sexta-feira, 8 de maio de 2026


CRÔNICAS CAPIXABAS (05)
DAVI ENCONTRA UM NOVO AMIGO PARA SEUS DIAS NA PRAIA DO CANTO, MAIS UMA BOA EM BUSCA DO ALIMENTO DIÁRIO

DAVI, o catador de reciclados, morador em situação de rua, um que o vejo todos os dias pelas manhãs, pois marca presença ao lado do hotel onde estou hospedado aqui em Vitória, revirando o lixo do mercado Tuti Fruti, em busca de alimento para começar o dia e juntar reciclados, principalmente papelão e latinhas de alumínio. A partir de hoje ele ganhou mais um amigo e mais uma boca para alimentar junto aos seus.
Sua labuta começa bem cedo e ele já sabe, bate cartão, defronte a unidade da Praia do Canto, entre 6h30 e 7h, quando são colocadas na rua o lixo do dia anterior do mercado. O caminhão do lixo passa por volta das 8h e ele, junto a outros precisam agir rápido. Ontem, o mercado disponibilizou para eles algumas melancias, ainda boas, mas não para serem vendidas aos clientes. Eles se refestelaram ali na calçada antes de juntar os reciclados. A cada dia algo novo, dentre os itens que o mercado não pode mais deixar nas prateleiras. Tudo vai pra calçada e outros como Davi, cientes dos horários e dos procedimentos, amanhecem por ali.
Davi vinha hoje com sua bicicleta, seu único bem de sua propriedade e num trecho, um cãozinho latindo muito, fome e abandono. Ele pára, pega o bichinho, coloca dentro do suporte frontal e segue seu caminho. O bichinho é arisco e não quer ficar ali. Ele arruma uma caixa de peras ali na calçada e o deixa em lugar seguro até conseguir algo, tudo no lixo, para ele e agora o mais novo amigo comerem. E assim foi feito, pois logo em seguida, numa pausa do seu trabalho, vejo os dois enfronhados em comer algo.
"Como poderia passar pela rua e o vendo chorando, passar batido. Parei e o trouxe junto. Fome ele não vai passar. Vai ser meu companheiro nas andanças. Logo estará acostumado e tenha certeza, terá muito amor, pois gosto muito de animais. Eu o vi, lindinho, pretinho, já fui com a cara dele e ele com a minha", me diz. Davi me conta morar num barraco, perto de um braço de mar e percorre boa parte do bairro em busca de algo para fazer o dinheirinho de sua sobrevivência. E é claro, também o que comer. "Sou forte, tenho disposição e garra. Sem emprego, me viro como posso e estou toda manhã aqui no Tuti Fruti, onde já sou conhecido. Sempre encontro o que comer aqui e muito reciclado", conta. Essa sua labuta diária, inclemente, dia após dia e ao observá-la, fui até ele, conversamos e pedi permissão para fotografá-lo e lhe fazer algumas perguntas. Torço muito para um dia, isso tudo que vemos pelas ruas, sofra uma transformação e situações como a do Davi não mais aconteçam. Davi é uma das caras da resistência, calada e invisível deste país.

CRÔNICAS CAPIXABAS (06)
BANCA DO JAPONÊS, REDUTO DE RESISTÊNCIA, A MAIOR E MASI MOVIMENTADA BANCA DE JORNAIS E REVISTAS DE VITÓRIA-ES

A Banca do Japonês funciona na avenida Pressot, Praia do Canto, bairro considerado em Vitória-ES, como uma espécie de Leblon capixaba, há mais de 40 anos. O Japonês que deu nome a ela já se foi e em seu lugar outro resistente jornaleiro toca e barco, sem pensar em fechar as portas e deixar de fazer o que fez boa parte de sua vida. Neste mês em especial e nos próximos, um movimento bem acima do normal, tudo devido a venda das figurinhas da Copa do Mundo, alento para toda a classe dos jornaleiros, cada vez mais desalentada.
Passo pela sua frente durante alguns dias e paro para observar como ainda resiste e persiste a vender jornais, os daqui e alguns do Rio de Janeiro, além de todas as revistas, nacionais e importadas. Hoje não resisti, quando passei percebi o movimento um tanto arrefecido das figurinhas, fui até o senhor detrás do balcão, ele se dirige a mim: "Em que posso lhe atender?". Estendo a mão e lhe digo ser turista, estar a semana toda rodando Vitória e não encontrei outra banca em toda a cidade igual a dele. Pergunto se é hoje a maior em movimento.
Ele sorri, agradece o elogio e diz que, até antes da pandemia tinham outras com mesma característica, mas depois, a dele resistiu e viu a maioria fenecer drasticamente. O mesmo quadro se repete país afora. Rodei mesmo e só não adentrei shoppings, pois não vim aqui para isso, mas em todos os demais lugares, nem no aeroporto, existe outra igual a dele. Isso sim pode ser denominado como "Herói da Resistência" ou mesmo "O último dos Moicanos". Digo a ele que, este país é mesmo estranho, pois com a pandemia, deveria ter acontecido exatamente o contrário, aberto mais bancas, pois as pessoas tiveram mais tempo para ler. Coisas do Brasil e do mercado de papel impresso, já vivenciando uma crise mundial acima de qualquer expectativa e projeção.
O fato é que, ele - que esqueci de perguntar o nome -, continua foirte e rijo. Nos próximos meses, como vi pela fila de interssados nos tais álbuns e figurinhas da Copa, sua situação será boa, mas depois, como me conta, seguirá navegando. "Tem revistas como a revista piauí e a CartaCapital, que mesmo em bancas outras, não mais disponíveis. Por aqui, tem um público cativo, pequeno, mas como a própria banca, ainda seguindo acreditando nos que gostam de ler as notícias no modal papel. Tem também os que passam para conversar e dono de banca tem que ser também bom de prosa, pois assunto por aqui tem de tudo. Não sei até onde conseguirei ir, mas não penso em abandonar o barco. Meu negócio é este aqui e ladeado com boutiques, mercados, padarias, bares e afins, nada como uma banca para continuar dando o toque intelectual pra coisa", conta.
Escrevo e publico este texto sobre bancas e jornaleiros em homenagem a Ilda Viegas, outra resistente, a da banca defronte o Aeroclube Bauru, outra que, assim como a Banca do Japonês, continua tocando seu barco tentando vender jornais e revistas. Resistem como podem e só por causa disto, merecem todos os apupos deste mundo. Quando olho para qualquer banca ainda aberta, me derreto todo, como fiz com a aqui capixaba.

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