sexta-feira, 18 de março de 2016

MEMÓRIA ORAL (194)


BAURU RESISTE E O ALGO MAIS DO SHOW DE CHICO CESAR
Ontem, após a direitona ter canibalizado o país durante o dia, uma parte consciente de bauruenses foi para o SESC presenciar o novo show de CHICO CESAR, o "Estado de Poesia". Tudo transcorria normalmente, belo show, mas o artista um tanto macambúzio, quieto, arredio. Eis que do meio da multidão, assim como quem não quer nada, uma intrépida faixa com dizeres em vermelho é alevantada: "NÃO VAI TER GOLPE". Segurando numa das pontas esse HPA e noutra Claudio Lago, com alguns revezamentos feitos ali na hora. A reação foi imediata, recheada de muito calor humano. Fomos rodeados por gente até então desconhecida, todos querendo nos proteger e nos apoiar. Foi constituída uma espécie de cordão de proteção, coisa com imenso calor humano e todos ávidos por reagir à insanidade vista nas ruas.

Um moço gaúcho, cinco meses de Bauru, surge do nada e nos abraça com palavras carinhosas: "Quando sai de casa estava pensando em fazer algo aqui. Pensei em no meio do show gritar bem alto o Fora Golpe. Estava pronto para fazê-lo, mas quando me dei conta ali pertinho de mim, dois de gerações bem antes de mim já o faziam com uma faixa. Vim abraçá-los e me resignar diante da atitude de vocês. Nós, os gaúchos, lá no Sul, quando presenciamos algo assim, uma aula dada por alguns com mais experiência que a gente, em forma de agradecimento, chegamos perto e lhe dirigimos uma palavra de agradecimento: vocês são verdadeiros galos véios".

Ele não foi o único. Chico continuou seu show normalmente. Cláusulas contratuais impedem que os artistas tomem partido durante os espetáculos. Ele, na qualidade de artista já havia se manifestado contrário do golpe, algo contundente e muito mais do que uma mera marcação de posição. Chico é um militante, mas estava ontem a fazer um show e manteve a fleuma. Sua resposta veio na forma mais alegre como seu show se desenvolveu dali por diante. Evidente vê-lo mais alegre, vibrante. A nossa faixa foi levantada quando ele cita o poeta Torquato Neto e seu trabalho de resistência, morrendo tão cedo, mas com um legado tão grande. Foi o momento da faixa ganhar os ares. A partir daí só desceu para descanso dos que a empunhavam e para bailar ao som inebriante de o “bis”, com uma bela música contra a bestialidade do agronegócio e depois um poutpourri (dentre elas Vandré e o Pra não dizer que não falei das flores) que, percebíamos ele estendeu o quanto deu.

O único incidente se deu com um dirigente cultural da cidade, isolado e de forma intempestiva, desce e esbraveja junto à faixa. Pegou mal, gritou, mas não notando reação nenhuma favorável, vendo-se sozinho, puxado pela companheira, foi soltar os bofes em outra instância. Foi o ponto nevrálgico da noite, para a partir daí, crescer e se solidificar o agrupamento em torno da faixa. Uma servidora do Fórum se aproxima de diz: “Estava arrasada hoje, pois onde trabalho é um reduto muito conservador. Ouvi piadinhas o dia todo, me aquietei e quando vi a faixa e a reação da massa me aproximei e digo a vocês: estou de alma mais do que lavada. Vocês salvaram meu dia. O Chico é ótimo, tem um lindo posicionamento de vida e seu show ganhou um encantamento a mais com o ocorrido”.

Num certo momento do show, ao final de uma música, alguém puxa o coro: “Não vai ter golpe”. A cantoria seguiu em frente, cantada por muitos e encheu o ginásio de algo como se fosse um grito de resistência. Os músicos deram uma parada no som e com palmas o refrão foi ouvido por intensos e vibrantes minutos. O show continuou mais alegre. Uma simpática militante social da cidade se aproxima e diz: “Que bela ideia. Vocês estão de parabéns”. Por outro lado, um casal se aproxima de nos diz: “Ficamos muito contentes por vocês terem tido essa ideia e mais ainda pela reação do público. Perceba daí, como ninguém está indiferente e todos querendo participar desse momento”. De uma outra, uma palavra triste, de como está se processando a reação individual de cada um: “Tomara, meus caros, não ser esse aqui o último show ainda dentro do estado de direito, com democracia, pois o insuflado nas ruas é por coisa muito ruim”.

No final do show, mais um grito de “Não vai ter golpe”, ecoando por vários minutos pela quadra esportiva. Uma fila se forma na entrada do camarim para as fotos e autógrafos com o artista. O grupo da faixa fica para o fim e é recebido pelo músico. Muitas fotos, autógrafos e a faixa é estendida detrás de todos. Todos vão conversar com o dirigente do SESC, explicar dos motivos do ato, da necessidade do posicionamento e sempre deixando claro, tudo ter sido feito sem nenhum tipo de anuência com ninguém da instituição SESC e sim, movida pelo momento político e da necessidade de, numa rara oportunidade como a com um show com um artista engajado nas necessárias transformações sociais que esse país continua precisando, tudo surgiu de forma espontânea. Foi o coletivo não conseguir se segurar nas calças.

Todos vão para a calçada e lá mais uma rodada com muito bate papo, com pessoas ávidas por conversar e marcar posição contrários ao golpe em curso no país. Ninguém parecia querer ir embora e o papo foi se prolongando, os portões de fecharam por completo, luzes apagadas e muito ainda por ali. Para onde ir? Onde continuar querendo entender o que de fato está a ocorrer com esse país? Decisão coletiva de ir para o Empório São Lourenço e lá continuar um bocadinho mais da conversa. E, por incrível que possa parecer, o grupo chegou, bebeu, comeu, conversou muito e arrebanhou muitos interessados em nossas conversações. Saímos todos convencidos de que a unanimidade proposta pelas ruas, com um só lado querendo impor sua pauta nunca foi a solução para o país. Estamos diante do caos advindo de um monstrengo sendo parido nas entranhas mais esquisitas desse país ou a continuidade desse país com seu ordemamento constituído e soberano. Façam suas escolhas?

Viva Chico Cesar!!!

3 comentários:

Antonio Picioli disse...

preciso de um contato com pai Evandro de Ogum e nao encontrei nenhum e-mail então resolvi postar por aqui pra ver se pode me ajudar.
apicioli@gmail.com

Mafuá do HPA disse...

CARO ANTONIO
Tente ir na rua Milton Dias de Carvalho 3-25 no Tangarás Bauru SP
fone 981222695

Henrique - direto do mafuá

Antonio Picioli disse...

muito obrigado tentarei o contato