domingo, 6 de dezembro de 2009

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (06)

O ATOR PAULO BETTI, SUA VINDA PARA BAURU EM 2006 E ESSE HPA
O contato reestabelecido com Paulo Betti, quando de sua vinda para Bauru, primeiro para o filme "Cafundó" e depois, para o musical "A Canção Brasileira", tiveram meu nome envolvidos (com todo o apoio do ex-secretário de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre, na administração Tuga Angerami). O gostoso de tudo aquilo foi o reconhecimento do Paulo em texto, publicado inicialmente no BOM DIA de Sorocaba, sua cidade natal, onde mantém uma coluna semanal no jornal e depois, reproduzido na edição daqui, em 23/06/2006. Esse texto é o que o Paulo e eu relembramos aqui, junto com fotos tiradas pelo pessoal do Alameda Quality Center, que comprou a idéia e trouxeram o ator para o lançamento do filme. Montamos um belo aparato por lá, com a Folia de Reis, umbandistas e a Banda Municipal de Bauru (todos personagens do filme), além de muita gente conhecida. Foi uma época de intensa movimentação no Teatro Municipal de Bauru e arredores, mesmo com pouquíssima grana em caixa. Fizemos e acontecemos, durante quatro anos. Revejam texto e fotos aqui e agora:

"Amigos, estou ansioso com minha primeira ida para Bauru.
Quase sempre foi o teatro que me levou aos lugares que conheço. Não é diferente dessa vez. A"Canção Brasileira" me leva a terra do Mauro Rasi, autor teatral com quem trabalhei e que me despertou inicialmente a vontade de conhecer a cidade. Mauro falava muito de Bauru em suas crônicas e peças. Através dele comecei a amar, a distância, aquela que foi conhecida inicialmente como "Patrimônio de Bauru". Fui o produtor do espetáculo em que Mauro homenageava sua querida mãe. Talvez "Pérola" tenha sido a peça de maior sucesso de Mauro Rasi. Comecei a criar uma vontade de conhecer o lugar onde a obra se desenrolava e onde havia nascido o grande autor e querido amigo.

Claro que outras vezes desejei conhecer a aglomeração humana que deu nome ao sanduíche mais gostoso que se faz. Em São Paulo tem o famoso Bauru do tradicional "Ponto Chic", que é completamente diferente daquele que você vai comer se pedir numa padaria da capital. E um outro sanduíche vai ser o que você vai comer em qualquer boteco no Rio de Janeiro. No "Ponto Chic" um queijo branco derretido e pedacinhos de pepino num pão frances. Nas padarias de "Sampa" é pão frances com queijo quente, presunto e tomate. Nos "pés sujos" do Rio você vai degustar um filé, pão francês e ovo.

Acho que pensei em conhecer Bauru antes. Quando eu tinha dez anos e o Noroeste se defrontava com meu time, o São Bento de Sorocaba. Foi no Noroeste que começou a jogar o maior craque de todos os tempos: Edson Arantes do Nascimento, também conhecido como Pelé. Eu queria conhecer o lugar onde marcou os primeiros gols aquele que se consagrou como o rei do futebol. Mas, vontade mesmo de verdade de conhecer Bauru, eu tive quando vi o grupo Gil Vicente se apresentando num festival de teatro amador. O ano era 1971. Quem comandava o trupe, coisa inusual, era uma mulher. Ela se chamava Celina. Eu era um jovem ator participando de meu primeiro festival e me impressionou que aquela senhora, dona de uma escola de datilografia, fosse a presidente da Federação Bauruense de Teatro Amador, a Febata. Se não me engano o filho de dona Celina era o diretor da peça. O que achei mais curioso é que ela era dona de uma escola de datilografia! Por acaso havia acabado de me formar na escola "Underwood" em Sorocaba. Aquilo me aproximou imediatamente de dona Celina e de Bauru. Mas não cheguei a ficar amigo dela. Nem ela ficou sabendo que me despertou tanta afeição platônica.

Creio que ela só veio a saber que sua personalidade tinha feito marca forte naquele ator principiante, quando, já razoavelmente famoso, participei de um programa de rádio há muito tempo atrás, em 1990. Uma história curiosa que fez com que a peça "Canção Brasileira" incluísse Bauru na sua turnê. Eu estava no ar, ao vivo, num programa delicioso que havia na Rádio JB AM do Rio de Janeiro, o programa era "As dez Mais". Apresentado pelo escritor e autor teatral, além de maravilhoso radialista, Luis Carlos Saroldi. Na atração o convidado recebia ligações, batia papo com os ouvintes e ia enumerando suas dez canções prediletas. Imagine que delícia! Recebi uma ligação de Bauru. Comentei que tinha admiração por dona Celina e o ouvinte que estava no telefone ficou visívelmente emocionado. Começamos a falar de nossos gostos e ele prometeu e mandou uma coleção de revistas em quadrinhos do Henfil, o "Fradim". Fiquei encantado quando recebi o pacote em minha casa. O remetente deBauru: Henrique Perazzi de Aquino que hoje exerce cargo na área cultural da prefeitura da cidade.

Ano passado. Dezesseis anos depois, no festival de cinema do Rio de Janeiro, no debate do filme "Cafundó" com a imprensa e público o Henrique se apresentou. Falamos de dona Celina, falamos do programa do Saroldi e do Fradim. Criamos um espaço particular dentro do debate do filme. Foi emocionante! Não dava para continuar adiando. Eu tinha que conhecer Bauru. Prometi que seria com o filme "Cafundó". Que faria um lançamento especial na cidade. Mas quando "A Canção" ganhou a estrada, insisti com a produção para que fôssemos a Bauru. Quero que o Henrique me leve para conhecer pelo menos uma máquina de escrever da escola de datilografia de dona Celina. Mas não vai ser preciso. O teatro onde nosso garboso elenco vai se apresentar leva o nome de Celina Alves Neves! Nada mais merecido! Não é uma coincidência maravilhosa? A impressão principal que tenho de qualquer cidade que visito está relacionada com o teatro da cidade. E o de Bauru tem o nome de dona Celina! Viva!

Para completar minha alegria o Henrique mandou a relação das minhas "Dez Mais" no programa do Saroldi de 1990! Vou cantar baixinho a caminho de Bauru:
1. Objeto Não Identificado (Caetano Veloso) canta Gal Costa
2. Saudosa Maloca (Adoniran) canta Adoniran Barbosa
3. Alvorada (Cartola) canta Cartola
4. Hotel das Estrelas (Jards Macalé) canta Jards Macalé
5. Neste mesmo lugar (Armando Cavalcanti e Klecius Caldas) canta Nana Caymmi e Cesar Camargo Mariano
6. Super-Homem (Gil) canta Gilberto Gil
7. Estácio, Holly Estácio (Luiz Melodia) canta Luiz Melodia
8. Desafinado (Tom Jobim) canta João Gilberto
9. Marvada pinga (Ochelses Laureano) canta Inezita Barroso
10. Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Geraldo Brito) canta Elis Regina".

OBS.: A história do Pimpa continua rendendo. Hoje saiu no BOM DIA Bauru uma matéria, com foto na primeira página, "Jornada - Cão Pimpa vai até São Paulo após ser achado na rua em Bauru" e ocupando a página 8 inteira, "Uma Odisséia no Estado".

sábado, 5 de dezembro de 2009

UM COMENTÁRIO QUALQUER (58)

SEXTA À NOITE, MUITA COISA POR AÍ, TENTO FICAR É NO MAFUÁ - RESISTO POUCO
Eu, como todos sabem gosto muito de sair de casa, porém existem aqueles dias em que o melhor é ficar mesmo no seu cantinho. No mafuá tem muita coisa que gosto e necessito, música da melhor qualidade, livros e revistas em profusão, meus pais logo ali na sala a ver TV, uma geladeira abastecida na cozinha, um rádio para minhas incursões nas AMs da vida, muita caneta e papel, um telefone pertinho e essa internet com suas mil e uma possibilidades. Noite de sexta, tenho um trabalho atrasado a fazer (meio caminho andado) e com prazo para entrega, na terça próxima. Um convite para um jantar na Assenag com amigos queridos, Dalva Aleixo (minha homenageada na 2ª edição do jornal “Você Aqui”, num Retrato de Bauru) e o Guto Guedes, onde discutiríamos a criação de um novo espaço cultural, visual, alternativo e do jeito “que o diabo gosta”. Seria tudo de bom se isso vingasse, mas estou sem pique para jantares. Conversamos outro dia. Dona Enis Orti me traz um montão de livros e descarrega tudo aqui dentro do já amontoado mafuá. Quer que distribua por alguns locais onde possam ser úteis. Não consigo dizer não para uma senhora de mais de 70 anos, estacionando aqui dentro de um fusca anos 70. Veremos o destino de alguns. Uns de História do Brasil irão para meus amigos da Biblioteca Central de Santa Clara, Cuba (promessa antiga e não ainda cumprida). Via e-mail recebo de uma amiga algo a me alegrar. Dias atrás veio da mesma forma um com os dizeres, “Presente de Natal”, chacoteando o Lula e hoje, por ironia do destino recebo o mesmo texto, só trocando o nome do destinatário. Nesse, o presente seria para José Serra. Pau que dá em Chico, dá em Francisco. O pessoal da ONG Periferia Legal, lá do Mary Dota me cercam na rua e pedem para participar mais de suas atividades. Admiro o trabalho deles, mas nesse não pega bem eu comparecer, por mais interessante e beneficiado que o bairro esteja sendo. É que no domingo, com o apoio deles estará sendo inaugurada uma ciclovia por lá (a 2ª na cidade), proposta do vereador Mantovani, do PSDB. Para o bairro é ótimo, mas não vou lá ver essa fita ser cortada. Irei outro dia, ou até no próprio domingo, mas na parte da tarde. Domingo parte da tarde é dia de torcer pelo Flamengo. Continuo corintiano, mas com meu time fora do páreo e com outros dois paulistas e um gaúcho na disputa, escolhi o mais competente por causa de dois craques . Os craques são o Pet, o atual camisa 10, quase aos 40 anos e Andrade, um ex-10, hoje o técnico do time, esbanjando categoria. O título estará em boas mãos. Recebo também uma foto de uma flamenguista daqui (daqui hoje, pois é de lá, do Rio), essa de quatro costados, a amiga Gisele, que neste domingo deve se esgoelar pelo seu vermelho e preto. Faço coro. Ouço um apito de Maria Fumaça e ele me faz lembrar que hoje ela abre o comércio noturno. Por quatro anos estive lá na estação nesse dia e hoje fico a ouvir seu barulho de longe (e como gosto dele) imaginando o bafafá lá instalado. Aproveito essa noite para fazer uso do meu primeiro presente natalino, o dicionário português-espanhol Collins, que a amiga Zezé fez questão de me entregar ontem (“queria que o seu primeiro presente este ano fosse esse. Consegui?). Assim sendo, um novo projeto no ar, o blog “Latinidades” e um programa, com o mesmo nome para o rádio, só com coisas dessa nossa América, que um dia já foi denominada de América Latrina, quintal do grande irmão do norte. Tentarei melhorar meu portunhol de péssima qualidade. Fico aqui no meu canto curtindo a bela repercussão do texto sobre o Pimpa e a cada momento aparecem gente nova para mim, numa rede infindável de novos amigos. Pimpa, você nem imagina o que está me proporcionando. Num outro e-mail, W.Leite me envia um vídeo do pessoal do Arruda (DEM-DF) agradecendo aos céus, todos de mãos dadas pelo sucesso de mais uma empreitada (http://www.youtube.com/watch?v=g28Bbf9l4Tk) e Cavinato, lá da Barra Bonita, outro do Serra e o Arruda, meses atrás, num namorico para um ser vice do outro, o tal do "vote num careca e ganhe dois" (http://www.youtube.com/watch?v=NImym3T_Ozw). Pera lá, eu também sou careca, mas me coloquem bem longe disso tudo. E mais, com essa oposição, Dilma navega num mar de calmaria (por enquanto, pois o PIG – Partido da Imprensa Golpista deve estar a tramar algo novo). O filho e a Cléo passam por aqui vindos da iluminada cidade, ele com os primeiros presentes natalinos. Vieram me comunicar que pagarei 50% do que foi e será gasto. Concordo, pois não tenho outra alternativa. Nos e-mails recebidos muitos pedidos de amigos querendo que faça parte de sua rede de Orkut, MSM, Twiteer, mas informo aqui, ainda não aderi a nada disso (o blog já me toma um tempo danado), falta tempo e terei menos ainda se o fizer. Meu filho tentou criar uma página para mim no Orkut, mas nunca acessei e nem sei como fazê-lo (preciso de um manual de primeiros socorros). Pensarei no assunto só depois, talvez quando terminar mais um livro do Fausto Wolff e outros tantos na fila de espera. Uma garoa cai lá fora, separo um filme (Feliz Natal”, do Selton Mello) para assistir e guardo o carro. Só mesmo se for algo muito do interessante para me tirar daqui hoje. Fecho a porta do mafuá e me recolho.

Em tempo: Não desliguei o celular, o amigo Duka ligou às 21h30 e acabei indo na festa da eleição da nova composição da Diretoria Regional da Apeoesp/CUT, aqui pertinho de casa, no salão do Sindicato dos Metalúrgicos. Foi ótimo rever velhos amigos, dentre eles, Lu Quinezi (ela voltou a militar por lá junto do próprio Duka). Conheci uma turma de metalúrgicos de Marília, que em janeiro estarão disputando o sindicato de lá, ainda nas mãos da Força Sindical. Bebi, comi e joguei muita conversa fora. E, é claro, adiei um monte de outras coisas, tudo para hoje, um sábado que deveria ter, no mínimo, umas 40 horas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (18)

A HISTÓRIA DO CACHORRO DO HENRIQUE – UMA SAGA EM QUATRO DIAS
Epa! Acho que comecei errado. Ficou meio no duplo-sentido e não gosto muito disso. Explico. O cachorro é o PIMPA (nada com a minha pessoa), meu cocker, de 13 anos, caramelo, que com minha separação ficou com a Cleonice, a ex-esposa (uma grande amiga) e com o filho, também Henrique. Sendo assim, acho que nem é mais meu, mas ainda assim considero. Passo sempre por lá, para vê-los e do cachorro, sempre uma festança, pois rolamos juntos no quintal. Volto sempre amarfanhado e cheio de pelos. Ganhamos o Pimpa com alguns meses e nós três pegamos sarna do bichinho (ele veio infectado). Cresceu ao nosso lado e ouvia minhas músicas, deitado ao meu lado, de barriga para cima, acho que em êxtase. Não tem como não gostar desses danadinhos. Muitas histórias.

A mais nova é essa, sexta à noite, 27/11, um portão aberto e ele some como o vento. A Cleo e o filho, mais cunhados ficaram boa parte da noite a sua procura. Nada. Desistiram com a chuva, por volta das 4h da manhã. Sou avisado no sábado cedo e junto do filho fixamos vinte cartazes pelo bairro todo, além de abordagens variadas. Nada. Vizinhos ajudam, amigos são acionados e nem sinal. Tudo se repete no domingo e na segunda. Pelos telefones junto ao cartaz recebemos até um pedido de resgate: “Vou aí para acertar o valor que podem me pagar”. Não apareceu, mas assustou. Não desistimos, mas...

Na terça, 01/12 leio num Comentário do blog, feito pelo amigo Wellington Leite sobre um trabalho desenvolvido pelo jornalista César Savi, que distribui informações de animais desaparecidos em listas na internet. Passo e-mail, com foto e características, logo a seguir, em menos de duas horas, a primeira ligação, da Cláudia Ceron Alcazar, que havia recebido e-mail de alguém localizando um parecido com o meu, às margens da rodovia Marechal Rondon na manhã do dia 28. Ligo para a pessoa, o Paulo Giorgi e fico sabendo que ele é de Marília, distante 100 km daqui. Tudo leva a crer ser o Pimpa. Quando me conta como encontrou o cachorro, demoro a acreditar. Ele e a esposa, Juliana, saem de Marília no sábado cedo, foram até Pompéia (distante 30 km de lá) deixar seu cão com a sogra, passam novamente em Marília, pois em São Paulo teriam dificuldades em hospedá-lo. Em Bauru, ao passarem pelo trevo vindo de Marília, adentram a Rondon e vislumbram um cão bem tratado, perdido na beirada da rodovia. Entram no primeiro retorno (ele estava do outro lado da pista), colocam-no todo sujo no carro e vão até o bairro ao lado, o Gasparini, tentar localizar seu dono. Entram em alguns bares, perguntam e nada. Diante do atraso decidem levar o cão com eles para São Paulo. Param no Graal Sem Limites compram ração, um tapete e extenuado, o cão viaja tranqüilo. Em São Paulo, se hospedam no Íbis Hotel, no Morumbi e arrumam um veterinário ali perto para pernoite do animal. No domingo passeiam com ele, já encoleirado, diante do Morumbi Shopping e retornam. Sofrem um pouco, pois ele mais descansado, late quase que o trecho todo. Adentram o mesmo bairro, próximo de onde foi encontrado e debaixo de muita chuva, perguntam aqui e ali, nada. Levam o cão com eles até sua residência, em Marília.

Faltava confirmar ser o meu cão. Paulo estava fora de sua casa, mas a confirmação tive logo a seguir, pois a Cláudia liga novamente e passa a foto que o Paulo tirou no seu quintal e espalhou aqui por Bauru (rádios, firmas de animais, etc). Era ele, ligo para o Paulo e para o filho e a Cleo. Recebo mais quatro ligações de gente dizendo se já tinha feito o contato com o Paulo (que bela corrente, gente!). Radiantes, na noite de terça vamos buscá-lo na casa do casal mariliense. Ficamos encantados com o que haviam feito, a forma como cuidaram do animal, algo realmente diferenciado. O reencontro foi muito bom. Ele, lá velhinho, com aquele seu jeitão mequetréfico ficou ao nosso lado e posou para fotos do BOM DIA de Marília (acho que sai algo no daqui também), feitas pelo fotógrafo Ricardo Shimizu. O inusitado foi isso, a viagem realizada, os quilômetros rodados e uma rede que até então desconhecia de localização de animais. César Savi e sua esposa, a Gil Mary merecem aplausos efusivos pelo que estão fazendo e o site Mania de Cão (http://www.maniadecao.com.br/ ), na mesma linha, onde os anúncios e classificados são gratuitos. Ganhamos novos amigos, conhecemos algo de muito bom rolando nos bastidores da cidade e melhor que tudo, estamos novamente com nosso Pimpa. Um velhinho, já meio lento nas ações (agora muito viajado), mas merecedor de um amor desmedido de todos nós. O desfecho e a história toda ficarão para sempre guardados em nossa memória como algo a provar que a solidariedade ainda é a solução pra muitos de nossos problemas. Principalmente nas relações entre nós, os humanos e animais ditos racionais.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FRASES DE UM LIVRO LIDO (31)

A ARTE DE BEBER (ASSIM FALAVA BACO) – MARCELINO DE CARVALHO – 1963
Esse livro foi para mim um verdadeiro achado. Encontrei-o na Feira do Rolo, lá na já tradicional banca do Carioca, com livros sendo estendidos sob uma lona. Ele tem conseguido verdadeiras raridades. Deste gostei logo da capa e do preço melhor ainda, R$ 3 reais. Está num ótimo estado de conservação e pelo que li, o tal do Marcelino (que não conheço) era uma sumidade na época. Muitos capítulos, todos ilustrados pelo desenhista Roland, o que deu um toque de classe no que viria escrito a seguir. Fui ler e devorei numa viagem (isso mesmo, foi vapt-vupt). Áureos tempos da editora Civilização Brasileira e de quando as livrarias colavam na 1ª página uma etiqueta de identificação serrilhada (esse foi comprado na Atlântica, em Santos). Algumas poucas frases sobre o tema, para amenizar a pauleira da semana. Tomemos umas doses juntos:

- "O homem é um animal ingrato. Verdade seja que a gratidão é uma virtude que se pede aos cães e não aos homens e não há o direito de se obrigar todo homem a ser um cão”.
- "Não há no mundo quem beba melhor do que o francês. Filho do país mais beneficiado pela natureza, não lhe foi difícil apreciar tudo que essa mesma natureza lhe concedeu. Carne, pão, queijo, frutas, peixes, caça e vinhos..."
- "Há um princípio na arte de bem beber que deve ser respeitado: garrafa aberta, garrafa bebida. Desse princípio, deduz-se um outro: copo cheio, copo vazio. Não há o direito de alguém permitir que seu copo seja cheio de bom vinho, sem que tenha a certeza de esvaziá-lo. É mau gosto e até falta de educação".
- "Ora, todos nós sabemos que calor e álcool não cabem no mesmo saco. O álcool foi feito pela natureza e aprimorado para defesa concreta dos que sentem frio. Que seria de um nórdico ou de um escocês sem uma tragada, sempre que possível?"
- "Quanta coisa se imagina e se descobre depois de um ou mais cálices de vinho, seja Porto ou não!"
- "A mocinha acha que tomar champagne é esnobe e dá dor de cabeça. O velho bebedor continua achando graça na opinião da mocinha. Só bebida ruim dá dor de cabeça. O mundo continua girando e sempre haverá preconceitos, esquecendo-se os menos afeiçoados que toda bebida tem seu tempo e sua hora e que, se a gente perder um e outra, depois torce as orelhas e leva um tempão louco para compensar a oportunidade que já passou".
- "Nem todos os paladares são iguais e nem um mesmo paladar tem que seguir o mesmo sistema. Se a temperatura muda, por que há de alguém ficar amarrado a uma idéia preconcebida? Cada qual bebe conforme o que lhe pedem a garganta e o fígado".

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

UMA CARTA (40)

TOMBAMENTO DO BTC - BAURU TÊNIS CLUBE E ALGO MAIS SOBRE DEFESA DO PATRIMÔNIO
Diante de uma avalanche de cartinhas para os jornais, em sua maioria contrárias ao tombamento, todas na defesa do "vil metal", escrevinhei algo e foi publicado na edição de ontem do Jornal da Cidade, Tribuna do Leitor. Leiam:

"Nas cartas publicadas até aqui na Tribuna do Leitor sobre o assunto, algo perigoso, uma espécie de orquestração com o sentido de demonstrar a inconsistência da medida do início do processo de tombamento. Todos bateram na mesma tecla, o proprietário terá perdas financeiras e o processo teve início após a compra do imóvel. Perda financeira discutível, pois existem mil maneiras, mais de capitalizar, do que o contrário. Basta querer, buscando modelos existentes no mundo todo. Quanto à demora, antes tarde do que nunca. Sobre a importância do imóvel, a história da cidade está aí para dizer mais do que qualquer um.

Diante da cantilena contrária uma luz em dois momentos, ambos de textos oriundos no próprio Jornal da Cidade, no caderno Segunda-Feira. Primeiro na edição de 16/11, quando a coluna “Sacadas”, em algumas notas repercute preocupação de arquitetos e engenheiros reunidos no último dia da FEIMOB, se questionando sobre o que poderia ser feito para não perder de vez aquela edificação. Agora, também na “Sacadas”, edição de 30/11, várias notas no mesmo sentido, o de se buscar uma saída onde os 20%, que representam o “transatlântico” possa ser mantido em pé e ser esse um ótimo negócio para o novo proprietário.

O CODEPAC nunca se mostrou intransigente, mas precisa ser questionador e instigador em alguns momentos. Esse um deles e perder a oportunidade de discutir esse tema (talvez o último), seria lamentável, pois ao ouvir queixas futuras, nada mais poderia ser feito. Percebo no posicionamento do JC a possibilidade da instauração de um amplo diálogo, onde todos possam sair satisfeitos. Que o novo proprietário não feche questão, como o fizeram alguns outros e que, os conselheiros do CODEPAC (dentre os quais me incluo) consigam avançar com a questão, levando em consideração todos os lados. Discutir à exaustão, sempre é a melhor saída, muito mais viável do que ver aquilo tudo no chão sem ao menos tentarmos algo".

Esse o texto da carta. Sinto um cheiro estranho no ar, uma tentativa de encurralar os conselheiros do CODEPAC na parede, forçando-os a uma posição favorável ao não tombamento. Poderia fazer o mesmo, demonstrando a insensibilidade com a história, mas prefiro acenar mais essa bandeira branca e aguardar os novos desdobramentos. Enquanto isso, algo grandioso acontece na cidade e poucos percebem. Um grande comboio de locomotivas velhas (inservíveis para alguns e reaproveitáveis, eternas para outros) está sendo deslocado para o pátio de Triagem Paulista (ali perto do Guadalajara). São dezenas e o fim delas é serem picotadas com maçarico e vendidas como sucata. Esse o destino decretado pela concessionária da malha férrea em Bauru, a ALL - América Latina Logística. A reação partiu do Ricardo Bagnato, vice-presidente da Associação de Preservação Ferroviária de Bauru, que foi ao Ministério Público e aos órgãos governamentais. Tudo está sendo revisto e Bauru acabará ficando com várias dessas locomotivas, além de garantir a preservação de outros itens na mesma situação. Como essas locomotivas são de interesse nacional, aquelas Prefeituras interessadas em garantir a preservação de algumas dessas, perdendo esse momento, não terão mais a quem requisitá-las, pois em pouco tempo não mais existirão. Bagnato é um incansável defensor do Patrimônio ferroviário e merece um aplauso coletivo. Permanecendo quieto, tudo se perderia. O mesmo acontece com o patrimônio edificado. Interesses financeiros à parte, o que seria disso tudo, se não houvessem abnegados a lutar pela sua defesa? Muito se falará disso tudo nos próximos dias.
PS.: Hipe, hipe, hurra!!!! Localizamos o Pimpa. Ele já está em casa. A incrível história conto aqui, provavelmente na sexta (ele acabou indo até para São Paulo, capital). Ele ganhará seus 15 minutos de fama, pois será matéria do jornal BOM DIA, tanto o de Bauru, como o de Marília.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (04)

DARCY RIBEIRO, UM ENTENDIDO DE POVO E DE BRASIL
Na rotatividade do tema, nesse mês trago algo a lembrar um grande brasileiro, um que muita falta faz. Um estudioso e um amante inveterado das coisas brasileiras, DARCY RIBEIRO. Poderia me estender e falar dele coisas e mais coisas, todas de cabeça, como da vez que fugiu de um hospital, pois queria morrer em sua casa e assim o fez, vindo ainda a passear descalço por praias e ao lado de mulheres (sempre elas), mesmo debilitado. Darcy entendia de Brasil e ao lado de outro grande brasileiro, Leonel Brizola, realizou um sonho educacional dos mais vigorosos, o do CIEPs carioca. Algo visto com respeito até hoje, mas desmobilizado já no governo seguinte, pois tudo o que é bem feito por um, para que não fique com a pecha deste, o que entra, faz questão de desmontar tudo e iniciar algo novo, com a sua cara. Isso se repete no Brasil, como praga. E assim o CIEPs teve fim e a educação carioca feneceu e padece até hoje. Darcy por Darcy é o que vos apresento, com trechos extraídos de uma entrevista sua:
"Encaro os brasileiros como uns latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, deculturados das tradições de suas matrizes ancestrais, mas carregando sobrevivências delas que ajudam a nos contrastar tanto com os lusitanos"

"O momento de nos percebermos brasileiros se dá quando milhões de pessoas passam
a se ver não como oriundas dos índios de certa tribo, nem africanos tribais ou genéricos, porque daquilo haviam saído, e muito menos como portugueses metropolitanos ou crioulos, e a se sentir soltas e desafiadas a construir-se, a partir das rejeições que sofriam, com nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros"

"Critico os que acusam os brasileiros de preguiçosos e indolência (herança dos índios). Tudo isto é duvidoso demais frente ao fato do que aqui se fez. E se fez muito, como a construção de toda uma civilização urbana nos séculos de vida colonial, incomparavelmente mais pujante e mais brilhante do que aquilo que se verificou na América do Norte, por exemplo. A questão que se põe é por que eles, tão pobres e atrasados, rezando em suas igrejas de tábua, sem destaque em qualquer área de criatividade cultural, ascenderam plenamente à civilização industrial, enquanto nós mergulhávamos no atraso"
"Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da terra"
"Portanto, não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um profundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que inspira a influir sobre as pessoas, que aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo" (O Povo Brasileiro)

"Esse é o caso do culto a Iemanjá, que em poucos anos transformou-se completamente. Essa entidade negra, que se cultuava a 2 de fevereiro na Bahia, foi arrastada pelos negros do Rio de Janeiro para 31 de dezembro. Com isso aposentamos o velho e ridículo Papai Noel, barbado, comendo frutas européias secas, arrastado num carro puxado por veados. Em seu lugar, surge, depois da Grécia, a primeira santa que fode. A Iemanjá não se vai pedir a cura do câncer ou da Aids, pede-se um amante carinhoso e que o marido não bata tanto"
"Gostaria de ficar na memória das pessoas pedindo que sejam mais
brasileiras. Digam que me amam porque eu amo vocês. Eu quero é agora"
Tenho aqui comigo no mafuá, talvez o livro mais saboroso desse mineiro de Montes Claros, uma retrospectiva do Brasil, ano a ano, de 1900 a 1980, o "Aos Trancos e Barrancos - Como o Brasil deu no que deu". Quando estou meio pra baixo (como agora) busco refúgio na escrita de Darcy e isso me revigora. O livro possui um furo, bem no meio, de fora a fora, feito por um cupim. Tirei o bicho e continuo com o livro, agora refrigerado com esse artefato, derivado do improviso tupiniquim. Dele e extraído do livro, algo nunca mais esquecido: "Se discorda da interpretação, não esquente a cabeça, me desculpe, esqueça, ou escreva você mesmo sua própria versão: lerei encantado. (...) Minha versão dos fatos seguramente, desagradrá certa gente, assim como agradará a outra, o que me alegra muito. Detestaria ser um desses que não cheiram nem fedem".