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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

OS QUE FAZEM FALTA e OS QUE SOBRARAM (52)


A CORAJOSA GABRIELA LEITE FOI EMBORA ONTEM E PRECISO ESCREVER DELA
Sextas são dias supostamente mais alegres, pois vésperas de dias de folga, remanso e descanso. Ontem quinta à noite numa péssima notícia a morte de uma pessoa querida, próxima e conhecida da maioria dos brasileiros. GABRIELA LEITE ficou conhecida nacionalmente por ser uma liderança dentro do segmento das prostitutas brasileiras. Sem arrependimento pelas opções que a vida lhe sugeriu, enfrentava tudo e todos na defesa dessa e de outras causas, uma batalhadora. Ouço muito que jogadores de futebol são pessoas com pouca consciência política e da mesma forma ouço isso dos que estão metidos (sic) na prostituição. Gabriela se não foi considerava uma ovelha negra dentre os que estão nessa luta, tem tudo para ser reconhecida como um baluarte na luta pela conquista dos direitos básicos dessa categoria.

Sabia muito bem se aproveitar dos momentos quando surgiam no horizonte. Inesquecível quando a grife DASLU estava evidenciando desfiles e mantinha o charmoso shopping na marginal Pinheiros atraindo a atenção das classes A e B, ela e os seus criaram numa ótima sacada a grife DASPU, a das putas. Ela que já era conhecida, não saiu mais de cartaz. Virou celebridade. Não posso dizer ter amadurecido muito após aquilo, pois a conheci anos depois, mas do pouco contato que tive, percebi ali uma personalidade forte, sempre sabendo muito bem o que queria, como queria e ao lado de quem. Empreendeu a boa luta, inclusive nessa última, pela sobrevivência, após anos atrás tomar conhecimento de estar com um câncer. Foi a Ana Bia quem me apresentou a ela e isso só me foi possível pela proximidade com a minha cara metade. Com ela conheci também Flávio Lenz, seu marido, jornalista e irmão da poetisa Ana Cristina César. Um belo casal, interação mais propícia nunca vi. Entendiam-se pelo olhar. Estive com eles em várias oportunidades.

Fiz um texto no hotel Paris, lá na praça Tiradentes, centro do Rio, reduto de boêmia e prostituição. Cheguei lá junto do Latuff e desfrutamos do lugar, onde a ONG DaVida (eles dois no meio dela) conseguiu provisoriamente uma sede. Certo dia, Ana e Gabriela ficaram a beber por horas num botequim da Gomes Freire, coração da Lapa, enquanto eu e o Flávio fomos assistir um show do Marcos Sacramento no teatro João Caetano. No mesmo lugar estive junto de Ana e meu filho numa festança de aniversário da Gabriela, andar de cima do sobrado, reunião de gente alegre, festiva, cabeças pensantes e inquietas. Subi algumas vezes as ladeiras de Santa Tereza para vê-los no santuário onde moravam, com vista privilegiada para toda a cidade. Nada assustava aos dois, nem os tiros ao lado. Como posso me esquecer do dia quando o quarteto assistiu a um dos dias de desfile carnavalesco de dentro da sede do Calouste Gulbenkian, onde de madrugada saímos meio que embebecidos a procura de uma estação do metrô. Seu livro, o “Filha, mãe, avó e puta”, resenhado também por mim aqui e depois transformado numa bela peça de teatro, tendo seu papel encarnado pela bela Alexia Deschamps, foram outros momentos.

E foram tantos os bons momentos, todos cheios de ótimas recordações, que acredito não consiga reuni-los todos num curto texto, nem se lembrar de todos. Nem consigo movido pela emoção rememorar do dia em que conheci Gabriela (quando foi mesmo Ana?). o fato é que eu e Ana estamos aqui do lado de cá do Brasil e Gabriela morreu do lado de lá. Uma distância imensa, compromissos que nos fincam desse lado e uma grana curta a impossibilitar uma viagem aérea de última hora, com elevados custos. Tudo isso para explicar para nem sei quem, que nessa sexta, um tanto triste para os que gostavam dela, amargo sabor de veneno na garganta, dos motivos de não poder estar no Rio nesse momento e abraçar todos os que estão reunidos junto de sua derradeira despedida corporal. Ficamos aqui, eu e Ana, alquebrados pela dor de mais uma perda, dessas pessoas insubstituíveis no jogo da vida. Cada um tem as suas peças imexíveis, para mim, Gabriela é uma delas. No momento em que o mundo reacende o fogo do conservadorismo, do preconceito embutido em mentes até então vistas como sãs, gente como a Gabriela são imprescindíveis, pois não deixam a peteca cair. O mundo sente a falta de pessoas corajosas, dessas que não deixam as oportunidades escaparem e quando lhe espezinham contra atacam imediatamente. Quer qualidade melhor que essa? Minha mãe era assim, vapt vupt, Gabriela idem. Não tem como não sentir saudade de gente assim.

Leiam tudo o que acabei escrevendo dela clicando no link a seguir:http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=gabriela+leite

sábado, 24 de setembro de 2011

UM LUGAR POR AÍ (18)

UM TEATRO NO RIO, A VIDA DA PROSTITUTA GABRIELA NO PALCO E O PÓS ESPETÁCULO
Na quarta, 21/09, 19h30, CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, quase ao lado da famosa Candelária, cruzamento das avenidas Presidente Vargas com Primeiro de Março, centro velho do Rio, lá vou eu assistir a peça teatral baseada no livro de Gabriela Leite. A sala 3 não acomoda mais que 100 pessoas, mas esses espaços estão sendo disputadíssimos desde a semana passada, quando da estréia de “FILHA MÃE AVÓ PUTA – UMA ENTREVISTA”, com apresentação do Ministério da Cultura e patrocínio do Banco do Brasil. Com direção do também ator Guilherme Leme e tendo no elenco somente duas pessoas, vivendo a Gabriela, Alexia Deschamps e no papel do entrevistador Lauri Santos. O cenário é simples, uma grande mesa tendo numa das pontas o entrevistador e na outra a prostituta a contar suas histórias. Os recursos de uma boa iluminação ajudam bastante em todos os momentos e em pouco mais de 60 minutos, passados quase num instante, vapt-vupt, num prender de respiração, uma vida é passada a limpo, sendo exposto além de tudo o que foi vivido, também outro lado, o do pensamento pessoal e político de uma liderança desse país. Sim, quer se queira ou não, Gabriela é uma liderança e de uma linhagem das mais éticas. Pôs a cara para bater, enfrentou o touro à unha e não tem vergonha de expor isso, aliás, faz com muito orgulho.

Sai de lá com a alma lavada e quase sem respiração. Não tem como não ir juntando algo dentro de cada um ali naquele espaço. Só consegui soltar tudo pra fora ao reencontrar na parte inferior do CCBB, o Flavio Lenz (ele, o intelectual, marido da Gabriela, para incredulidade de alguns), que estava à espera do irmão, que havia vindo da Serrinha para assistir a peça. Fiquei meio sem palavras para expressar a ele o que havia achado da peça. Depois fui ler o bonito folfder distribuído aos presentes e lá encontrei algo assinado por Marcia Zanelatto: “Gabriela Leite poderia estar numa peça de Ibsen. Ser personagem de livro de Dostoiveski. Ou de um filme da fase socialista de Godard. Mas está aqui, na realidade. É brasileira. Mora no bairro do Catete, no Rio. Trabalha duro para se sustentar, sofre lendo os jornais de manhã e se diverte bebendo sua cervejinha com os bons amigos. É uma mulher simples, gente como a gente. A atuação de Gabriela nunca se pretendeu histórica. Mas o tempo a fará assim. (...) Pela cidadã que é e pela importância da causa que representa. (Ibsen teria adorado conhecê-la)”.

O melhor de tudo veio no fim do espetáculo. Flavio rodeou o CCBB junto do irmão, da esposa deste e de mim. Estávamos à procura de um bar para conversar e bebericar. Ali reencontra o ator Louri (que ele insistia em chamar pelo nome todo Lourinelson), o diretor Guilherme e um casal que havia assistido o show, o ator Luiz Mello e a esposa. Fomos todos para o primeiro que encontramos, ao Adega Timão, na esquina do Centro Cultural dos Correios. Quem chega a seguir é a atriz Alexia e logo a seguir, Gabriela (chamada pelo Flávio). Uma mesa das mais alegres e o único furão esse que vos escreve. Ouvi belas histórias do espetáculo, sinalizações de mudanças, expectativas e o alto astral de Gabriela pairando no ar. Da Alexia, não me contive e disse-lhe que a imagem que guardava dela era de uma capa de Playboy. Rimos e fiquei de mover céu e terra para levá-la a Bauru com a peça. “Tente, pois tenho um tio de Matão, fazendeiro, que quer levar para Araraquara. Seria uma temporada interiorana”, diz. Todos estavam muito falantes e até Luiz Mello, que queria ter ido a outro lugar para jantar, ficou sem reclamar. Do bar, sai direto para um táxi e cama. Não deu nem tempo de fazer as despedidas do casal da noite, Gabriela e Flavio. Nessa noite, algo colocado em prática do livro que acabei de ler, o “TerraMareAr”, quando afirma que no Rio existe um acordo tácito de trombar com artistas e agir com a maior naturalidade. Fiz isso e presenciei um papo teatral dos mais interessantes.

Encerro aqui o ciclo de narrativas de lugares visitados na semana, também em cima do tema do livro. E o fiz por um motivo muito simples, para demonstrar que em todas as viagens que faço, procuro entrelaçar lazer com cultura, deixando de lado pontos turísticos e badalações outras. Mais que isso, minha cultura é uma cultura quase de graça, gasto sempre pouco. Nesse dia, o teatro no CCBB me custou R$ 5 reais (meia entrada por ser correntista do banco) e a inteira eram R$ 10 reais. Não faço isso dos relatos para me gabar, mas gosto de escrevinhar e de demonstrar a existência de uma outra possibilidade de lazer e cultura, muito além dessa via consumista de hoje, onde tanta porcariada nos é enfiada goela abaixo (e custando os olhos da cara). Para encerrar de vez, hoje, sábado, 24/09, 21h, Teatro Municipal de Bauru, entrada gratuita, 450 lugares, CARMEN, ballet de Bizet, com um grupo bauruense recheado de diletos amigos. É isso que me faz continuar saindo muito de casa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

FRASE (74)

O DESFILE AO LADO DA PASSARELA DO SAMBA, JUNTO DE "FIGURAÇAS" E OUTROS RELATOS
Ainda no domingo de Carnaval, mas à noite, por volta das 21h, eu e Ana Bia, fomos convidados (acho que na verdade foi uma intimação) a comparecer a um local dos mais animados. Descemos do Grajáu via metrô até a Central do Brasil e lá a balbúrdia instalada. Estava no meio do agito carnavalesco carioca no que isso tem de mais autêntico, o povo nas ruas no entorno no Sambódromo (essa muvuca é que me atrai). Subi e desci passarelas, parei a observar grupos que iam desfilar, camelôs vendendo artigos mil para a festa e gente fantasiada pelas ruas. Nosso destino não era o Sambódromo e sim, ao lado dele, quase no seu início, pouco acima do famoso prédio do Balança Mais Não Cai, ao lado do Terreirão do Samba, a sede do CENTRO DE ARTES CALOUSTE GULBENKIAN (eles são portugueses de origem, vejam o site da Fundação: http://www.gulbenkian.pt/). Não foi fácil achar o local diante de tanta coisa a ocorrer na rua, mas ao encontrá-lo, de cara um grata surpresa, logo adiante de um amplo estacionamento, uma imensa placa com um nome dos mais conhecidos e queridos, TEATRO GONZAGUINHA, mantido por eles.

O convite fora feito por GABRIELA LEITE (ela dispensa apresentações) e FLÁVIO LENZ (esse jornalista dos bons tempos do extinto JB e irmão da poetisa Ana Cristina Cesar), ambos da grife Daspu e da ONG DaVida, ligadas umbilicalmente ao tema da prostituição feminina. Amigos de longa data de Ana, já me considero amigo dos dois, pois em quase todos meus retornos ao Rio, acabo reencontrando-os e além de um alongado papo, regado a uma sempre gelada cerveja, uma convivência cada vez mais harmoniosa e prazerosa. O local era um verdadeiro oásis ao lado da festa maior, pois um bar foi montado numa área livre do Centro de Artes, com palco e som da melhor qualidade. Todos assistiam o desfile por um telão e nas horas de intervalo, um sambão de rachar mamona, dos bons e vibrantes ecoava no ar e segui à risca a letra de um samba: "Até quem não é de sambar sambou". Sambei e a cada escola que saia, íamos para o alambrado ver os fogos. Revi alguns que já conhecia e conheci outros, dentre esses um em especial, o motivo maior desse escrito todo. É dele que escrevo a seguir.

Um dos que comandam o Centro português no Rio é o ator e diretor ANTONIO PEDRO. Dentre a gana imensa de gente a contracenar, sempre tive alguns que me chamaram mais a atenção e um desses foi esse baixinho, rechonchudo, brincalhão, espevitado, da turma do funil, do copo e da boêmia. Acompanhei alguma coisa que fez na vida e dentre tudo destaco um dos últimos trabalhos, o filme Casa da Mãe Joana, a direção de Beijo no Asfalto em 1970, a viagem com o Arena canta Zumbi também na mesma época e algo mais do que antológico, a participação no filme Bar Esperança. Fez novelas, mas delas esqueço logo os nomes. Enfim, um baita de um cara com um baita de um currículo. Foi até Secretário Municipal de Cultural da cidade do Rio. Fez muito e continua fazendo e acontecendo.

Entre as escolas de samba rolando no telão, os fogos no jardim, a cerveja e os comes sendo servidos, Gabriela e Flávio nos leva até a sua mesa. Se já nutria admiração, percebi num estalar de dedos estar diante de alguém mais do que contagiante, desses a ficar papeando noites e noites, pois papo não falta. Num certo momento levanta da mesa, vai até o microfone e pede para parar a transmissão da TV Globo com as escolas na avenida pela metade: "A Portela já desfilou e daqui até o final começa a enrolação da TV, disso não aproveitamos nada. Solta o samba aí". E o samba rolou, imagens ao fundo e os casais indo para a pista até a próxima escola ser anunciada. Gabriela e eles estão envolvidíssimos com uma direção teatral e disse que poderia vir até Bauru discutir PRODUÇÃO CULTURAL. Gostei tanto da idéia, que a passo adiante aqui e agora, alinhavando como isso possa ser viabilizado. Veremos...

De lá, um grupo no qual estava no meio ainda fomos nos misturar com os que saiam da avenida. Ficamos vislumbrados com o desfile da UNIDOS DA TIJUCA, de rara beleza, mas a encobrir o samba. Entendi isso após ouvir algo dito com sabedoria por Gabriela Leite, demonstrando dois dias antes do julgamento porque essa escola, mesmo com toda beleza e competência do carnavalesco Paulo Barros não podia ganhar o Carnaval desse ano: "Seu eu gosto de samba essa escola não pode ganhar. Foi lindo ver o desfile, mas ele não respeita mais nada. É o espetáculo no lugar do samba. Não tem mais passista. Não vi o samba, só uma modernidade exarcebada. Me deu uma tristeza. Se a Tijuca ganhar o Carnaval, isso vai ser repetido por todos os outros nos anos seguintes. Se perder, a tradição do samba vai prevalescer. Quando eu vi a União da Ilha e a forma como descreveu Darwin eu vi que o bonito não podia ganhar. A União ia ganhar o Carnaval não fosse o incêndio. Não pode vencer o que o Paulo Barros quer e nas últimas conserquências". Foi batata, o samba venceu e deu Beija Flor, uma que valoriza ao máximo a comunidade nilopolitana. ANTONIO PEDRO e GABRIELA LEITE foram minhas personagens do Carnaval 2011 no Rio. Ainda daquela noite, a última cena antes de hibernar foi a foto tirada no metrô, 4h da manhã, com dois passistas, uma já com as sapatos na mãos, no retorno à vida normal, o mesmo que fazíamos, no mesmo trajeto e vagão. "É a vida/ É bonita e é bonita...", dizia Gonzaguinha no seu samba parodiando isso tudo.
PS.: De Flávio e Gabriela escreverei mais, outro dia, sobre um refúgio em Barão de Mauá, cercanias do Rio de Janeiro, isso já na viagem de retorno, ocorrida entre ontem e hoje. EM TEMPO: A frase do título é a proferida por Gabriela sobre a Unidos da Tijuca, definitiva e esclarecedora.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

DROPS – HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (60)

OS ENSAIOS DE UM MUSICAL COM A TEMÁTICA DA “REVOLTA DA VACINA”
Hoje é sexta e ali, logo na curva do dia, o começo do final de semana. Continuo minha saga escrevinhando sobre umas paranguladas lá pelos lados da Cidade Maravilhosa, o querido Rio de Janeiro. Coisa de ano e meio atrás fui apresentado a Gabriela Leite e Flavio Lenz, um casal morador da ladeira da Glória, quase no bairro de Santa Tereza. Ela, a famosa prostituta, nome famoso na articulação e defesa de uma categoria desunida e humilhada. Pôs a cara para bater, criou a ONG Davida e a griffe Daspu e isso ajudou a desmistificar um pouco a questão da prostituição nesse país tão cheio de preconceitos. Minha cara metade, a Ana Bia tornou-se grande amiga de Gabriela ao fazer a tese de doutorado “Com atitude e catiguria”, em cima do trabalho da Daspu. Militou por lá, conheceu o Flávio e na seqüência também virei amigo do casal. Ela, a Gabriela fez 60 anos esse ano, estivemos na festa na Lapa e agora ela está envolvidíssima com um trabalho de formação teatral no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, quase ao lado do Sambódromo, num grupo comandado pelo ator Antonio Pedro e pela ativista e ex-vereadora do Rio, a Ruça (ex do Martinho da Vila, a de Isabel).

Noite de terça, 20/09, Gabriela me convida para presenciar os ensaios de um grande musical, 50 atores, a maioria pela primeira vez no palco, desde médicos, operários, drags queens, gente da comunidade no entorno e alguns profissionais de setores vitais, como professores de dança, dramatização e algo a demonstrar a seriedade do trabalho, historiadores a desvendar o tema escolhido. Esse tema foi a “Revolta da Vacina”, ocorrida no começo século passado, governo de Rodrigues Alves e envolvendo o sanitarista Oswaldo Cruz. Quem cuida da parte musical é Jorge Moura, filho do instrumentista Paulo Moura e construindo a letra aí no decorrer dos ensaios. Os ensaios começaram em julho e o grupo não pára de crescer. Ruça, uma das organizadoras diz que pessoas da comunidade lhe param na rua para agradecer por terem lhe remoçado a vida. Primeiro ensaiam a dança, depois a teatralização, depois param tudo e vão escutar uma aula de história, de uma produtora norte-americana, que estudou tudo sobre a derrubada do Morro da Providência, um dos lugares devassados pela gana em transformar a capital federal num cartão de visitas, retirando os pobres da visibilidade. Todos sentam em volta dela e de Gabriela e as ouvem atentamente. Logo a seguir um debate, com idéias, histórias ouvidas e a percepção de que aquilo que estaria em cena era do entendimento geral. Depois os músicos ensaiam o coro com parte das letras já construídas. Isso tudo das 19 às 22h, sem parar.

Permaneci por ali, embasbacado, vendo todos num frenesi de entusiasmo, circulando de um lado para outro, dando vida a um espetáculo, que a cada semana faz a encenação de um novo ato. São testes e percebo que cada um quer contribuir ao seu jeito, trazendo coisas novas. Gabriela está inserida nesse meio e me faz conhecer cada personagem daquela trama. Acabo me envolvendo, dou meus pitacos, Nem vi o tempo passar e ao sair, Gabriela me comunica algo: “Amanhã, quarta, começa as apresentações da semana da peça baseada no meu livro, o Filha Mãe Avó Puta. Quer assistir?”. Topei na hora e amanheço contando como foi a peça e um encontro com os atores, Gabriela e Flávio num bar aos fundos do CCBB. Quando me deitei algo me veio à cabeça: “Nem tudo está definitivamente perdido, preciso é pegar mais com a mão na massa, como fazem alguns”.

OBS. FINAL: Mês que vem tem o IV Encontro Ferroviário. Recebo de Ricardo Bagnato o cartaz do evento e faço questão de ser um dos primeiros a divulgá-lo, pois participei ativamente de todas suas edições. Vou falando dele e do que virá aos poucos, em drops.Mais detalhes no http://www.apffb.com.br/ #########################píuíííííííííííííí´###################

terça-feira, 6 de abril de 2010

MEMÓRIA ORAL (84)

GABRIELA, A DASPU E O HOTEL PARIS
A história de Gabriela Leite já é por muitos conhecida, líder das prostitutas brasileiras, ficou famosa ao levantar a bandeira da regulamentação da prostituição no país, com o projeto da ONG Davida. Levantou a bandeira e produz muita poeira, pois não se esconde, fazendo questão de continuar apregoando ser prostituta até morrer. Do seu livro de memória, “Filha, mãe, avó e puta” (editora Objetiva, 2008), uma lição, a de brigar pela utilização do termo “prostituta”, onde e com quem estiver. Foram tantas as vezes que, de forma escamoteada ao ser anunciada em eventos variados, a designação era outra, obrigando-a a colocar os pingos do “is”, ou seja, deixar claro que a denominação era essa e ela também mais uma delas.

Conhecer essa agora senhora, de 58 anos, sempre foi uma curiosidade, aumentada com a chegada em Bauru da professora universitária Ana Bia Andrade, cujo doutorado tem como tema a Daspu, docente na Unesp local e durante muitos anos, exercendo uma espécie de “faz tudo” na grife, um projeto Davida, comandada por Gabriela e seu companheiro, o jornalista Flavio Lenz, 55 anos. A sacada do nome Daspu é do conhecimento de todos, pois surgiu como um contraponto à marca Daslu, grife dos ricos. O nome pegou e o negócio frutificou. Teve altos e baixos, ajudando muito a solidificar a diminuição da discriminação de uma categoria sempre tratada aos trancos e barrancos. Li o livro, escrevi para ela, conversei muito com a Ana, mas nada de concreto sobre uma possibilidade de trazer Gabriela e um provável desfile da Daspu para Bauru.

Na ida ao Rio, o que ocorre de concreto é conhecer Gabriela e o local atual onde a Daspu está instalada. E o local não poderia ser mais adequado, o primeiro andar do Hotel Paris, nome dos mais conhecidos da prostituição carioca, encravado na mais movimentada esquina da Praça Tiradentes, bem ao lado do Teatro João Caetano, centro da cidade. Final de tarde de uma terça de março, reencontrei Carlos Latuff, o amigo e chargista ativista bem defronte ao Cine Odeon, na Cinelândia e após colocarmos as conversas em dia, lhe pergunto: “Vou conhecer a Gabriela, a líder das prostitutas. Quer ir junto?”. Não precisei falar duas vezes e numa rápida caminhada lá estávamos diante de tão famosa pessoa.

Sentada diante de um computador, sem acesso a internet (“o dono do hotel fica com a luz desligada durante o dia e à noite liga para seu negócio, a putaria e ainda não conseguiram se conectar por aqui”, me disse Ana), com as costas voltadas para uma imensa janela totalmente aberta para a famosa praça, Gabriela nos recebe sorrindo e com um cigarro entre os dedos, que não foi apagado um segundo sequer. Foi empatia à primeira vista, pois tanto Latuff, como eu, parecíamos velhos conhecidos. Falamos bastante, declaramos nossa admiração e fomos escutando pedaços de sua história. Num momento difícil, consegue o espaço, que possui a cara da Daspu e de uma hora para outra, tudo foi transportado para ali. “Aqui é nossa casa, nossa cara e será daqui o renascimento Daspu”, diz.

Havia voltado dias atrás de um congresso na Alemanha e estava prestes a embarcar para outro, convidada que fora a participar como expositora de um Encontro dos Pontos de Cultura, em Fortaleza CE, organizado pelo Governo Federal, no final de semana seguinte. Nessa terça a agitação acontece ali mesmo nos três antes quartos, hoje escritório e loja Daspu, onde acontece a primeira reunião do grupo de apoio à candidatura de Gabriela à deputada federal pelo PV carioca. Sim, ela foi picada pela “mosca azul” da política, mas diante de nós, esclarece algo: “Sempre fui autêntica, não irei mudar agora. Vou lá para representar as prostitutas brasileiras, seus interesses e questões. Chegou a hora, é agora ou nunca mais. Numa pré-pesquisa feita, apareço em segundo lugar, somente atrás do Sirkis (Alfredo Sirkis, escritor e ex-secretário municipal do ex-prefeito César Maia)”. Fala também de Marina, a candidata do PV à presidência, de sua admiração pela postura e da saída do PT, que ajudou a fundar: “O PT exercia um controle louco sobre nosso pensamento. Eram os únicos a estar certos, difícil pensar e agir diferente. Acho que me libertei ao cair fora”.

De sua fala algo a registrar, uma aparente sinceridade expressada nos gestos e olhar, sempre diretos e não se esquivando de nada, opinando sobre tudo, sem medo ou receio. “Já vivi de tudo nessa vida. Conheço tudo. Sei da história da Eni lá de Bauru, li o livro do Lucius de Mello. Ela não era prostituta, era a cafetina, mas não explorava como muitas outras. Ainda iremos para Bauru falar de nós, da vida que escolhemos para viver e da Eni”, segue dizendo. Latuff promove uma pausa, pouco antes de nos retirarmos, pois não iríamos participar da reunião e lhe diz: “Estou me colocando à sua disposição para o que precisar. Sua causa me toca, sinta-se à vontade para me pedir o que precisar. Desenho para a sua causa, de forma espontânea, não gosto de pegar leve, jogo pesado e me achando útil, meu traço poderá lhe ser útil”.

A reunião tem início, Latuff se despede e junto de Ana vou conhecer as dependências do Hotel Paris, ainda quase sem movimento naquele começo de noite. Espanta-me os quartos, todos com uma pia, sem banheiro, tudo à moda antiga e revestidos com uma vistosa grafitagem, feitas sob o tema da prostituição, bem colorida e chamativa. No saguão, um elevador, daqueles com grades de ferro, fora de serviço e uma portaria de madeira, a recepção aos clientes, que chegam vindos de uma escada de mármore em formato de caracol. Ali é acertado o valor por um determinado tempo de uso do quarto, que não pode ser excedido, gerando nova cobrança e batidas insistentes na porta, quando alguém tenta ultrapassar o combinado. Para mim, um caipira do interior, circulando pelo centro do Rio há mais de 20 anos, uma novidade, ter conhecimento in loco do símbolo que representa aquele hotel e estar dentro dele. Olhar a movimentação das ruas por aquelas janelas foi como viajar e sonhar com tudo o que ali já foi vivido. Fiz isso por alguns instantes.

No fim da reunião, ficamos eu, Gabriela, Flavio, o jornalista Paulo Giacomini e Ana. Descemos às escadas e fomos bebericar algumas cervejinhas num botequim na esquina seguinte, onde circulavam algumas prostitutas, mas o grosso do movimento eram estudantes, que “gostam muito de lugares como esses para suas horas de lazer”, diz Gabriela. Flavio me explica mais sobre Daspu, Ana faz planos sobre prováveis desfiles da grife pelo interior paulista e Gabriela, participa da conversa, com um olho no que estava sendo discutido e outro num aparelho de TV, onde ocorria um dos denominados “paredões” do BBB. “Vou te contar uma coisa. Minha saída do PT me libertou de algumas coisas e uma delas foi essa. Passei a ter liberdade de assistir programas desse tipo sem me preocupar com as cobranças que receberia. Assisto para analisar o comportamento das pessoas e isso me distrai, uma espécie de fuga para a seriedade do que enfrento no dia-a-dia", conclui.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (80)


CLEUSA, UMA PROSTITUTA QUE FEZ HISTÓRIA NA ANTIGA MANSÃO


                                            Texto em homenagem à Gabriela Leite, a maior de todas.

Ontem, dia 02/06 é comemorado o Dia Internacional das Prostitutas. Para alguns uma data a ser esquecida e até deletada do calendário. Convivo com todo tipo de posição em relação à prostituição. Desde os que a abominam totalmente, os que acham que ela é algo somente feito para explorar a mulher e que ficar escrevendo sobre o assunto sempre reforça isso cada vez mais. Não vejo a dita “mais antiga profissão do mundo” como algo assim tão abominável e só voltada para a exploração. Muitas estão sim sob o jugo exploratório e isso deve continuar sendo condenado. Muitas o fazem de forma independente, por livre e espontânea vontade. Se isso é uma forma errada de ganhar a vida, não as julgo. Prefiro entender como algo natural dentre desse mundo nada natural. Ao escrever sobre o tema relembro a falecida amiga Gabriela Leite (Viva Flavio Lenz, seu marido e meu amigo!), criadora da Daspu, militante carioca da causa e se não a mais famosa, pelo menos a original militante. Por fim, uma história bem da antiga fazendo referência a data.

CLEUSA foi prostituta por mais de uma década em Bauru. Veio de longe para aqui atuar e dela não tenho mais notícia há uns trinta anos. Não tenho vergonha nenhuma em declarar ter sido ela uma das minhas mais eficazes professoras de sexo que tive na vida. Entre os 14 e 18 anos, época em que ia ao Redentor de ônibus e de lá seguia a pé por uma estrada de terra, passando pelos escombros do Hipódromo, chegando sempre fogoso na Zona do Meretrício. Dentre todas as casas lá existentes, muitas fizeram história, mas uma, a Mansão foi a mais requintada (um quadro com uma foto de uma bunda na parede é a lembrança do salão). Lá, uma distinta senhora, já não tão moça comparando-se a mim, CLEUSA. Não me lembro de seu sobrenome e mesmo que o soubesse não o publicaria. Não tenho foto nenhuma dela e pouco antes da zona fechar definitivamente suas casas (tempos depois, placas nas casas: “Aqui é casa de família”), lembro de ter lido numa matéria no JC algo de lá, com foto dela e tudo. Eu já beirava os 30 e foi bom revê-la dessa forma, triste por saber ainda permanecer por lá. Ela era uma maestrina na casa. Sabia ensinar como ninguém, deve ter sido psicóloga de muitos. Baixinha, taluda, cabelos negros, bonita, seu rosto permanece no meu inconsciente.
 

A Mansão não tinha banheiros junto dos quartos (nem a Zona da Eny tinha) e ao terminar tudo, ela saia para se lavar e me deixava sozinho lá, confiava nos seus clientes (não sei se fazia isso com todos). Toda vez que papeio sobre aquela época em rodas por aí, cito o nome dela e sempre encontro alguns também com boas recordações exatamente dela (vou fundar um saudosista fã clube). Deve estar hoje, se viva, com mais de 70 e algo que me lembro é por juntar dinheiro e enviar para criar uma filha, instalada segundo ela em algum lugar seguro. Eu, meninão cheio de gás, desde que a conheci a escolhi como uma espécie de diva. A trai poucas vezes, pois além de tudo o que acontecia entre aquelas paredes, sua conversa era insubstituível. Só ia na parte da tarde, ela com mais tempo e daí longas conversas. A Mansão e tantos outros locais como aqueles eram tão lúdicos que tenho de lá uma história que nunca mais esqueço. Cheguei um dia com um jornal Pasquim debaixo do braço e ao entrar no quarto com a Cleusa, a colega do ao lado me chama e pede: “Deixo o Pasquim comigo e pegue na saída”. Ela conhecia e lia o mesmo jornal que fazia a minha cabeça. Da Cleusa, essa ODE em forma de reverência não só pelo dia de ontem, mas também pelo papel que ela e tantas outras tiveram na vida de mocinhos como eu, muito bem trabalhados em suas mãos.

OUTRA COISA - AS HISTÓRIAS DESSE LADO B MOVENDO ESSA BAURU – CRISTIANE CONTINUA NAS PARADAS DE SUCESSO
Escrevo de muitos. Basta estar diante da boa história e já estou passando-a para o papel. Uma atrás da outra. Faço de todos os modos e jeitos. Muitas em forma de Memória Oral, outras as do Lado B ou mesmo em algum texto ressaltando fatos e pessoas, belas histórias de vida. O mais gostoso de tudo é quando, tempos depois de alguma publicação te chega por algum recado, um algo mais que foi feito com uma determinada pessoa, tema de algum antigo registro. Isso me acontece sempre. Dias atrás o jornalista Nelson Gonçalves do JC me disse que buscou inspiração num texto tirado do blog para escrever sobre a história do seu Adelino, o funileiro rodeado de boas histórias. O texto dele saiu num domingo e ocupou duas páginas na edição mais lida do jornal durante a semana. É o retorno para as escrevinhações aqui produzidas. Recados, e-mails, paradas nas trombadas pela rua, toques pelo Bate Papo do facebook, ou mesmo outras formas e sempre me chegam mais e mais histórias de algo sendo escrito, com pedidos de reprodução. Sempre que posso vou passando adiante. Ontem mesmo mais uma, Cristiane Ludgerio foi nossa Rainha da Diversidade do Carnaval bauruense desse ano, segundo ela a primeira pessoa que teve seu seu novo nome, feminino registrado em Cartório em Bauru. Simpática, conquistou a todos no Carnaval e continua conquistando. Foi matéria da revista virtual MULIERE (https://revistamuliere.wordpress.com/), com o slogan “revista para a mulher, seja qual for”. Passou a mim o link da matéria assinada pelo jornalista Gabriela Baraldi Passy e como se trata de uma bela história, aqui segue o link para quem quiser saber algo mais de sua história de resistência: https://revistamuliere.wordpress.com/…
Vamos passando adiante isso tudo. Histórias não podem ficar contidas em lugares restritos e de pouco acesso. Multiplicar suas possibilidades é o que tento fazer ao meu modo e jeito.