quarta-feira, 8 de setembro de 2010

MEMÓRIA ORAL (93)

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO DISCUTIDO EM MATIAS BARBOSA
Todo dia somos brindados com o recebimento via e-mail de uma infinidade de textos inaproveitáveis, a maioria preconceituosos, alguns de cunho religioso. O mote do momento, além de cutucarem Lula e Dilma é trazer no seu bojo divagações para amedrontar incautos. Num desses, algo sobre “demonismo”, ou seja, a dupla estaria aliada a um chifrudo de comprovada patente, o vice da candidata, o presidente da atual Câmara dos Deputados, Michel Temer. Esse é um dos vários rostos que o atual fundamentalismo se apresenta no Brasil e para dar uma ampla visão de tudo isso, nada melhor do que discorrer sobre algo ocorrido na viagem que fiz neste último final de semana para Matias Barbosa, cidadezinha mineira há 140 km da cidade do Rio de Janeiro e apenas 15 km de Juiz de Fora, terra de Itamar Franco e do pão de queijo.

Lá nesse bucólico lugar, encravado entre um mar de montanhas, reside um dos maiores pensadores brasileiros e estudiosos na temática “Religiosidade Brasileira”, Zwinglio Mota Dias, 69 anos, doutor em Teologia pela Universidade de Hamburg – Alemanha, professor de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e editor da revista Tempo & Presença. Zwinglio, além de estudioso é um andarilho religioso. Entrou e saiu na UFJF, na primeira vez por causa das viagens assumidas para conhecer novas culturas e religiões mundo afora. Quando voltou, vaga perdida, prestou novo concurso e por lá está, mas não na cidade grande. Comprou pequeno recanto junto ao rio Paraibuna (ainda poluído, porém sempre caudaloso), na vizinha Matias Barbosa, construindo uma espécie de santuário junto à natureza, local de escrevinhações mais tranqüilas e paz consigo mesmo. Junto dele, dois filhos do segundo casamento (tem mais dois do primeiro) e da esposa Eliza Dias, professora de Geografia.

Matias nem imagina residir ali um contestador no quesito religioso, ou melhor, alguém que não mais aceita pacificamente tudo o que acontece com a temática religiosa no mundo e, principalmente no Brasil, “puritano, regionalista e fundamentalista”, como mesmo afirma esse ilustre morador. "Uma regressão. Cada vez mais a igreja é o espelho da tradição brasileira. A mesma igreja que no passado aceitava a união de casais separados, hoje não mais”, me diz. E para entender o que ocorre, tomo uma verdadeira aula, ministrada no sábado à tarde e no domingo pela manhã, respectivamente 04 e 05 de setembro passados. Zwinglio é um dos melhores amigos de seu José Pereira de Andrade (já retratado num Memória Oral, o de nº 90), pai de minha namorada, Ana Bia Andrade. Escolhemos estar junto dele no feriado, para justamente “hablarmos” sobre esse instigante tema. Rodamos 900km para o Rio e mais 140km até lá.

Não o esperem a querer converter ninguém. Pelo contrário. Como uma pessoa que já não deposita uma inabalável fé no direcionamento da maioria das igrejas pode indicar alguma confiável para alguém? “O protestantismo é individualista, prega hoje o puritanismo. Lutero se aliou aos príncipes e Calvino não, esse veio para transformar o mundo. O cristianismo sempre foi secularizador, faz exaltação, fortaleceu a condição humana. Jesus Cristo é uma pessoa como Buda, Zoroastro e ele mesmo percebeu isso, foi modelo. Mas no Ocidente virou o próprio Deus. Ele se intitulava filho do Homem, não de Deus, isso veio bem depois. Na igreja católica, o papa Leão I, cinco séculos depois de sua morte recontou tudo segundo o pensamernto da igreja vigente, ou seja, os donos do poder escrevem a História e os hereges a continuam”, começa sua aula para uma pequena e atenta platéia, essa ministrada numa mesa da choperia Antuérpia, em plena Juiz de Fora. Logo a seguir provamos juntos uma bela cachaça, um néctar mineiro, talvez dos deuses.

Nada foi seguido à risca, tanto que a seguir já falávamos de uma tal igreja “Deus é Humor”, no interior do Paraná (“justo no Paraná”, faz questão de dizer). Depois se lembra de outra, a do “Papagaio Australiano”, seguida pela minha lembrança da “Maradonista” argentina. É inevitável falarmos da “Universal” e ali foi curto e grosso: “Ela é a igreja católica medieval, a dona da verdade de Jesus, uma manipuladora de tudo e de todos”. Entre risos lhe digo se já teve problemas por aí, quando começa a falar das contradições religiosas nas suas palestras. Fala-me de um, bem leve, um exemplo clássico: “Estava no Canadá e ciente de minha postura, um da congregação que me convidou, me chamando a um canto disse para falar o que quisesse aos da congregação, poderia discutir tudo, mas quando o fizesse para os alunos, tivesse comedimento. A teoria só para eles”.

É um pastor sem rebanho e sem igreja para professar seu culto. Quem ouve suas pregações, ou melhor, debate a realidade religiosa são seus alunos na universidade e seus leitores espalhados Brasil e mundo afora. Voltamos para o tema do cristianismo no Brasil: “O catolicismo não conseguiu controlar a religiosidade nacional. Esse seu grande fracasso. Não fez nada de forma intelectualizada e sim, teatral, passa tudo pelas imagens dos seus santos. O Brasil é uma grande religião onde cabe de tudo. Aqui até o futebol é uma religião. O país é um amalgama permanente, uma religião chamada Brasil”. Melhor que tudo é quando usa dos ensinamentos de Marx para explicar um bocadinho da religião: “A religião é o suspiro da criatura oprimida e ninguém vive sem um pouco de ópio”. Então, dá-lhe religião, mas da sua forma, sem as trevas propostas pelos tempos atuais.

Quando perguntado sobre uma provável luz no fim do túnel, diante das barbaridades cometidas em nome de santos e deuses, diz que a "Aliança de Batistas do Brasil", seção Nordeste está com uma perspectiva nova e com um trabalho ecumênico de revisão do conceito de igreja batista vigente hoje em dia. “Tá tudo por ser feito para uma espécie de reivenção do protestantismo no Brasil”, conclui. Matamos saudades de tempos imemoriáveis da igreja no Brasil, com Dom Hélder, Padim, Casaldaliga, cardeal Arns e muitos protestantes, os que resistiram no movimento político contra a ditadura militar. “Isso não é mais possível em quase nenhuma religião. No Brasil não existe mais do que cinco bispos com alguma preocupação social. Tudo reza na cartilha do Ratsinger, conservadores todos”, diz esse protestante, amigo de outro da mesma cepa, Rubem Alves.

Ele mesmo aceitou após insistência de alunos e conhecidos a participação em um grupo de estudos religiosos em Juiz de Fora, com 60 integrantes e uns 20 ativos. Por lá, ecumenismo total, gente de todas as religiões e discussões mensais com temas que surgem no momento. Algo muito lento, enquanto lá fora, proliferam igrejas por todos os cantos. Saio de lá com dois livros de presente. O primeiro, “Os vários rostos do Fundamentalismo”, coletânea de textos do Fórum Ecumênico Brasil, organizado por ele e a “Matriz Religiosa Brasileira”, de seu amigo, José Bittencourt Filho, discorrendo sobre o tema da religiosidade e mudança social, onde escreveu o prefácio. Do primeiro tiro uma frase que poderia ser o motivador para ter ido ao seu encontro em busca de algumas respostas que ainda não conseguia responder: “Os homens insistem com maior veemência sobre suas certezas quando sua segurança a respeito delas foi abalada. A ortodoxia exarcebada é um método para ocultar a dúvida” (Reinhold Niebuhr). E do segundo, outra a explicar os motivos de querer discutir esse tema constantemente: “A primeira condição para quem quer compreender o crente e a sociedade dos crentes é ter, em um momento de sua vida, participado de uma crença” (Roger Bastide). Saio de lá com uma certeza renovada, a de que com as atuais composições das igrejas, continuarei longe de todas e mais perto de quem estuda o que aconteceu com todas elas. Zwinglio, cujo nome foi tirado de um discípulo de Lutero (o mais contestador), passa a constar da minha pequena lista de diletos autores preferidos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

UMA MÚSICA (64)

SÓ O CHICO PARA ME FAZER COMPRAR ALGO DA “abril”
Chico Buarque de Hollanda foi sempre um dos meus preferidos, tanto compondo, como cantando. Lembro dos meus tempos de moleque quando uns amigos me questionavam: "Como pode gostar de alguém com essa voz?". O conteúdo do que escutava me contagiava. E continua contagiando. Me faz fazer coisas contrariado até hoje. Explico.

Tinha jurado para mim mesmo não ler mais nada e nem comprar nada que fosse da editora abril. Os fatos são evidentes, eles pertencentes e membros natos do PIG – Partido da Imprensa Golpista, uma instituição a mentir descaradamente e a inventar falácias contra o atual governo. A revista “veja” (com minúscula mesmo, assim como abril) é um dos carros-chefe dessa insidiosa instituição, bem estruturada e representando o que de pior temos no Brasil. Mentem descaradamente para seus leitores. Vinha conseguindo manter o dito. Até lia a tal revista, encontrada por aí, mais para ficar com maior revolta, bravo com a capacidade de distorção dos fatos.

Capitulei. Não resisti, mas só para ir comprando algo sobre Chico Buarque, do qual não consigo me separar. É que a tal da “Abril Coleções” lançou nas bancas uma coleção, a “CHICO BUARQUE", com 20 CDs semanais, o primeiro por R$ 8 e os demais por R$ 15. Tenho a maioria em LPs e deles não me separo, mas Chico é Chico e ao comprar o primeiro o ouvi até a exaustão, um com seu nome, de 1978. Junto ao CD um livrinho com um texto, bom por sinal, que devorei logo após a compra. Era isso, uma confissão, algo feito com grande remorso. Espero ser a última vez. É que Chico é Chico e assim como ele, contrário a tudo o que se publica pela Abril, capitulei por sua causa. Mais no: http://www.colecaochico.com.br/

Escolhi uma música do álbum. Sintam se tenho ou não algum pingo de razão ao lerem a poesia de “Pequeña serenata diurna”, a única que não é dele do disco. Essa do compositor cubano Silvio Rodriguez: “Vivo en un país libre,/ cual solamente/ puede ser libre,/ en esta tierra,/ en este instante/ y soy feliz,/ porque soy gigante./ Amo a una mujer clara,/ que amo y me ama/ sin pedir nada,/ o casi nada,/ que no es lo mismo/ pero es igual./ Y si esto fuera poco,/ tengo mis cantos/ que, poco a poco,/ muelo y rehago/ habitando el tiempo,/ como le cuadra,/ a un hombre despierto./ Soy feliz, soy un hombre/ feliz y quiero/ que me perdonen por este dia/ los muertos/ de mi felicidad”.

E para não dizerem que gosto só do Chico, escolhi deixar aqui uma dica para verem/ouvirem a música na voz do próprio autor, o cubano a reverenciar seu lindo país, Cuba, numa apresentação no Chile, com casa superlotada: http://www.youtube.com/watch?v=fMg67lyKMaI

Eleições 2010 (02) - Não adianta, quanto mais batem em Dilma e no presidente Lula, mais cresce sua força. Chego de uma longa viagem de 900 km de estrada e fui conferir estar ela com quase 35% à frente do candidato do PIG, o Serra (56% x 21%). Todos os jornalões procurando incriminá-la em algo ocorrido na Receita Federal, que mais parece coisa de charlatões em busca de grana e algo requentado, pois essa história é velha. Esse o tal "fato novo" na campanha de Serra. Dela, algo que se repete em todos os jornais, quando a acusam de estar calçando salto alto. A melhor resposta, quem me deu foi o jornalista Maurício Dias: "Nada mais natural para as mulheres".

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

MEUS TEXTOS NO BOM DIA (88 e 89)

OJERIZA À HIPOCRISIA - publicado no diário bauruense Bom Dia de 05.09.2010
Uma perguntinha anda me remoendo: o que move uma pessoa instruída, com conhecimento das coisas a distorcer os fatos, tudo para fazer valer suas idéias e aquilo que defende? Escrevo isso, pois recebo verdadeiros absurdos via e-mail sobre Dilma, Lula, MST, Direitos Humanos, Farc, Cuba e o socialismo. Invencionices e diabrices. Gente a defender o nefasto período militar, como se esquecessem de tudo de ruim que nos foi impingido naqueles anos é algo que trato com asco. Como defender o indefensável? Escamoteiam a história brasileira. Os mesmos fazem questão de cutucar Dilma por seu passado na luta armada. Qualquer pessoa sensata teria o máximo de orgulho de ter pegado em armas contra aquele estado de coisas. Vergonha de que? Nenhuma, pois todos tiveram muito brio, foram ousados, sonhadores destemidos indo até o limite no combate das muitas ditaduras violentas sob a benção de Washington. Entraram numa guerra e fizeram história. Nenhuma vergonha por também seguir o sonho possível da revolução castrista. Sim, Fidel e Che empolgavam boa parte da juventude mundial, afinal estava ali uma real possibilidade de ver concretizada uma experiência vitoriosa de justiça social. E Cuba continua hoje um exemplo, diante de um capitalismo falido e prepotente. Aqueles jovens estavam cansados de presenciar o povo viver na sua infinita miséria e uma minoria nadar de braçada. Foram à luta, perderam a guerra, mas deram a volta por cima e muitos são reconhecidos como verdadeiros heróis. Eles, como Dilma, fazem parte dessa galeria, com orgulho e respeito, pois não ficaram observando o barco passar. Combater preconceitos e a repugnância de gente inescrupulosa é luta constante, ininterrupta. Esses sim são o lixo da história.

BANCO DE HORAS - publicado no diário bauruense BOM DIA de 28.08.2010
Quando trabalhava com carteira assinada não gostava de fazer horas extras. Nas empresas onde trabalhei penava para recebê-las. A regulamentação trabalhista era pífia e tínhamos que ficar além da hora, mas quase nunca recebíamos por isso. O tempo passou e como tudo nessa vida, achava que as relações trabalhistas iriam se aperfeiçoar com o passar dos anos.
Ledo engano. Explodiu semanas atrás em Bauru a questão do trabalho aos domingos e a forma truculenta como as entidades de classe patronais e parte da imprensa trataram o tema. Preferiram espezinhar um vereador, o único a fazer a defesa de uma regulamentação entre as partes, como condição primordial para esse funcionamento, do que fazê-la de fato e de direito. Mostraram os dentes, garras e como agem. Por outro lado, outra questão, também trabalhista. Pagar hora extra hoje em dia é puro luxo. Praticamente não existe mais isso. O trabalhador hoje é obrigado a ir armazenando as horas trabalhadas em mais uma invenção “divinal” (seria isso coisa de Deus?) patronal, um tal de Banco de Horas. As horas trabalhadas a mais serão descontadas posteriormente. Não quando o trabalhador queira, mas ao bel prazer do empregador. Só que isso não acontece a contento e a corda continua arrebentando para o lado mais fraco. Conheço funcionários públicos com milionésimas horas para serem descontadas e trabalhadores de empresas privadas caladinhos da silva. Tudo pela manutenção do santo emprego nosso de cada dia. Ao invés de melhorar, piorou. Mas com a modernidade isso não seria resolvido? Modernizaram foi a exploração e o culpado, com certeza é o vereador. Esse não tem mesmo jeito.
OBS.: Nesses dias de véspera e de feriado aproveitei e bati as asas de Bauru. Estou desde sexta na estrada entre o Rio de Janeiro, Matias Barbosa MG e Juiz de Fora, junto de Ana Bia. Os textos vão sendo publicados nos poucos momentos onde consigo ter acesso à internet. Gosto de ficar longe dessas coisas internéticas por alguns dias.

sábado, 4 de setembro de 2010

BEIRA DE ESTRADA (07)

UM CÃOZINHO QUE VALE O QUE COME - publicado na edição 270 da Revista do Caminhoneiro - agosto 2010

Dia desses escutei uma história de caminhoneiro das antigas. Fiquei a apreciar a delicadeza do relato, feito com grande esmero por um amigo. O que mais me chama a atenção em algo desse tipo é a sua singeleza, pois traz em si a pureza do homem das cidades do interior brasileiro. Relembrar isso tudo é valorizar um estilo de vida mais simples, menos rebuscado e onde o ser humano sempre é o protagonista das ações. Enfim, chega-se a conclusão de que não é preciso muita coisa para estar diante da tão buscada felicidade.

Benedito Ramos Oliveira, ou melhor, Dito Guasca transportava algodão com seu antigo FNM (que o brasileiro popularizou como Fenemê), isso entre os anos 60 e 70, em pleno interior paulista, lá pelos lados de Reginópolis. O manuseio era feito totalmente a mão, sem auxílio de equipamentos, sempre executado por ele próprio e seu inseparável cão, o Mimoso. Tudo na força bruta, da mesma forma de domar um touro à unha. Todas as etapas envolvendo a preciosa carga eram realizadas diariamente e tendo ele como protagonista, junto de outros de sua família. Supervisionava e executava tudo, desde a chegada do algodão colhido, a colocação na carroceria, o transporte e depois o descarregamento, conferência e até o recebimento do combinado. Essa era sua vida, seu ganha pão. Vivia disso.

Quem o via na lida, com seus 60 quilos, magrinho, não imaginava a força contida dentro daqueles tesos músculos, conseguidos ao longo dos anos de labuta. Com a repetição do processo, fazia tudo já de uma forma um tanto mecânica, com pequenas alterações. Nada a alterar muito a ordem das coisas. Executava aquilo com o maior gosto e sempre acompanhado de um único parceiro, o Mimoso, personagem importante em sua vida de caminhoneiro. O cão havia sido encontrado numa das viagens e dele não mais se separou, virou amigo de todas as horas, inclusive nas andanças estradeiras de um lado para outro.

Muito esperto, como também honesto, Dito Guasca chegava a praticar o escambo, a troca de sua mercadoria por outra de sua necessidade, mas tudo dentro de certo limite de tolerância. Bom de barganha, diziam que de uma bicicleta velha, saia um caminhão, ou seja, sabia ir construindo aos poucos o seu patrimônio, como foi a história da aquisição do caminhão e de sua morada. Sabia, na verdade, é tocar a vida, feita com gosto e contentamento. Vida simples, bem vivida.

Mas tudo isso aqui foi contado só para poder chegar numa história (com H mesmo, pois é verdadeira), contada por um sobrinho distante, passados mais de quarenta anos dos fatos. Desde quando encontrou o cão, tomou uma decisão, a de sustentá-lo com um algo mais conseguido da revenda do algodão. E assim foi feito. De comum acordo com os outros negociantes, no momento da pesagem da carga, o Mimoso subia em cima da carga, já sob a balança e tudo era pesado com o animal e sem ele. A diferença era sempre pequena, mas daquele pequeno valor, saia a subsistência de Mimoso. E ele parecia entender o que estava acontecendo naquele exato momento, pois subia no alto da carga e latia em alto e bom som, sob risadas de todos. Dali saiam para comprar as guloseimas para tão dedicado auxiliar.

A rotina virou lenda por aquelas bandas, a do homem que sustentava seu cão com seu peso sob o algodão. Como nem todas as histórias possuem final alegre, num dia, num descuido nunca entendido, Mimoso desapareceu num posto de combustível. Foi do mesmo jeito que veio, de forma inexplicável. A procura foi intensa e mobilizou uma imensa legião de caminhoneiros. Sumiu na poeira do tempo. Tristeza de seu Dito Guasca, que nunca mais encontrou outro fiel companheiro de boléia como aquele. Continuou fazendo suas viagens até não mais poder e quem agora revive isso, contado que lhe foi pelo próprio protagonista, é aquele sobrinho distante, Fausto Bergocce, o ilustrador desse texto, que conviveu com seu Dito e chegou a brincar com Mimoso quando moleque. Dia desses me contou essa história num bar e nem a imaginava sendo aqui retratada. Agora está a mesma imortalizada para todo o sempre.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CENA BAURUENSE (68)

QUEREM LEVAR NOSSO PATRIMÔNIO FÉRREO NA “CARA DURA”
Gosto muito de dar um breque em tudo e escrever sobre ferrovia. Bauru vive uma situação privilegiada no quesito “possuir peças de importância histórica” nesse tema. O famoso entroncamento, as empresas, as edificações e os carros que aqui circulavam divulgaram o nome da cidade país afora. Quando da privatização, mesmo com a dilapidação, muito disso permaneceu por Bauru. Com a criação do Museu Ferroviário Regional muito foi ali reunido e logo a seguir com o Ferrovia para Todos, o restauro e funcionamento de um passeio turístico ferroviário. Muito foi feito e muito por ser feito, todos aqui sabem disso. Trabalho incessante.

E esse rico acervo sempre foi muito cortejado. Muita coisa sumiu misteriosamente da cidade. Até hoje, garimpeiros de peças são vistos, sempre de mochilas, vasculhando vagões à céu aberto e até mesmo no próprio museu. Peças somem como que por encanto. Com a febre pela implantação de novos museus e de projetos com passeios turísticos, quem possui acervo, padece pela ação de pedidos mil, muitos feitos pelas vias normais, outros inescrupulosos tentam fazê-lo na cara dura. Mesmo o acervo já catalogado é requisitado por alguns de fora, sob alegações variadas. Tentativas vãs. Carros ferroviários foram mantidos sob a guarda da Prefeitura por muitos anos e sempre ouvia-se, “esses não são daqui, são de não sei quem”. Aqui, além do acervo, a sede regional da concessionária ALL e de um escritório remanescente da extinta RFFSA. Esses são procurados para dar aval a remoções variadas. Tenta-se de tudo e cai na conversa quem quer ou tem disposição para isso. Em 2007, na adminstração anterior da Prefeitura, o secretário de Cultura Vinagre e eu, então Diretor de Proteção ao Patrimônio, recebemos visita de Fábio S. Barbosa - Coordenador de Turismo Ferroviário da Secretaria Estadual de Turismo para falar sobre essa retirada dos vagões. Vinagre oficializou a rejeição bauruense e os carros permaneceram por aqui. Depois ficamos sabendo que Fábio era dos quadros da ABPF, que hoje continua por trás de tudo.

O projeto Ferrovia para Todos encontra-se num momento de revitalização com a chegada de verba para restauro de pelo menos cinco carros e a APFFB – Associação de Preservação Ferroviária e de ferroemodelismo de Bauru está agilizando e viabilizando a criação de algo grandioso, a criação do maior museu férreo da América Latina, o Museu do Trem, só com carros estáticos, em permanente exposição e outros em passeios turísticos. Tudo aquilo que é visto hoje na cidade de forma um tanto incômoda está prestes a ter outra condição. Um "boom" está prestes a ocorrer e sabendo disso, muitos país afora começam a se mexer para tentar retirar algo daqui. Pela união existente entre todos os envolvidos com a questão, isso se tornou cada vez mais difícil, praticamente missão das mais ingratas. A cidade está se unindo na defesa do que é seu, por direito e de fato.

Nessa semana, dois fatos desagradáveis. No primeiro funcionários da CPTM paulistana vieram aqui preparar carros metálicos, localizados na gare da Estação Central, com o intuito de removê-los. Com a ação imediata de um grupo de pessoas e instituições, foram rechaçados. Num outro, um grupo de oito pessoas circularam no museu e na Inventariança da RFFSA com o intuito descarado de levar peças expostas no museu. Tudo no mesmo dia. A imprensa noticiou com alarde e a atenção foi redobrada. Quem pagou o pato foi o engenheiro Ricardo Bagnato, um dos baluartes na questão férrea e membro do CODEPAC, AFPFB, Conselho de Cultura, Amigos dos Museus e Museu do Trem, pois pondo a cara para bater, está recebendo ameaças veladas vindas por e-mails e pelo seu celular. Ameaças infrutíferas e desnecessárias. Bagnato não está só e como ele, outros tantos, com a mesma disposição de defender e lutar pelo que é nosso. Para sentirem o clima de como está sendo feito o tratamento dado à questão nas chamadas “listas ferroviárias”, que circulam pela internet, publico nos comentários alguns deles e conclamo a todos os interessados a se unirem em prol da defesa desse patrimônio. Os próximos passos estarão sendo relatados por aqui.

OBS.: Vejam a reprodução do cartaz do III Encontro Histórico Ferroviário e de Ferroemodelismo de Bauru, uma iniciativa da APFFB, apoiada pela cidade toda. Bauru respira ferrovia e continua muito antenada com esses assuntos. Aqui a coisa é mais séria do que se imaginam por aí afora. Sem documentação e sem diálogo, retirar peças daqui, só escondido. E os cuidados foram redobrados.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

PRECONCEITO AO SAPO BARBUDO (27)

DILMA: QUANTO MAIS BATEM NELA, MAIS ELA CRESCE, JUNTO DO PRECONCEITO
A internet tem se mostrado uma fonte de recalcados e gente a fazer qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) para tentar reverter o que o eleitorado brasileiro já decidiu, ou seja, não mudar em time que está ganhando. Dilma tem consolidado não só sua eleição no 1º Turno e com o aumento da diferença de votos, minando a reeleição de candidatos conservadores, comprometidos com o que defende a dita oposição de PSDB/DEM/PPS/PP. Tenho recebido verdadeiros absurdos pela internet e vou postar alguns aqui para demonstrar a quantas andam a insanidade. É de assustar, ainda mais quando noto pessoas que sabem estarem passando mentiras deslavadas como se verdades fossem. E o fazem com a cara-de-pau, omitindo a sacanagem mais do que explícita. Em vermelho, o que recebo e em azul, o meu comentário. Vejam alguns exemplos:

1. “VOCÊ GOSTARIA QUE NOSSO PAÍS FOSSE GOVERNADO POR UM SACERDOTE DO SATANISMO?SABEMOS QUE A CANDIDATA DO ''PT'' ESTÁ COM CÂNCER, SE ELA FOR ELEITA E VIER A FALECER, QUEM SERIA O PRESIDENTE? O MICHEL TEMER! O MESMO QUE HÁ ALGUNS MESES ATRÁS MANDOU UM E-MAIL Á DR. NEUZA ITIOKA TECENDO AMEAÇAS CONTRA A IGREJA DO SENHOR JESUS. VEJA O QUE ELE DIZ NO E-MAIL ENVIADO PARA ELA:
Estamos numa guerra espiritual violenta, hoje ganhou como presidente da Câmara o deputado Michel Temer, e como presidente do senado o senador José Sarney, ambos satanistas.... Michel Temer é sacerdote do satanismo, alguns devem saber que ele é pai do Daniel Mastral, aquele ex satanista que se converteu e depois escreveu o livro Filho do Fogo (e que foi ministrado pela Neuza naquela época). ** Após o ocorrido com a igreja Renascer, Michel Temer, mandou um recado, Dra. Neuza (que já foi ameaçada de morte por ele) ela que nos passou na reunião o recado que dizia assim: "Se vocês pensam que o que ocorreu foi erro de engenharia, vocês estão enganados, isso foi apenas o início da profecia.... Eu era Apenas um mortal, mas Leviatã esta de volta e com ele assumirei o trono, iniciaremos agora guerra a todos ministérios e igrejas de batalha espiritual..." Ele como eleito assumiria a presidência. Resumindo ele se referiu que o ocorrido foi algo organizado pelos satanistas,ocorreu isso no dia 18, houve 9 mortos e 117 feridos, eles trabalham com o numero cabalístico 9. É difícil aceitar, mais isso é fato!! **É claro que satanás não pode fazer nada se não dermos combustível a ele, ministérios e igrejas com brechas ficam vulneráveis a receberem esses ataques, e todos sabemos, infelizmente, o que acontece na adm desta igreja.
Kassab que juntamente com Sarney, Temer, Dantas e Dirceu, também é um deles, e Kassab já declarou em entrevista após esta tragédia: Já fechei 47 igrejas e continuarei a ser rigoroso, se precisar fecharei mais! Deus é Soberano, mas temos que fechar as brechas, Ele vai avisando antes, para haver arrependimento, levanta seus profetas para avisar, não havendo mudança sua proteção saí. Barack Obama em seu segundo dia de reinado exportou a todas as nações milhões de dólares p/ ajudar os abortistas. Ele é a favor do aborto e do homossexualismo, seu reinado será parecido com o do rei Acabe, cheio de sacrifícios de crianças e isto traz mais maldição aquela nação, verdadeiros crentes americanos estão tristes e assustados. A perseguição está ás portas, é tempo de toda Igreja orar, se humilhar, se arrepender para darmos bons frutos e levantarmos muros de resistência e estrutura contra o inimigo, fechar as brechas e se purificar!!
DEUS TE DEU O VOTO COMO UMA ARMA! NÃO SE OMITA DO QUE ESTÁ ACONTECENDO. NÃO SEJA COVARDE! QUEREM CALAR A NOSSA BOCA. A BÍBLIA DIZ QUE AS PORTAS DO INFERNO NÃO VÃO PREVALECER CONTRA A IGREJA. MAS A IGREJA PRECISA PARAR DE SER OMISSA OU VAI SER DERROTADA. USE O QUE DEUS TE DEU, FECHE AS BRECHAS. ENCAMINHE ESSA MENSAGEM PRA TODOS AQUELES QUE VC AMA. SE VC QUISER PROVAS DE QUE O MICHEL TEMER É SATANISTA E TAMBÉM MESTRE MAÇON É SÓ ENTRAR NO YOU TUBE E DIGITAR ''MICHEL TEMER MAÇONARIA'' QUE VAI APARECER UM MONTE DE VÍDEOS DELE. VALE LEMBRAR QUE A MAÇONARIA E O SATANISMO SÃO ENTRELAÇADOS!!! EXISTE UM PLANO SATÂNICO POR TRÁS DESSA ELEIÇÃO. VC TEM UM COMPROMISSO COM O REINO DE DEUS DE NÃO DEIXAR ISSO ACONTECER. OBS: ISSO NÃO É POLITICAGEM,É REALIDADE! QUE DEUS TE ABENÇOE E TE DÊ CORAGEM!! Um abraço do José Carlos”.
Esse é longo, mas representa bem a mediocridade e pequenez humana. Será que todo religioso, todo crente pensa dessa forma reduzida e simplista? A igreja já foi mais inteligente e tratou de assuntos mais relevantes. Esses a defenderem e acreditarem nisso, tenho pena e repugnância. Merecem mesmo o inferno!

2. “IMPRESSIONANTE A PROFECIA DO GENERAL MOURÃO FILHO (1900 - 1972): O General morreu em 1972, portanto NÃO conheceu Lula, mas veja como ele foi profético quando escreveu em seu livro”. Ao lado o recorte do livro publicado com a baboseira. Será que esses ignóbeis ao menos sabem quem foi o tal de general Mourão? Sabem nada. Esse é aquele que foi chamado de “vaca fardada”, que deu o início do golpe militar de 64, vindo com as tropas de Minas para o Rio. Um que depois a linha dura dos militares acabaram por ignorá-lo.
3. “Vá até o fim, e encontre uma pequena surpresa! Mas, antes, você saberia dizer de onde são as fotografias abaixo? Role as imagens até o fim, para descobrir, e para, então, ler uma lei recentemente sancionada !”. Primeiro enviam esse texto com umas fotos de um bonito lugar, depois mais um texto: “Conseguiu adivinhar? Não? Pois é, são fotos da Faixa de Gaza. Agora, enquanto o Brasil não tem dinheiro para aposentados, para colocar um leito num hospital público, etc., veja a lei que o Presidente Lula sancionou recentemente. Quem paga isso? O contribuinte com seu imposto de renda. Seria engraçado se não fosse trágico, não é verdade? Brasileiros precisando de tanto e este IMBECIL fazendo doações para outros países que, possivelmente, têm mais do que o Brasil... Tudo para promover seu próprio nome como. GRANDE ESTADISTA... Que piada ! ! !”. Esses querem nos ver isolados do resto do mundo e agindo igual ao Grande Irmão do Norte, como imperialistas. São umas bestas quadradas.
4. “Não é montagem: Olhe o livro debaixo das mãos dele!!!”. A montagem é grosseira, mas mesmo assim as repassam, tentando enganar a quem? Com que intuito? A serviço de quem? Na maioria das vezes, fazem isso por se prestarem a fazer um serviço sujo, para alguns e nem sabem direito porque o fazem. Acham bonito e com certeza, são tão pobres e miseráveis como a maioria do povo, mas possuem os mesmos interesses de outra classe social. Mediocridade pura!
5. “Apelo do povo brasileiro ao goleiro Bruno. BRUNO, POR FAVOR, ENGRAVIDA A DILMA!!!!!! Depois leva pro sítio e entrega pro Macarrão”. Essa é a fina-flor do reacionarismo e da insensatez. Imagina alguém normal produzindo uma peça dessas. Pegaram uma foto de uma manifestação qualquer e de uma forma amadora inscreveram lá o que vocês lêem. Estão a pregar o que? Acredito só numa coisa bem simples. Com certeza, são da mesma laia que o tal do Bruno. Não valem nada. Deixo para finalizar com um recado para os que são opositores à Lula, Dilma, MST, Reforma Agrária, Direitos Humanos, Avanços Sociais, etc. Critiquem, cutuquem, façam oposição, mas com argumentos e preparados para o debate, pois da forma como estão se apresentando, bato em todos com uma simples chinelada. Ploft! Não dá nem graça.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (13)

GALVÃO DE MOURA, DUAS CARTAS, A SAUDADE DO FILHO E DESTE ESCREVINHADOR
Abro o JC de segunda, 30/08 e lá uma grata surpresa. Na Tribuna do Leitor uma carta de um filho reverenciando o pai, era Cacau, Carlos José Galvão de Moura, versando sobre a passagem de mais um aniversário do pai (completaria em 30/08, 72 anos), José Carlos Galvão de Moura, ou simplesmente Galvão de Moura como o chamávamos e ele era anunciado nos programas de rádio que comandou. Ao ler o texto da carta do Cacá, bate uma saudade do rádio esportivo feito antigamente em Bauru e o atual (o que mais ouço hoje é o Rafael Antonio, do Jornada Esportiva), um arremedo. O nome do Galvão está associado a um livro, um que verdadeiramente retrata a vivência do nosso glorioso Noroeste (hoje, 01/09, comemorando seu Centenário – junto do Corinthians), o “Onze Camisas Futebol Clube” (ganho dele o texto novo do livro, via e-mail e ouço a intenção da republicação de uma 2ª edição ainda este ano). Anos atrás, quando minha irmã, Helena, tinha uma casa alugada na imobiliária de propriedade do Cacau, a Adlar, indo até lá para saldar uma conta, ele me chamou num canto e me mostrou uma carta minha, escrita a mão, que havia escrito para o Galvão pai. Na época, também escrevi uma carta reverenciando Galvão, enviando-a para o diretor da rádio FM Unesp, professor Antonio Carlos de Jesus e este a manteve fixada num mural da rádio por algum tempo. Numa outra, datada de 14/09/1990, escrevo direto para o Galvão agradecendo-o por manter um programa como o “Conversa de Botequim” no rádio bauruenses. Hoje disponibilizo aqui, junto a outra carta, essa para o JC, datada de 19/11/1990, quando soubemos que havia adoecido e afirmei ser ele um lírico. Fiz uma brincadeira com a riqueza possibilitada pelo seu sempre radiante humor diante do microfone. Galvão é daqueles a fazer uma falta danada, não só para os familiares, mas pelo jeito como exercia o trabalho na rádio. Depois dele, o seu “Samba e Bola” e o "Conversa de Botequim", na Auri-Verde tiveram a apresentação do Cacau por um ano e outro da mesma cepa, José Esmeraldi, um que não agüentou o que presenciava por ali, ou seja, os bastidores da Auri-Verde e bateu asas, hoje criando um espaço só seu, na internet. Depois disso os programas morreram, permanecendo no imaginário daqueles que viam ali a certeza de que o domingo sempre era muito mais alegre antes dos jogos com programas naquele estilo no ar. Galvão é tudo isso que o Cacá escreveu e um pouco mais. Assino embaixo. Hoje é o centenário do querido Noroeste, mas resolvo não escrever nada sobre o que acontece lá pelos lados do Alfredão. Sou mais a história vivenciada por Galvão, do que muito do que miseravelmente está sendo esquecido pelos detentores da caneta do time (clube deixou de existir faz um tempo) nos tempos atuais. Mas eu continuo gostando demais do "vermelhinho", ou melhor, da "locomotiva vermelha".

AO MESTRE, COM SAUDADE! – Publicado na Tribuna leitor JC, 30/08/2010
Hoje, 30 de agosto, aniversário do Galvão, “José Carlos Galvão de Mouraaaaa”, parece até que estou ouvindo a vinheta da Auri-Verde e mais um “Samba e Bola” está começando em outro domingo. E quanta saudade... Meu Pai foi um homem maravilhoso, que viveu a vida em sua plenitude, intensamente sob todos os aspectos. Curtia como ninguém os grandes e os pequenos momentos e se entregava de corpo e alma a tudo aquilo que fazia.

O Galvão, cuidando de seus passarinhos e conversando com cada um deles com extremo carinho, o ferroviário aposentado e triste com a visão daquele que participou da ferrovia dos áureos tempos e via sua degradação absurda, o noroestino apaixonado, era todo coração, o samba cantado por Noite Ilustrada que fazia parte do som que se ouvia em casa quase todos os dias, suas pescarias, seus amigos, a vida deveria ser vivida e encarada da mesma forma que ele, com imenso prazer.

O rádio, esse veículo maravilhoso e apai-xonante, me deu a oportunidade única de poder estar mais perto de meu Pai, de alguma forma mantendo vivo seu nome na lembrança daqueles que o conheceram e o acompanharam. Das heranças que me deixou, o valor da amizade verdadeira e retidão de caráter certamente são as mais valiosas. Pena que o tempo nos foi tão pouco, mas é certo que um dia nos encontraremos novamente. “Eu sei que você sabe, já que a vida quis assim, a distância não existe e todo grande amor, só é bem grande se for triste”. Sigo meu caminho pedindo a Deus que um dia consiga conquistar de meus filhos a metade do amor que sinto por você, seria realmente uma grande vitória. Parabéns, meu Pai, que saudade!
Carlos José Galvão de Moura - Cacau


Leia também no site: http://www.jcnet.com.br/detalhe_tribuna.php?codigo=190493
OBSs: 1) Como deu para perceber, adorava escrever cartas à mão. Para lê-las em tamanho grande, clique em cima de cada uma. 2) Hoje, 01/09, é o Dia do Centenário do Esporte Clube Noroeste e do Sport Club Corinthians Paulista, ambos nascidos no mesmo dia e ano. Do Corinthians, do qual também torço, nada além desse registro, do Noroeste, a paixão de infância que se perpetuou, presto minha homenagem escrevendo sobre o Galvão, um radialista que aprendi a gostar quando jovem. Ele foi um dos responsáveis por gostar demais dessas "onze camisas" noroestinas. 3) Adorei os cadernos sobre o Centenário, distribuidos pelo Jornal da Cidade (impecável) e Bom Dia. Guardo ambos.