sábado, 30 de abril de 2016

RELATOS PORTENHOS / LATINOS (25)


1.) UMA HISTORINHA LATINA ANTES DE DORMIR
Já estava quase dormindo, mas tive que voltar e deixar aqui registrado algo que ouvi hoje a tarde lá na descida em silêncio do bloco farsesco, burlesco e algumas vezes carnavalesco Bauru Sem Tomate é Mixto no Calçadão da Batista, resistindo contra o golpe e a favor da democracia. Pois bem, contávamos historias uns para os outros, quando ouço uma bem sintomática dos tempos atuais brasileiros. Um casal de colombianos decide vender tudo o que tem, reúne toda a grana que possuem e optam por sair da Colômbia, diante de tantas incertezas e uma eterna luta, onde milicianos dominam certas regiões do país. Compram um imóvel no Brasil, imediações de Bauru e por aqui tentam recomeçar a vida. Passado algum tempo e hoje diante da iminência do golpe em vias de ser consumado, eles estão vivendo uma situação dessas de no mato e sem cachorro. O diálogo me foi relatado por quem descrevia a história: "Vieram aqui em busca de paz e encontraram um país às voltas com um Golpe e com retrocessos batendo na porta, principalmente para a classe trabalhadora. Gastaram tudo na vinda e agora, a Colômbia está prestes a fechar acordo em Cuba pelo fim da instabilidade no campo e eles aqui, num país que será dominado por golpistas, desses que como primeira medida vão restringir as leis trabalhistas. Querem voltar, mas tudo ficou mais difícil". Triste sina. A dica é essa: uma vez morando aqui se engajem na luta dos que resistem à chegada dos cruéis e insanos golpistas. O país ainda pode ser salvo, mas será inevitável alguma luta.

Pronto, contei, agora já posso dormir o sono dos justos.

2.) UMA SEGUNDA HISTORINHA LATINA ANTES DE DORMIR
Após seis anos de idas ininterruptas para Buenos Aires, sempre entre julho e agosto de cada ano, sempre para acompanhar Ana Bia Andrade no Congreso de Diseño em Palermo, eu mesmo já apresentando trabalhos acadêmicos, algo que muito me apetece é ir conhecendo mais e mais argentinos, gente, dessas inesquecíveis. A cada ano o rol crescer e muito. Primeiro foi o querido Victor Tomate Ávalos Perfil Lleno, que conheci aqui e mora em Tigres, um cidadão do mundo. Depois, o mago das tiras diárias do jornal Página 12, Miguel Rep, que entrevistei em seu estúdio para uma matéria em Carta Capital. Dei até entrevista numa rádio falando sobre a especialidade de um locutor platino entendido em MPB. Inesquecível a viagem feita com o Marcão só para ver o Hugo Chávez no Ferrocarril, que também virou artigo para Carta Capital. Conheci outros tantos e esse ano estou muito ansioso para travar conhecimento com uma admirável militante das causas sociais daquele país, uma digna senhora, envolvidíssima na resistência contra esse (des)Governo "basura" (lixo em castelhano) de Maurício Macri, Lili Lamborghini, esse seu nome. Participo junto com ela de um grupo de debates em defesa de um dos locutores de rádio íntegros daquele país, dos que atuam em cima da verdade factual dos fatos, Victor Hugo Morales (que conheci pessoalmente ano passado, comprei seu livro). No grupo de debates uma rara possibilidade de ir travando diálogo com muitos militantes argentinos, conhecer um pouco mais da realidade do país hermano e, o melhor de tudo, ir tendo a possibilidade de me aproximar de gente envolvida com as causas sociais. Dela já recebi um convite, prontamente aceito: em julho, quando retorno lá, irá me levar para diferentes manifestações e bairros populares na capital argentina e confesso, conto nos dedos a chegada desse dia, para ter mais essa inenarrável experiência de vida. A querida Lili não imagina a ansiedade do gajo aqui em busca de desvendar um bocadinho mais de lugares nunca dante imaginados naquela cidade que muito já admiro e amo. Me aguarde, Lili. E como a realidade deles não difere muito da nossa, muito do que recebo deles todos vou juntando e percebendo o quanto temos de similaridades. Hoje, a bestialidade que ocorre aqui, se dá da mesma forma por lá. E é lindo ver os resistentes de ambos os países se unindo pela mesma causa.

3.) UMA ÚLTIMA HISTORINHA LATINA E ESSA LOGO AO ACORDAR
Acordo nesse domingo, dia 1º de Maio, dia do Trabalho e do Trabalhador, algo para ser não comemorado, mas para irmos pras ruas em concentração e tentarmos entender o que estão querendo fazer desse país. Nem o povo trabalhador ainda sacou de vez o baú de maldades que está por detrás desse novo (des)Governo Temer/Cunha prontinho para nos danar e o que virá pela frente. São tantas coisas ainda tão mal explicadas e essa mídia batendo numa tecla que nada tem a ver de fato com a malversação do país, que ela mesmo está patrocinando. Escrevo isso, logo ao acordar e me lembro de uma colega acadêmica, ela equatoriana e que conheci aqui em Bauru recentemente na Unesp, no Congresso Red Inav, realizado semanas atrás e reunindo estudantes e professores de boa parte dessa América Latina. Ela, veio apresentar um trabalho sobre o cinema de seu país e numa roda de bate papo, conversa informal, nos dizia sobre essas manifestações do povo brasileiro todo vestido de verde-amarelo nas ruas, como se estivesse em festa, fazendo selfie com aqueles que em outros momentos reprimem o verdadeiro povo em luta e em busca de conquistas sociais, reivindicações. Ela não entendia direito as contradições das duas situações e nos perguntava sobre como pode parte desse mesmo povo, se dizer contra a corrupção, mas claramente defendendo seus privilégios, promovendo não um ato de protesto, mas uma festa onde ressalta em cada uma delas nossas atávicas diferenças. No meio da conversa deixa uma pergunta no ar, de alguém que havia chegado ao país naquele momento, estava de passagem e perguntava aos novos amigos brasileiros: "De quando em quando esse pessoal faz festa assim?". Ela havia sacado algo desse momento brasileiro e só de observar a distância. Achei lindo a observação e a constatação feita por uma estrangeira, guardei ela até hoje, quando ao me recordar do diálogo, tento sua reprodução para ampliar o necessário e justo debate sobre o que temos, queremos e podemos fazer com esse nosso país. Eu sempre me espanto com esse "olhar estrangeiro" sobre nós, ainda mais quando nos enxergam maravilhamente e nos entendem só no olhar. Por fim, recomendo o filme da Murat, o "Olhar Estrangeiro". Conhecem? Não sabem o que estão perdendo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Desculpe a ignorância, mas esses colombianos não estão fugindo das FARC não né? Pois essa FARC é patrocinada pelo foro de são paulo, que é apoiado pelo pt e pela esquerda brasileira, e é financiado (não todo ele) pelos nosso impostos, pelo menos até a dilma ser deposta.

Mafuá do HPA disse...

Anônimo, sua desinformação beira as raias da ignorância. Vá se informar primeiro e depois conversamos. Veja no que o país pode se transformar com um (des)Governo Temer/Cunha para depois fazer esdruxulas comparações com qualquer outra coisa. Mais conhecimento e menos besteirol nas respostas.

Henrique - direto do mafuá