terça-feira, 2 de junho de 2015

FRASES DE UM LIVRO LIDO (92)


‘COMO ME TORNEI ESTÚPIDO’, PROEZA DE MARTIN PAGE REVIRANDO MINHAS ENTRANHAS
Calma! Trata-se (ainda) de um livrinho, obra da Editora Rocco no Brasil, edição de 2001 e que, outro dia encontrei pela aí (na Banca do Carioca, Feira do Rolo) e me deliciei de montão. Versa sobre Antoine, um rapaz que não gosta de ser manipulado, não gosta de explorações colonialistas, nem de estudar assuntos desinteressantes. Odeia a burocracia e todas suas máscaras. Lê muito, sempre muito bem informado e até por causa disso sofre demais da conta. A solução para seus problemas foi uma só. Um plano perfeito, investir na idiotice, como forma de sobrevivência no mundo como se apresenta. Na orelha do belo livrinho, de apenas 160 páginas, modelo de bolso, algo mais: “E o que pode ser mais estúpido que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?”. Quantos Antoines não existem por aí e estão vivendo à margem desse mundo do capital desenfreado e bestial, meio sem saber o que fazer para serem compreendidos? A idiotice salvará a todos. Martin Page, o autor, nasceu em 1975, estudou Antropologia e tenta somente viver uma vida tranquila (encontrou o meio termo?). Leiam as frases marcantes do livrinho e desde já informo, existe uma lista de alguns querendo a obra emprestada. Entrem na fila, pois viver nesse mundo como se apresenta é mesmo doloroso e se enquadrar no modo de vida mais ameno, sem grandes preocupações na cachola é algo buscado por muitos, evitando assim as agruras de ser do contra e ficar dando murros e murros em pontas de faca (algumas com tétano). Aderir enquanto ainda existe tempo (e nos é permitido), eis a solução:

“Na expectativa de uma vida mais tranquila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez. (...) A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que leem”.
- “Sei perfeitamente que essa viagem à estupidez vai transformar-se num hino à inteligência. (...) É bom pensar, mas é preciso aproveitar a vida. (...) Era sobretudo a sua curiosidade e paixão desprezadoras de todas as fronteiras e clãs que faziam dele um apátrida no seu próprio país”.
- “Sabia como as palavras do nosso espírito gostam de nos prestar serviço e nos reconfortar logrando-nos. (...) Os alcoólatras são compreendidos, são cuidados, têm uma consideração médica, humana. Ao passo que ninguém pensa em compadecer-se das pessoas inteligentes”.
- “A inteligência é um duplo mal: ela faz sofrer, e ninguém se dá ao trabalho de considerá-la uma doença. (...) Não existe desintoxicação para a inteligência. (...) O pensamento conduz a determinada exclusão. (...) Eles gastavam o seu baixo salário nesses sucedâneos de felicidade e da beleza que são as bebidas alcoólicas”.
-“Me deixa imensamente triste ver que não somos livres e que cada pensamento, cada ato livre se faz ao preço de um ferimento que não cicatriza nunca. (...) Uma personalidade é um luxo que me custa muito caro. Quero ser um espectro banal. Estou sufocado pela minha liberdade de pensamento, por todos os meus conhecimentos, pela minha abominável consciência!”.
- “Desiluda-se: nada é mais difícil que eliminar-se. É mais fácil obter o meu bacharelado, passar no concurso para polícia ou para a faculdade de letras que se suicidar. (...) A inteligência é uma tara. (...) Penso que ser inteligente é pior que ser asno, porque o asno não se dá conta disso, ao passo que qualquer inteligente, ainda que humilde e modesto, o sabe forçosamente”.
- “Está escrito no Eclesiastes, que ‘quem tem a sua ciência aumentada, este também tem aumentado a sua dor’. (...) Bem aventurado os pobres de espírito. (...) A inteligência é um erro da evolução”.
- “Os que se interessam demasiadamente pelas coisas, que se interessam até por assuntos que não os interessariam à priori – e que querem compreender as razões do seu desinteresse – pagam o preço disso com certa solidão. (...) Pensar, tentar compreender nunca me trouxe nenhum benefício, mas, ao contrário, sempre atuou contra mim".
- “Tentar compreender é um suicídio social, e isso significa já não desfrutar a vida sem sentir-se, a contragosto, e ao mesmo tempo, uma ave de rapina e um abutre que despedaça os seus objetos de estudo. (...) Aliás, observamos a natureza: tudo o que vive muito e contente não é inteligente”.
- “O intelectual é como um pianista que, por utilizar as mãos com virtuosidade, pensa ter aptidão para ser, naturalmente, jogador de pôquer, boxeador, neurocirurgião e pintor. (...) A inteligência é uma doença”.
- “Queria viver, não saber a realidade da vida; queria justamente viver. (...) Não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir a sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo. (...) Queria ensiná-lo a ser um grou majestoso, a planar e a deixar-se levar pelos ventos, a usufruir o calor do sol e a beleza da paisagem. (...) A finalidade era participar da vida em sociedade”.
- “Eu quero esquecer de compreender, apaixonar-se pelo cotidiano, acreditar na política, vestir belas roupas, acompanhar os eventos esportivos, sonhar com o carro último tipo, ver os noticiários da televisão, ousar detestar certas coisas... (...) Quero estar com os outros, não compreendê-los, mas ser como eles, compartilhar as mesmas coisas...”.
- “Conheço carradas de pessoas idiotas, inconscientes, cheias de certezas e de preconceitos, imbecis perfeitas, e que são felizes! (...) Deduzi que a minha inadaptação social é resultado da minha inteligência sulfúrica. (...) O meu cérebro corre maratonas o dia todo, a noite toda, ele não para de girar como numa roda de hamster. (...) Eu quero a banalidade da vida, eu quero me acomodar. Quero ser simplesmente uma formiga entre as formigas. (...) Eu quero justamente pensar menos”.
- “Após visitas de pesquisa à casa de alguns vizinhos que, ele assim imaginava, tinham excelentes defesas imunológicas contra a Inteligência, pôde vislumbrar o que seria o cenário perfeito para a sua nova vida. (...) Ser um verdadeiro babaca é o remédio para a minha doença, a quimioterapia da minha inteligência”.
- “Ele se estava instalando tranquilamente na normalidade quando resolveu passar pelo teste supremo que provaria o sucesso de sua integração: o McDonald’s. Nunca antes lhe teria ocorrido a ideia de entrar nesse antro do capitalismo imperialista, distribuidor de gorduras, açucares, símbolo da uniformização das modas da vida. Mas ele mudara muito. (...) Ele sentiu certo prazer, uma confiança, uma força nova em ser como os outros, com os outros”.
- “Como em uma coreografia internacional, ele executava os mesmos passos e gestos de pagar, de transportar o prato, de beber a Coca e de ingerir as batatas fritas. (...) Comprou um par de tênis Nike, um jeans Levi’s e um sweat-shirt Adidas. Isso seria o seu traje de relax. (...) Para terminar o dia, concedeu-se uma partida de videogame numa casa especializada”.
- “A danação permite tudo, perdoa tudo. (...) É sempre a si mesma que a pessoa corrompe mais facilmente. (...) Era necessário agora desejar as coisas que os ricos desejam. (...) O dinheiro é um animal doméstico, um bom cachorro fiel que começava a conhecer o caminho da sua conta bancária. (...) Avançava no novo mundo, certamente mais real, onde o amor é uma forma de consumo e um lugar de segregação. (...) No amor a verdade é, sem dúvida alguma, o cinismo”.
- “Quem quer que queira encontrar provas da sua infelicidade as encontrará, pois nos assuntos humanos encontra-se sempre o que se procura”.

VAMOS NESSA, MEU!

Um comentário:

Anônimo disse...

É sempre muito bom ler os seus textos! Você traz ao centro pessoas que estariam fora do foco, situações polêmicas, algo prestimoso como essa seleção de citações sobre o livro, a banca, a feira, com propriedade, irreverência, coragem. Legal, Henrique, curto muito suas publicações.

Maria Cecilia Martha Campos