domingo, 28 de fevereiro de 2010

UM COMENTÁRIO QUALQUER (62)

AMIGOS QUE LIGAM, ESCREVEM E LÁ VOU EU
Meu telefone toca e do outro lado o querido Arconcio Pereira da Silva, do alto dos seus 94 anos, dizendo estar em Bauru há 15 dias, com a voz embargada e de difícil compreensão. Veio fazer um tratamento nas cordas vocais e talvez precise até operar. Passo em sua casa, pois não dá para perder a oportunidade de bater um papo com tão altaneira pessoa, um dos poucos que fez de toda sua vida um campo de batalha, combatendo as agruras do ser humano. Lutou por melhorias, comandou greves ferroviárias, conscientizou pessoas e pagou um caro preço pelas opções feitas. Foi alijado do seu emprego, comeu o pão que o diabo amassou e só agora, depois dos 90 anos viu sua situação ser restabelecida numa anistia ainda não totalmente concretizada. E vive a vida intensamente, como se cada novo dia fosse uma dádiva (não dos céus, pois acredita é na vida terrestre). Vê-lo falar da política de hoje é algo inebriante, pois esse não perderá nunca a disposição de luta. "Depois de outubro, volto para morar em Bauru de qualquer jeito. Deixo Rio Preto, onde não conheço ninguém e volto a viver ao lado de pessoas que aprendi a gostar e conviver a vida toda", me diz com a voz embargada. Aguardamos ansiosos, com festa e rojões preparados. Trago emprestado um livro que ele acabara de ler, o "Em defesa do interesse nacional - Desinformação e alienação do patrimônio público". Domingo que vem levo ele até a Feira do Rolo, onde irá rever a Associação dos Aposentados (é sócio nº 1) e bater perna.

Num e-mail vindo de Marília SP, Paulo Giorgi me manda notícias. No final do ano encontrou meu cão perdido numa rodovia lá perto do Gasparini, levou-o para Sampa, depois sua casa e divulgou o fato em listas de animais perdidos, até me encontrar e promover a repatriação do animal. Pimpa vai bem, velhinho e lento com seus quase quinze anos, cada vez mais carinhoso com os de casa. Acompanhamos sua velhice com todo carinho. Paulo diz abrir meu blog de vez em quando (“Qual seja o texto, quanto mais eu leio mais eu acredito que o real valor está na capacidade humanitária da pessoa, independente de qualquer outra variável”) e que lembrou de mim numa viagem: “Eu e a Ju fizemos uma viagem maravilhosa para a Itália em janeiro, e lembrei-me especialmente de você quando estava em Genova!! Tirei essas fotos para te enviar. Ao vê-las você deverá entender o porque da carinhosa lembrança”. Eram de Cuba e ele me tirou as fotos dos locais.

Viajo com Vinagre e Tech para Barra Bonita no sábado à tarde. Fomos a uma reunião com o deputado federal Cândido Vaccarezza (http://www.vaccarezza.com.br/), líder do governo federal petista na Câmara dos Deputados. Aproveito e muito, em primeiro para ver como anda a campanha da Dilma, pela qual não só torço, como votarei e farei campanha. Não suportaria um retrocesso maior do que o visto e com o PSDB no poder no país em algo tão triste como o presenciado aqui no estado paulista, comandado por eles há quase 20 anos (uma eternidade). Segundo, atendemos pedido pessoal de Marcelo Cavinato, coordenador da Macro Região do PT, sempre antenado, reunindo muita gente de toda a região e papear com todos eles é constatar como anda a luta/labuta diária de defender um governo voltado para o social, quando um tsunami exerce força no sentido contrário e quer alicerçar a defesa de uns poucos privilegiados. Quando me dão a palavra, digo do porque do apoio a Dilma e aproveito para dizer do meu também à Cuba ("Como podem ver em minha camiseta", disse). Abraço gente de Mineiros, Pirajuí, Areiópolis, Pratânia, Reginópolis, Dois Córregos, Botucatu... Do encontro e do visto na Barra, escrevo aqui nos próximos dias. Na volta, uma inevitável cervejinha com peixe, num bar rural entre Barra e Macatuba.

Domingo, 20h, três caipiras reunidos na casa de um deles, Lázaro Carneiro, nos altos do Jd Bela Vista. Tudo preparado com muita antecedência para recepcionar outros dois, no caso, eu e Wellington Leite, o radialista das FMs Veritas e Unesp. Papo saudosista e muito assunto para virar tese folclórica, dessas de figurar num programa ao estilo "Rolando Boldrin" (alô TV Preve, façam algo com o Lázaro, pois histórias/estórias/causos não faltam na sua cachola). Quando ele começa a contar um causo, ligo a máquininha de fotos e gravo. Além de nós três, só a esposa do Lázaro, que preparou três (disse três, com uns 8 pedaços cada) pizzas, daquelas carnudas e cheias de sustância (sic), ou seja, quase fomos carregados na saída. Falamos de tudo um pouco, desde a maldizer os tucanos no pleito eleitoral que se aproxima, até a reviver histórias escabrosas passadas na Bauru de hoje, como as muitas do AHB, bastidores culturais de muito baixo astral e uma ou outra passada com cada um. Falamos de mortes sentidas nesses dias, como a do Walter Alfaiate, a da professora unespiada Adriana Chaves (grande parceira intelectual de Tuga Angerami), do produtor musical Sabá e do bibliófilo José Mindlin. Saio de lá com o bucho estufado de tão cheio e triste, muito triste, pois não deu tempo de colocar nem 10% das conversas em dia. Teremos que voltar outro dia e prosseguir o papo, diminuindo a despensa (comemos bem) do amigo, sempre muito cortês.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

UMA MÚSICA (57)

SACO CHEIO (ALMIR GUINETO) E UMA CASA FORRADA DE INSCRIÇÕES
A música é do excelente sambista ALMIR GUINETO, "Saco Cheio" e faz parte de um CD da Universal, 1999. O tema é dos mais instigantes. Leia a letra: "Os habitantes da Terra estão abusando/ Ao nosso supremo Divino sobrecarregando/ Fazendo mil besteiras/ E o mal sem ter motivo/ E só se lembram de Deus quando estão em perigo/ Deus lhe pague/ Deus lhe crie/ Deus lhe abençou/ Deus é vosso pai/ É vosso guia/ Tudo que se faz na Terra/ Se coloca Deus no meio/ Deus já deve estar de saco cheio".

Lembrei dessa música logo na primeira vez que vi as inscrições feitas numa casa na quadra sete da rua Benjamin Constant, aqui em Bauru. O que está ali naquelas paredes é um profundo e sentido desabafo, algo que foi inscrito numa forma de grito contra uma repetida e gratuita imposição que estão a fazer conosco. Alguns tentam impor sua religião, como se fosse a única e a salvação do ser humano e para isso gritam, esperneiam e até invadem nossa privacidade. Uma grande bobagem, que alimenta cada vez uma indisposição contra certas religiões/seitas, pois além de serem inoportunas, pregam no vazio (pelo menos para mim). E avançam em outros, ocupando espaços nunca dantes imaginados... e as imposições não só somente religiosas, são os costumes, as práticas, o modus vivendi.

A casa é das mais simples e passaria totalmente desapercebida, não fosse as inscrições, escritas uma a uma em momentos diferentes. Umas mais recentes, outras já um tanto apagadas. Nem sei que tipo de tinta foi utilizada, talvez esmalte. Perguntei a um vizinho e meio constrangido me disse que sua vizinha sai às ruas esbravejando contra isso tudo que ela escreveu na parede. Não achei conveniente importuná-la, mas reproduzo aqui seus escritos, seu pensamento, que se ali colocado, era com essa intenção, ou seja, a de ser lido e reproduzido.

Divago toda vez que por ali passo e na manhã desse sábado não resisti, parei e fotografei tudo, nos mínimos detalhes. Não quero e nem tenho possibilidade nenhuma de ficar fazendo aqui interpretação dos motivos e da personalidade da pessoa que as escreveu. O fato é que aquilo tudo causa imensa curiosidade. E para lê-las, como fiz, cliquem em cada foto e elas se ampliarão na tela do computador. Esse é literalmente, um habitante da Terra que deve estar de saco muito bem cheio de uma pá de coisas e fez questão de expor isso, para não mais ser importunado indevidamente. Uma verdadeira metralhadora giratória. De uma certa forma, faço o mesmo aqui no mafuá, que nada mais é do que um muro, onde vou postando minhas lamentações, meus anseios, meus fracassos, minhas insatisfações e até vontades. Quem escreveu aquilo tudo sofre, assim como eu, as agruras desse mundo. Só não faço uso dessa insatisfação com fins discriminatórios, como em alguns inscritos lá lidos. Isso abomino e repudio. Deixo aqui o registro fotográfico de algo que faz parte da paisagem urbana da cidade onde moro.
UMA NOTÍCIA TRISTE: Faleceu hoje no Rio, sábado, um sambista que ouvia muito aqui na reclusão do meu mafuá, WALTER ALFAIATE (1930/2010), que vim a conhecer na inauguração do botequim "Pirajá - Esquina Carioca", em Sampa, no ano de 1999 (trouxe um CD autografado por ele, João Nogueira, Beth, Luiz Carlos Vila, Ivone Lara e Moacyr Luz) . De lá, virei admirador deste que, manteve até a morte uma alfaiataria numa galeria em Copacabana. Foi lá na Menescal que comprei de suas mãos um outro CD, o "Samba na Medida", da CPC/UMES, de 2002. Elegância em pessoa e botafoguense de coração, uma voz rara, a fina-flor do samba. De um show trago lembranças adoráveis, foi na estação Central do Brasil, no Rio, uns seis anos atrás, num daqueles projetos da Prefeitura carioca, "Samba no Trem". Walter morreu após longa internação. Dele, muitas coisas mais do que boas, mas a grande homenagem quem lhe prestou foi Nei Lopes, com o samba que leva o título do CD, quando lhe traçou um perfil de rei da tesoura e da voz elegante. Está sendo velado na sede do clube do coração, o Botafogo, campeão da Taça Guanabara de 2010.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

UMA CARTA (43)

A MORTE DO CUBANO EM GREVE DE FOME – MEU ENTENDIMENTO SOBRE OS FATOS
Quero falar de Cuba (gosto muito, já perceberam, não?), da morte de um preso, do tratamento desigual da mídia, de provavéis e reais mal tratos, da visita de Lula à ilha e a Fidel. Tudo está mais do que entrelaçado, fazendo parte do mesmo novelo. Um emaranhado muito fácil de ser desembaraçado, pelo menos para mim. E o faço sem problemas.

O preso morreu por sua decisão. Orlando Zapata, 42 anos, ex-pedreiro foi preso em março de 2003, depois condenado a dezoito anos pela prática constante e repetida de conspirar contra as leis vigentes, principalmente recebendo valores do exterior para esses fins. Como forma de protesto opta por realizar uma greve de fome, ciente de todos os riscos advindos dela. O próprio presidente Lula assim já agiu no passado. Aqui em Bauru, meu amigo, Duílio Duka, idem. Quem entra nessa sabe dos riscos. E se não for atendido? Duas opções, ou termina tudo ou prossegue. Para cada caminho, uma consequência. Eis a questão. Zapata continuou, foi até o fim e morreu. Triste demais, mas não vejo culpa do governo cubano. O cara quer derrubar o governo e quer que eles lhe estendam o braço. Aonde isso acontece? Leio que: "O socialismo não pode permitir que um ser humano morra por se recusar a comer, mesmo que possa ser um inimigo". Reflito muito sobre isso, mas continuo ao lado da Cuba atual, pois sabemos muito bem o quanto se sofre do lado de cá, onde impera um capitalismo muito mais cruel e predatório para o ser humano do que o socialismo praticado na ilha.

“Não existem torturados, não houve torturados, não houve execução. Isso acontece na base de Guantánamo", afirmou Raúl, o presidente cubano. Afirmou, ainda, estar disposto a discutir com o governo americano "todos os problemas que tiverem. Repito três vezes, todos, todos, todos. Mas não aceitamos se não for em absoluta igualdade". Concordo com ele. Afinal, por que esse estardalhaço todo com isso (que foi triste, reafirmo), se por muito mais, mas por muito mais mesmo, praticado repetidamente pelos EUA nada disso ocorre? Por que a utilização de dois pesos e duas medidas? Ouçam a fala do presidente cubano, extraída desse site português: http://www.bbc.co.uk/portuguese/multimedia/2010/02/100224_raulcubaaudio.shtml

Outra coisa. "Para os golpistas Dilma é uma terrorista, já o cubano Orlando Zapata é libertador. Qual a diferença entre eles? Aqui, outra vez a história dos dois pesos e duas medidas. Dilma lutou pela democracia, para nos livrar dos golpistas que governavam apenas para uma elite burguesa, em detrimento do resto da população, governos esses, que nos deixaram de herança os piores índices indicativos sociais do mundo, só na frente dos países mais pobres; com uma distribuição de renda das mais desiguais do mundo, gerando uma população incapaz de atender às suas necessidades básicas, apesar de viverem em um país rico como é o Brasil (essa é a verdade, que vá estudar quem duvidar). Enquanto que, Orlando Zapata estava lutando contra um governo que protagonizou em Cuba, os melhores índices indicativos sociais do mundo (veja comparação abaixo). Essa é a grande diferença.

Comparação dos Indicadores Sociais de CUBA/ ANGOLA/ EUA/ BRASIL
População de CUBA= 11.382.820 / População da Angola: 12.531.357 : Se segure para não cair, pois é surpreendente: Índice de mortalidade infantil (Para cada 1.000 nascimentos): CUBA= 5,1; Angola = 180,1; EUA=6,3; Brasil=102; Índice de Analfabetismo (Para cada 1000 pessoas): CUBA=ZERO; Angola=750; EUA=54; Brasil=157; Índice de FOME (Para cada 1000 pessoas): CUBA=ZERO; Angola=750; EUA=170; Brasil=80; Índice de Desemprego (Para cada 1000 pessoas): CUBA=19; Angola=400; EUA=56; Brasil=79; Expectativa de vida (Para cada 1000 pessoas): CUBA=77; Angola=44; EUA=78; Brasil=71; Médico por habitante (Para cada 1000 pessoas): CUBA=5,9; Angola=0,05; EUA=2,7; Brasil=1,8; Medalhas de ouro nas olimpiadas: CUBA=67; Angola=0; EUA=930; Brasil=20. Aos que quiserem saber mais sobre Cuba, encontrei esse excelente resumo da situação: http://vsites.unb.br/ceam/nescuba/artigos/pano115.htm " (de um site na internet).

Para finalizar, algo sobre as prisões cubanas e as norte-americanas. As de Cuba não devem ser diferentes de países que respeitam o ser humano. Não o fosse, estaria sendo denunciada cruelmente. Não vejo nada contra o sistema carcerário cubano na imprensa. Isso é bom sinal. Já do sistema praticado pelos EUA contra os prisioneiros políticos sob sua guarda só observo atrocidades. Em Guantánamo, uma vergonha, que fere os mínimos princípios da dignidade humana. E o que podemos dizer da prisão sob sua direção lá no Iraque, com fotos espalhadas mundo afora? Só vergonha e mais atrocidades. Leio que os "EUA pedem a libertação dos presos políticos cubanos". Eu pergunto: Com que autoridade? Eles mantém em cárcere dentro dos EUA cinco mártires cubanos sob falsa alegação de espionagem. Eles podem fazer isso mundo afora, não existindo lei que os proibam, mas prendem quem suspeitam que o façam contra eles. Eis a igualdade de condições que Raúl exige para discutir o assunto. Um peido dado por Cuba repercute no mundo capitalista e milhares de bombas dos EUA não. Já se perguntaram o por que disso? E para finalizar mesmo, o presidente Lula esteve em Cuba no dia da morte do Zapata. Tentam lhe colocar na parede por não ter prestado apoio ao movimento contra-revolucionário, inventando até a história de uma carta que teria lhe sido entregue de denúncias. Todos querem que Lula coloque sua popularidade a serviço dos seus interesses. Ele, que nem recebeu a tal carta, fez o que deveria ser feito, assinou acordos, inaugurou uma obra por lá e reiterou apoio ao que Cuba representa para o mundo atual, uma das únicas esperanças concretas de que um outro mundo ainda é possível. É isso que pega, existem possibilidades de um outro mundo e elas precisam ser exterminadas, eliminadas. Pobre Cuba a resistir.

Adoraria ser convencido do contrário, mas com argumentos convincentes. E eles existem?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

CENA BAURUENSE (53)

PUB URBANO E UM DIFERENCIADO TRABALHO DA DUPLA RICK E MARKINHOS
Na noite de terça, 23/02 fui na festa de inauguração do PUB URBANO, a mais nova casa GLBT da dupla de empresários Rick Ferreira e Markinhos Souza, donos da também Labirinthus. Acompanho o trabalho deles desde meus tempos lá na Secretaria de Cultura, quando trouxeram, com o apoio do setor cultural, a Parada Gay, hoje da Diversidade para Bauru. Já ocorreram dois desfiles anuais, ambos de sucesso virtuoso e com ampla participação regional. A famosa boate Labirinthus é outro sucesso regional, tanto que comento com Markinhos sobre algo ocorrido comigo. Na última sexta volto de ônibus de Ourinhos, num que chega em Bauru por volta das 20h30. De uns trinta passageiros, pelo menos a metade era composta de pessoas que vinham para passar a noite na boate. São pessoas que chegam num dia, passam a noite na boate e retornam no dia seguinte. Daí a responsabilidade da dupla com os destinos dos seus negócios.

Eles sabem muito bem como conduzir isso tudo, tanto que criaram a Associação Bauru pela Diversidade, onde o foco maior é no sentido de diminuir a discriminação na cidade. Também comento com eles por email sobre algo nesse sentido, sendo as pessoas mais abalizadas para ajudar os muitos travestis e drags, que querem tocar suas vidas sem se envolverem com a prostituição. Um acompanhamento, uma ajuda de colocação de mão de obra no mercado, sensibilizando o empresariado para contratar pessoas nessa situação. Dá para perceber que o envolvimento com a Associação cresce a olhos vistos diante dos seus negócios, pois além da correria proporcionada por duas casas funcionando, eis algo a clamar cada vez mais a atenção de ambos.

Na noite da abertura do Pub Urbano tudo chama muito a atenção. O local privilegiado, na quadra dois na avenida Nossa Senhora de Fátima, numa casa de madeira pré-moldada, com amplo jardim e com muito verde. Na parte interna, um espaço mais aconchegante, para papos mais próximos e local para boa comida. Na parte externa, área para 120 pessoas, uma reunião de choperia, cafeteria, petiscaria e piscina. Um banheiro ao ar livre, junto a uma parede forrada de trepadeiras, atrás de um simples biombo, sem portas é atração garantida. Funcionando de terça a domingo, das 18h em diante, trata-se efetivamente de um ambiente diferente. Deve atrair não somente o público homossexual, como hétero, pois o bom gosto, desde a decoração, como na seleção musical é o destaque da casa. Rick fica entusiasmado quando fala do cardápio orgânico e de uma boutique que não deixa nada a dever para outras grandes do segmento.

Gostei muito de tudo o visto por ali. Primorosos no acabamento e na escola dos temas de cada ambiente. A admiração pelo trabalho deles decorre pela preocupação não só em atender um público consumidor cada vez maior, como no atendimento a todo um segmento GLBT, que acompanham com a devida atenção seus passos. São o espelho para muitos deles. E eles não deixam a desejar, pois atuam tanto no campo profissional, como no social. Não possuem receios de marcarem posição em relação ao momento cultural da cidade. E conversar com eles é algo sempre muito bom, pois transmitem um bem estar, uma paz de espírito muito elevada. A casa nova está linda e deve bombar já, a outra já é um estouro mais do que confirmado e ambos com boas cabeças, deixam claro que é mesmo um grande negócio aliar trabalho e algo voltado para diminuir a discriminação entre todos nós, habitantes desse cosmopolita e desigual planeta.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

UMA FRASE (48)

BAGNATO, UMA REUNIÃO SOBRE UM MUSEU E IMPORTANTES DECISÕES PARA A CIDADE DE BAURU
Eu sempre gostei muito da música do Geraldo Vandré, "Pra não dizer que não falei das flores". Seu refrão principal eu cantarolo até hoje, com aquela entonação de passeata, de reivindicação justa e necessária. "Então, vem vamos embora que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora e não espera acontecer", esse o trecho que quero ressaltar neste momento. Faço uso dela para dignificar uma luta das mais dignas que presencio dentro do atual momento vivido pela defesa do patrimônio cultural de Bauru. Com sua reprodução ressalto aqui o trabalho incessante de uma pessoa, o engenheiro RICARDO BAGNATO, secretário da Associação Bauruense de Ferromodelismo e de Preservação Ferroviária, que chegou em Bauru a pouco mais de três anos, vindo para revolucionar, ou seja, fazer e acontecer. A pessoa certa no lugar certo, e com capacidade de ação e de mobilização.

Aconteceu em Bauru na última segunda, 22/02, das 14 às 17h30 no Auditório da Prefeitura Municipal, uma ampla discussão envolvendo o projeto de criação de um grande MUSEU DO TREM, uma idéia fixa e que a cada dia ganha novos adeptos e cresce as possibilidades concretas de sua real viabilização. Bagnato conseguiu em torno da idéia de criação desse museu reunir em Bauru gente gabaritada para discutir outros temas. Daí a grandiosidade do acontecido. O encontro contou com o prefeito Rodrigo Agostinho, o secretário de Desenvolvimento Econômico Richard Vendramini, o presidente da Emdurb Nico Mondelli, a responsável pela àrea de Patrimônio da ALL Ivana Spears, o presidente do CODEPAC Sérgio Losnak, o Ministério Público Federal na pessoa de Pedro de Oliveira Machado, o representante do DNIT Naotaka, os advogados drs Clidnei e Ademir Gaspar representando a Inventariança da extinta RFFSA, diretores do Ferrovia para Todos, eu na qualidade de presidente da Associação dos Amigos dos Museus de Bauru e muitos outros interessados.

Dessa reunião, algo de muito importante para a cidade. Primeiro algumas definições e a apresentação do projeto do referido museu, depois algo onde a cidade saiu ganhando e sua decisão vinha sendo protelada, até por falta de uma oportunidade de reunir no mesmo espaço entidades e pessoas com poder de decisão sobre o destino de bens patrimonias que interessam à Bauru. Um destino honroso para que bens móveis e imóveis não venham a continuar sofrendo processo de sucateamento. O passo mais importante foi o do dr Pedro, quando diante de representante da ALL e do DNIT, praticamente decide selar um acordo de resgate desses bens num só local, os barracões das antigas oficinas da NOB, numa ação de responsabilidade coletiva. Outra coisa de real importância foi que a ALL está repassando para a Prefeitura praticamente todos os barracões das antigas oficinas, o prédio administrado em sua entrada e o da antiga escola da RFFSA. Tudo de uma só vez, aumentando a responsabilidade de sua utilização e manutenção daqui para frente. Foi muito bom ouvir Ronaldo Resch, cabeleireiro da Vila Paulista, um digno representante da população, que de forma consciente solicita áreas para a comunidade, algo bem propositivo e com projetos bem viáveis. A Prefeitura está assumindo os imóveis num termo de cessão até 2026.

Quer dizer, Bagnato foi grandioso, reuniu todos aqui para discutir uma coisa e aproveitou o ensejo para que decisões fossem tomadas em pról da cidade. Pessoas assim são imprencindíveis. A acrescentar só mais uma coisa. Ao final da reunião, Ivana da ALL sinalizava para representantes do projeto Ferrovia para Todos, um novo caminho das pedras para que a Maria Fumaça volte aos trilhos em Bauru. Tudo muito bom, mas nesse caso seria sempre bom não só ouvir a ALL e sim, principalmente a ANTT - Agência Nacional de Transporte Terrestre, que dita as normas não só para o Projeto bauruense, como para a própria ALL. Por fim, Bagnato se firma como uma liderança atuante, despojada e sabendo muito bem como atuar nos bastidores para conseguir seus objetivos. Vibro com sua disposição e força de vontade. Ao lado deste estarei sempre, até a vitória final, que com certeza, será a inauguração do Museu do Trem de Bauru.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BEIRA DE ESTRADA (01)

NUM DIA DE CHUVA, MUITA CHUVA - crônica publicada edição 264, Revista do Caminhoneiro (dez/jan. 2010)
(Aqui uma explicação: Convidado por Graziela Potenza, editora da Revista do Caminhoneiro (www.revistacaminhoneiro.com.br - tiragem de 100 mil exemplares) e pelo amigo Fausto Bergocce, que ilustrará meus textos, mês sim, mês não, começo nessa edição a publicar crônicas mensais sobre a temática Caminhoneiros, em substituição ao escritor/caminhoneiro Henrique Lessa, recentemente falecido. Como todo começo, ainda pisando em ovos, um texto cheio de imperfeições, mas um começo, cheio de orgulho e com muita responsabilidade. Foi dado o pontapé inicial, acaba de chegar às bancas a edição impressa da revista).

Histórias e estórias, os caminhoneiros possuem um vasto repertório, verdadeiro anedotário de causos. Mas nem só de coisas escabrosas e fantásticas é constituída a maioria delas. Uma profissão onde o constante é não estar parado, viajando de um lugar para outro, cruzando cidades, fronteiras e encruzilhadas mil, muitas delas demonstram o lado mais sensível, o de encontros e desencontros amorosos, alguns dando errado e outros muito certos.

Conheço uma dessas histórias. Joaquim transporta jornais, distribuíndo-os ainda de madrugada em várias cidades, tudo para que estejam nas bancas logo ao amanhecer do dia. Sai da sua Avanhandava, interior de São Paulo, vem até Bauru (130 km), de onde carrega sua preciosa carga e lá pelas 2h30 da manhã começa a rotina, de cidade em cidade, contando mais de quinze. Faça sol ou chuva, frio ou calor, Joaquim segue sua rotina diária.

Os mesmos caminhos todo santo dia. Sua vida, anos atrás, estava em polvorosa, separado, sem ninguém a lhe fazer companhia nas idas e vindas, muito menos alguém aguardando o seu retorno com a mesa posta. Todo dia ele passava naquela vicinal entre Lins e sua cidade, quase 7h30 da manhã, e na maioria das vezes uma moça na beira da pista, num ponto de ônibus, à espera da condução, retornando de seu trabalho noturno num hospital. Passava sempre pouco antes do horário do ônibus e vai notando na roupa que ela veste, os embrulhos que carrega. Nada lhe passa desapercebido. Sonha.

Num dia de muita chuva sua vida sofre uma guinada. O trabalho estava atrasado, muita água na estrada e nem tudo correndo como queria e previa. Passando pelo tal ponto de ônibus vê que, pelo visto, o dia não estava dando lá muito certo não só para ele. Lá estava a moça, mesmo na cobertura de proteção, molhada e em desespero. Havia perdido o ônibus e o próximo passaria por volta da hora do almoço. Decide numa fração de segundos, dá ré e lhe oferece uma carona. Da desconfiança inicial, seguem juntos e respeitoso, entrega a moça sã e salva quase no portão de sua casa.

Quase seis anos após e vemos Joaquim na mesma rotina, agora com companhia diária na boléia, alguém que lhe ajuda em tudo, Maria, a ex-enfermeira, hoje sua esposa. Ambos seguem pelas estradas paulistas, trabalhando nas ininterruptas madrugadas, um mais feliz que o outro.

PS: Substituir o escritor Henrique Lessa é tarefa das mais difíceis, primeiro pela qualidade do seu texto, depois pela figura humana que era e por fim, pela inesgotável fonte de histórias que fluía naturalmente de sua mente. Tento à minha maneira e espero contar com a compreensão dos leitores, que como eu, admiramos o conjunto de sua obra.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CHARGES ESCOLHIDAS À DEDO (24)

LISBOA JÁ FOI O HAITI - extraído do blog de JOSÉ SARAMAGO (16/02/2010)
(Achei esse texto lindo demais, com a cara do seu autor, José Saramago, um "Dos que Sobraram" e continuam a acreditar que um outro mundo ainda é possível. Junto do mesmo, algumas charges e ilustrações que encontrei na internet versando sobre o tema)
Quantos Haitis? No Dia de Todos os Santos de 1755 Lisboa foi Haiti. A terra tremeu quando faltavam poucos minutos para as dez da manhã. As igrejas estavam repletas de fiéis, os sermões e as missas no auge… Depois do primeiro abalo, cuja magnitude os geólogos calculam hoje ter atingido o grau 9 na escala de Richter, as réplicas, também elas de grande potência destrutiva, prolongaram-se pela eternidade de duas horas e meia, deixando 85% das construções da cidade reduzidas a escombros. Segundo testemunhos da época, a altura da vaga do tsunami resultante do sismo foi de vinte metros, causando 600 vítimas mortais entre a multidão que havia sido atraída pelo insólito espectáculo do fundo do rio juncado de destroços dos navios ali afundados ao longo do tempo. Os incêndios durariam cinco dias. Os grandes edifícios, palácios, conventos, recheados de riquezas artísticas, bibliotecas, galerias de pinturas, o teatro da ópera recentemente inaugurado, que, melhor ou pior, haviam aguentado os primeiros embates do terremoto, foram devorados pelo fogo. Dos 275 mil habitantes que Lisboa tinha então, crê-se que morreram 90 mil. Conta-se que à pergunta inevitável “E agora, que fazer?”, o secretário de Estrangeiros Sebastião José de Carvalho e Melo, que mais tarde viria a ser nomeado primeiro-ministro, teria respondido “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Estas palavras, que logo entraram na História, foram efectivamente pronunciadas, mas não por ele. Disse-as um oficial superior do exército, desta maneira espoliado do seu haver, como tantas vezes acontece, em favor de alguém mais poderoso.

Ao enterrar os seus cento e vinte mil ou mais mortos ainda agora o Haiti, enquanto a comunidade internacional se esforça por acudir aos vivos, no meio do caos e da desorganização múltipla de um país que mesmo antes do sismo, desde gerações, já se encontrava em estado de catástrofe lenta, de calamidade permanente. Lisboa foi reconstruída, o Haiti também o será. A questão, no que toca ao Haiti, reside em como se há-de reconstruir eficazmente a comunidade do seu povo, reduzido não só à mais extrema das pobrezas como historicamente alheio a um sentimento de consciência nacional que lhe permitisse alcançar por si mesmo, com tempo e com trabalho, um grau razoável de homogeneidade social. De todo o mundo, de distintas proveniências, milhões e milhões de euros e de dólares estão sendo encaminhados para o Haiti. Os abastecimentos começaram a chegar a uma ilha onde tudo faltava, fosse porque se perdeu no terremoto, fosse porque nunca lá existiu. Como por ação de uma divindade particular, os bairros ricos, em comparação com o resto da cidade de Porto Príncipe, foram pouco afectados pelo sismo. Diz-se, e à vista do que aconteceu no Haiti parece certo, que os desígnios de Deus são inescrutáveis. Em Lisboa as orações dos fiéis não puderam impedir que o teto e e os muros das igrejas lhes caíssem em cima e os esmagassem. No Haiti, nem mesmo a simples gratidão por haverem salvo vidas e bens sem nada terem feito para isso, moveu os corações dos ricos a acudir à desgraça de milhões de homens e mulheres que não podem sequer presumir do nome unificador de compatriotas porque pertencem ao mais ínfimo da escala social, aos não-ser, aos vivos que sempre estiveram mortos porque a vida plena lhes foi negada, escravos que foram de senhores, escravos que são da necessidade. Não há notícia de que um único haitiano rico tenha aberto os cordões ou aliviado as suas contas bancárias para socorrer os sinistrados. O coração do rico é a chave do seu cofre-forte.

Haverá outros terremotos, outras inundações, outras catástrofes dessas a que chamamos naturais. Temos aí o aquecimento global com as suas secas e as suas inundações, as emissões de CO2 que só forçados pela opinião pública os governos se resignarão a reduzir, e talvez tenhamos já no horizonte algo em que parece ninguém querer pensar, a possibilidade de uma coincidência dos fenómenos causados pelo aquecimento com a aproximação de uma nova era glacial que cobriria de gelo metade da Europa e agora estaria dando os primeiros e ainda benignos sinais. Não será para amanhã, podemos viver e morrer tranquilos. Mas, di-lo quem sabe, as sete eras glaciais por que o planeta passou até hoje não foram as únicas, outras haverá. Entretanto, olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar. O antigo colonialismo não desapareceu, multiplicou-se numa diversidade de versões locais, e não são poucos os casos em que os seus herdeiros imediatos foram as próprias elites locais, antigos guerrilheiros transformados em novos exploradores do seu povo, a mesma cobiça, a crueldade de sempre. Esses são os Haitis que há que salvar. Há quem diga que a crise económica veio corrigir o rumo suicida da humanidade. Não estou muito certo disso, mas ao menos que a lição do Haiti possa aproveitar-nos a todos. Os mortos de Porto Príncipe foram fazer companhia aos mortos de Lisboa. Já não podemos fazer nada por eles. Agora, como sempre, a nossa obrigação é cuidar dos vivos.