Recebo de dois dileitos amigos mensagens muito preocupantes e tristes. Aqui as quero analisar sob a minha ótica de compreensão do que vivenciamos no momento, em relação ao que acontece, não só aqui na aldeia bauruense, mas mundo afora. Não sou dono da verdade - nem nunca quero assim ser entendido -, mas diante de minha privilegiada situação, hoje já aposentado, com renda, mesmo que baixa garantida para o resto de minha vida, olho para outros tantos, numa luta desenfreada de luta diária, verdadeito pega pra capar e contato, muitos estão a ponto de desistir. E o que seria isso?
Evidentemente não estou preparado para responder essa pergunta. Veja o que recebi: "Ahhhh, tenho inveja do morador de rua" e "Sinto que estou partindo". Em ambas situações, sem querer e nem poder explicitar e revelar seus nomes, recebo a ambas e tento, ao meu modo e jeito, primeiro entendê-las, depois promover algum conforto, algo difícil demais da conta neste momento. Primeiro, antes de tudo, digo que, não existe quem não esteja com a cabeça em parafuso neste momento que o mundo vive. Eu ando mais do que desparafusado e pior que tudo, sem encontrar respostas e amparo para muitas de minhas aflições. Ou seja, o desamparo, pelo visto, é amplo, geral e irrestrito. Mesmo os que apoiam a bestialidade em curso, estes também estão com suas bielas desajustadas e mais perdidos que cegos em tiroteio.
Impossível alguém em sã consciência apoiar de forma cega o que se vê acontecendo dentro da administração municipal, ações totalmente deseqnuadradas da normalidade política e continuarem prestando apoio para sua continuidade. Depois, dentro do estado de São Paulo, um governador totalmente pérfido, agindo para destruir tudo o que até então demoramos décadas para construir, querendo privatizar até nossa alma e o povo paulista, mesmo sofrendo as consequências, apoiando cegamente a continuidade da esbórnia. Muita inconsistência em observar como muitos continuam apunhalando o presidente Lula, taxando-o dos mais horríveis denominações, mesmo ele tendo salvo o país da bazófia bolsonarista e conduzindo hoje o país num mar de tranquilidade, diante de tudo o que se observa mundo afora. E por fim, essa parcela de brasileiros, vendo o que aconteceu com a Venezuela, querer que o mesmo ocorra com o Brasil, numa atitude de pleno devaneio bestial, agindo contra os interesses do próprio país, tudo para privilegiar quem nos enfia a estaca nos costados.
Isto tudo junto já provoca dentro da gente, não só uma inquietação sem precedentes, pois mesmo querendo fazer algo, o resultado tem sido pífio. Muitos estão adoecendo de forma irreversível por causa de buscar fazer algo e sem o conseguir, se fecham em copas. Para adoecer um pulo. E depois, como diante de frases como as duas repassadas a mim, junta tudo isso aqui já descrito, com as aflições pessoais. Viver dentro deste contexto e em condições precárias, sem muitos recuros e dependendo de outrem, passa a ser um eterna tortura. Poucos são os que, com enormes problemas dentro de sua vida, conseguem resolvê-los isoladamente, sem contar com a ajuda externa, principalmente das pessoas mais próximas.
De uma dessas pessoas recebo isto: "Tô meio cansada de mente, corpo totalmente cansado e cansada de ver gente injusta triunfando. E olha que é difícil me vergar. Mas estou vergada. E nem sei se quero " desvergar". Preciso algo pra desligar, barbitúricos. A gente precisa acariciar nossas "desvergaduras", tá caótico demais viver, e a luta pela panela, pela soberania, pela receita azul, pelo nome limpo no Apocalipse...ahhh tenho inveja do morador de rua. Por isso tem gente que espana e deixa dessa coisa de "cidadão"". Este fio da navalha é a situação de milhês de pessoas, desesperançadas de ver outro mundo possível vigente, algo pelo qual lutamos uma vida inteira. Como vencer isso e também conseguir resolver os problemas pessoais, estes que nos afligem no dia a dia na rotina de uma vida enfurnada em algo meio que irreversível.
Depois, do outro recebo isso: "Esse ano eu cai, levantei, perdi parentes amados, perdi pessoas importantes, dei uma de durão como sempre pra não chorar por fora, mas por dentro eu me senti um derrotado, me senti destruído. E se 2.025 não for como eu queria, eu tento de novo em 2.026, 2.027, 2.028 e aí vou tentando quantas vezes necessário for, morrerei tentando, por que eu sou forte, eu não desisto. Eu tenho confiança e fé de que um dia vou olhar no fim de um ano aí e vou dizer: "consegui, esse foi o ano". Só fico preocupado com meu filho. Sinto que estou partindo. Não sei se você pode falar, salva eu se puder para tomar umas cervejas. Quatro latinhas, o que puder, aí eu vou dormir. Tô correndo atrás de um ferro velho aqui perto de casa pra me salvar". Como reagir diante de tudo isso.
Enfim, os meus problemas, que para mim são imensos, para estes só muito maiores. Eu sei que está tudo tão misturado e hoje, eu mesmo diante dos meus, consigo dar vazão e continuar protestando e esgrimando contra os malversadores de Bauru, do Brasil e do mundo, mas como o fazem estes. Mesmo querendo, tem diante de si, uma problemática insolúvel e latente, pulsante, cortando qualquer forma de resistência. Mesmo assim, os vejo lutando em todas as frentes. Mesmo querendo desistir, aceitando a provável morte ou enxergando no morador de rua uma solução, estão lado a lado dos que também guardam um pouco de si para ver se conseguimos encontrar um mundo melhor para viver.
"NÃO SE ILUDA, SEJAMOS CLAROS: OS ESTADOS UNIDOS SÃO UMA EMPRESA PETROLÍFERA COM UM EXÉRCITO"*
George Carlin, além de excelente humorista, era excepcional em suas análises de forma objetiva. Ele entendia que o humor pode ser uma lâmina, não para entreter apenas, mas para cortar o véu das mentiras que sustentam sistemas inteiros. Quando ele dizia que os Estados Unidos funcionam como uma empresa petrolífera com um exército, ele não estava fazendo uma piada. Estava resumindo uma lógica histórica que atravessa décadas de política externa, guerras travestidas de missões humanitárias e destruição vendida como salvação.O que está acontecendo agora com a Venezuela se encaixa perfeitamente nessa engrenagem. O país é pressionado economicamente até o limite, isolado diplomaticamente, sufocado por sanções que não atingem governos, mas pessoas. Quando a crise se aprofunda, ela é usada como prova de que algo precisa ser feito. E então entra em cena a ameaça da intervenção. Primeiro o colapso é produzido. Depois ele vira justificativa.
A palavra “invasão” é evitada. Prefere-se falar em reconstrução, transição, ajuda internacional. Mas a história é pedagógica. Sempre que esse vocabulário aparece, o que vem depois é a mesma sequência: perda de soberania, entrega de recursos, militarização da vida civil e uma dependência estrutural que dura gerações.
A Venezuela tem petróleo, gás, minérios estratégicos e uma posição geográfica central no continente. Isso não é detalhe. Isso é o centro do problema. Nenhuma potência se mobiliza por altruísmo. Nenhuma frota cruza oceanos por compaixão. O que move essas máquinas é lucro, controle e poder.
E o mais perverso é que isso é vendido como se fosse moralmente elevado. Como se destruir um país fosse um ato de amor. Como se impor miséria fosse um gesto civilizatório. Como se a violência, quando parte de cima, deixasse de ser violência.
Carlin enxergava isso com clareza desconcertante. Ele via que o discurso muda, os presidentes mudam, os partidos mudam, mas a lógica permanece. Uma lógica que transforma países em mercados, povos em obstáculos e guerra em ferramenta administrativa.
A Venezuela hoje não é uma exceção. É um exemplo atual de um padrão antigo. E enquanto o mundo continuar aceitando essa farsa com nomes mais suaves, ela continuará se repetindo, com novos cenários, novas vítimas e o mesmo centro de poder.
por Wanderson Dutsch
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