sexta-feira, 19 de setembro de 2014

DOCUMENTOS DO FUNDO DO BAÚ (69)


REVIVENDO ALGO DO PASSADO DE MINHA MÃE - AYROSA GALVÃO, HOJE POTUNDUVA, DISTRITO DE JAÚ

Há coisa de 40 e tantos anos atrás, eu entre meus 7 e 12 anos ia regularmente com minha falecida mãe, ENI PERAZZI DE AQUINO, de trem, saindo logo cedo daqui, com parada numa pequena estação logo após Pederneiras e a passagem pelo rio Tietê, AYROSA GALVÃO, onde ela exercia garbosamente o ofício de professorar para alunos do ensino básico. As lembranças daquele lugar nunca mais me saíram da cabeça. Chegávamos cedo e havia um trecho de aproximadamente uns 300 metros, seguindo numa rua de terra ao lado da linha, casinhas de trabalhadores ao longo do percurso até uma cancela, o cruzamento de uma rua sob os trilhos. Daí, à direita, subindo mais uns duzentos metros chegávamos à ESCOLA ESTADUAL FREI GALVÃO. Ela dando suas aulas e eu (todos meus irmãos faziam o mesmo percurso, em sistema de rodízio)  entretido com algo para passar o tempo no pátio da escola. Na hora do almoço ela caminhava até um jardim, mais uns duzentos metros acima, numa praça com uma igrejinha católica e ali, uma venda e uma farmácia. Nada me lembro da fisionomia das pessoas daquela época, mas sim,e muito, dos lugares. Ela, se viva, me faria lembrar do nome de muitos deles, pois mantinha conta em sistema de caderneta, pagando nos dias seguintes ao recebimento do salário.

O retorno para Bauru era feito da mesma forma. Havia (pasmem, senhores e senhoras) vários horários de trens que por ali circulavam diaraimente, nos caminhos de São Paulo e Bauru, esse percurso indo até Panorama. E na saída, ela sabia muito bem do horário do trem e em algumas vezes saíamos meio apressados com destino à estação. Nem sempre o trem chegava no horário e tenho lembranças de ter permanecido esperando por muito tempo sua chegada. Lembranças também de algumas poucas vezes em que devido a atrasos no percurso, algum maquinista acabava levando algumas pessoas (principalmente as professoras) de carona em trens de carga. Havia sempre um vagão diferenciado, não me lembro se dos Correios, mas com espaço para alguns irem sentados. A passagem sobre o rio Tietê era para mim sempre recheada de muita emoção. Vivenciei nesses tempos o trem ainda atravessando o rio pela ponte velha, hoje destruída, bem rente às águas. Quantos pescadores iam e vinham por aqueles trens, parando na mesma estação. Lembranças também da Usina de Açúcar dos Franceschi's (hoje a usina não é mais deles).

Da escola Frei Galvão a lembrança mais forte dentro de minha memória é a de um mosaico em azulejo com a reprodução da imagem do Frei Galvão, patrono religioso jauense, postada bem na frente da escola. Uma cena se repetia sempre, muitos alunos ali na frente da escola esperando a professora chegar e quando a viam virando a esquina lá embaixo iam ao seu encontro e a ajudavam com seus pertences. Cada um queria carregar algo do que ela trazia e não era nada de tão extraordinário o dia em que ganhava presentes deles, desde bolos até galinhas (lembro do dia em que ganhou uma viva e foi assada na própria escola). O tempo demorava para passar no pátio da escola e ali aproveitava para fazer minhas tarefas escolares (íamos em dias bem alternados, quando não podíamos mesmo comparecer às aulas em Bauru). Lembranças também de meu pai levando-nos na estação, quando não estava trabalhando, em seus antigos carros, um Gordini, um Jeep, um Fusca. Por trás disso tudo o trem, imponente e sendo o condutor de todos nós.

Ontem, 19/09, sexta, na volta de uma viagem à trabalho lá bem pra cima das bandas de Jaú, resolvo voltar por uma vicinal (como gosto das vicinais) ligando Jaú até Ayrosa, hoje ainda distrito, mas com a denominação de POTUNDUVA. Levei uma baita de um susto. Primeiro pela distância, que não achava tão grande, tudo cheio de casas e mais casas, depois pelo tamanho do distrito, muito maior do que muitas cidades de nossa região. Algo presenciado logo na chegada e que já tinha conhecimento é o grande número de nordestinos por ali, acredito que tendo fincado raízes por causa da usina, quando antepassados vieram trabalhar no corte de cana. Bem no centro da vila uma grande loja de revenda só de produtos oriundos do Nordeste confirma meu achômetro. A vila é dividida em duas partes, uma mais nova e bem maior que o núcleo inicial, onde está localizada a antiga escola. Seguindo adiante em buca da estação e da escola, eu perdido, tive que parar num postode combustível e perguntar sobre o meu destino. Nem o frentista de um posto de combustível soube me falar nada da antiga estação, pois dizia fazer anos que não ia para aqueles lados. Segui pelo caminho indicado e do outro lado, numa divisão bem nítida, a outra Potunduva, mais antiga, casas mais velhas, mais arborizada e ao me deparar com a antiga praça, esbaldando verde por todos os poros, me vi voltando abruptamente ao passado.

A praça mantém vários traços recordados assim de imediato pela minha fraca memória. A igreja, o prédio onde era a venda na esquina e outros quetais. Não estava conseguindo me orientar para saber que rua descer para chegar à escola. Dr lá, com certeza, saberia como chegar aos trilhos. Vendo um senhor de uns setenta anos na calçada fui até ele e me explicou em detalhes, inclusive da situação atual da antiga estação férrea. Passei defronte a escola, toda modificada, afinal, são mais de 40 anos passados e fui primeiro fazer o percurso até a velha estação. No caminho, parte asfaltado, as residências melhoraram bastante seu aspecto e muitos dos seus moradores tendo à frente de suas casas os trilhos, colocaram bancos e mesas debaixo de árvores e ali devem passar horas desfrutando de papos, espaços coletivos de lazer criados por eles mesmos. Os últimos duzentos metros ainda permanecem de chão batido, muito mato no entorno e lá no fim a estação e tudo o mais em ruínas. Não vi por ali viva alma, mas percebia-se que, em sua maioria ocupados por famílias. Até antenas da NET vi entre os escombros. O chão estava muito batido, mas o que restou da estação em péssimo estado de conservação. Na linha férrea uma movimentação de carga bem adiante e  homens trabalhando, os da ALL, concessionária da malha ferroviária e ao lado de um posto de carga da usina. A área agora era domínio da usina e de antigos moradores, que ali permanecem.

Confesso não ter me sentido seguro ali sozinho e percebendo algumas pessoas caminhando pelos trilhos. Desci pouco do carro e muitas das fotos tirei sentado ao volante. Foquei nas janelas, nos antigos detalhes da construção, na plataforma, nos trilhos e algo me chamou a atenção, do outro lado, um córrego e ao lado dele vários tanques. Acredito que muitos dos moradores dali ainda lavam suas roupas ali, com aquela água. Permaneci ali aproximadamente meia hora, circulando naquele antigo pátio, a cabeça fervilhando de lembranças. Uma que me veio á mente assim de sopetão quando parei para fotografar os trilhos já na parte asfaltada, foi a de um dia que o trem parou fora da estação e um senhor que vendia bebidas nos corredores desceu dos carros férreos e foi pegar algo, talvez frutas nos arredores e quando voltou, com o trem já em movimento, uma gritaria para ajudá-lo a não perder o trem. Não consigo me lembrar do final dessa história, mas ela não me sai da cabeça. Uma placa ali junto a um daqueles prédios de observação, desses com uma escadinha e a janela dando na mesma altura do maquinista, avisa que ali é área de preservação (sic) e possui dono. Uma cerca mais do que arrombada demonstra que o aviso não deve ser levado nada a sério. A desolação por ali é total, insalubridade dos que ali vivem. O lado triste de Potunduva, o contraste mais constrangedor diante do presenciado no restante do povoamento.

Dali voltei olhando para os lados, sem encontrar ninguém, assim com cara de antigo, para aprofundar uma conversa, rememorar histórias. Fui até a escola, tirei fotos de sua fachada e da única lembrança a remeter ao passado. De todas as reformas ali efetuadas, os azulejos foram mantidos como no original, na sua parte frontal. Numa placa ainda mantida na entrada, a data de sua inauguração, 1956, governo de Jânio Quadros. O prédio é o mesmo e já na esquina ao vê-lo, lembranças de suas salas de aula, todas voltadas para a rua e acabei por não visitar. Aperto a campainha e o portão me é aberto. No balcão da secretaria, uma simpática funcionária, Priscila me explica das muitas reformas ocorridas por ali e nada mais restando além do azulejo. O pátio foi todo coberto, piso na escola toda e muitas repinturas ao longo do tempo. Nada pode me dizer sobre o que busco, pois chegou muito tempo depois. Diz que a mais antiga funcionária por ali tem 26 anos de casa, mas está de férias. Pouco poderia me acrescentar, pois com certeza faz também quase quarenta que minha mãe ali atuou, conseguindo depois transferência para Bauru. Nas lembranças, recordações de um único colega de trabalho dela, o professor de Educação Física LAERTE CAPELLINI, ainda bem vivo, que já naquela época fazia sucesso como lutador de Luta Livre na TV.

Tentei perguntar-lhe se a escola manteria algo em arquivo sobre seus antigos professores. Afirmou que sim, mas só dos que ali se aposentaram. Desses existe um registro, que poderia ser feito, não na hora, mas com consulta. De minha mãe, nesse caso, impossível, pois ali permaneceu vários anos, mas veio a se aposentar em Bauru no antigo prédio da Delegacia de Ensino, na rua Amazonas, hoje Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes. Fiquei olhando por vários momentos para os azulejos e revendo a tal placa, tentando retomar a memória dos tempos quando adentrei aquele portão e corrai em volta do prédio, naquela época com um muro baixo. O dia começava a chegar ao seu fim e com ele, também o fim do expediente dos funcionários da escola. Não fiquei importunando ninguém mais, sai dali e fui me informar do caminho de saída, um mais curto, outra vicinal não me obrigando a retornar até Jaú e sim sair quase na altura do trevo de Itapuí, já na rodovia Bauru/Jaú. Era só seguir em frente, me diz uma senhora diante de seu portão. Passar os trilhos e seguir as placas. Fiz isso.

Ligo o rádio e ele cai automaticamente numa rádio local, com um senhor apregoando em anúncios dos muitos estabelecimentos comerciais existentes por ali. Uma casa de lanches que faz entrega em sua casa, uma cabeleireira que faz de tudo e tem cartão de crédito e débito, um supermercado igualzinho aos de Jaú e uma oficina mecânica que parcela seus serviços a perder de vista. Tudo isso em Potunduva, mais que uma vila, uma quase cidade, com essa nítida divisão dos seus lados Norte e Sul e tendo de tudo, desde agências bancárias, funerárias, uma fotógrafa estabelecida na praça central, pizzarias e serviço de moto táxi. Sai dali com um amontoado de fotos registradas, muitas perguntas não respondidas e um bocadinho da saudade dentro de mim meio que preenchidas. Da estação, nenhuma surpresa, pois esse é o retrato de tudo o mais (havia vindo de Dois Córregos e ali um esboço de restauro em sua estação), desolação e abandono. Da escola onde minha mãe lecionou (que termo lindo esse), algo de bom, ela está bem conservada e pelo burburinho cheia de muita vida sendo incentivada a vicejar a partir dali. Tudo prosseguindo seu curso natural em Potunduva, um antigo lugarejo que cresceu e nem sei se ainda mantém aquela vontade de tornar-se cidade, independente de Jaú. Trago comigo as fotos para mostrar ao meu pai, HELENO CARDOSO DE AQUINO, 86 anos e seus filhos, meus irmãos, do que restou de algo vivido bem lá atrás de nossas vidas. Pode ser que qualquer dia acabe voltando, com mais tempo até para buscar gente da antiga e conversar sobre o passado e tudo o mais. Ontem foi só o que consegui.

7 comentários:

Anônimo disse...

REGIÃO METROPOLITANA DE BAURU
Considero as cidades de Arealva, Boracéia, Pederneiras,
Macatuba, Lençois Paulista, Borebi, Agudos, Piratininga,
Cabrália Paulista, Duartina e Avaí, como tambem os
distritos de Jacuba, Santa Isabel, Ribeirão Bonito, Guaianás
e Tibiriçá, todos pertencentes à Região Metropolitana da
Grande Bauru.
Aldo Wellicham

Anônimo disse...

Henrique

Lindas recordações viajei agora....

Lembro do Mandora um pescador que virou lenda naquele lugar, ele jogou no xv de jahu ....

José Eduardo Ávila

Anônimo disse...

Henrique
ôôôô...que delicia!!! qdo criança íamos muito pra lá de trem com meu pai, ficávamos em um rancho na beira do rio...lindas lembranças da infância!!!
Marisa Fernandes

Anônimo disse...

Belas e boas lembranças de um Brasil que se foi um Brasil que poucos como você se lembram de registrar a história que se perder em sua própria história por um povo não curte mais as suas próprias histórias. Parabéns pelo belo relato e sua homenagem de um tempo que fez, e que hoje ainda se desfruta de bons trabalhos realizados outrora. Hoje, angustia-me a história vindoura, de um país sem suas ferrovias, com suas escolas sucateadas, sem estruturas, com professores desmotivados, ainda com garra na sua maioria, mas desmotivados por tantos reveses. Um país em que jovens que não mais se emociona ou sequer quer conhecer histórias como a que contara aqui, é preocupante, pois um país que não valoriza a sua própria história, não se solidifica como uma nação. Cabe a nós continuar escrever nossas histórias e quem sabe um dia, jovens troque histórias virtuais em forma de jogos por histórias reais de quem fez e faz esta nação e que Deus salve o Brasil, porque a América, pelos menos a do norte, já o fez!
Odacir Pimentel - São José dos Campos

Anônimo disse...

Quantas sds de bons tempos. Parabéns primo pela brilhante memória e pelo texto cheio de detalhes. Um abraço.
Célia Maria Grandini Albiero

Anônimo disse...

HENRIQUE
Também passei boa parte de minha infância e adolescência aí em Potunduva. Meu pai tinha uma Chácara na "beira do rio" e íamos com muita frequência pra lá. Meus pais adoravam comprar uma rapadura que era feita artesanalmente nessa vila.

Corta o coração ver o estado de abandono disso. Esse patrimônio poderia ter sido restaurado e servir de abrigo a manifestações culturais e turismo rural...

Kátia Sampaio

gejomm disse...

Muito obrigado, professor.
Que lembranças!
Geraldo.