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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

MEMÓRIA ORAL (201)


PARA SABER DAS NOVIDADES POLÍTICAS DE AGUDOS FUI ATÉ O SALÃO DO ENOQUE – TOMEI CONHECIMENTO DE TUDO
Com o início da campanha eleitoral desse ano, excepcionalmente mais curta e ofuscada pelas Olimpíadas e, depois pelas votações do impedimento final da presidenta Dilma Rousseff e a cassação de Eduardo Cunha. Na internet já estão mais do que evidentes os sinais dos primeiros esboços do que está por vir. Ouço hoje de minha irmã: “Agora só está dando candidato se oferecendo pra gente na internet”. Os amigos, parentes, conhecidos, vizinhos e quetais começam a se apresentar e a tentar uma aproximação. São muitos e a tendência é crescer. Bauru terá mais de 300 candidatos a vereador para 17 vagas e seis concorrendo para prefeito.

Tenho comigo que para alguém se inteirar das últimas notícias, as quentes e as frias, nada como em cada cidade dar sempre aquela passadinha para saber o que está rolando de conversinhas em alguns específicos lugares onde esses fluem divinalmente. Cito alguns: banca de jornais, pontos de táxi e salões de barbearias. Matutei com meus pauzinhos, escolhi um e lá fui marcar presença e saber das novidades.

Com a barba e o cabelo meio degringolado, optei por uma barbearia, a Alternativa, na vizinha cidade de Agudos. No nome da casa uma lembrança a um dos ídolos do seu proprietário, Raul Seixas (ele tem outros, Che Guevara, Elvis, Bin Laden e Gandhi). Enoque de Morais é, aos 65 anos, 35 de profissão um experiente nos quesitos barba, cabelo e bigode, talvez o mais renomado de Agudos, senão em perfeição, mas em resistência. Imagine a situação, uma cidade onde nas últimas quatro eleições a mesma família elegeu seus representantes e hoje, fazem de tudo para se eternizarem no poder. Existe um movimento contrário a isso e muitas das conversas nesse sentido nascem, crescem e vicejam, passando pelo salão do Enoque em algum momento. Daí, aquele apertado recinto transforma-se num afamado QG, onde se discute possibilidades, circulam candidatos, surgem ideias e são lançadas plataformas. Tudo isso conquistado com a sapiência da experiência adquirida com o passar dos anos.

O Alternativa reúne muito disso. Existia uma lenda, que circula pela cidade, afirmando que foi baixado uma norma impedindo que os da situação por ali circulassem, sob pena de serem desligados de seus cargos. Enoque desmente entre risos e afirma não ter essa importância toda. Hoje ao chegar lá o encontro tocando violão ao lado de uma importante figura do cenário agudense, o espírito de moleque Ricardo Egídio Antonio, o Ricardo 10. Peço para gravá-lo ao violão e ele me agracia até com um trecho cantado, claro, com Raul Seixas. Cumprimentos feitos, ele olha para minha fisionomia e acerta na mosca: “Veio aqui para que tente consertar o visual da carapuça?”. Sim, é claro, um dos motivos era esse.

Sento na cadeira e ele executa o serviço à moda antiga, com tesoura e navalha, pescoço ensaboado e essas maquinetas modernas só para alguns acertos. Falamos é claro, de política e principalmente das possibilidades do candidato da oposição, Altair, vencer o da família Octaviani. Nisso adentra o lugar Márcio Ferreira, coincidentemente candidato a vereador e já chega com algo novo sobre o tema: “Dentre dez pessoas abordadas na rua, diziam que sete poderiam votar com Altair, mas já estou chegando à conclusão serem oito”. Pergunto sobre as possibilidades dele, Márcio se eleger e antes que pudesse responder, Enoque sai com essa: “Olhe aqui esse adesivo. É meu, da última eleição, onde dizia Esse Candidato não é Laranja e tive somente 35 votos”. Não é nada decepcionante, para uma cidade que já teve mais de 300 candidatos e com uma população girando nos 30 mil habitantes.

Percebo confiança na fala deles e de todos que passam pela porta e colocam a cara para dentro para o cumprimento, que em cidade pequena é quase obrigatório. Pergunto do João Lúcio Balduzzi e do barulho que vem fazendo pela internet, tendo uma das últimas publicações exposto caixões de defunto abandonados em terrenos baldios da cidade. Todos estão mais do que unidos em busca de desbancar algo que, para todos eles já passou dos limites. Na sucessão de nomes que vou perguntando, ouço quase uma resposta coletiva: “Está conosco”. Qualquer forasteiro como eu, diante desse fato, entende facilmente algo: está ocorrendo na cidade uma união generalizada visando uma Agudos renovada para o próximo mandato.

“Aqui foi adiado a escolha do candidato e nem sabemos ainda se eles vão sair com o Carlão ou com outra pessoa, seu filho ou sabe-se lá quem. O tempo já se encerrou, mas por problemas internos do Cartório, a decisão sai nos próximos dias. Não se sabe ainda quem vai concorrer com o Altair. Carlão depende de se livrar de suas complicações processuais, mas o povo está desacreditado deles e esse ano tem tudo para ocorrer uma surpresa na cidade”, é o que dizem meio que e coro. Ciente de que, a coisa se ainda não ferveu na cidade, está prestes e o algo novo pipocando de um lado e de outro, vejo que a eleição em Agudos está quente, quase pegando fogo.

Enoque passa a navalha no meu pescoço sem cortar, nem tirar sangue, tudo dentro dos conformes. Tiramos fotos para registrar a veracidade do feito. O faço se sentar na sua cadeira e tiramos foto dele fingindo-se se deixar barbear. Para um dos quadros na parede, com a foice e o martelo emoldurados, diz que outro dia um cliente veio e queria leva-lo, mas nem deixou o gajo fazer sua oferta e ele ali continua na parede, tendo logo acima nada menos que outro quadro, um com Jimi Hendrix. Vamos chupar um sorvete atravessando a rua e na despedida Enoque me enche de esperança: “Meu caro, não há mal que perdure para sempre. Um dia a casa cai. E meu salão, por mais modesto, pequeno, nele se reúnem pessoas para trocar ideias e é com a troca de ideias que você forma pessoas. Faço isso desde muito tempo e mesmo pensando em me aposentar ano que vem, por onde estiver, estarei fazendo isso, lutando pelo melhor dessa cidade. Se o lugar acabou tendo essa característica de resistência, isso se deve a um trabalho que nunca deixei de fazer. Todos sabem que sou oposição a quem governa essa cidade”.
Obs.: Para saber mais de Enoque, cliquem a seguir e leiam tudo o que já saiu no Mafuá do HPA sobre ele: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=enoque+agudos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

MEMÓRIA ORAL (155)


O PRIVILÉGIO DE PODER MOSTRAR O OUTRO LADO DE AGUDOS

Motivos para visitar Agudos existem muitos. Fui nesta semana até a vizinha cidade por alguns deles e os conto aqui. No primeiro, talvez o mais sério, motivado por uma Intimação Judicial feita por três membros da família Octaviani, solicitada pelo atual prefeito Everton (sobrinho dos demais), o presidente da Câmara dos vereadores Auro (tio do prefeito e irmão do ex-prefeito) e o ex-prefeito e hoje quase candidato a deputado estadual Carlos (tio do prefeito e irmão do presidente da Câmara). A audiência de conciliação ocorreu ontem, quinta, 20/02 no Fórum de Agudos, motivado pelo fato de ter citado em um dos meus textos pelo blog Mafuá do HPA e pelas redes sociais algo assim: “Falemos também do que ocorre nos bastidores da Prefeitura de Agudos, reduto do império octavianista. (...) Crueldade a olhos vistos”. Acusado de Danos Morais estou tendo que justificar a questão “imperial” e das “crueldades”.

Lá compareço, eu, meus dois bons amigos advogados, José Hermann e Gilberto Truijo, acompanhado de dois também bons amigos, que quiseram me acompanhar nesse primeiro imbróglio, Duílio Duka e Marcos Resende. Em poucas palavras informo que, lá compareceram os três acusadores, acompanhados de três advogados do escritório MB Misquiati & Bahia. Para solucionar e encerrar o assunto, a proposta de minha parte foi a de oferecer espaço dos mesmos meios aonde escrevi, um natural Direito de Resposta. Ali poderiam se defender e é claro, dentro do espírito democrático que a todos nos une, teriam réplicas e tréplicas, comprovando o que sempre prescrevo, ninguém é absoluto dono da verdade, mesmo que assim o queira impor. Mas, os acusadores queriam mais, e a singela sugestão deles era a de que eu fizesse uma Retratação. Entendi isso como pegar uma folha de papel e lá escrever que sou mesmo um retardado, que nenhuma crueldade existe em Agudos, por parte de quem administrou ou administra a cidade, concluindo também, por entender como algo mais do que natural, membros da mesma família estarem no poder há 16 anos e que, provavelmente dentre dois deles (um deles estará inelegível no próximo pleito) sairá o nome do sucessor do atual mandatário.

Disse que o faria, mas ao meu modo e jeito, o que não foi aceito. Para eles, o que eu fizesse teria que passar pelo crivo aprobatório dos três e dos seus advogados. Entendo que isso tornaria a contenda um ato interminável de queda de braço, com esse HPA escrevendo algo e não sendo aceito como retratação. O conciliador (não foi o juiz a nos atender e sim, um conciliador), diante do impasse, descreveu não haver acordo e deu continuidade ao que na esfera judicial recebe o nome de início da instrução processual. Diante disso, um dos meus advogados disse-me algo, considerado por mim como o que de melhor poderia ouvir naquele momento tenso: “Estaremos daqui para frente diante de um momento histórico. Tudo poderia ter sido encerrado aqui, sem traumas para todos os lados. Preferiram ver expostas as tais das ‘crueldades’ citadas por ti. Você será pioneiro em mostrar publicamente e expor isso, um outro lado da cidade de Agudos, um comentado por muitos, citado em muitas matérias na imprensa regional (nunca na local), porém ainda não difundido. Esse apanhado geral mostrará em detalhes a existência de algo desconhecido ou que a maioria finge desconhecer. Agudos ganhará com essa exposição”. Entendi nessa manifestação uma espécie de missão jornalística, a de fazer valer os preceitos da liberdade de expressão, não denunciando de forma grosseira, mas comprovando de forma prática e inconfundível o que expus em duas linhas. Não me furtarei de fazer isso, pois esse foi o caminho escolhido por eles, quiseram que assim procedesse e assim o será.

Agudos não é, e nunca será eternamente governada somente por membros da família Octaviani, disso tenho a certeza. Isso ainda pode perdurar por algumas décadas (toc toc toc), talvez anos, mas chegará o dia em que alguém sem qualquer tipo de ligação com eles assumirá novamente o poder. A tal democracia vivida por nós clama por algo assim, é do seu preceito básico a alternância do poder, não só de nomes de uma só família no poder, mas também de outras cabeças e grupos políticos, outra orientação, posturas diferentes, etc. A oxigenação política pregada pelo tal do “estado democrático de direito” prescreve isso como condição sine qua non de sua existência. Para iniciar o que denominei no título deste, como “privilégio” em poder mostrar esse outro lado agudense, saímos dali e os cinco escudeiros fomos todos até um dos redutos oposicionistas e de resistência na cidade, o Alternativa Salão, do militante do PSB, o cabeleleiro Enoque Antonio de Morais, reunindo em seu pequeno espaço uma verdadeira trincheira de representações judiciais contra a ação justamente da cidade de Agudos desde que comandada por um dos três membros da família Octaviani.

Foi-nos entregue um calhamaço de documentos, representações variadas de verdadeiras “crueldades” cometidas contra o município, matérias publicadas em vários órgãos de imprensa demonstrando que a normalidade apregoada não é assim tão normal, propagandas feitas de forma excessiva, etc e tal. “A defesa começa a ser construída baseada nesses fatos concretos. De elementos como esses sairão o irrefutável embasamento comprovando que o que disse não tem nada de ofensivo, muito menos provocativo e sim, somente de uma crítica concreta e justa a algo que precisa e merece ser verificada e investigada”, foi algo que ouvi dentre os presentes. Enoque não se cansa de mostrar documentos protocolados junto aos órgãos competentes da Justiça local, cobrando desses, ação imediata de possíveis irregularidades constatadas por ele. “Acabo de voltar da promotoria. Agendei para a próxima quinta o protocolo de mais cinco documentos nesse sentido. Eu faço a minha parte e não deixo passar sem uma cobrança em cima do que acho irregular e injusto. Tenho tudo o que fiz e o que farei bem organizado, tudo protocolado. Minha ação é assim, concreta. Não fico falando sobre o que vou fazer, vou lá e faço. O resultado é pouco divulgado e conto contigo para melhorarmos isso”, me conta. Leiam isso dele: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=enoque.

Enoque não é único no que faz, existem outros bravos resistentes, nadando contra a maré. Cito o nome de dois, João Lucio Balduzzi Pereira e Ronaldo Cesar Barbosa de Matos, insistentes e corajosos no que fazem, de forma crítica, apontando os erros e as mazelas de algo ocorrendo na cidade pouco entendido ou pouco explorado. Junto a ele a ação de um bravo bauruense, Elias Brandão, que anos atrás conseguiu por sua iniciativa fazer valer que o cargo criado por Carlos Octavianni, o de gerente da Cidade, estava acima do de prefeito e a Justiça acertadamente o extinguiu. Dias atrás estavam eles todos reunidos e informando a população dos reais motivos dos atrasos na entrega das casas, quando da desapropriação do conjunto habitacional Minha Casa Minha Vida. Ali algo de muito cruel estava em curso e foi desconstruído pela ação desses bravos questionadores da real situação do que de fato acontece na cidade. O salão do Enoque é uma espécie de para raios de tudo isso. Muita coisa é ali levada, instigando-o na continuação ode sua desmedida luta, a de mostrar que tudo não é assim tão belo no momento atual vivido. Num espaço circundado por pôsteres demonstrando onde busca luz e inspiração, fotos de Che Guevara, John Lennon, Raul Seixas e Jimy Hendrix, são suas fontes de energia, inesgotável diria. “Não o conhecia e saio daqui encantado. Toda cidade precisa de pelo menos uns três ou quatro Enoques. Ele é o perfeito cidadão, faz mais do que toda a Câmara de Vereadores juntos no papel de fiscalizar o Executivo”, me diz Duílio Duka.

Como apregoado no início desse texto, nem tudo são lamúrias em Agudos. “A cidade está bonita, fruto de uma arrecadação invejável e conhecida por todos. Do lado visual, elogios, mas precisamos confrontar isso com o outro lado, o citado pelo Henrique”, me diz Truijo. Antes da partida de volta para Bauru sugiro a todos e, prontamente aceito, visitarmos a Dra. Jaqueline Josephs Naranjo, a médica cubana designada pelo Mais Médicos para atuar na cidade. Enoque nos diz que seu expediente é até às 13h no Posto Saúde local, e que está hospedada no hotel na praça central. Lá nos informam que ela mudou para um novo conjunto habitacional, num prédio nas imediações do Hospital. A localizamos por volta das 17h, ela estava em seu apartamento, prontamente desceu ao saber da visita de bauruenses e ficamos todos envolvidos por sua agradável conversa. Uma pessoa muito simpática e um desmedido amor por sua pátria, afinidade de pensamentos e ideias, com o que o governo de seu país está fazendo. Em nenhum momento conseguimos nenhum de nós, chamá-la de “doutora” e nem por isso a desrespeitamos. Pelo contrário, ela nos deu belas lições de cidadania humanitária.

“Amo minha pátria, sei de suas dificuldades. Essa minha segunda atividade fora do país. Já atuei na Venezuela por alguns anos. Essa questão do salário é algo de mínima importância. Cuba é um país pobre e para poder continuar executando com brilhantismo essa ação humanitária mundo afora, necessita da ajuda do seu povo. Parte do meu salário é usada nisso, na manutenção desse sistema educacional, o de saúde, o transporte gratuito com a compra dos maquinários e recursos necessários para a continuidade do atendimento à população cubana. Lá os meus, meu filho que tanto adoro e que voltarei a vê-lo só nas minhas férias, possuem todo o básico sem qualquer custo. Para manter isso, esse meu trabalho no exterior é necessário e fazemos isso com orgulho e sem maiores problemas”, me conta. Marcos Paulo, militante comunista, reflete conosco sobre as desistências ao programa: “Justificável que muitos cubanos que não vivenciaram o que foi o período anterior à Revolução Cubana, nasceram depois e já dentro do governo de Fidel compreendam pouco o que foi um passado de privação. Mesmo com toda educação, a contrainformação é muito grande e cada ser humano reage de um jeito. Na medida em que alguns cubanos tomam conhecimento do que de fato ocorre fora da ilha e levam essa informação para os que estão vivendo no país, na confrontação, estarão cientes de que o que vivem, mesmo com as tais privações é muito melhor em relação à grande maioria dos do lado de fora”.

Ouvimos atentamente o relato de Jaqueline, e de sua tristeza inicial, por saber ter que trabalhar isolada, somente ela representando o Mais Médicos na cidade. Isso tudo foi sendo amortizado com o passar dos dias, o apoio dos funcionários, seus colegas de trabalho, superiores na Secretaria Municipal de Saúde e, principalmente, no que fez questão de reafirmar várias vezes, na resposta dos pacientes e da população. “Hoje não tenho mais dificuldade em entender o que me dizem. Entendo tudo, talvez um pouco de dificuldade ainda persista na minha forma de expressão. Em pouco tempo, tudo estará resolvido. Até minha solidão inicial está se dissipando. Hoje sou convidada por pessoas variadas para ir a suas casas, festas e almoços. Os pacientes tem sido ótimos, procuro ouvi-los muito, entender o que de fato precisam e essa troca tem sido agradável, acredito, para ambos os lados. Moro sozinha desde que sai do hotel, tenho computador, mas não tenho internet. Leio muito e sei que estou sendo útil. E quero muito conhecer essa professora de música cubana que mora em Bauru”, nos diz.

Na despedida a troca de telefones e alguns prováveis convites, alguns para o Carnaval, que infelizmente não ocorrerá de nenhuma forma em Agudos; outros, talvez, para um contato com Rosa Tolon, a professora cubana de piano, residente em Bauru e um algo mais, a sua vinda no próximo domingo para a última festa antes do Carnaval do bloco “Bauru sem Tomate é MiXto”, quando poderá ter contato com algo em torno da maior festa popular brasileira. Saímos todos de lá, cientes que algo estará se iniciando a partir do que foi decidido no Fórum local, e alegres por ter a certeza de que na imensa maioria dos médicos envolvidos no Mais Médicos, pode ser exatamente como o vislumbrado na doutora Jaqueline: pessoas cordiais, corretas, dignas, cientes do que fazem e do posicionamento que precisam ter nesse momento, diante de tudo o que estão encontrando pela frente. Nos três momentos: o do Fórum, com a ratificação da riqueza em poder demonstrar a existência de outra Agudos; a do reencontro com o resistente Enoque e pela oportunidade de poder conhecer a médica Jaqueline. Tudo isso junto e misturado, nos dão a entender que nem tudo está perdido nesse rincão varonil. Vivenciamos esse outro lado do Brasil, um que caminha pelas suas vicinais e atalhos e disso faz sua trajetória.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

MEMÓRIA ORAL (109)

QUATRO ESCUDEIROS NÃO SE RENDEM NA SITIADA AGUDOS
Na imprensa a divulgação de um grandioso "Rodeio das Estrelas" em Agudos, 40 mil habitantes e tendo comemorado 113 anos no mês de agosto passado. De 14 a 18 de setembro, com entrada franca, show todos os dias, muita propaganda, patrocínio explícito da Prefeitura Municipal e algo na contramão disso tudo, o evento está ocorrendo dentro da área urbana da cidade e isso fere a legislação. Uma pessoa conhecida por outras ações na cidade, Elias Brandão, 50 anos, pertencente à ONG Naturae Vitae, aciona a justiça tentando impedir a realização da festança e aguarda ansioso o julgamento do mérito. Para se inteirar dos fatos o procuro para saber dos motivos de tanto envolvimento com as questões da cidadania naquela cidade, sendo o mesmo morador de Bauru, cidade distante 14 km. Sua resposta é um convite para se debruçar sobre algo ainda pouco conhecido da vida de uma aparente pacata cidade interiorana: “Quer ir comigo lá e conhecer outro lado de Agudos? Tudo lá gira em torno de somente uma pessoa, espécie de dono. Te apresento a algumas pessoas e você se surpreenderá”.

Convite aceito, aportamos na tarde de quarta, 14/09, primeiro no Salão Alternativo, o mais movimentado salão de cabeleireiro masculino da cidade, comandado por Enoque Antonio de Morais, 61 e há quase vinte anos na cidade. Ali um dos pontos de encontro dos descontentes com a atual situação política do município. “Agudos vivia um vácuo político. Tivemos o governo do Marcos PT, depois Afonso Conde PSDB e finalmente o Carlão Octaviani, eleito pelo PMDB em 2000, que chegou e com seu jeito mandão, populista, ficou e não quer mais sair do poder. Dois mandatos e não podendo mais ser eleito, hoje o sobrinho Everton, 23 anos é o prefeito. Chegou a se impor com um cargo criado por ele, o de Gerente da Cidade”, conta Enoque enquanto corta o cabelo de um cliente.

Nisso somos interrompidos por Elias, querendo contar algo: “Um moço daqui, o Ronaldo me encontra em Bauru e diz: ‘Você é o Brandão?’. Conta a história toda, pede minha ajuda e me convence a conhecer o Carlão. O encontro sentado na mesa do prefeito e com os pés em cima dela, digo que quem deve estar lá é o prefeito e saio dali decidido, só a Justiça para dar cabo numa situação dessas. O processo foi montado, ele perdeu o cargo, mas em seguida assume como Secretário de Obras. Pouca coisa mudou”. Enoque pára o corte e dá uma cutucada: “O agudense é conhecido como boca amarela, pois chupava muito manga e hoje esse boca amarela, depois de ter transformado nossa cidade num local sitiado, quer ser prefeito de Bauru. Todas as secretarias daqui batem continência para ele, virou o único comprador da Prefeitura, tudo passa pelas suas mãos. Imaginem isso em Bauru”.

Pergunto a ele se tem problemas por ser oposição. “As pessoas não deixam de vir aqui por eu ser oposição. No começo cheguei a acreditar que Carlão, por ser jovem, impetuoso, faria alguma coisa. Depois vi que não era nada disso. Nunca tivemos tanto a omissão das pessoas e tanta vigilância em cima de todos, estamos vivendo no limite”. Quem não se segura e entra na conversa é João Lucio Balduzzi Pereira, 49 anos, quase dois metros de altura, forte no corpanzil e na fala dura: “O município não comporta mais tantos cargos de confiança. Nem vereador consegue a relação desses cargos. Toda obra por aqui, por mais curta que seja, demora no mínimo uns três anos. Em nenhuma placa tem a informação do valor das obras, tudo oculto e se for consultar no site, lá um vazio”. Enoque confirma: “Foram vários anos para terminar um simples sanitário da praça e a biblioteca até hoje funciona em imóvel alugado, tudo defasado”.

Os três diante de mim iniciam uma longa explanação de fatos meio que surreais ali repetidos com uma freqüência de assustar até assombração. João é o mais exaltado: “Tudo leva a crer que a população de Agudos está sob uma dinastia política escolástica e de uma ditadura religiosa. Usam a religião para tudo, fingem-se de. Enquanto os astros do cosmos giram, aqui estamos vendo a banda passar e nada fazemos. Queremos nos livrar disso. Aqui é praticado um subterfúgio na prática do nepotismo, o feito de forma cruzada”. Enoque é quem explica: “A Câmara contrata o primo do prefeito e o prefeito contrata o filho do ex-presidente da Câmara. Atinge-se desde o 1º, 2° até o 3º graus. Não pense que as brigas com a CPFL e a Sabesp são de verdade, tudo efeito de mídia. E nem espaço para fazer denúncias temos, pois no jornal e a rádio daqui só podem ser publicadas coisas falando bem deles”. Para dar o arremate final, João fica no meio do salão e diz com emoção: “Uma cidade sem oposição é uma cidade sem vida, é como uma casa que não tem goteira. Por aqui, onde está indo a maioria está indo junto a mentira”.

Elias me puxa pelo braço e quer que vá ver o local onde está para ocorrer o Rodeio e João diz que logo ali pertinho uma área de preservação com sinais evidentes de devastação, com árvores arrancadas, máquina limpando tudo e um preparo para a chegada da especulação imobiliária. Circulamos pelos dois locais, tiramos muitas fotos e Elias diz que se encarregará de novas denúncias da devastação do meio-ambiente, enquanto João continua abrindo o bico: “Agudos se tornou o paraíso dos políticos forasteiros, que chegam aqui com algum poder aquisitivo e logo se elegem e ao mesmo tempo quer exportar um itinerante prefeito. Nem carnavais têm mais e por determinação dos escolásticos igrejeiros. Era uma tradição na cidade e hoje não mais permitido, assim como o desfile de Sete de Setembro. Algumas pessoas querem brilhar mais que o sol, ficam criando fatos 24h por dia, inclusive o Rei Sol que quer brilhar no sol de Bauru”.

De lá damos uma passada na casa de Ronaldo Cesar Barbosa de Matos, 39 anos, morador do Jardim Márcia II e há pouco mais de oito anos na cidade. Ficou conhecido pelo fato do ex-prefeito ter exposto no ar de uma TV em Bauru o seu endereço, acusando-o de ser o culpado pelo atravancamento da Saúde Municipal. “Ele citou meu nome e de minha esposa como se quiséssemos acabar com a Saúde do município, quando o que fizemos foi denunciar irregularidades. Precisava de um exame, me enrolaram e depois me passaram que o preço era R$ 200 reais no particular, sendo que eu pagaria a metade e a Prefeitura a outra. A minha metade, paga em cheque foi depositada numa conta particular e a nota emitida em valor integral para a Prefeitura. Denunciei tudo mesmo, isso é exercício de cidadania. Cada vez mais me certifico de que Agudos é hoje uma cidade sitiada, onde tudo se sabe. Quando percebo estar sendo seguido, saio do carro e aceno, deixo claro que percebo tudo. Eles não aceitam ninguém contrariando seus interesses”.

Ronaldo veio da Grande São Paulo, por recomendação médica, necessitando de clima mais ameno, parentes em Agudos escolheu a cidade. “Se aqui, 350 km de São Paulo é assim, imaginem no Maranhão. Isso aqui daria uma novela, do tipo Cordel do Fogo Encantado. Tem uma grande família aqui, a Kuninari, quase 120 anos, geração para geração, formou um império, com mercados, lojas variadas, materiais de construção, tudo aos poucos. Já os que estão no poder hoje, em menos de vinte anos já possuem um império igual ou até maior. Como pode? E se for ver, tudo espalhado no nome de muitos da família, mas como esses conseguem sem renda para tanto?”, são questionamentos que vão se juntando aos de todos.

Reunidos numa roda final, Enoque diz: “Pelo meu salão circulam três ex-prefeitos, o lugar não é chique, mas aqui tem conversa lógica, bonita, transparente, real. Veja as mensagens que os amigos vão fixando aqui. Eu falo o que estou vendo”. João segue na mesma linha: “Os outros precisam tomar conhecimento do que se passa de verdade aqui no município. Até quando vai se tapar o sol com a peneira? E quando voltarem, nos avisem, para que acompanhemos todos, pois de vez em quando o bicho pega por aqui”. Ronaldo prossegue: “Exercer a cidadania por aqui é algo mal visto. E o povo tem culpa disso, pois faz vista grossa. Sabe de tudo, mas tem medo, receio de se indispor. O que a gente pede é o cumprimento da Constituição, só isso, mas nem isso pode por aqui”. Todos se voltam para o Elias e ele dá o arremate final: “De cada vinte ações correndo na Justiça da cidade, mais da metade são desse quarteto. Nós não temos medo, mostramos, apontamos, juntamos material e colocamos o bloco na rua. E mais, não temos intenção nenhuma de parar, pois temos muito mais o que fazer para devolver a dignidade para Agudos”. E ao deixarmos a cidade, eu e Elias escutamos fogos no ar, esses os sinais de que o rodeio está prestes a começar.

Em tempo: Esses quatro e mais alguns outros, me fizeram prometer voltar e continuar relatando mais algumas escabrosas histórias agudenses. É o que farei muito em breve.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

PERGUNTAR NÃO OFENDE ou QUE SAUDADE DE ERNESTO VARELA (79)


O CHICO ME CITA, O FABRÍCIO SABIA QUE IA PERDER E AGUDOS NÃO É NADA TRANSPARENTE

E O CHICO FAZ QUESTÃO DE ME CITAR NA AURI-VERDE – O Chico Cardoso é radialista da rádio AM de Bauru, a Jovem Auri-Verde. Sua especialidade é referendar tudo o que a Polícia Militar faz. Praticamente não existem críticas para esses, só elogios. Criou um programa, sábados das 10 às 12h, o “Polícia Comunitária” só para enaltecer os feitos dos fardados. Faz isso com prontidão, presteza e competência. Mesmo que alguns dos atos desses mereçam críticas, faz lá seus contornos, em alguns casos verdadeiros malabarismos e os elogia. Acho um exagero, mas Chico não se altera, tem como se fosse uma missão (meio que inexplicável) ficar martelando para seus ouvintes das benesses de uma PM, que na realidade não é assim tão prestativa, atenciosa e ciente de sua verdadeira missão. E agora ele pegou outra mania, a de ficar me citando toda vez que quer dar um exemplo de como acha ter razão sobre o que prega nos conceitos embutidos sobre Direitos Humanos. Ele mesmo já fez programas sobre o tema, mas gosta de ver nesses os culpados pela polícia, por exemplo, não poder “bater” (ui...) como dantes nos suspeitos, detidos e mesmos os levados para os quartinhos nas delegacias. Sou citado novamente hoje, nome e sobrenome. Ele e Rafael Antonio apresentavam uma notícia hoje pela manhã sobre algo deplorável, a depredação de uma escola infantil no Jardim Ipiranga. Vândalos adentraram o lugar no final de semana e além de roubarem mantimentos e aparelhos eletrônicos, inutilizaram o local. Ninguém pode ser favorável a isso, mas Chico faz questão de em casos assim lembrar dos Direitos Humanos, como se fosse algo obrigatório e necessário. Quando quer justificar a indiscriminada ação policial, cita os DH como algo se contrapondo a isso. Lembrou novamente e disse algo como, se também fosse necessário quando identificados e detidos, os tais meliantes necessitassem assim como algo mais do que natural, levarem uma devida coça, ou seja, serem “moídos” pelos fardados. E daí me cita. Eu não referendo o bater, pois isso não está prescrito em nenhuma cartilha policial. Precisam é identificar e prender os vândalos, fazer com que paguem pelos seus atos. Se bater resolvesse, seria simples, bateríam e pronto. Está provado não resolver nada. Chico, pela forma como repassa a informação, prefere o prender e o bater. Pior, pelo visto, prefere também os que assim o façam e não precisem prestar contas dos seus atos. Menos, seu Chico. Se quer que os policiais saiam batendo nos outros a torto e a direito, defenda isso abertamente e sem delongas e deixe de me colocar no meio disso.

FABRÍCIO E O “PODE DEIXAR, MEU VOTO É TEU” – Fabricio Genaro perdeu a eleição para o Diretório Municipal do PT. Membro da Esquerda Marxista, um agrupamento ideológico encrustado dentro do partido, não nutria nenhuma esperança de vitória dentro da atual estrutura, vicejando após anos sob o comando mão de ferro de Estela Almagro, seu marido o ex-vereador Batata e do ex-assessor Sandro Bussola, hoje vereador, presidente da Câmara e fazendo jogo de cena, beicinhos como se possuidores de posicionamento distintos. O jogo é do poder pelo poder. Genaro não tinha pretensões e dia desses contou-me entre risos dos que dele se aproximaram dizendo: “Tô vendo a sacanagem que ocorre e não concordo. Tenha certeza, meu voto será seu”. Muitos fizeram isso e abertas as urnas obteve meros 38 votos dentre mais de mil votantes. Genaro deve ter rido novamente e mais ainda observando a quase briga entre os postulantes das duas outras chapas. Imagino a cara de dona Estela vendo vans e vans chegando cheias de eleitores evangélicos, todos ligados ao Sandro e votando cegamente no candidato do pastor. Ela, que fez isso até agora em repetidas eleições, sentia na pele o gosto do próprio veneno. E agora o partido está nas mãos de alguém que meses atrás quase saiu do PT, para ingressar num partido mais à direita (por indicação pastoral), voltou atrás e hoje comanda o Diretório, com a cabeça agindo igualzinho a de um Feliciano. Quem diria, o PT, o dito partido das transformações, hoje sendo comandado por alguém com a visão reducionista taleban dos conservadores fundamentalistas. Nada mudou com a troca do comando de Estela para Sandro, um é discípulo do outro e se mudou, afirmo sem medo de errar, foi para pior, pois o que Sandro representa hoje é muito pior do que tudo o que fez durante sua vida toda até bem pouco tempo atrás. Para mudar o PT hoje por aqui só na base de uma revolução (talvez tenha que ser armada). Do contrário, do jeito que as coisas andam, a credibilidade só tende a diminuir. Sandro hoje é fundamentalista e faz a defesa disso abertamente. Eu como não concordo com a baboseira pregada por esses, naturalmente não posso estar ao lado de gente pregando o que pregam.

AGUDOS NÃO É ESSE PARAÍSO APREGOADO POR ALGUNS – Escondido no meio do Caderno Regional do JC, edição de quinta, 07/11/2013, uma curta matéria, “Jornalista cobra divulgação de cargos e salários em Agudos”. Recortei e guardei o texto, pois é rara exceção num momento em que a maioria do que sai por aí na imprensa são fruto da Assessoria de Imprensa da vizinha cidade, pura babação de ovo em cima de feitos não tão edificantes ocorridos por lá. O texto foi baseado em denúncia do bauruense ELIAS BRANDÃO, solicitando e não conseguindo resposta para algo que deveria ser a coisa mais natural desse mundo, o fornecimento de listagem com nomes, funções e salários de todos os servidores municipais. Dizem que por lá existe uma gana imensa de gente ligada aos Octavianis e para comprovar isso ou não, nada como saber o quanto ganham. A Lei de Transparência parece não ter importância nenhuma por lá, pois fingem que a mesma inexiste. Não basta publicar nomes se não estiverem junto aos cargos e salários. A solicitação não é novidade, como não é novidade o não atendimento. Empurra-se com a barriga até não mais poder. Agudos vive um caso peculiar, terra onde a clã dos Octaviani domina tudo, desde a Prefeitura até a Câmara Municipal. Nem um mero peido é mais decidido sem a anuência da família, sempre tendo à frente Carlos Octaviani, pretendente de concorrer à deputado federal. A cidade vive num constante clima de pressão, pois poucos são os possuidores de coragem para se opor à família. Isso não é bom para a tal da democracia, pois na verdade, ela não existe ali. Gosto da coragem de Elias Brandão, Enoque Morais, João Lucio Balduzzi Pereira e Ronaldo Cesar Barbosa de Matos (leiam isso: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=enoque+morais), que tentam a seus modos e jeitos irem apontando o dedo para o que vem acontecendo nas questões de mando na cidade clamando: “O rei está nu”. O alento deles é que nada é eterno nessa vida, vide a saída de Estela Almagro após décadas comandando o PT bauruense. Só não queriam que por lá ocorresse como aqui, a troca fosse seis por meia dúzia. Eles são alguns dos que lutam para demonstrar que Agudos não tudo é isso que dizem por aí. Está difícil de ser oposição no Reinado dos Octaviani's, mas esses insistem e resistem.