MEMÓRIA ORAL Nº 2
O filme ainda nem foi lançado oficialmente, mas produz um sucesso estrondoso, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, onde se passam todas as cenas de “Tropa de Elite”, a mais nova sensação cinematográfica brasileira. O filme é polêmico pela própria natureza do tema abordado, as ações violentas do BOPE - Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Não se viu até agora nenhuma propaganda oficial sobre o filme, que segundo o diretor José Padilha (o mesmo de Ônibus 174, de 2002), estreará nos cinemas em novembro, porém, o filme já está praticamente espalhado por tudo quanto é canto, num fenômeno mercadológico ainda inédito para o nosso cinema. Já se viu algo parecido com filmes estrangeiros, tiragens imensas e isso tudo está sendo, nesse momento, vivenciado também pelo cinema tupiniquim. Com o vazamento adentramos o rol dos filmes pirateados antes mesmo da estréia.
Essas coisas de pirataria são um tanto difíceis de serem identificadas. Difícil saber de onde partiu a reprodução da primeira cópia pirata, quem a repassou, para quem e como tudo foi se dissimulando. Muita investigação já foi feita e alguns nomes e suspeitos já estão arrolados e enrolados, com a lei ameaçando seus calcanhares. Isso tudo está merecendo uma ampla divulgação nacional, primeiro pelo ineditismo do feito e depois porque o filme trata de um assunto bem nosso, violência e ação policial. No Rio fala-se que as primeiras cópias foram vendidas a R$ 10 reais, depois a R$ 5 reais e hoje são encontradas até por R$ 2 reais. Pelo visto, por lá está um tanto difícil de encontrar quem ainda não tenha assistido ao filme. Virou febre e mania.
Um outro, mais maleável, acabou me afirmando que só não está vendendo a fita porque ainda não encontrou quem a repassasse: “Pra semana eu devo ter, pois a procura é grande e também quero ganhar algum com isso”. Bisbilhotei por todas as bancas e nada do filme, acabando por constatar um clima de expectativa entre as duas partes, a dos clientes, que especulam, procurando saber quando chega e entre os camelôs, que se movimentam na busca do tal filme, ou do lucro certo, pois a procura só aumenta. Um outro, fez questão de frisar algo interessante: “Nunca vi tanta procura por um filme brasileiro como esse aí. O negócio deve ser bom mesmo e estou também curioso”.
Na segunda, 10/09 rodei os camelôs do centro da cidade. Poucos eram os que ainda nada haviam ouvido nada sobre o filme. Circulei por umas dez bancas e na grande maioria, nada, nenhum vestígio. Numa delas, a grande novidade, o filme já havia passado por ali e estava esgotado, pelo menos naquele dia. Todas as cópias, que esse camelô, de uma das ruas transversais ao Calçadão central havia trazido foram vendidas. Estava cheio de encomendas para o dia seguinte e diante da minha curiosidade, foi logo falando: “Tenho mais dez rodadas lá em casa. Se quiser assistir hoje, te dou meu endereço e vai lá buscar à noite. Do contrário, guardo para ti e pega aqui amanhã. São R$ 5 reais”. Por fim acabei ouvindo mais uma novidade dele: “Em Bauru, por enquanto, só eu e um outro amigo temos. Somos os únicos”. Parece serem mesmo os pioneiros. Quer dizer, a Tropa de Elite já chegou à cidade e se veio para movimentar o comércio de DVDs piratas é algo que veremos a seguir.
Voltei no dia seguinte e quando fui chegando perto, ele já me reconheceu do dia anterior, foi logo me mostrando a banca: “Olha aqui o filme. Tenho duas versões de capas. Uma com o Cristo e outra com a favela de fundo. Em ambas o filme. Já vendi quase tudo que trouxe hoje, uma loucura. Tá entrando uma grana legal”. Comentei com ele, que justo ao lado, um outro filme bem badalado e difícil de ser encontrado, o “Amor estranho amor”, aquele erótico com a Xuxa. Ele é rápido na resposta: “É nessas coisas mais difíceis que se ganha um algo a mais”. Não resisto e faço a pergunta fatal: Como trouxe o filme? Ele pensa um pouco, como quem tem dúvida se deve ou não revelar e acaba falando que: “sou do Rio, tenho muitos parentes por lá e sou cheio de contatos. Acabei pedindo para me enviaram. Sei que logo outros vão vender, mas por enquanto quero ganhar algum a mais. Só isso”. Antes de ir, perguntei-lhe se já havia assistido e sorrindo me disse: “Claro. Acho até que fui o primeiro por aqui”.
Para se ter uma idéia do avanço da tal febre, dei dois dias e voltei no final da quinta até os camelôs do centro da cidade. Fui sondar e o filme estava começando a circular em outras bancas. No último domingo, só espiei a Feira do Rolo e o filme estava em várias delas. Vi no jornal local um representante das vídeos-locadoras, Avanilton Sebastião, 50anos, dando uma entrevista sobre as perdas do setor e uma campanha, que tomou algumas ruas do centro da cidade, numa tentativa de conscientização da população para não consumir DVDs pirateados. Ele explica algo que é o grande problema do negócio hoje em dia: “As videolocadoras pagam em torno de R$ 120 pelos lançamentos. Quando estão disponíveis em lojas do ramo, custam por volta de R$ 45. O consumidor desembolsa de R$ 3 a R$ 5 pelo aluguel do DVD. Nós pagamos impostos e geramos empregos”. Na defesa da economia informal está Cláudio Luiz, 34 anos, representante da Associação da Economia Informal de Bauru, que na mesma reportagem salienta: “A questão do comércio dos produtos pirateados é social e não policial. Se tivesse mais empregos, com certeza não haveria economia informal”.
Henrique Perazzi de Aquino - 17 de setembro de 2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário