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quarta-feira, 22 de março de 2017

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (140)


EXISTEM PRESOS POLÍTICOS NO PAÍS? – O CASO DO TRABALHADOR RURAL DIEGO CUMPRINDO PENA EM BAURU*
*Esboço de um texto sendo pensando para publicação em algo de âmbito nacional, necessitando de mais dados e fundamentação.

A criminalização dos movimentos sociais no Brasil não é balela, muito menos conversa para boi dormir. Guilherme Boulos, militante do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) está aí para não nos deixar mentir e só não o enjaularam por causa da repercussão do caso envolvendo sua arbitrária prisão. O blogueiro Eduardo Guimarães, do blog O Cafezinho foi encaminhado por condução coercitiva para que abrisse sua fonte, em mais uma decisão arbitrária do juiz Sergio Moro. Aqui e ali se sucedem prisões, processos e mortes de sindicalistas e gente ligada na defesa dos movimentos sociais.

Se em plena maior cidade brasileira acontece uma arbitrariedade sem fim, imaginem o que se passa nos cafundós do país. Histórias infindáveis de destratos com militantes fazem parte do dia-a-dia de quem está envolvido com as questões da terra e estão aumentando gradativamente após o golpe levando Michel Temer ao poder. A história aqui relatada a seguir não é a primeira e muito menos, infelizmente, deverá ser a última. Mais uma. Escabrosa como todas.

Ainda no imaginário da nação o ocorrido sete anos atrás na pequena cidade de Borebi, interior de São Paulo (30 km de Bauru, 330 de São Paulo), quando tratores derrubaram pés de laranja numa propriedade grilada pela Cutrale, uma das grandes no quesito suco de laranja no país. O trabalhador levou a pior, ou seja, a culpa, mesmo com toda informação sobre o assunto sendo disponibilizada ao longo do tempo. Isto se deve a ação da mídia que, mente descaradamente e oferece ao público consumidor de informação algo distorcido da realidade dos fatos.

Carta Capital publicou na época, escrito por mim, dentre outros, um texto em sua edição virtual, certificando o que vinha a ser a tal de Borebi no contexto dos movimentos sociais organizados e com relatos de um fato ocorrido na festa da eleição que naquele ano, 2010, a que levou Dilma Rousseff para seu primeiro mandato presidencial. Eis o link para reler a matéria: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search….

Quando foi divulgada a notícia da vitória de Dilma, muitos dos componentes do Assentamento Noiva da Colina (lembrando o causo de uma noiva a desfilar no alto de um descampado) vieram comemorar na cidade mais próxima, no caso Borebi. O fato seria corriqueiro se no meio do caminho não estivesse o próprio prefeito da cidade, Antônio Carlos Vaca (hoje em mais um mandato à frente do pequeno município, com pouco mais de três mil habitantes). Saiu de sua casa e de pijama foi discutir com quem fazia festa. Do confronto entre os que se encontravam ao seu lado e os assentados, leva um tapa na cara. Foi o que bastou para se hospitalizar e se dizer agredido de forma violenta.

A agressão virou processo e após longo período de tramitação gerou uma discutível condenação no Fórum de Lençóis Paulista, distante pouco mais de 20km do incidente. Lorana Harumi Sato Prado, advogou para o até bem pouco tempo para o réu, hoje condenado e me informa da pena: quatro anos e oito meses de detenção, iniciada no CDP – Centro de detenção Provisória e hoje já no regime semiaberto, antigo IPA, ambos em Bauru.

Jeferson Diego Gonçalves, o nome desse assentado, mas conhecido por todos simplesmente como DIEGO, trinta e poucos anos, oriundo do Ponta do Paranapanema e desde sempre na luta pela posse de um pedaço de terra. Sua prisão de deu no domingo de Carnaval, 26/3, sendo então encaminhado ao CDP – Centro Detenção Provisória em Bauru, onde foram dificultadas as visitas e contatos. Hoje, já transferido para o regime semiaberto, começa a cumprir sua pena. “Eu vivencio muito bem como se dá atualmente a situação dos assentados em Borebi. Qualquer vestígio de roupa ou o famoso boné vermelho na cabeça é sinal para atenção redobrada. Tudo foi insuflado ao longo dos anos e de algo amistoso, hoje não mais. Dá a entender a existência de um movimento orquestrado, para dificultar a relação com os habitantes da cidade. A gente percebe, pouco a pouco, um por um, todos os que estiveram lá quando da ação dos tais pés de laranja, estão caindo e sendo presos. Existe claramente para com os do movimento, um jeito de não escaparem e os agressores do lado do prefeito, nem sequer foram intimados e ouvidos”, relata uma militante da Ação junto ao MST.

Esses parágrafos iniciais estão ainda sendo formatados para se transformar em mais uma denúncia sobre como se acelerou de uns tempos para cá o processo de CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS. O caso não é sui generis. Mostra como um mero tapa, num confronto de rua, se dado por um dos lados pode ser o gerador de uma ação judicial, sendo que do contrário, pode ficar por isso mesmo. Estou ouvindo as partes, construindo o texto e juntando as partes para dar prosseguimento a uma história começada mais precisamente em 2010 em Borebi e tendo um provável desenlace em Bauru, neste fatídico ano de 2017.

Mais teremos sobre este tema nos próximos dias, mas começar já a desvendar essas histórias, algo mais do que necessário, principalmente para se entender como estão se processando essas cada vez mais difíceis relações entre os vários Brasis existentes dentro desse território continental e prestes a explodir como barril de pólvora em muito pouco tempo. A partir daí, outra boa discussão: quantos declarados presos políticos temos hoje no país?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MEMÓRIA ORAL (94)

BOREBI, A CIDADE DO ÚNICO INCIDENTE PÓS-ELEITORAL DO 2º TURNO *
Borebi é uma pequena cidade do interior paulista, 330 km de distância da capital paulista, entre Bauru e Lençóis Paulista e palco de algo muito comentado nos últimos tempos envolvendo a questão da reforma agrária. Ali, numa fazenda distante 30 km de sua área urbana, assentados do MST derrubaram com trator pés de laranja da Cutrale, numa ação a dividir opiniões. Agora, o único caso de violência no pós-eleitoral de domingo passado, duas pessoas agrediram o prefeito com um soco, levando-o para uma UTI hospitalar. E a pacata cidade volta aos noticiários nacionais.

Na entrada da cidade dá para sentir a influência do atual prefeito, pois a vicinal de 10 km que dá acesso à cidade leva seu nome, Antonio Carlos Vaca. Esse seu segundo mandato no executivo, 64 anos e alguém que soube ir firmando seu nome no imaginário das pessoas do lugar ao longo do tempo. O antigo distrito, entre canaviais e pinheirais, terras devolutas e os assentados recém-chegados, vivia meio que esquecida. Num passado não tão distante falava-se dali somente porque um famoso massagista escolheu o lugar para morar e para lá afluíam legiões de gente necessitando de seus serviços. Com sua morte, novo período de calmaria.

O retorno ao noticiário, dessa vez em caráter nacional é algo que a cidade não faz questão nenhuma de incentivar e propagar. No centro da cidade, tento dialogar com populares. Pergunto por nomes de pessoas e sinto logo de cara uma desconfiança generalizada. Informações saem a fórceps, depois de muita conversa. Diante de tanta negativa, dirijo-me até a casa do prefeito, ainda hospitalizado e quem me recebe é Magal, com camiseta da Prefeitura Municipal.

Leila Ayub Vaca, 61 anos, esposa do prefeito, ainda consternada com o ocorrido, não autoriza fotos, mas dá sua versão sobre o ocorrido. Uma festa dilmista quarteirões abaixo, um prefeito saindo de pijama na rua e encontrando casualmente com duas pessoas, uma troca de insultos mútuos e uma agressão brutal. A justiça está encarregada de desvendar tudo e esclarecer os detalhes, onde ambos os lados alegam terem lá suas razões.

“O fato já é do conhecimento de todos e novamente a cidade vira assunto nacional por motivo parecido ao anterior”, começa contando Leyla, professora da rede estadual, duas vezes prefeita do município e em vias de conseguir sua aposentadoria, sempre acompanhada por uma funcionária da Prefeitura a acompanhar em todos os lugares. Prefiro falar da cidade e ela me consegue pelo telefone a quantidade de habitantes do último censo, 2.295 habitantes. Obras estão espalhadas pela cidade toda, logo na entrada uma para atender a Terceira Idade, um ambulatório médico, as piscinas municipais e outra, a maior delas, a do novo Paço Municipal, tomando quase um quarteirão todo. “Tudo verba estadual, não vai colocar aí que fazemos algo com verba federal, que é mentira”, me diz.
Digo a ela de na ausência forçada do prefeito, gostaria de um contato com o vice-prefeito. Faz-me desistir da idéia, reforçando que tudo poderia me ser fornecido por ela mesma. Nas ruas, diante de muita insistência uma única pessoa, o sitiante Arnaldo Abreu concorda em falar algo: “Você já falou com dona Leila? Já. Então não temos mais nada para falar. O que ela falar tá falado. Não precisa perguntar mais nada para ninguém. Ninguém tem nada a comentar. O que ocorreu aqui foi um fato isolado, não existiu premeditação. Ela e o prefeito são a favor dos sem-terra. Borebi é de paz e a cidade tem de tudo”. E mais não falou.

Tento abordar as pessoas e nem fotos me são permitidas. “Posso te falar algumas coisas, mas aqui ninguém gosta de fazer prejulgamento de ninguém. Não é Borebi que está atravessando isso e sim o país inteiro. Aqui vivemos bem, que outra cidade você pode medir pressão às duas da manhã e ser atendido na hora? Fila não existe aqui. Aqui tem tudo”, me diz um morador, após pedir insistentemente para não ser identificado. Ouvindo parte da conversa, outro me puxa pelo braço para um canto da praça e diz: “Se aqui tem mesmo tudo, muda para cá para você ver se é bom. Muito dinheiro para pouca estrutura. Emprego tem para quem queira sofrer. Tô empregado e não tenho nada. Gera-se 600 empregos com salários muito ruins, enquanto que o certo era gerar 300, mas que conseguissem manter no mínimo outras 600 pessoas. Isso não acontece”.

Digo ter percorrido a cidade e visto um complexo esportivo e um recinto de rodeios bonitos, prédios novos e o paço municipal em obras. “As piscinas não funcionam, só existe outra na cidade, na casa do prefeito”, conclui. Dos assentados nem sinal pela cidade, pois depois do último incidente, segundo fico sabendo, somente as mulheres destes aparecerem para buscar leite no Posto de Saúde ou comprar o necessário. Rodo quilômetros na zona rural e nenhum progresso. Não acho nenhum deles com disposição para falar nada, nem sobre a cidade, muito menos sobre o soco no prefeito.

Seu Nê, como todos chamam o prefeito é unanimidade na cidade. Histórias de décadas atrás, muito antes da política ter impulsionado a vida do casal. Ele sempre prestou serviços de atendimento à necessidades emergenciais da população. Do casal, outra constatação, a de que desde que a cidade foi emancipada para município (era distrito da vizinha Lençóis Paulista), em 1992, o casal reveza-se no cargo máximo na cidade. Certa feita, ela precisou alegar não estar casada com ele para legalizar a candidatura. E mais, são poucos os que colocam a cara para bater ou expõe algo sobre a cidade. Não se deixam fotografar e nem aceitam uma simples menção do nome, mostrando como se processam esse tipo de relações nas pequenas cidades brasileiras. No muro da única escola estadual, uma frase contundente sobre como resolver a maioria de nossos atávicos problemas: "Educação custa caro? Ignorância custa muito mais".

Tudo por lá é muito limpo, ruas todas asfaltadas e uma convivência aparentemente pacífica. “Damos tudo para eles, desde saúde, água e alimentos, tanto para a população, como para os assentados”, me disse Leila. E somente quando seu Nê sair do hospital é que as definitivas respostas serão dadas de como continuará a relação entre a cidade e as quase cinqüenta famílias assentadas em sua zona rural. O assunto gera acalorada discussão, sempre bem distante da presença de forasteiros, pois nisso são mais do que reservados e polidos (“more aqui e saberá os motivos”, me diz um), já para outro assunto, esse ocorrido um dia após o do soco, todos falam abertamente.
Chipanzés de grande envergadura foram vistos e correram atrás de pessoas nas imediações do Posto de Saúde. Até a polícia foi chamada e um Boletim de Ocorrência instaurado. Os animais voltaram para a mata, causando preocupação numa população quase sem assunto novo para as rodas de conversa. Num dos movimentados bares centrais o assunto é a reunião marcada para assistir o jogo da noite diante de uma TV. Depois disso a cidade fecha.
* Esse texto seria publicado na edição nº 621, seção Brasiliana, da revista semanal Carta Capital, que sai nas bancas no próximo sábado, 06/11/2010, mas por ter sido concluída após o prazo de fechamento para as matérias, está sendo publicada somente no site da revista (www.cartacapital.com.br).

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (82)


CONHEÇA UM POUCO DA VERDADEIRA HISTÓRIA DE DOMINAÇÃO OCORRIDA EM NOSSA REGIÃO

A MAIORIA DESCONHECE A EXISTÊNCIA DE UM QUILOMBO EM ÁREA ABRANGENDO BAURU, AGUDOS, PEDERNEIRAS, LENÇÓIS PAULISTA E BOREBI – ELES LUTAM PELO REESTABELECIMENTO DE SUAS TERRAS
Obs.: O texto abaixo faz parte do que foi apresentado num trabalho acadêmico dentro da disciplina “Cidadania, Redes Sociais e Ativismo Online”, ministrado pela professora Caroline Kraus Luvizotto, na Unesp Bauru, dia 13/08/2015, pelo alunos de mestrando Henrique Perazzi de Aquino, Marina Darie, Camila Fernandes e Dulciara Cristina Bonaldo. Esse trecho foi o escrito por mim e é parte integrante do Contexto Histórico do trabalho intitulado “Quilombo Porcinos – O Movimento Sociais e o Atual Uso das Redes”.


BREVE HISTÓRICO DO QUILOMBO PORCINOS – AGUDOS SP
“Uma comunidade quilombola, segundo a legislação vigente, para existir de fato e ser reconhecida, precisa ter uma história e territórios próprios, relação comprovada com a terra, ser afrodescendente e também se autodeclararem. Esses passos estão hoje na boca, na ação diária de todo quilombola esclarecido e na luta pelo reestabelecimento dos seus direitos e do seu território. Aprenderam isso nos embates, com as muitas perdas ao longo da história e também, com as conquistas. A história brasileira recente registra algumas dessas conquistas com a demarcação definitiva de territórios antes não muito bem definidos, áreas limítrofes com problemas fundiários sempre presentes no cenário atual e também uma maior conscientização dos remanescentes dos tantos quilombos espalhados país afora.

Cada caso é um caso. Alguns surpreendem. Esse, o motivo de nosso estudo, o denominado Quilombo Porcinos, nome reduzido da designação originalmente formalizada junto aos órgãos competentes, a Associação de Espírito Santo da Fortaleza Porcinos e Outros. É talvez o exemplo mais latente hoje no cenário nacional de algo novo dentre todos os quilombos reconhecidos ou em vias de reconhecimento.

Sua situação é sui generis, ou seja, inusitada. Tudo nasce de uma história pouco usual dentro da historiografia brasileira. Primeiro um breve relato para entenderem como tudo se deu e depois, algo mais minucioso, com maior abrangência de detalhes. Últimas décadas de 1900, República Velha, Governo Federal defensor das oligarquias fundiárias, sendo esse o próprio representante das mesmas, com seus dirigentes todos originais representantes deste segmento, oriundos deles e o povo mais simples com diminutos direitos. Período ainda sob o tacão de um regime pós-escravocrata, mantendo nas suas entranhas muito da subserviência de antes. Pouca coisa mudou para o pobre, mais ainda para o negro, muito além da exploração de sua mão de obra. Nos rincões nacionais imperava a lei do mais forte e os menos favorecidos, desprovidos de meios de resistir, ou se calavam por completo, aceitando passivamente o que lhes era imposto, ou acatavam, numa resistência contada e recontada pela historiografia. Os mais ousados fugiam como fizeram muitos negros, quando da formação do que hoje se convenciona denominar de Quilombo.

Imensas glebas de terra, fazendas bem aos moldes de padrão bem convencional desse período, terras conquistadas por doações governamentais, ampliação de territórios muito mal explicados dominavam o cenário. No específico caso estudado, uma área ocupando o que hoje seria o território de cinco municípios do interior do estado de São Paulo. São eles, Agudos, Bauru, Lençóis Paulista, Pederneiras e Borebi. Seus proprietários a tocam tentando implantar uma harmoniosa relação entre patrão e empregado, mais amena que a maioria existente, mas mantendo as mesmas relações de exploração de todas as outras. Talvez menos embrutecida, só isso. Com a chegada da velhice, seus proprietários se preocupam com algo pouco peculiar dentre os donos de terra da época. Qual seria o futuro daqueles sob sua guarda? Não possuindo herdeiros, dirigem-se ao Cartório da cidade e lavram um documento oficializando que após a morte de ambos, todas suas terras fossem repassadas naturalmente a algumas das famílias lá trabalhando.

Imaginem o que isso deve ter causado de rebuliço nos meios estabelecidos? Sim, causou, mas tudo foi oficializado. Dessa forma, o testamento foi lavrado e registrado em documentos oficiais. Sua efetivação deu-se em partes, nunca por completo. Vilipendiados desde o início, foram pouco a pouco perdendo tudo aquilo que estava lavrado e consolidado como seus. Essa uma história conhecida de todos os que estudam a fundo a História do Brasil. Todas as cidades, através de líderes e pessoas influentes na época, os considerados de fato Donos do Poder foram se apropriando, pouco a pouco, de partes dessa área, culminando com a expulsão, muitas décadas depois e via meios jurídicos supostamente legalizados (ou requentados) de um último conglomerado de quilombolas resistindo num pequeno local, praticamente cercados, ilhados, com difícil acesso a água e com péssimas condições acesso ao local.

Perderam tudo, expulsos de suas terras, com pouca instrução e pífio conhecimento da legislação foram se dispersando pela periferia, não só das cidades no entorno da antiga fazenda, como para os grandes centros urbanos.

A grosso modo, essa basicamente é a história desse quilombo. Ela se deu dessa forma. Hoje, a partir da reconstrução de parte dela, primeiro junto aos Cartórios ainda com documentação daquela época e de pessoas da própria comunidade quilombola, interessadas no resgate, tudo foi reavivado e com alguma documentação em mãos, entregue aos órgãos competentes, foi dado início a um processo de reconhecimento, esse já consolidado e agora, num segundo momento o de devolução de uma área aos remanescentes, algo ainda em construção e sem previsibilidade de datas para sua concretização.

Os detalhes, os nomes dos envolvidos, as famílias, não só a do antigo fazendeiro, como dos escravos beneficiados, como o dos herdeiros hoje reivindicando a reintegração e retomada de uma área podem ser visualizados na sequência e nos anexos desse trabalho, apresentados na forma de documentos impressos, gravações registradas em forma de áudio e vídeo. A maioria do material existente e consequentemente, parte substancial, de vital importância para reconstituição de parte dessa história está sendo construída através de um minucioso trabalho antropológico, em parceria com universidades e os próprios órgãos governamentais, tanto Estadual como Federal, além, é claro, de um resgate minucioso e necessário de Memória Oral junto aos remanescentes do quilombo.”

OBSERVAÇÃO DE APRESENTAÇÃO: Esse texto é uma espécie de “tira gosto”, uma apresentação de algo praticamente desconhecido de nossa historiografia oficial. Eu sempre me pergunto: Quantos de nós já havíamos ouvido falar de um quilombo na região? E quantos já conheciam essa história, uma dentre tantas as ocultas, acobertadas pela escrita pelos tais “donos do poder” locais? Na documentação apresentada, um trabalho de levantamento de dados sobre as tantas barbaridades cometidas na região bauruense e ocultas ao longo do tempo. O trabalho é extenso e deve ter prosseguimento pelos integrantes do grupo, no aprofundamento das pesquisas. Daí, algo até então desconhecido também pela maioria e servindo para reflexão sobre como se dá a questão fundiária brasileira: Todos se lembram dos tratores derrubando pés de laranja numa plantação em Borebi, confronto entre integrantes do MST e do grupo suco-alcooleiro Cutrale. Aquilo tudo se deu numa área de terra pertencente ao Porcinos Quilombo, seu original proprietário. Toda a área onde hoje estão localizados esses municípios aqui citados e suas maiores empresas e fazendas, como Lwart, Brahma, Eucatex, etc, todas estão dentro de território quilombola. E tudo foi subtraído deles ao longo de um século inteiro. Havendo interesse, publico em outra oportunidade detalhes dessa história, uma saga recheada de ganância, exploração, enganação e subtração. Preferi nessa apresentação inicial não citar nomes dos remanescentes quilombolas. Sai na sequência do ocorrido em Bauru, quando da não aprovação do nome de um general para um viaduto na cidade e os vereadores, após tomarem conhecimento de algo ainda não constando de seu curriculum, decidem pela sua reprovação.

Seria constrangedor ocultar isso de tudo, todas e todos? Mais constrangedor seria deixar de contar e esclarecer os fatos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (39)

VEREADOR CASSADO POR INCOMODAR OS DEMAIS – AQUI PERTINHO DE BAURU
Uma notícia despertou minha atenção ontem na TV e no JC: “CÂMARA CASSA VEREADOR POR OFENSAS”(leia aqui: http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=214064 ). Vi a matéria na TV TEM e fui ler o texto do jornal. Trata-se do vereador Rui Sérgio dos Reis PV, de Santa Cruz do Rio Pardo e a matéria destaca que o motivo foi por “ofensas aos companheiros de legislativo, prefeita do município e autoridades do Judiciário. Por sete votos a um, o parlamentar foi acusado de decoro parlamentar”. Na alegação do agora ex-vereador o motivo foi outro: “Estava incomodando os políticos”. Ele chegou a acusar os demais vereadores de “cúmplices de supostos atos ilegais do Poder Executivo”. Disse mais: “Sou o maior inimigo desse governo municipal. Estou tranqüilo não participo de cabide de emprego. Se você não pode fazer crítica, então virou ditadura. Isso é uma afronta à Constituição. Aqui há muita promiscuidade entre as autoridades”.

O texto todo está aí em cima e mais alguma coisa pode ser encontrada na internet. Escrevo dos motivos disso me chamar a atenção. O tal vereador encontrava-se isolado em suas denúncias e dessa forma, tudo o que falava, não contava com apoio dos demais colegas vereadores. Isso ocorre muito Brasil afora e em dezenas de outros casos, na continuidade, os demais acabam dando um jeito de defenestrar a “ovelha negra”. Seria isso? Quase certeza. Não quis me posicionar sem conhecer a versão de um amigão lá de Santa Cruz do Rio Pardo. Sérgio Fleury Moraes é jornalista de uma linhagem das mais vigorosas, dono do semanário, O DEBATE (http://www2.uol.com.br/debate/1585/index.htm ), já mereceu textos aqui no Mafuá por causa também de uma perseguição, no caso dele judicial, que por pouco não lhe fecha o jornal. Leia sobre isso aqui: http://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=sergio+fleury%2C+debate

Eis sua versão: “Caro Henrique: O Rui Reis é (era) o vereador mais atuante da Câmara. Praticamente era o único que fiscalizava a fundo a administração tucana. No entanto, pecava muitas vezes pela verborragia. Ao invés de criticar, chegou a xingar pessoas em rádios e na tribuna. Mas a imunidade parlamentar existe para isso mesmo, pois o vereador, no calor das discussões, comete invariavelmente impropérios e, portanto, é protegido pelo manto da imunidade. Daí que, ao meu ver, ele deverá recuperar o mandato na Justiça - não local, pois também criticou juízes e promotores, mas em instâncias superiores. O julgamento foi, de fato, de "cartas marcadas". Ele era primário e, portanto, deveria, por exemplo, receber uma pena menor (advertência, suspensão temporária do mandato etc.). O fato é que Rui fez muitos inimigos na Câmara. Há dois anos denunciou que um vereador meteu a mão no dinheiro da Câmara numa prestação irregular de contas de viagens. O tucano devolveu parte do dinheiro e só escapou de ser suspenso por 15 dias por comiseração dos colegas, já que é paraplégico. Por trás do processo de cassação do Rui está, obviamente, o ex-prefeito Adilson Mira (PSDB), outro alvo de denúncias por parte do vereador. O Rui era o único vereador que remetia denúncias contra políticos ao TCE e MP. Qualquer dúvida, me contate novamente. Um forte abraço. Sérgio”.

Tudo isso me faz pensar em algo a me instigar o cerebelo. Seria esse o motivo de alguns políticos Brasil afora terem um ousado discurso sem mandato e quando lá chegam o amenizam? Não seria receio de perdê-lo? Quantos não passam pelo mesmo problema? Eis a questão, diria Shakespeare.

Obs.: Outra manchete, também de ontem mereceria minha opinião, a “APÓS DOIS ANOS, SEM-TERRA VOLTAM A OCUPAR FAZENDA DE LARANJA DA CUTRALE”, essa em Borebi, onde escrevi um Memória Oral, com o que acho daquela cidade (leia aqui minha opinião: http://mafuadohpa.blogspot.com/search?q=borebi . Hoje ao abrir os jornais, nova manchete: “JUSTIÇA CONCEDE À CUTRALE REINTEGRAÇÃO DE POSSE DE FAZENDA”. E eu pergunto: Mas o Incra não declarou que a terra pertence ao Estado?

sábado, 27 de agosto de 2011

CARTA (70) e CENA BAURUENSE (85)

SEXTA EM TRÊS MOMENTOS: CARTA NO BOM DIA, MST NA CÂMARA E JAIR COM NINO NO SESC
Sexta, ontem, foi um dia agitado e tanto. Amanheço com terçol, olho empapuçado e com dores. Logo de manhã ao abrir o BOM DIA, uma carta de minha lavra é publicada em resposta ao que havia lido no dia anterior, no editorial do jornal. Rebato o que havia lido e com um argumento salutar, vamos discutir melhor o assunto. Leiam minha missiva: “TIRANIA CORTEJADA - O editorial “Nossa Opinião” do BD de ontem, 25/08 comete erros grosseiros. Não dá para colocar no mesmo balaio as ditaduras cruéis e sanguinárias do Egito, Síria e Líbia ao lado do que ocorre em Cuba. Na pequena ilha um embargo e algo valoroso, de pura resistência. Um povo com muita escolaridade, saúde impecável e sem fome, algo inimaginável em qualquer outro do mundo capitalista. O Brasil de Lula cortejou a Líbia, Síria e Irã, com interesses comerciais. Outros tantos o fazem com piores ditaduras, como com a Arábia Saudita, sem o mesmo rigor de cobrança. O Brasil não contraria os EUA, ele é soberano e livre, algo impensável até anos atrás. O país que mais desrespeita os Direitos Humanos mundo afora são os EUA. Saímos sim, de duas cruéis ditaduras internas, mas vivemos outras, pouco tocadas, a econômica, onde existe tudo, mas poucos podem usufruir disso e a da informação, quando grupos familiares colocam em circulação somente o que lhe interessam, sem nenhum apreço se isso é a informação correta. Essas precisam ser combatidas já, pois formam gerações de pessoas com a mentalidade distorcida e falseada de sua realidade”.

Na parte da tarde, uma escapada mais do que rápida e vou ver, para mim, um dos grandes acontecimentos do dia, o Encontro na Câmara Municipal, proposto pelo vereador Roque Ferreira, com trabalhadores rurais ligados ao MST e suas lideranças, logo após serem desalojados de uma fazenda em Borebi, ocupada ilegalmente pela Cutrale, propriedade da União, mas que juízes insistem em favorecer o sucoleiro e não os trabalhadores. Gente em vermelho, bandeiras do movimento ocupando todos os dois lados da praça D Pedro II e dentro da Câmara gente a desfilar o rosário das desventuras da luta pela reforma agrária no Brasil. O que mais me chama a atenção foi o comentário ouvido de alguém envolvido com a organização do movimento: “Acredite que um assessor local veio me chamar de louco por trazer esse pessoal cheirando ruim aqui para dentro”. O povo cheira e isso incomoda, esse pior ainda, pois cheira e cutuca, instiga e cobra o que lhe é de direito. E esses têm medo, pois vejo que a direção da Câmara coloca um PM na porta da sala da presidência. Acharam que o local seria também ocupado? Como gosto de ver as ações do MST, nosso único movimento social em funcionamento. O caso de Borebi merece um destaque maior, pois ali o próprio Incra não se cansa de falar que as terras não pertencem ao grupo Cutrale. Mas as decisões da Justiça continuam lhe sendo favoráveis. Até quando? Do acontecido, digo que me serve como injeção de ânimo, ver a ação desses bravos brasileiros, como essa linda senhora na porta da Câmara, ela vinda de Ilha Solteira, um alento de que nada ainda está totalmente perdido. Da tribuna ouço um dizer: “Vamos conquistar as Câmaras da região com a nossa causa e levar atos iguais a esse pela região, diminuindo o conservadorismo existente por esses lados do Estado”. Acho difícil, um sonho e Bauru um caso a parte, pois possui um vereador como Roque (só ele estava lá, nenhum outro foi conquistado para a causa) e assim se sucede na região. O conservadorismo prevalece e a olhos vistos. Mas, por sorte, o MST não desiste. O MST com seus atos me faz ganhar o dia, me recarregam a bateria.

No JC de ontem estampado em sua primeira página algo sobre um show a acontecer na cidade. Foto grande de um encontro de sertanojos, duas duplas, como se isso representasse algo de valioso. O bom mesmo foi noticiado pelo jornal numa página interna do seu caderno cultural, a terceira, o show “O Fino da Bossa e sua História – Adylson Godoy convida Jair Rodrigues e Adriana Godoy”, revivendo um memorável encontro entre Jair e Elis ocorrido nos anos 60 e sob a batuta de Adylson. Sem foto na capa é para lá que fui, pois isso sim pode ser considerado um encontro de Titãs. O SESC estava bombando, ótimo. Do piano de Adylson e sua banda tudo de bom, de Jair improvisações mil e de Adriana uma voz a ser escutada com mais esmero. Eu, Aldo Wellicham, Ademir Elias, Wellington Leite e esposa gostamos mesmo é do momento em que Jair chama ao palco um tal de Nino, morador de Jaú e ficamos sabendo que foi ele o grande incentivador de sua carreira. Show terminado vamos conhecer o Nino, um nada modesto prof dr Antônio Galdino Grillo, professor Nino de Redação e Letras, baterista com uma história monumental, já tendo tocado com Dick Farney e até com Dizzy Gillespie. Escala de memória um timaço do XV de Jaú dos anos 60 e trocamos figurinhas até quase os funcionários apagarem a luz. A professora Ana Guedes também foi prestar reverência ao melhor momento do show. Ele merece um alongado escrito só para ele e o farei em breve, após conhecer mais sobre essa pessoa a me fazer ganhar a noite. O show que era do Adylson foi transformado na noite do Nino. O gravei em dois momentos. Um apresento aqui e agora, o outro para breve.
Obs.: As fotos todas são minhas e tiradas na Câmara de Vereadores e no SESC.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

BAURU POR AÍ (30)

PISADA NA BOLA DO PREFEITO DE AGUDOS e ROSALINA, UMA BAURUENSE SEM-TERRA EM IARAS
Tem notícias que circulam meio que vagarosamente por aqui. Mostrar o outro lado dos assentados do MST em Iaras, os mesmos que ocuparam a dita fazenda da CETRALE em Borebi e suas justificativas, não merece o mesmo destaque de espicaçá-los acintosamente. Questão de estilo e de enxergar tudo vesgamente. Pois bem, li algo muito interessante em matéria na revista Carta Capital, edição 574, de 02/12, com o título “Os vencidos não se entregam – Visita ao acampamento dos invasores rechaçados das terras da CUTRALE”, escrito por Luana Lilá.

Primeiro algo muito instigante: “o acampamento Rosa de Luxemburgo não está ali por acaso. Na região existem 50 mil hectares de terras públicas indevidamente ocupadas por particulares”. Tudo começou por volta de 1920, quando a União compra terras dentro dos municípios de Águas de Santa Bárbara, Iaras, Borebi, Lençóis Paulista e Agudos, para a colonização de famílias de imigrantes. “Com o passar do tempo, particulares começaram a tomar conta e registrar as áreas em cartório. (...) Em 1994, o Incra começa a fazer um levantamento e em 2002 começa a identificar os ocupantes irregulares. Tudo baseado em artigo da Constituição que determina que as terras públicas devem ser prioritariamente destinadas à reforma agrária”, afirma a matéria.

Só em Agudos (aqui tão pertinho de nós) existem onze fazendas, cerca de 15 mil hectares já consideradas improdutivas pelo Incra, aguardando uma certidão de uso e ocupação do solo da prefeitura de Agudos, para que o processo de desapropriação tenha início. O prefeito Everton Octaviani (sobrinho do Carlão, ex-prefeito e ex-Gerente daquela cidade), contrariando a lei, usa uma justificativa das mais insensatas para não assinar nada: “Eu ainda não emiti porque não quero que venham para o município essas famílias de outras localidades, que são do MST. Eu tenho negociado com o Incra e exijo que sejam colocadas ali famílias da minha cidade, famílias de trabalhadores que vão fazer um bom uso da terra, que vão produzir. Eu não posso dizer que só quero agudenses, mas preferencialmente de Agudos, e que não sejam do MST”. Quer dizer, cara pálida, que só por ser do MST, já prejulgou não farão bom uso da terra e sendo agudenses, sim? Isso me cheira favorecimento ilícito, algo perigoso. Como será que o prefeito pretender fazer essa escolha entre os agudenses? O Incra tem que tomar partido disso e assumir as rédeas da situação.

Dentro desse emaranhado estão muitos bauruenses, todos lá no acampamento de Iaras. Na foto da revista fui rever uma pessoa conhecida daqui de Bauru, Rosalina Beatriz de Oliveira, há um ano por lá e aposentada da área de enfermagem, quando atuou por muitos anos em hospitais daqui. Mais feliz ainda fiquei ao saber de sua utilidade entre os assentados, pelos ensinamentos sobre o uso de ervas medicinais: “O tradicional do hospital não serve para nada aqui”. Ela faz parte de um grupo de cerca de mil famílias assentadas na região, exigindo (assim como o prefeito de Agudos o faz de uma outra forma) um debate sobre uma dívida social existente na questão agrária brasileira. Mesmo em condições mais do que precárias, pessoas iguais a Rosalina acreditam no seu direito à vida. E lutam por isso, como poucos hoje neste país. Torço por eles.

sábado, 16 de janeiro de 2010

ARTIGOS NO JORNAL BOM DIA (55 e 56)

CONFIAR NA JUSTIÇA - texto publicado no jornal BOM DIA edição de hoje, 16/01.
Degeneração total. Governador Arruda, do DF, comprovado mensaleiro, mas ele não só continua no cargo como afirma ser um injustiçado e confiando na Justiça. Por aqui, a Polícia Federal prende uma quadrilha dentro da AHB – Associação Hospitalar de Bauru. Dias depois, todos soltos e confiando na Justiça. Um vereador não consegue fazer uma simples manifestação diante de uma praça de pedágio, impedido por decisão judicial, enquanto que, os donos do lucrativo negócio, os que assorearam as águas provenientes da rodovia e dizimaram um parque ecológico, mantém suas catracas funcionando a pleno vapor. Nem pensar em liberar as cancelas do pedágio enquanto não solucionarem esse problema. Em Catanduva outro exemplo, no famoso caso dos médicos pedófilos. A decisão foi rápida e certeira, o borracheiro foi sentenciado com cana dura, enquanto que os mandantes, os médicos, aguardam em liberdade. No caso da Cutrale, em Borebi, os sem-terra são expulsos, mas é morosa a decisão sobre a utilização da terra por quem não é o seu verdadeiro dono. Por que uns poucos sempre se dão bem nessas questões e repetem sempre a mesma ladainha: “Confio na Justiça”? Adoraria ver essa mesma Justiça tornar-se inconfiável para essa gente, dita “fina”. Mais dia menos dia, como lá na Itália, lançarão sobre a face desses “injustiçados”, não a réplica do “Il Duomo de Milão”, mas a estatueta da própria Justiça, aquela com a venda nos olhos. E ao fazer isso poderão também “confiar na Justiça”?.

AUTENTICIDADE - texto publicado no jornal BOM DIA, edição de 09/01.
Eu tenho um amigo um tanto diferenciado. Família com recursos financeiros, ele renega o dinheiro fácil e as benesses oferecidas para viver de acordo com a sua ideologia, a comunista. Opções foram sendo repetidas ao longo dos anos. Abdicou de todas, preferindo construir sua vida à margem do mundo capitalista. Vive feliz, sempre apertado. Inventou seu próprio meio de sobrevivência, pois dificilmente empregariam alguém a se recusar tirar do peito camisas vermelhas com a estampa da foice e do martelo, seu inseparável vestuário. Montou seu próprio e pequeno negócio e segue agindo conforme sua consciência. Coisa para poucos. Considerado por alguns como lunático, num tempo onde os ideológicos vivem em constante provação, ele resiste e persiste. Calmamente diz não às ofertas para capitular. Enquanto muitos vivem atrás de empregos públicos e quando o perdem, entram em desespero, ele age ao contrário, pois se nega a entrar nesse jogo. O testo de vez em quando. Da última fui questioná-lo da conveniência de ter um emprego com tempo integral para desenvolver suas atividades de conscientização, igual a muitos por aí. “Não seria interessante algo a lhe garantir tranqüilidade para a militância, sem os percalços de hoje?”, lhe disse. Sério e resoluto me disse: “Nada disso. Isso só faria perder minha autenticidade. Teria amarras, cabresto e não poderia opinar e enxergar o mundo com a liberdade atual”. Encerramos o assunto. É único, um exemplo e desconheço outro igual.

sábado, 18 de julho de 2009

UM COMENTÁRIO QUALQUER (47)

O LADO “B” DO FUTEBOL É O QUE ME EMPOLGA
Perdi aquele furor de torcer desbragadamente por um grande clube. Torço hoje pelo bom jogo, sendo do meu time do coração ou não. Sofro mais quando um grande não anda bem das pernas. Não discuto mais como fazia antes. Hoje minha discussão é outra, pois o futebol perdeu aquela arte, a molecagem e a criatividade. E os bastidores andam uma lástima. Os jogos dos grandes times brasileiros na TV dificilmente empolgam. Perdi o tesão, pois estão previsíveis demais e sem nada de novo. Prefiro me distrair com jogos fora do circuito da mídia. Curto mais escutar no meu radinho os jogos da série B do que os da séria A. Dou aqui dois exemplos do que anda me empolgando no momento. E dois exemplos na cor vermelha:

1. Continuo mais noroestino que nunca, mesmo com tudo o que já presenciei sobre as artimanhas internas do time da minha aldeia. Disputaremos no ano do Centenário a 2ª Divisão paulista e começou essa semana um campeonato para encher lingüiça, a tal da Copa Federação, apesar do campeão disputar a Copa do Brasil do próximo ano. O time está sendo bem montado pelo novo diretor de Futebol, o ex-jogador Vitor Hugo, que já fez oposição à atual diretoria, mas quando remunerado pelo dono do time, não se fez de rogado e aceitou o convite. Ganhamos o primeiro jogo (2x0 no Rio Preto) e amanhã jogamos em Lins. A cidade pede mais transparência interna, mas mesmo criticando sei que o futebol atual não vive de brisa, nem de sonhos. É brincadeira de cachorro grande. Sou contra muita coisa, mas não consigo ficar longe dos campos. E já escolhi a rádio para escutar os jogos. Será a Band AM com a narração do Rafael Antonio, sem os salamaleques da concorrente. Sou vermelhinho desde os tempos que meu avô Zé Perazzi me fez gostar de futebol.
2. Nesse final de semana começa a 2ª Divisão do Campeonato Carioca. E o que isso teria com esse interiorano paulista? Torço pelos sofredores e como já gostei muito do América, um clube que já foi o segundo time de todo carioca. Passou por péssimos bocados, quase faliu, pensaram em parar com o futebol e agora tenta se reerguer, num novo momento, com a supervisão do ex-jogador Romário (clube do coração do seu pai, já falecido). Fico empolgado toda vez que ouço o José Trajano, da ESPN falar do amor pelo seu Ameriquinha. Sua estréia foi na última quinta e ganhou de 4x0 do Bonsucesso, com casa cheia e Romário dando entrevista ao final do jogo como homem forte do clube. O SPORTV irá transmitir alguns jogos e esses estou disposto a assistir. Esse vermelhinho também me empolga.

O futebol das segundonas da vida possuem um algo mais, que não estou conseguindo encontrar nos da primeira divisão. Estarei plugado neles e se quiserem saber algum resultado, é só me consultar. Amanhã cedo irei à Feira do Rolo, 10h, horário do jogo do Noroeste em Lins, com o radinho colado no ouvido e se der um pulo lá no meio e espalharem por aí que sou louco, não liguem. Deve ter sido gol do Borebi, nosso centroavante.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

UMAS MÚSICAS (51) - EMBALANDO VIAGEM

SEXTA FEIRA É DIA DE MÚSICA NA ESTRADA E DESABAFOS...
Viajo cedo e vou pelas estradas embalado por uma música das mais emocionantes, RAZÓN DE VIVIR, de Victor Heredia, interpretação do trio de ferro argentino, Mercedes Sosa, León Gieco e Victor Heredia, do CD “Argentina quiere cantar!”. Vejam o que encontrei no Youtube: http://es.netlog.com/go/explore/videos/videoid=es-3263542 . Ando cada vez mais latino e gastei o CD na ida. Estou decidido a fazer um curso de espanhol, para entender e conhecer melhor essa nossa latinidade. Essa música é de chorar e nos faz pensar um bocado...

1. Como sai cedo, fui escutando nossas rádios, nos seus noticiários matutinos. Muita incoerência e pouca coisa de aproveitável/honesto sobre a invasão do MST em Borebi, em algo que tomou proporção nacional. Não espere de mim um ataque brutal ao MST. Não apunhalo facilmente esse movimento, pois os considero únicos e imprencindíveis. O fato é que a empresa dita como proprietária da tal fazenda, parece não o ser de fato e de direito. A versão do MST, que precisa ser conferida é a de que invadiram terras griladas, de propriedade pública, da União, com pendência judicial. Quem se estabelece em cima de terras griladas é tão violento quanto quem pinta e borda numa ocupação. Esse lado da questão precisa ser levado em consideração. Esperar isso de nossa mídia é muito, não? Espetaculizar o MST faz parte de uma orquestração que não é de hoje. Critiquemos os excessos e também a Cutrale, que está em terra que não lhe pertence.

2. Semana de muita correria, mas na quarta fui me divertir no SESC, num show de blues, com o gaitista americano da Philadélfia, STEVE GUYGER, acompanhado de dois músicos brasileiros, também muito bons. Foi uma noite para por pra fora a urucubaca e ficar ao lado de gente amiga. O SESC está tornando-se ponto de encontro de gente que gosta de música de bom gosto e disso não estou mais abrindo mão. Querem saber a lista dos que lá reencontrei? Primeiro o João Albiero, que veio de Palmas e foi dar uma recarregada por lá. “Não agüento mais falar em dupla de Goiás. Em Palmas só dá isso...”, desabafa. Vinagre e Zezé Ursolini me fizeram companhia, hora com ele (não arredou pé do balcão das geladas), hora com ela (sentada no chão, bem defronte o palco). Guto Guedes (do http://www.caldeiraopoetico.blogspot.com/), sempre junto da nossa psicóloga de plantão, a Rose Barrenha e dessa vez, do Reginaldo Furtado, com um visual motoqueiro, estilo ‘Selvagem da Motocicleta’ e do Nilton, o porteiro do Armazém Bar. Com gente assim, varo a noite, mas não o fiz, pois na quinta acordei com as galinhas (cedo demais, não me compreendam mal). Do show, todos saíram com aquele gostinho de quero mais. Isso é boêmia na sua essência. Ninguém dessa turma é baladeiro, pois isso não existe para nós.

3. Não posso deixar de citar nesse meu retorno a Novo Horizonte, o reencontro com seu JOÃO VAZ, personagem do último Memória Oral aqui publicado. A Andréia, lá da Cultura local já havia levado a ele o texto e quando me viu abriu um sorriso, que ganhei não só o dia, como o ano todo. Foi me mostrando mais coisas, como caixas e caixas com coleções de selos e além de já ter sido Costureiro, Marceneiro, Encadernador, Chaveiro, Lojista, fico sabendo de mais uma, foi também criador de máquinas para apiários, onde criou peças para ampliar captação de mel. Ver seus esboços é a confirmação que tive de que, se a Prefeitura não fizer nada para manter o acervo desse senhor, algo necessita ser feito, com uma urgência mais do que danada, para manter aquilo tudo num local seguro, onde lhe valorizem as peças que guardou ao longo do tempo. Vou cutucar bastante a Andréia e o jornalista Talles Freitas, que almoçaram comigo, para movimentarem os graúdos em prol da preservação do rico acervo do espevitado velhinho. Agora sou mais do que amigo dele, passo a ser um defensor e batalhador dos seus interesses. Esse reencontro foi arretado de bom. Já marcamos novo reencontro para a próxima semana.

Volto ao dia de hoje e o que ouvi na estrada, dessa vez na viagem de volta e com o dia começando a escurecer. Adoro ALTAY VELOSO, um moço que compõem como ninguém, lá de Nova Iguaçu RJ. Gastei seu CD e a mais ouvida foi APESAR DE CIGANO, do CD “Nascido em 22 de Abril”. No Youtube não encontrei com ele, mas com “Freddy Simões e Banda”. Se o som deixa a desejar, sintam o clima da letra: http://www.topmusicas.net/videos/altay-veloso/apesar-de-cigano.htm . Músicas assim me tocam profundamente. E viva os que resistem, os que navegam contra a maré, os que não abrem mãos de suas convicções e os que ainda conseguem se opor aos poderosos. Deixa eu dormir minha gente, amanhã tem mais.