor ao Flamengo (foi presidente de torcida organizada, ele lembra com carinho de Baroninho) e terminamos todos fechando seu bar, na madrugada de segunda, reverenciando, como não podia deixar de ser, o grande e agora centenário Assis Valente.

Quem não gostou muito tudo foi meu fígado, que sem preparo anterior para tais novidades, acordou nessa terça reclamão e me faz andar com uma garrafa de água para cima e para baixo. Viva Assis Valente, o Vaca Atolada e essa verdadeira instituição carioca, o verdadeiro botequim, que me faz esquecer as agruras de um mundo cada vez mais desigual e insano. No linguajar dos freqüentadores desses bares o buraco é mais embaixo.


OUTRA COISA – Olhem o texto que recebo de algo a acontecer no Templo Bar, em Bauru, logo mais na noite de hoje: “Desculpe a brincadeira, mas este é um jeito descontraído de convidá-los a participar de um evento bem legal e ainda por cima ajudando a outras pessoas! ÓI POVO! HOJE, TERÇA FEIRA O “NÓS MULHERES” DESTE ENTRA NO TREM DOS MINEIROS! SE EU FOSSE OCEIS EU PEGAVA OS “TREM” E CORRIA PARA ESTAÇÃO “TEMPLO BAR” PARA NÃO PERDER A “COISA”! O TEMPLO BAR FICA NA RUA BENJAMIN CONSTANT 1-34 TEL 3223-3493. NA VIAGEM OCEIS VÃO TÊ A COMPANHIA DE DEZESSEIS MUIÉ TOCANDO E CANTANDO AS MÚZCAS DOS CUMPADI MILTON, LÔ BORGES, BETO GUEDES, ANA CAROLINA, FLAVIO VENTURINI, VANDERLEE E MUITO MAIS. ÓI, SE EU FOSSE OCÊ NÃO PERDIA ESSE TREM NÃO, CAUSA DI QUE, EU TENHO CÁ CUMIGO QUE ESSA VIAGEM VAI SÊ UM NEGÓCIO BÃO DI MAIS DA CONTA SÔ ! E TEM MAIS, O DINHEIRO QUE “RECADÁ” VAI TUDINHO PARA SAPAB!”, assinado Audren Victório, uma dessas 16 doidivinas mulheres.

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segunda-feira, 28 de março de 2011

FRASES DE UM LIVRO LIDO (47)

UM LIVRO, “CAIM”, DE JOSÉ SARAMAGO E O QUASE SACRIFÍCIO DE ISSAC
Assumido descrente, não necessito de justificativas e outras afirmações. Minha trajetória de vida me conduziu a isso. Discuto o mínimo possível esse assunto, pois não existe a mais remota possibilidade de pensar de outro jeito. Ganhei o “Caim” (editora Cia das Letras, 2009) ano passado, não havia lido até esse mês. Tenho uma fila de livros diante de minha mesa, todos aguardando o momento de serem lidos. Emprestei-o para meu filho, que o leu rapidamente e queria discutir o texto comigo. Tornou a reler e eu claudicando. Peguei de jeito por esses dias e grifei-o todo com minha inseparável caneta marca-texto. São frases e mais frases. Prefiro reproduzir uma passagem das mais interessantes. José Saramago foi brilhante no seu entendimento de quando Caim ao impedir o sacrifício de um filho de Abrão, Issac e pelo próprio pai, por ordens do “senhor”. O livro recupera a imagem que tínhamos de Caim. O texto merece ser lido (na grafia escrita pelo autor) e o reproduzo aqui:

“Convém saber como isso começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega que às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, issac, a quem tanto queres, vai a região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e seu filho issac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltarmos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, nesse caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe havia falado, abraão construiu um altar e acomodou lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sob a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais devia amar, Foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida de issac. (...) Abrão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis. Perguntou issac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me , a mim que sou teu único filho, Mal não me fizeste, issac, Então por-que quiseste cortar-me a garganta como seu eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-lhe o braço. A idéia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos. (...) Pai, não me entendo com essa religião, Hás de entender-te, meu filho, não terás outro remédio, e agora devo fazer-te um pedido, um humilde pedido, Qual, Que esqueçamos o que passou. (...) A questão não é eu ter morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel, tão baal, que devora seus filhos...”.

Li e estarrecido fiquei. Discutimos muito esse trecho, pai e filho, longe de termos alguém a nos nortear com ordens tão banais e inconseqüentes. Estamos noutra trilha, felizmente.

domingo, 27 de março de 2011

PALANQUE - USE SEU MEGAFONE (05)

27 DE MARÇO: DIA MUNDIAL DO TEATRO*
* Escrevendo sobre essa data recebo um texto elucidativo do amigo e homem dos bastidores do teatro, o LUIZ JOAQUIM JUNIOR (KYN JR). Para ampliar a discussão em cima do tema, reproduzo na íntegra. O tema de hoje é o teatro e tudo no seu entorno. Vamos a ele:

Inicio uma homenagem a todos que estão sempre lutando pela arte de representar personagens, ligado a uma realidade ou não, através de textos de dramas, tragédias e comédias, utilizando de diversos mecanismos para que o espetáculo no palco seja suntuoso, belo, sempre imbuído de um trabalho consistente, com qualidade e excelência.

O dia mundial do teatro foi criado em 1.961, pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI), data da inauguração do Teatro das Nações, em Paris. O teatro, essa arte primeira da interpretação que envolve a engenharia e a arquitetura na composição cenográfica, a música, a indumentária, a iluminação, a voz, o olhar, a expressão do todo corpo no conjunto do espetáculo, tem hoje pelo mundo afora encenações de textos sejam eles de Sófocles, Aristófanes, Shakspeare, Moliére, Bertold Brecht, Albert Camus, Gean Genet, Tenesse Williams, Fernando Arrabal, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e tantos outros criadores de emoções e de transgressões sociais e psicológicas.

No teatro, as interpretações devem ter o peso da interpretação, posto que teatro é pose, teatro é cena, teatro é a vida dos atores que constroem, ao lado da própria personalidade, uma personalidade teatral que é reconhecida através da força da interpretação de cada um dos atores. Homenagear a arte do teatro, a arte cênica por excelência é também dedicar a essas pessoas, homens e mulheres, atores, atrizes e diretores que nos palcos do mundo constroem um mar de emoções, nos levando aos risos, gargalhadas, aos choros, prantos e à reflexão. O meu muito obrigado a cada ator, a cada atriz que como operários de um canto que envolve a todos, tenham sempre espaços em todas as cidades do mundo, para que possam mostrar a competência técnica e o compromisso político com a nobre arte.

Agradeço em especial a minha querida e amada atriz, diretora, produtora e empresária Mariza Basso com quem Deus me permitiu conviver, partilhar diariamente da sua bondade , do seu amor e de sua arte. "Sou um homem de teatro. Sempre fui, e sempre serei um homem de teatro. Aquele que dedica a sua vida a alguns metros de tablado, esse é um homem de teatro”. Seguida de um poema de Dirceu Régis, essa fala convicta era dita por Paulo Autran no espetáculo-montagem.

Salve, salve atores, atrizes, diretores, técnicos, enfim, salve a vida teatral. Merda para todos. Viva o teatro.

Luiz Joaquim Junior (Kyn Junior), Consultor, Produtor Executivo, Publicitário e Bauruense.

sábado, 26 de março de 2011

UM LUGAR POR AÍ (10)

MUSEU DE AVAÍ - ODE A REVERENCIAR O TRABALHO DE VIVALDO PITTA
Precisei pesquisar documentos ontem em Avaí, mas precisamente no Museu Municipal Francisco Pitta. Aquela preciosidade só existe por causa da abnegação de VIVALDO PITTA (filho do Francisco, nome do museu), seu idealizador, criador, incentivador e mantenedor por muitos anos. Hoje, Vivaldo vive uma dramática situação de saúde, estando afastado de tudo e de todos, tentando se recuperar. Atende aos clamores dos que necessitam de seus préstimos, como o fiz, por telefone, sempre solicito e com informações de memória sobre fatos relevantes da história de toda nossa região. Assim com o museu que criou, uma pessoa a ser preservada e melhor entendida.

Anos atrás não possuia o entendimento que possuo hoje sobre sua pessoa e ação. Hoje dou todo valor ao que fez, arrebanhando peças e mais peças, muitas delas férreas, mas não com o intuito, como muitos, de manter algo pessoal, dentro de casa. Pitta viu o acervo ferroviário esvaindo-se no abandono causado pela privatização e juntou boa parte disso. Guardou tudo e concretizou um sonho. O resultado ocorreu com a lei municipal da Prefeitura de Avaí, datada de 20/12/2002, criando o Museu e com a sua inauguração em 15/03/2003. Manteve também até quando consegui o único jornal de um museu brasileiro, O Avaiense, bancado com algum recurso público e o envolvimento de quase todo seu salário como diretor daquele museu. Escrevia de tudo, principalmente da cidade de Avaí e de todas da região. Fonte inesgotável de consulta e pesquisa.

Quem mais faz isso hoje na região com a abnegação de Pitta? Conto nos dedos de uma mão. Pitta não é confuso no que fez juntando tudo no mesmo espaço, como já ouvi por aí, pois foi uma espécie de garantidor de que nada daquilo se perdesse. Alguém com um real preparo museológico poderia prestar um auxílio aquela Prefeitura, dando seu quinhão de contribuição para que aquilo fosse perpetuado, porém sem perder a naturalidade de sua distribuição atual. Faz-se necessário hoje uma catalogação do rico acervo, uma separação por temas, uma exposição não de tudo, mas das peças mais significativas, talvez num local mais arejado, mas o pontapé inicial foi dado com louvor e isso precisa ser reconhecido e enaltecido.

Louvemos essa pessoa enquanto ela consegue resistir bravamente a algo que lhe corrói por dentro. Sua dor não é só a física, a do corpo, sendo também a dos que vêem aquilo tudo e não reconhecem como algo de valor, não dão a devida importância. Vi nas paredes do Museu dois diplomas de reconhecimento pelo trabalho prestado por ele, primeiro um título de Cidadão de Avaí, depois o dado ano passado no III Encontro Ferroviário de Bauru, o do Mérito Ferroviário. Ele merece a ambos, mas precisamos todos os que conhecem e dão valor para o Patrimônio Histórico fazer algo mais, aproveitar esse momento em que ele resiste como pode às adversidades da vida para demonstrar que toda sua luta não foi em vão.

Posso não concordar com algo da sua linha de pensamento, que diverge da minha, mas reconheço nele algo que não possuo e não consegui colocar em ação, ele fez e aconteceu. Ele não desistiu um só momento do seu sonho, lutou contra imensos e resistentes "moinhos de vento", como um verdadeiro Quixote. E só por isso é um bravo guerreiro. Imaginem o que seria de todo esse acervo lá existente se não fosse o trabalho incessante de uma pessoa como ele, com certeza, tudo estaria perdido. Circulo muito por cidades vizinhas, pequenas como Avaí (imaginem a grandiosidade de um museu numa cidade brasileira de 5000 habitantes) e em nenhuma delas algo como esse museu. Ali é um espelho, algo que todos dessas cidades babam de ver e gostariam de ver implantado em suas cidades. Documentos, peças importantes de todas essas cidades estão definitivamente perdidas pelo simples fato de lá não existir alguém com a coragem de fazer de um Vivaldo Pitta.

Da visita de ontem, ressalto uma historinha a demonstrar como Pitta atuou para conseguir o acervo lá existente. O cinema funcionou por lá até meados dos anos 90 e pouco. Quando fechou foi esquecido e uns dez anos depois, museu aberto ele foi fazer uma inspeção no local, subiu uma escada e lá encontrou, no local de projeção, os imensos e pesados projetores, ainda de carvão. Maravilhado, moveu céu e terra para conseguir aquilo para o museu. Tanto fez que hoje as peças são as mais olhadas com curiosidade dentre os visitantes. Noutra, ouço o tom de vitória, algo retumbante pelo museu ter conseguido uma verba específica para encadernar todas as edições do jornal O Avaiense. Valor pequeno, conseguido com intenso trabalho. O alento vem de tomar ciência de um grupo de pessoas dali e de outros locais, denominadas de Amigas do Museu, a reunirem-se com certa periodicidade, lutando pela sua consistência.

Falo dele de peito mais do que estufado, já tivemos rusgas no passado, mas a superamos, pois ele mais do que ninguém lutava não por algo pessoal, mas para que tudo o que lutava fosse perpetuado. Ele conseguiu e hoje, lá naquele museu encontra-se um seu fiel seguidor, José Ricardo Navarro, ainda como responsável, mas seu futuro Diretor, tendo começado a se interessar por essas questões desde praticamente a abertura do museu. Faço várias perguntas a Ricardo, mas a mais significativa, aquela a me calar mais fundo e que publico aqui em negrito é algo que precisa ser seguido e entendido por todos os envolvidos com museus: "O melhor dia para os Museus é nos finais de semana e os feriados, principalmente os prolongados. Nesses o museu bomba. Feriados para nós é uma beleza". A frequência deles é de umas 300 pessoas por mês (ótima pela condição de isolação em que estão) e funcionam de terça a sexta das 8 às 17h e aos sábados, domingos e feriados (todos eles) das 8 às 12h. Entrada gratuita e a localização é simples, adentrem Avaí e perguntem pelo Museu, pois para ali chegar não se faz necessário nenhum mapa. Liguem ainda hoje para 14.32871183.
OBS.: Na foto maior fotos de Vivaldo espalhadas em mesa do museu e na menor, Ricardo, atual responsável por aquele espaço público.

DUAS COISAS DA "CULTURA" DE BAURU: Na primeira, ontem foi aficializada a assinatura do contrato de implantação de DEZ "Pontos de Cultura" pela Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, através do atual secretário Elson Reis e do prefeito. Gosto demais dessa parceria entre os governos federal e municipal no incentivo da popularização da cultura popular. Apressar a chegada da verba para viabilizar isso tudo é outra coisa e Elson deve estar empenhado nisso. Louvando um dos projetos, o do amigo LÁZARO CARNEIRO, do Clube da Viola, parabenizo a todos. Por fim, um puxão de orelha cultural. O Museu Histórico Municipal de Bauru fechou suas portas a mais de seis meses (acho que mais) no antigo endereço, na rua Antonio Alves, com acervo transferido provisioriamente para o MIS. Apoiei de início, pois vi ali possibilidade de ser reaberto ampliado num lugar próprio e definitivo. Queria saber o que já foi feito, como e quando ocorrerá a mudança? Aposto que Elson luta para que esse Museu não caia no esquecimento, mas saber de novidades é de ótimo alvitre. É para quando mesmo?