segunda-feira, 13 de maio de 2019

ALFINETADA (177)


FUTEBOL E TEMPOS BOLSOTARIANOS

DOIS LAMENTÁVEIS MOMENTOS DE ONTEM NA TELEVISÃO BRASILEIRA
1 - Milton Neves entrevistou ontem ao vivo o presidente Bolsonaro pela rádio/TV Bandeirantes e produziu uma das lambeções mais nojentas já presenciadas na TV. Ligo a TV exatamente no momento em que o apresentador tentava dizer a ele dos outros lugares, conhecidos pelo entrevistador em Nova York, onde poderia receber o tal prêmio em Nova York, após a recusa do prefeito de lá. Citou restaurantes, lugares de famosos, todos xumbregas, onde segundo Neves ele seria bem recebido, a nata do entreguismo, se mostrando como conhecedor da cidade. Lambeu Bolsonaro o tempo todo, demonstrou apoio integral para a reforma da Previdência como sendo feita, uma cravando a estaca no direito do trabalhador se aposentar e demonstrou ao vivo e a cores, tudo o que é ainda possível a televisão brasileira fazer em troca de migalhas para sua sobrevivência. De Milton Neves, que até ouvia na rádio Bandeirantes, escárnio e ânsia de vômito pelo que fez, numa demonstração da bestialidade elevado aos seus píncaros. Não é a toa que quando ia entrar no ar, toda manhã, Boechat quando vivo, fazia uma brincadeirinha com ele, demonstrando sua insatisfação com sua presença em seu programa. Os dois se merecem, Neves e Bolsonaro, são da mesma laia, a cara deste país no fundo do poço. Chegou ao disparate de dizer que o prefeito de NY poderia ser do PSOL.

2 - Entregar a premiação de Melhor em Campo para o Cidão, goleiro do Vasco da Gama ontem foi algo para o telespectador sair da sala e ir vomitar lá fora. Ficou nítido que a votação foi para gozar o profissional, que ontem não jogou bem, mas não merece (ninguém merece) ser execrado em público, como ocorrido. Ele foi de uma finesse, recebeu o prêmio e se foi para os vestiários, mas a pecha de desavergonhada quem vai ter que sustentar é a Globo, por não ter abortado a premiação. Levar adiante algo onde todos estavam constrangidos, desde o repórter de campo, praticamente obrigado a entregar a fajuta e boboca premiação criada desde o começo deste campeonato e agora, já perpetuada como inútil e também irracional, uó do borogodó. Até acho que a votação recai sobre o papel da Globo, com uma votação ao contrário, mas expôs ao ridículo o profissional em campo. Revejo a cena só muito tempo depois do ocorrido e com ela vejo o quanto estamos mesmo mais que perdidos nos tempos atuais. Casagrande chegou a se desculpar ao vivo sobre o ocorrido, mas o estrago já estava feito. Que tudo sirva para que Cidão consiga dar a volta por cima, ganhando confiança junto ao torcedor vascaíno, outro que abomina tudo o que venha dessa TV, pois Vasco e TV Globo são antagônicos não é de hoje.

DOIS TÉCNICOS DO BRASILEIRÃO DE FUTEBOL, PENSAMENTOS AREJADOS TAMBÉM NA POLÍTICA
Hoje em dia a coisa mais difícil deste mundo é encontrar jogadores com mente arejada, lendo muito e com exposição muito clara de suas ideias, principalmente políticas. Para ser bem claro, onde estão os revolucionários no futebol, como Sócrates, Afonsinho, Juninho Pernambucano? Conto nos dedos de uma mão os hoje com essa boa cabeça. Quais mesmo em ação? O mesmo se dá no quesito treinadores de futebol. A maioria adeptos da linha dura, todos sendo pomposamente chamados de "professores" e jogando nas hostes do emburrecimento mental, direitistas assumidos, assim como a imensa maioria dos dirigentes esportivos. Será que para ter sucesso no futebol se faz necessário ser neoliberal predatório e bolsonarista? Ufa! Alguns poucos remam contra a maré e conto dois casos.

CASO UM:
O técnico do Santos, o argentino Sampaoli é declaradamente anti Macri, o presidente argentino e tudo o que esse representa. Já afirmou mais de uma vez que o seu país estava em muito melhor situação quando dirigido pelos Kirchner e critica o que estão a fazer com seu país, daí, evidente não concordar com o momento atual do país onde atua profissionalmente, resvalando na bestialidade predominante no reino bolsonarista. Mesmo não querendo se posicionar abertamente, fica claro ser ele hoje o mais ousado treinador do Brasileirão de futebol, demonstrando possuir um lado, o dos oprimidos, não do opressor, como a maioria. Quanto aos estrangeiros como técnico, ouço que o Atlético MG talvez contrate o colombiano Osório, que já dirigiu o São Paulo e a seleção mexicana. Seria auspicioso e um tapa com luva de pelica no retranquismo dos atuais técnicos brasileiros. Só para apimentar a discussão, eis um link sobre o posicionamento do técnico fora das quatro linhas: https://www.brasil247.com/…/Peronista-Jorge-Sampaoli-compar…. Me transformei em fá, fácil fácil.

CASO DOIS: Vanderlei Luxemburgo, após dois anos desempregado volta a um grande clube, desta feita o Vasco da Gama, hoje ocupando a última colocação em quatro rodadas. Ele teve altos e baixos, sendo um dos momentos críticos sua passagem pelo Real Madrid. Pelo que vejo, ele soube superar aquele momento e hoje, com a devida sapiência, cresceu interiormente e nas últimas declarações, emite opiniões bem interessantes sobre o momento brasileiro, inclusive se posicionando favoravelmente ao Lula Livre e tudo o mais. O Vasco vai precisar muito de alguém pensando na contramão da maioria dos técnicos brasileiros. Creio eu, acertou em cheio na contratação. Com a cabeça mais arejada, vai ousar e dar ao Vasco a flexibilidade necessária para dar a volta por cima, assim como, conseguir também reverter o crítico momento do Sidão, o goleiro injustamente execrado pela TV Globo ao vivo e a cores. O momento será para um renascer das cinzas e assim, vai demonstrar para a cambada de conservadores de plantão algo de como tudo pode se dar no campo democrático, pouco em prática no futebol brasileiro. Eis um link sobre Luxa: https://gauchazh.clicrbs.com.br/…/vanderlei-luxemburgo-vai-…

Pelo exposto, mesmo corintiano, estarei desbragadamente torcendo por Santos e Vasco nesse Brasileirão, enfim, muito por causa dos dois nomes pelos quais nutro respeito e admiração, primeiro pela coragem de remar contra a maré dominante e depois, por estarem na vanguarda de uma transformação mais que necessária na mentalidade do futebol brasileiro. Toc toc toc...

CONTINUANDO COM O TEMA FUTEBOL, AGORA SOBRE ALGO DA ALDEIA BAURUENSE - LEILÃO DA PANELA
A notícia da semana é que está marcado um leilão para venda do Ginásio Panela de Pressão, pertencente ao Esporte clube Noroeste, o centenário time desta aldeia bauruense, hoje na 3ª Divisão do Paulista de Futebol. Com dívidas de anos, adquiridas também através de ações trabalhistas, muitas injustas, fruto de jogadores com passagens ínfimas, diminutas e valores estratosféricos, incentivados e incrementados por ilegítimas arestas na legislação, o valor alcançou cifras altas, impagáveis dentro da atual situação. Daí, a atual diretoria incentiva a colocação do Ginásio à venda para quitar tudo e o clube passar a despertar interesse para se tornar empresa.

"Panela - O que pode render boas discussões são os assuntos mais prementes da cidade. Ontem, o experiente advogado e ex-presidente do Legislativo Milton Dota lançou um alerta sobre o leilão do ginásio Panela de Pressão. Segundo ele, que ao lado do ex-vereador José Queda ajudou na intermediação da cessão do terreno do complexo Alfredo de Castilho da RFFSA ao Noroeste, a escritura de toda a área prevê claramente a inalienabilidade e impenhorabilidade. Em seu entendimento, não se pode levar o Panela e demais equipamentos a leilão"
, nota da Coluna Entrelinhas do Jornal da Cidade - Bauru SP, edição de domingo, 12/05.

Quem estiver disposto a procurar os srs Cláudio Amantini, ex-presidente do Noroeste e o ex-deputado federal Tidei de Lima, ambos participantes ativos do contrato de venda do conglomerado do estádio para o Noroeste pode tomar conhecimento de detalhes sobre o que Milton Dota afirma na nota. A coisa é muito mais antiga, desde a cessão do terreno e depois quando da compra do estádio sua confirmação, nada pode ser vendido. O que estaria sendo tramado nos bastidores para legalizar esse leilão? Como tudo é possível nessa terra dita e sacramentada como "Sem Limites", creio eu, esquentar, requentar, rever e reinventar algo do que estaria sacramentado é fichinha. Primeiro a Panela, depois o estádio, já do time, sem nenhum problema ele se transformar em empresa, mas que isso ocorra sem maculações de grande monta.

domingo, 12 de maio de 2019

FRASES DE UM LIVRO LIDO (140)


NAS MEMÓRIAS DO FOTÓGRAFO SEBASTIÃO SALGADO EU APRENDI ALGO MAIS PARA FAZER USO DAQUI POR DIANTE
Primeiro conto algo sobre biografias. Adoro biografias. Até o indefectível Sérgio Mouro diz gostar delas, mesmo não conseguindo se lembrar de nenhum lida nos últimos tempos. Ele, sabemos, não lê nada de literatura, representa o lado pueril desses assuntos. Eu já leio (quase) tudo o que me cai às mãos. Este livro que termino de ler, estava na estante da companheira Ana Bia e toda vez que o olhava, a empatia, até o dia em que sentei no vaso para meditar (e obrar), li as orelhas, a apresentação e não parei mais, até chegar ao fim. Esse “SEBASTIÃO SALGADO: Da minha terra à Terra – Pela primeira vez, o maior fotojornalista do mundo conta sua história”, dele com Isabelle Francq (jornalista do Le Monde e Le Nouvel Observateur) é instigante, provocante e cativante. Todos conhecem um pouco de Sebastião Salgado, mas nessas 158 páginas (editora Schwarcz, SP, 2014) um algo a mais. Gostar é pouco, pois é de gente assim que quero estar perto, seguir junto e construir esse novo mundo, ainda possível. Conhecê-lo melhor foi gratificante. Indico de olhos fechados e também empresto o meu exemplar, mas antes terão esperar algum tempo, pois de tanto falar do que li, minha mana Helena está com ele e depois outra pessoa na fila.
Junto frases para que viajem junto comigo pelo que vai pela cabeça desse abnegado fotógrafo e cidadão do mundo:

- “Contemplar uma fotografia de SS é ter uma experiência da dignidade humana. (...) ...a autenticidade de um homem que sabe combinar militância e profissionalismo, talento e generosidade”, Isabelle Francq.
- “Quem não gosta de esperar não pode ser fotografado. (...) Fotografar é a mesma coisa: é preciso ter paciência para esperar o que vai acontecer. (...) É preciso descobrir o razer da paciência”.
- “Cada espécie tem sua própria racionalidade. O importante é dedicar tempo suficiente para compreendê-la. (...) As espécies carregam em seus genes, por várias gerações, o perigo que os predadores representam”.
- “Há muito tempo adquiri o hábito de dormir uma noite num lugar, depois, em outro. (...) Muito cedo aprendi a viajar. (...) Os homens tinham tempo para conversar, para olhar a paisagem. Essa lentidão é a mesma da fotografia. (...) Mesmo que hoje nosso mundo seja rápido, muito rápido, a vida, por sua vez, não segue a mesma escala. Para fazer fotos, é preciso respeitá-la”.
- “A maioria dos franceses não sabe, mas os brasileiros adoram a França. Desde o final do século XIX, todos os nossos intelectuais a visitaram, e a primeira constituição brasileira se inspirou nos princípios republicanos franceses. Todas as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes tinham uma Aliança Francesa com um diretor francês. (...) Já nossa confiança para com os americanos era nula: eles estavam na origem da repressão quer nos oprimia. Nunca fizeram nenhuma aliança com qualquer coisa popular ou democrática. (...) A área do Brasil é quinze vezes maior que a da França, mas a França é quinze vezes mais diversificada. (...) Foi na França que descobrimos o significado da palavra solidariedade e, depois que a aprendemos, não a esquecemos nunca mais”.
- “Descobrir Ruanda foi como reencontrar o Brasil. (...) Voltei à África o máximo de vezes possível ao longo da vida. Minha história está totalmente ligada a esse continente. (...) Não afirmo ser um especialista em África, mas adoro fotografá-la. (...) Desde que descobri a fotografia, nunca mais parei de fotografar. A cada vez sinto um prazer enorme. Minha formação de economista me permitiu converter esse prazer instantâneo em projetos de longo prazo. (...) Não foram suas paisagens e seu folclore que decidi retratar, mas a fome que assola os africanos”.
- “Lélia e eu constatamos que o mundo está dividido em duas partes: de um lado a liberdade para aqueles que têm tudo, do outro a privação de tudo para aqueles que têm nada. E foi esse mundo digno e privado de quase tudo que eu decidi retratar. (...) Sempre fui capaz de colocar minhas imagens dentro de uma visão histórica e sociológica. O que os escritores relatam com suas penas, eu relatava com minhas câmeras. A fotografia é para mim uma escrita”.
- “Todas as minhas fotos correspondem a momentos intensamente vividos por mim. Todas elas existem porque a vida, a minha vida, me levou até elas. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou àquele lugar. (...) A única maneira de contar uma história é voltar ao mesmo lugar repetidas vezes; é nessa dialética que se evolui. É assim que atuo há mais de quarenta anos. (...) Em minhas imagens. A vida de cada pessoa com quem cruzei é contada por seus olhos, suas expressões e por aquilo que ela está fazendo. (...) Para tirar boas fotos é preciso sentir muito prazer. (...) Todos os que convivem com um fotógrafo sabem disso: a coisa mais maçante do mundo é acompanha-lo. (...) Colocando-se num estado de total integração com aquilo que o cerca, o fotógrafo sabe que assistirá a algo inesperado”.
- “As imagens que trouxe de lá não foram feitas unicamente por mim. Foi preciso que aquelas populações as autorizassem, as oferecessem a mim. (...) O ser humano é um animal gregário, quando desembarca sozinho em algum lugar logo é integrado pelos que ali vivem”.
- “Sempre fico de frente para as pessoas que fotografo. Não peço que posem, mas elas percebem claramente que as estou fotografando e tacitamente me autorizam a fazê-lo. Nenhuma foto, sozinha, pode mudar o que quer que seja na pobreza do mundo. (...) Não fotografo a pobreza material para fazer os outros se sentirem culpados – a pobreza faz parte de onde venho. (...) Cada uma de minhas fotos é uma escolha. (...) A fotografia é uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução”.
- “Em qualquer lugar, em todos os países e todos os setores de atividade, nunca me apressei. (...) Nos quatro cantos do globo, as pessoas são deslocadas essencialmente pelas mesmas razões econômicas, que favorecem uma minoria, enquanto a maioria se torna miserável. E em toda parte a superpopulação resultante amplia os mesmos males: precariedade, violência, epidemias... (...) Fotografei todos os tipos de migrantes. Todos pegavam a estrada ou se espremiam em barcos para tentar uma vida melhor em outra parte, muitas vezes arriscando sua própria vida (...) A semelhança entre todas essas situações começou a me oprimir. (...) Aquelas pessoas atravessavam momentos terríveis, às vezes os piores de suas vidas. Mesmo assim, aceitavam, ser fotografadas. Queriam que seu sofrimento
- “É curioso como algumas regiões do mundo marcam cada pessoa de modo específico. (...) ‘Diante de uma atrocidade, o que constitui uma boa foto?’, às vezes me perguntam. Minha resposta cabe em poucas palavras: a fotografia é a minha linguagem. O fotógrafo está ali para ficar quieto, quaisquer que sejam as situações, ele está ali para ver e fotografar. É através da fotografia que trabalho, que me expresso. É através dela que vivo. (...) Deveríamos todos admitir que a sociedade de consumo da qual participamos explora e pauperiza enormemente os habitantes do planeta. (...) Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas. (...) Sempre procurei mostrar as pessoas em sua dignidade. Na maioria das vezes, eram vítimas da crueldade, dos acontecimentos. (...) Minhas fotos foram tiradas porque pensei que o mundo inteiro devia saber”.
- “Não preciso do verde para mostrar as árvores, nem do azul para mostrar o mar ou o céu. A cor pouco me importa na fotografia. (...) Considero seu poder realmente fenomenal. Por isso, sem hesitação, foi em preto e branco que decidi homenagear a natureza. Fotografá-la assim foi a melhor maneira de mostrar sua personalidade, de destacar sua dignidade. (...) ...para se aproximar dos homens e dos animais para fotografar é preciso senti-la, amá-la, respeitá-la. Para mim, tudo isso passa pelo preto e branco”.
- “A história da humanidade é a história de nossa comunidade. Nós, pelo contrário, nos dispersamos, nos individualizamos. Ninguém poderá me convencer de que o individualismo, tanto quanto o cinismo, é um valor. (...) ...não devemos perder nossas referências, nosso instinto, nossa espiritualidade. Foi nosso instinto e nossa espiritualidade que nos fizeram sobreviver até agora. (...) Fotografei pessoas a vida inteira e nunca sofri um único processo. Já fotografei pessoas em situações difíceis, no limite de tudo. Mas nunca me senti um voyeur, nunca experimentei ser um. (...) Os povos que alguns chamam de primitivos sabem muito bem que depois de explorar um lugar é preciso deixa-lo descansar”.
- “Mas acima de tudo, graças à nossa energia, vinda de uma certeza: voltar-se para o planeta é a única maneira de viver melhor. O mundo moderno urbanizado, cheio de regras e leis, nos esgota. (...) Para nós, Leila e eu, o essencial será sempre levar uma vida que participe de nossa época. Ser ativos. (...) Minha fotografia não é uma militância, não é uma profissão. É minha vida. Adoro a fotografia, fotografar, estar com a câmera na mão, olhar pelo visor, brincar com a luz. Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidades – e agora também os animais as árvores, as pedras. Minha fotografia é tudo isso. (...) O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A buscar outros lugares. A procurar outras imagens. A tirar novas fotografias, ainda e sempre”.

sábado, 11 de maio de 2019

MEMÓRIA ORAL (239)


COZINHANDO PELO MUNDO - VIAJADO PELAS COZINHAS MUNDO AFORA, MAURÍCIO TENTA VOLTAR AO OFÍCIO*
* Escrevo a pedido, primeiro por gostar de ouvir histórias, boas histórias, depois por acreditar nas pessoas e nos seus relatos de vida e, por fim, por tentar dar seu quinhão de contribuição para os que buscam algo nesse cada vez mais perdido mundo, não deixando de acreditar numa possível e provável saída.

Boas histórias surgem assim do nada, tipo pegar ou largar. Estava a comer uma kafta (não um Kafka, como o ministro da desEducação o fez) no Turco, no Banana Pastel, ali na Primeiro de Agosto, quando seu proprietário, Hamilton Suaiden, velho amigo de andanças do passado, faz questão de apresentar alguém o ajudando por alguns dias. Trouxe lá de dentro o Maurício Antonio Maddalena, senhor de fino trato, chef renomado de cozinhas e que, aos 53 anos traz na bagagem uma imensidão de quilômetros rodados, tudo conquistado ao longo de sua vida, com muitas idas e vindas, todas tendo como pano de fundo algo que faz com esmero, dedicação e sapiência, o trato com a cozinha e o saber fazer comida. Muitas coisas te despertam não só curiosidade, mas também acendem um sinal lá no fundo, o de estar diante de algo de difícil reincidência, daí nada como tomar conhecimento da história num todo, desde o começo. Me interesso de cara, ouço seu relato e por ela me encanto, daí já quero passá-la adiante e o faço neste momento com minha forma e jeito.


O que dizer de um ousado cidadão que, tendo nascido e criado na pequena e pacata Piratininga, descobre ter a cidade ficado pequena diante de tanta coisa pela aí? O melhor mesmo é cair no mundo e assim foi feito. Desde muito pequeno, Maurício descobriu seus dotes culinários e para aprimorá-los teria que bater asas, ir ter com o mundo e ele com o seu sonho. Dos ensinamentos em casa, aprimorados nos primeiros empregos, o dom se acentuou e daí não parou mais. Foi então conhecendo cozinhas pelos mais diferentes lugares do país e do mundo. Hoje, com um currículo invejável, assim como uma memória privilegiada, conta tudo em detalhes, misturando o hoje com o ontem, sem se atrapalhar. Relata algo de uma pequena cozinha no interior da Alemanha com a mesma desenvoltura com que o que faz para tentar ajudar o Turco na sua e assim vai alternando histórias, relatos vividos, que o tornaram um personagem cheio de vida, essa vivida intensamente.

Poderia ter se acomodado por essas plagas e até ter se arrumado em empregos ligados à sua família, mas algo o impeliu para outros cantos. Não se arrepende de nada, nem do retorno alguns anos atrás, primeiro para rever sua aldeia, depois para cuidar da adoentada mãe, já falecida. Voltou depois de rodar o mundo, conhecer de fato o outro lado e aqui deu uma aquietada, porém sem nunca perder a vontade de voltar a se perder mundão afora. Fui tomando conhecimento de um pouco dos caminhos percorridos e tento juntar aqui num breve relato, dessas compilações a merecer um livro, mas resumida por mim em alguns poucos parágrafos. Maurício é também um contador de histórias e de nomes. Foram tantos os restaurantes e as experiências, tendo guardado algo de bom de cada um deles. Não ouvi relatos depreciativos de nenhum lugar, mesmo tendo passado perrengues pelas estradas da vida. Tenta guardar o lado bom, o que tirou de aproveitável de cada lugar e assim me passa numa curta conversa continuada na sala de sua casa, tendo do lado de fora um carro esperando para levá-lo num final de dia de volta para Piratininga.

De sua memória sai tudo tão rapidamente que, se o ouvinte não estiver atento, mistura nomes e locais, pois tudo é despejado sem nenhuma ordem cronológica. Hoje, tenta se reerguer numa modesta cozinha em sua casa, num canto de Bauru, “atendendo quem gosta de comer bem”, como mesmo diz, fazendo patês e kiichis em potes plásticos. Tentou uma barraca na feira, em três agendadas, mas teve que desistir, pois sem veículo, não estava conseguindo fazer tudo, levar barraca e os alimentos no lombo. Enquanto me relata o hoje, fala também do passado. “Já rodei esse mundo, Empório Santa Maria na capital, fiz jantar para a Tânia Tancresi, para o Holiday Inn...”. Ele não para e quando lhe pergunto sobre sua formação, diz ter trabalhado na CEF, lá pelos idos de 2009, quando também fez Culinária no Senac, Águas de São Pedro, depois cursos em Campinas e especialização em finos lugares. Em 53 anos de vida, hoje diante de lembranças, todas revividas assim como um filme em sua memória, elas o atordoam, tanto que ao contar de suas passagens, muito conhecimento, nomes e mais nomes, glamour em todos, a esperança de que com isso reconstrua seu futuro.

De 2009 para cá, os últimos passados aqui, foram menos de dez anos e muita coisa, uma atrás de outra. Os nomes e lugares vão sendo despejados, como as lembranças do Cruzeiro Eugênio Costa, ele na cozinha, o restaurante Canto na Granja Vianna e em todos citando os nomes dos seus respectivos proprietários. “Sonho constantemente estar voltando para esses lugares, todos os que me marcaram profundamente”, diz. A conversa continua e não consigo colocar ordem nem sequência lógica nos muitos relatos. Da Cidade Jardim foi direto para as Ilhas Canárias, Espanha e quando volta, após dois anos, uma amiga vem e o convida para conhecer outros lugares. Diz ter trabalhado até em churrascaria brasileira na Europa, tendo sido também ajudante de cozinha na cidade de Cassel, interior da Alemanha, em eventos luxuosos, como o Documenta. Cita também lugares e pessoas em Milão e Bologna.


O interlocutor desatento mistura tudo, pois são muitos relatos, despejados assim de bate pronto e de difícil junção. Num momento, diz dos convites, “vem trabalhar comigo, vamos montar algo em nova York”, para depois dizer da recusa e das justificativas para estar aqui e ali. “Em alguns momentos eu não queria, noutro estava mal num lugar e fui em busca de outros ares, mas no final de tudo, tive até muita sorte e estou aqui te contando tudo isso. Consegui circular por lugares muito sofisticados, conheci vários donos de restaurantes, andei demais, vivi num universo meio que outro mundo. Sempre fui instigado a fazer coisas novas”. E fez, porém de dois anos para cá, quando a mãe faleceu, tenta voltar, se recolocar e percebe que o tempo passou rápido demais. Hoje, faz de tudo para reencontrar o caminho, uma nova colocação, uma oportunidade para voltar a bater asas, agora sem nenhum tipo de amarras.


Maurício circula com um CD embaixo do braço, nele a comprovação de algumas de suas histórias e também um minucioso currículo, que o interessado pode imprimir no ato. Ele tenta, ao seu modo e jeito, falando com interessados, expondo sua vida pregressa, sua experiência como motor de ligação para abertura de portas. “Eu posso também sugerir caminhos. O que daria certo em algumas situações. Sou acostumado a trabalhar com qualquer tipo de orçamento, inclusive com os baixos, só não consigo fazer a transformação de uma merluza em salmão, mas no mais faço tudo. Conheço tudo de restaurantes, de cozinhas, desde as mais simples, como as mais sofisticadas. O que não está dando é eu tentando me virar sozinho, pois assim dificilmente voltarei ao mercado”, diz. E dessa forma, ele se expõe, pois acredita ser essa a oportunidade, não só de contar um bocadinho do que já viu pela aí, como surgir disso tudo alguém apostando nele como o revitalizador de seu espaço, de seu restaurante, de sua cozinha e do seu negócio. Diz estar preparado para o que der e vier, aberto para conversas e com muita história para contar.

Obs.: Para contatar os serviços profissionais da Cozinha Maddalena, do chef Maurício, o fone é (014) 99610-6363 e o e-mail é mauricio-mad5@outlook.com

sexta-feira, 10 de maio de 2019

BEIRA DE ESTRADA (108)


FELITTI, CAÇADOR DE BOAS HISTÓRIAS NAS RUAS PASSOU POR BAURU E RELATA ALGO MAIS DO QUE FAZ, COMO FAZ E DOS MOTIVOS DE NÃO MAIS QUERER ABANDONAR O OFÍCIO DE ESCREVINHADOR DAS INSIGNIFICÂNCIAS


“Uma das reportagens de maior repercussão nos últimos tempos, a história de Ricardo – apelidado ofensivamente de “Fofão da Augusta” – surge retrabalhada a partir de uma nova descoberta: a trajetória de Vânia, sua namorada.Em 2017, um leito do Hospital das Clínicas de São Paulo foi ocupado por um homem sem identidade. Há vinte anos, ele circulava pela região das ruas Augusta e Paulista, onde liderou uma trupe de palhaços, distribuiu panfletos e pediu esmolas. Sua aparência lhe rendeu a alcunha de Fofão da Augusta e o status de lenda urbana. Por trás do apelido ofensivo estava um cabelereiro disputado nos anos 1970 e 1980, que falava francês e inglês, era esquizofrênico, foi drag queen, artista de rua, teve dinheiro e frequentou o underground. Chico Felitti se empenhou em conhecer sua história e, depois de quatro meses de investigação, publicou uma reportagem que viralizou. Em poucos dias, mais de 1 milhão de pessoas souberam o nome por trás do rosto remodelado por um litro e meio de silicone e cirurgias plásticas: Ricardo Correa da Silva. Logo viriam outros personagens e relatos atravessados pela trajetória de Ricardo. Sobretudo Vânia Munhoz, brasileira radicada na França, que um dia se chamou Vagner e foi o amor de sua vida”, essa a sinopse do livro hoje lançado em Bauru, o “Ricardo e Vânia – o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor”, obra do jornalista Chico Felitti.


Mas por que escrever dela aqui em Bauru e neste momento? São muitas coincidências. A primeira se deu lendo hoje o Jornal da Cidade e lá uma pequena nota no primeiro caderno, a “Livro do Fofão da Augusta é lançado em Bauru” (https://www.jcnet.com.br/…/livro-do-fofao-da-augusta-e-lanc…). Eu não sabia nada até então, nem do Fofão (santa ignorância a minha), como não conhecia o jornalista e escritor, mas me interessei pelo tema, ou melhor, pelos temas que ele escreve. Fui conferir por causa da junção desses motivos. Lá estava na sala 1, campus de Bauru da Unesp, adentrei a sala, por sorte tudo começa com certo atraso e não perco o início. Começo a escutar o que Felitti veio contar, para mim algo muito além do lançamento do seu livro, que pela bela narrativa já foi vendido como roteiro para um filme. Eu estava ali extasiado numa das cadeiras, pois via que ele escreve sobre temas pelos quais me movo, com uma diferença muito grande, ele vai a fundo, procura onde os publicar, encontra, tudo ainda vira livro e desperta outros interesses, como o filme. Ou seja, retratar os tipos populares, as pessoas ditas simples, as narrativas das ruas é um ótimo produto e não estou conseguindo fazer os encaminhamentos a contento.


Não entrei na sala com um mero bloco de anotações e tive que improvisar no verso de um extrato bancário, algo juntado e aqui compartilhado com o que salvei da fala de tão instigante escritor, num compilado resumo, extraído de respostas para variadas perguntas: “Eu relato histórias de brasileiros extraordinários que nunca tiveram suas histórias contadas. Histórias fortes que não mereceriam um perfil, pois editores me perguntam sempre: por que temos que falar disso agora? Não tem coisa mais importante para ser tratado? São as tais histórias sem gancho, mas interessando para muita gente. (...) tenho um pendão para o esquisito, a gente tem sé que colher bons temas, saber ordenhar uma matéria que ainda não foi devidamente contada e muito na caruda ir tentando a emplacar. (...) Tento conquistar a confiança de algumas pessoas para elas abrirem seu e-mail e verem o que lhes enviei. (...) Os editores de livros brasileiros cabem num salão de festa de prédio, não passam de vinte pessoas e daí, o segredo é correr atrás. O problema é chegar até as pessoas que não querem te publicar. Não se intimidem, peçam ajuda e não desistam. A regra é que as pessoas não querem o que você quer e sua missão é as convencer do contrário”, com uma fala assim ele intercala as histórias até agora contadas e como conseguiu ter muitas delas publicadas.
Rascunhos do HPA


Conta mais e eu só anotando: “Eu estou sempre em lugares onde muitos não gostam e não estão. Cato minhas histórias nesses ambientes, pois sei que o acesso a informação é um privilégio e daí vou atrás dele. (...) Nada é essencial, existem milhões de trilhas a serem seguidas e conquistadas. Claro que conta você ter experiência profissional, internacional, essas coisas, mas o que conta mesmo é a boa história, algo considerado essencial e a forma como você a escreve. Ninguém consegue ter a cesta básica do jornalismo por inteiro. (...) O mercado, todos sabemos, se dissolveu por inteiro, está em pandareco, mas pense nisso: o que essa dissolução acarreta? O jornalismo que se autogere presta um serviço pra muita gente. Não precisa todo mundo escrever sobre o que rola nos salões grã-finos. Eu optei por escrever o que está por detrás desses salões e vejo que isso desperta muito interesse. Tem boas histórias em cada canto que circulo. Mesmo com tudo de pernas para o ar, eles, os donos das publicações continuam precisando da gente para boas histórias e notícias. (...) Vivo de biscates, de pequenos trampos, que na junção, me são satisfatórios. Existe esse novo mercado, ele não vai conseguir abarcar todos nós, mas muitos estão conseguindo se safar dentro dele. (...) O jornalismo, mesmo que você não consiga emprego com ele, saiba que essa formação pode ser muito útil para outras coisas, principalmente para te ensinar a pensar”.

Mais não ouvi, pois tive que sair antes da hora (uma pena) e acabei perdendo o papo particular, a troca de contatos com ele. Havia pedido a palavra, me identifiquei, disse escrever por aqui algo sobre o lado B, os personagens da aldeia bauruense que NÃO são notícia. Ele se mostrou  interessado em conhecer o blog e essas histórias. Quis também saber como, ele conseguiu já lançar tantos livros sobre essas histórias e que falasse algo sobre o caminho das pedras para quem, como eu, escreve sobre esses personagens esquecidos e ainda nada conseguiu publicar. A explicação foi dada no corpo do meu resumo de sua fala. Por fim, não comprei seu livro, R$ 55 pilas, mas sei onde achar quando estiver com algum sobrando no bolso. O que me vale nesse momento é saber que outros tantos seguem na mesma trilha seguida por este mafuento escrevinhador, a de buscar histórias insignificantes e as transformar em grandes relatos. É o que me move, é o que move Felitti e é o que me moverá mais e mais daqui por diante. Cavarei espaços e darei notícias daqui em breve. Neste momento, busco o contato com o escritor para uma providencial troca de figurinhas.

* Em tempo: “Escrevinhador das insignificâncias” é um termo criado pelos historiador carioca Luiz Antonio Simas e incorporado por mim, achando também muito apropriado para Felitti.
Caju, Ana, MUCHACHO e este HPA


UMA NOITE, DIA DE IMENSA TRISTEZA
UMA NOTÍCIA PRA LÁ DE ENTRISTECEDORA*
* Publicado ontem à noite, tipo 20h, ligação de Fausto Bergocce me informando do infortúnio.
Estive em Iacanga três semanas atrás e é claro, Muchacho Garcia nos recebeu maravilhosamente bem, como só ele sabia fazer. Um socialista na acepção da palavra, agora novamente vereador, lutando contra o ódio reinante no mundo hoje, principalmente no nosso país. Não sei mais o que dizer, uma pessoa alegre, de bem com a vida e com uma vitalidade assombrosa. O conheci há tão pouco tempo e nos tornamos amigos desde o primeiro contato. Baita ser humano. Inacreditável saber do acidente no percurso entre Iacanga e Reginópolis e sua perda. São esses momentos onde a gente não se recompõe jamais. E pensar que em menos de quatro horas atrás ele estava por aqui no facebook postando coisas edificantes contra os malversadores desses nossos tempos. Um bravo, sempre.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

CARTAS (200)


DESTOMBAR SÓ COMPLICA*
* Carta deste mafuento HPA publicada hoje na Tribuna do Leitor, Jornal da Cidade - Bauru SP, edição de hoje:



Parodiando manchete de dias atrás do JC, trocando somente uma palavra, a "depredar", eis o questionamento se repetindo: "O que leva alguém a destombar?".

A interrogação vale para buscar saber o que vai pela cabeça dos conselheiros do Codepac, recém-empossados, para se reunirem somente com o intuito de destombar alguns dos imóveis tombados outrora pelo mesmo Conselho.

Numa recordação nada alvissareira, o único imóvel destombado em Bauru ocorreu por imposição do prefeito Izzo Filho, prédio das Indústrias Matarazzo, localizado entre o Shopping Boulevard e o Quartel da PM. Quando isso ocorre, em primeiro lugar o reconhecimento de ineficiência, muita inaptidão para zelar e cuidar do patrimônio histórico.

Historicamente uma vergonha, algo ainda visto como incompreensível por pesquisadores do setor e mesmo quando esgotadas todas as possibilidades, marcando para sempre quem o praticou e o inevitável questionamento: a serviço de que interesse?

O que falta é conversa, diálogo, explicações, entendimentos e saber usar todos os meios disponíveis para que o proprietário possa desfrutar de benesses, mesmo tendo seu imóvel tombado. Mas por aqui, a pressão sempre fala mais alto e, pelo visto, consegue seu objetivo no grito.
Henrique Perazzi de Aquino - ex-presidente do Codepac, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com) 

CENA BAURUENSE - Esqueça! A denominada Casa dos Pioneiros, com placa apregoando sua desapropriação e restauro é coisa do passado, pois com o destombamento à vista, terra arrasada, tudo no chão e no lugar o tal do progresso (sic). Diga adeus para a última casa dos resquícios e primórdios de Bauru.
Foto recente, tirada dois dias atrás por este mafuento HPA - Em breve, tudo devidamente no chão.

CHARGE ESCOLHIDA A DEDO (146)


KANNÃ, ADESIVO DO PEIXE NO CARRO, A CONVERSA DEFRONTE O BARRACO E O PONTO A QUE CHEGAMOS
Uma sucessão de fatos me faz sentar a bunda na cadeira neste exato momento e fazer uma reflexão sobre um alerta dado a mim por um dileto amigo, domingo passado, quando estivemos juntos assistindo a uma apresentação teatral dentro do ainda assentamento urbano, o Kannã, localizado próximo à Bauru/Marília, mais precisamente atrás do IPMET da Unesp, área nobre, cuja reintegração está em vias de ocorrer, para prejuízo de milhares de moradores.

Esse um fato, mas o que me traz aqui é outro motivo. Fomos assistir a peça (linda e divinal, por sinal) e na saída, diante de tantas ruelas, todas de chão batido de terra, porém sem nenhum lixo nas ruas, muito parecidas umas com as outras, tive que parar para perguntar qual a melhor saída. Estava um tanto perdido. Recebi a informação e algo me passava batido, quando o amigo, num veículo atrás, me seguindo naquele momento, num papo a seguir me conta de um algo a mais.

"Não sei se você reparou, mas aquele pessoal que você parou para perguntar não eram moradores do Kannã e assim como nós, visitantes. Olhei atentamente para o carro deles e no vidro traseiro o adesivo do peixe com a sigla partidária, essa desse partido ligado à igreja evangélica neopentecostal. Se tivesse olhado mais atentamente para o que faziam, teria visto que, estavam em duas pessoas, provavelmente um casal, visitando casas de moradores e ali entronizando a sua linha política e religiosa. Eles, na verdade, meu caro Henrique, fazem o que a esquerda deixou de fazer faz tempo. Souberam ocupar o espaço perdido por nós e hoje, nadam de braçada nas periferias do país inteiro. Vão de casa em pessoa, pessoa por pessoa", me disse.

Foi o início de uma longa conversa, uma boa reflexão. Erramos e muito nessas últimas décadas. Ele me remete com saudade ao tempo das pastorais católicas, todas com ampla penetração junto das camadas periféricas, não só dos grandes centros, mas por todos os lugares. Aquilo tudo se foi e hoje, um arremedo continua acontecendo, sem o incentivo da direção da igreja católica. O mesmo se deu com os sindicatos. Esses hoje não atuam mais nas portas das fábricas e diretamente naquele tão necessário contato com os operários e sindicalizados. Os motivos já foram amplamente discutidos, o fato é que desse abandono, alguém soube ocupar esses espaços e hoje, o que se vê é exatamente aquilo presenciado lá no Kannã. Alguém continua fazendo isso, estabelecendo esse contato e, com certeza, não são para finalidades de libertar esse povo, de conscientizá-lo, mas para que siga, desta feita, cordeiro de outra linha de pensamento e ação. O resultado da última eleição, como seu deu o convencimento junto das massas empunhando seus celulares e crentes numa mensagem libertadora é a resposta.

O tempo perdido, se houver alguma vontade política de recuperação ou algo parecido, será arduamente batalhado, ombro a ombro nos dias atuais, pois inexorável perceber que o terreno perdido já foi ocupado e quem o fez, dele não arredará pé facilmente. O fizeram na conversa e é exatamente essa conversa com o povo, onde ele estiver, o que não foi feito por quem pretende o libertar do jugo de estar atrelado a uma linha de pensamento conservadora. A peça de teatro com temática libertadora ali apresentada é um belo passo no sentido de abrir mentes, mas o que mais mesmo ocorre por ali além disso? Sim, vejo muitos da linha progressista alinhados com o movimento social, mas o tempo perdido causou tanta perda que, algo muito mais intenso se faz necessário, espalhado país afora, para se repensar em reconquistar a mente dos hoje sendo encaminhados para essas igrejas. Não existe meio termo, igrejas não libertarão ninguém, não conscientizarão ninguém, o negócio deles é bem outro, que isso fique bem claro.

Aquele carro parado lá no Kannã, o casal indo de casa em casa, falando aos moradores de política, de religião, de comportamento segundo a visão igrejeira é o que mais se vê pela aí. Fácil identificar o que está por detrás disso tudo, a grande manipulação em curso e já dominando os espaços. Esses e os milicianos. Perdemos parte significativa da guerra, mas não, ainda, o todo. Nada sendo feito, talvez isso ocorra muito em breve, mais até do que imaginamos. O trabalho de formiguinha, mesmo nesses adversos tempos, obscuros até a medula, se faz necessário. Urgente a retomada coletiva, do contrário, em breve, o inimigo seremos nós, os que ousarem defender os dominados. Esses mesmos nos demonizarão. Cabeça feita, difícil a reversão.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

BAURU POR AÍ (164)


PARA QUE NINGUÉM SE ESQUEÇA DE COMO SE DEU A INTEGRAÇÃO DO COLÉGIO CHRISTINO CABRAL AO ERNESTO MONTE – O RESULTADO APARECE HOJE

Tempos atrás, por decisão unilateral da Diretoria de Ensino sediada em Bauru, o até então Colégio Christino Cabral, localizado nos Altos da Cidade tem a maioria de suas salas extintas e transferidas, sem remediação ou opção de escolha para outro local, o Colégio Ernesto Monte, este localizado na praça das Cerejeiras, ao lado do prédio da Prefeitura Municipal. Protestos ocorreram, mas nada foi possível além de denúncia. Hoje tudo se agrava.

“Temos acompanhado, perplexos, a triste situação em que se encontra o Ernesto Monte. É necessário nessa hora lembrar alguns antecedentes que trouxeram a essa situação lastimável. Fizemos uma dura luta para que a maioria das salas no Christino Cabral não fossem fechadas com a implantação do período integral. A escola praticamente fechou. Lutamos para que os estudantes não fossem compulsoriamente transferidos, sabíamos que as consequências disso seriam catastróficas. Grande parte deles foi transferida para o Ernesto Monte, sem que a escola tivesse condições para receber tantos alunos. A superlotação provocou sérios problemas na escola. O resultado dessa ação irresponsável da Diretoria de Ensino de Bauru foi a destruição tanto do Christino Cabral, como do Ernesto Monte. Agora ela não apresenta nenhuma solução para o problema. Enquanto isso, ficamos sabendo de pais do Jardim Nicéia que se recusam a levar os filhos para escola porque não se sentem seguros. Os professores e funcionários do Ernesto Monte não estão conseguindo mais trabalhar naquela escola, não estão tendo condições mínimas de segurança para terem uma rotina de trabalho suportável. Nós fomos derrotados quando lutamos para evitar que essa situação fosse produzida, mas eu não queria estar no lugar de quem nos venceu. A responsabilidade por essa miséria é toda de deles”, professor Tauan Mateus desabafando sobre o passado, revivido neste momento, algo da integração forçada do Christino Cabral ao Ernesto Monte e postado em sua página no facebook.

Ele continua seu desabafo em mais um lamento: “Senti a responsabilidade de lembrar aqui nossas lembranças... lembranças da nossa luta”. Outra professora, Camila Fernanda Verdichio lhe responde: “Infelizmente já sabíamos que algo ruim aconteceria, mas não imaginávamos que seria essa tragédia”.

Para se entender melhor o que de fato se passa, compartilho depoimentos gravados e postados no youtube sobre a questão, trabalho efetuado pelo combativo Jornal Dois e outros de alunos/professores:
- https://www.youtube.com/watch?v=Rj5dN60Vuns&fbclid=IwAR3nU5yPOfIt7pksOdQ_7gK-2yNn6mdGrp6ixzEl9McM4LKHGoUjY71qD8M

- https://www.youtube.com/watch?v=Yc4d4CMNI-Y&fbclid=IwAR1HE9wASyImOqvlYB0KIukIbdVgSlu3i9teca55H-ww4Qo9_eok1TdH5cw

- https://www.youtube.com/watch?v=RTtFGKlDA_o&fbclid=IwAR3zmXnhcw1JVAKcgCjvDfRciD1JlA9K8UhKbgTL1wHuUd86GDyuxPtUV0o

- https://www.youtube.com/watch?v=ba9l6Zyg3FY&fbclid=IwAR2vZhTgqiMUptrZH3Y7-HSD6KP_XU6X0rM73tEitnHGsAWRBkyttHNgIII

- https://www.youtube.com/watch?v=9afOlsdxW3M&fbclid=IwAR2yiscl623dx5MqNdxvPW9BzOy_Ve6jnh7-pLVKueMSOg384hv7yCidl9g

- https://www.youtube.com/watch?v=nqhF37h_r8Y&t=6s&fbclid=IwAR0dNVO5NjqDcl83SnnQ9bYJfwWWmSBGND9XcvWxtA1qYKBhaD5YzHCRIj0

- https://www.youtube.com/watch?v=M5rOeHFYWio&fbclid=IwAR1ryb0ZPEB9stsBVn63DGTn1G_rkKCDErdrC6nFJrgiPPr3Hy6mb3VaNgA

Enfim, uma tragédia mais que anunciada. Mais uma vergonha agora mostrada como fratura exposta, desse desGoverno tucano e seus métodos de atuação no maior e mais rico estado da federação. Com eles, como se vê, o caos estará sempre estabelecido.

PS: Desculpem, mas não consigo chamar as atuais escolas de EE e o faço à moda antiga, ainda as denominando de Grupo Escolar (Primário), Ginásio e Colégio.


BOULEVARD E OS ALAGAMENTOS PROVENIENTES DAS ENCHENTES - PAPO DE CASA DE RAÇÃO
Vou comprar ração pro meu cão agora na hora do almoço e o dono do estabelecimento está conversando com uma senhora que até pouco tempo trabalhava no Cartório Eleitoral, hoje aposentada. Falavam de algo que me estarreceu e ao dizer que até hoje nada havia ouvido sobre o assunto, eles é que se estarreceram: "mas isso muita gente sabia, só você que não". Eis do que se trata.

Na época em que o Boulevard Shopping estava sendo levantado eles, a direção do empreendimento, pensando nos seus negócios procuraram a Prefeitura com uma proposta de fazer o que fosse necessário para resolver o problema das enchentes ali na Nações e rio Bauru, pois com os alagamentos os acessos ao shopping estariam prejudicados. Fizeram os estudos e os levaram para a prefeitura, na época primeira administração de Rodrigo Agostinho. Eles arcariam com a maior parte da despesa, mas a Prefeitura teria que arcar com outro tanto e segundo eles, a resposta desses foi que não existia nenhuma possibilidade deles fazerem o proposto, pois além de não estar provisionado, isso elevaria demais da conta os valores gastos no ano, o que inviabilizaria tudo. Nada foi feito e não se falou mais nisso.

Agora quero saber: existiu de fato algo assim proposto pelo pessoal do Boulevard? Pra mim é novidade, mas como nunca estive nesses bastidores, rogo para que se alguém, ou o próprio ex-prefeito, se manifeste e dirima nossas dúvidas. Eu nunca havia ouvido falar nisso, daí pergunto, será folclore ou tem fundamento?