segunda-feira, 4 de maio de 2026


CRÔNICAS CAPIXABAS (01)
O HOMEM QUE VEIO CONVERSAR COMIGO NO CAIS VAZIO, MANHÃ DE SEGUNDA

Ana saiu bem cedo do hotel, antes das 7h30. Tinha seus compromissos na Universidade Federal Capixaba. Me deixou após o café da manhã com lista de afazares para a manhã. Algumas faço, outras postergo e ao botar os pés pra fora, na imensidão de uma Vitória para ser devidamente desvendada, tempo nublado, ameaçando garoa. Isto não me impede de botar o bloco na rua. Quero andar, conhecer detalhes, primeiro do entorno aqui de onde ficaremos até sexta, depois alcançar outras paragens. Saio sem rumo, querendo me perder. E me perco mesmo, uma delícia.
Desbravo o bairro, subo e desço ruas, assunto sobre lugares. Caímos aqui num hotel, um Íbis, num bairro dito aqui como o Leblon capixaba. Ótimo, porém, por aqui verei um tipo da espécime humana e querendo ver outras, tenho que ir pras rebarbas do lugar. É o que faço. Percorro os lugares, encostas onde o mar faz divisa com as ilhas. Descubro uma colônia de pescadores e ao lado, um mangue. Nele, de um lado casas e pontos comerciais mais bastados e junto, a convivência com o que ainda resta de moradia e ponto de trabalho de pescadores. Vi alguns deles ainda jogando suas redes, outros reunidos numa casa de abrigo.
Vejo que a Prefeitura de Vitória, junto do governo estadual está com uma grande obra aqui na Praia do Canto, com passarelas sobre a água, dos dois lados. Circulei por ela, ainda inacabada e achei fantástico, pois se transformará em breve num grande atrativo turístico. Olho para os lados, princiupalmente para baixo, o que acontece dentro da água e me preocupa o que será feito dos pescadores e do que ainda resta da colônia deles. Pelo que deu para sentir, estes representarão o "feio", quando tudo for transformando em "bonito".
Circulando por ali, quase ninguém no local, fiquei preocupado e num certo momento, percebo um senhor, mais que idade que a minha, morador da cidade e depois me conta, estava ali para consulta médica nas imediações e veio observar o adiantado da obra. Se aproxima e puxa conversa. Nos identificamos um ao outro e seguimos juntos pelas passarelas já concluídas. Lá embaixo, no braço de mar, muitas pequenas embarcações e alguns pescadores. Pergunto se sabe algo destes, se continuam ganhando a vida com a pesca. Sua resposta me surpreende:
- Fazem quase nada. Ganham o salário que o Governo Federal lhes garante. Pescam cada vez menos. E ocupam moradias aqui ao lado, algo que, quando tudo isso ficar pronto, com certeza, deverão ser removidos para longe.
Essa mentalidade perdura e é a que prevalesce na cabeça do lado mais conservador da nação. Digo a ele que, os pescadores chegaram primeiro e precisam ter seus direitos garantidos. Sua resposta é o que está sendo repetido por bolsonaristas e entreguistas de uma forma geral:
- Olhe para essa obra. Isso aqui será um point turístico. Não vai ter como conviver com estes, pois impossibilitarão o lugar de atingir o objetivo da obra, que é trazer gente pra ver o braço de mar. Falam até em elevar os viadutospossibilitando ambarcações maiores e quand otudo pronto, não dá para imaginar estes barquinhos velhos e estes pescadores por aqui. Vai ser inevitável.
Converso mais e me conta de sua família, tradicional na cidade, com ramificação no Pará, onde chegaram nos anos 70, fundaram uma cidade, a dominando até hoje. "Os meus por lá são durões. Deram a terra pra eles, se estabeleceram e as terras da cidade são deles. Dominam e não são de brincadeira. É assim que tem que ser a coisa. Os meus revolucionaram o lugar no Pará onde se estabeleceram e é assim que tem que ser. Aqui vai ter que tudo ser resolvido da mesma forma", me diz.
Fico estarrecido e não querendo criar atrito, num lugar ainda isolado, me despeço e saio ruminando comigo mesmo: para certo segmento conservador deste país, o pensamento e a ação é exatamente essa, truculência e o progresso na base do braço forte, o que não enxerga direitos adquiridos e só leva em conta, o de quem detém o braço forte, armado e destruidor. Destruidor para mim, razão de progresso para estes. O Brasil, está diante deste dilema, presenciado hoje por mim. Ganhando o lado deste senhor, mais uma vez será abortado, estancado, calados interesses e a causa popular. O resultado dessa eleição é também uma resposta para como será conduzido o Brasil daqui por diante.

ESTARIA FICANDO VELHO - CREIO JÁ O SER -, OU TUDO AGORA É ASSIM MESMO?
Enquanto Ana Bia trabalha, eu flano, percorro as muitas ilhas de Vitória-ES, e nas andanças, meio da tarde, uma vontade louca de chupar um mero sorvete. Adentro a famosa sorveteria CHIQUINHO, também com franquia no Bauru Shopping. Escolho uma aqui perto do hotel, na Praia do Canto e para minha surpresa, não existe mais aquele balcão com aquela exposição de todos os sabores disponíveis. Aqueles todos que te fazem ficar um tempão escolhendo qual irá chupar. Olho para os lados, percorro a sorveteria toda e nada. Pergunto e o atendente me diz que agora é tudo virtual. Oferece o cardápio, onde tudo ali exposto, sem os tais sabores diversificados. E a compra também, como no meu caso, feita através de cartão, não pode ser feita diretamente com o balconista e sim, somente através de um painel, onde o principiante fica todo confuso. Ele saca e vem me ajudar. Tecla um monte de botões e finalmente me vejo diante de colocar meu cartão, teclar minha senha e aguardar ser chamado, para me levantar e vir buscar o pedido no balcão. 

Fiz tudo certinho, como mandava o figurino, mas me vejo prejudicado, pois o tal pedido feito foi algo já com sabor definido, sem opção de escolha. Ou seja, nem tomei conhecimento da existência de sabores variados e múltiplos. Creio eu, isso não seja privilégio da CHIQUINHO, mas de algo dessa transformação destes novos tempos, onde tatear, ver, cheirar a coisa a ser consumida não mais será possível. Daqui por diante, este o sinal, tudo feito através de teclados e daí, o pedido lhe chegando através de uma boqueta, que abre-se e lá o pedido ponto. Pior, sem direito aquele tradicional "chorinho" bem brasileiro. Não sei se isso é a tal "modernidade" batendo às nossas portas, mas sei que, na qualidade de senhor com 65 anos, gostaria de continuar saboreando a vida com aquela pitada de como tudo foi feito até o presente momento. Será que isso não vai mais ser possível daqui por diante? A verificar...

NUM DIA 4 DE MAIO, 6 ANOS ATRÁS, O MUNDO SE DESPEDIA DO MAIOR LETRISTA QUE CONHECI, ALDIR BLANC
"Bom dia a todos! Em 4/5/2020, o Brasil perdia Aldir Blanc, um letrista, compositor, cronista e médico brasileiro. Abandonou a profissão de médico para tornar-se compositor, sendo considerado um dos grandes letristas da música brasileira. Em 50 anos de atividade como letrista e compositor, foi autor de mais de 600 canções.", Cláudia Costin.

Escreveria horas dele. Agora mesmo, passa um filme na minha cabeça. Sinto uma falta danada de de um cronista como ele, João Antonio, Lima Barreto, Rubem Braga, Clarice Lispector, Plinio Marcos, Marcos Rey, Machado de Assis, Erico Verissimo e seu filho Luiz, Jorge Amado, Eduardo Galeano... Reler estes todos me mantém ainda vivo. HPA

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