domingo, 9 de outubro de 2016

DIÁRIO DE CUBA (80)


DOIS ESTRANGEIROS DEIXAM BAURU, SÃO PAULO E O BRASIL – DESALENTO SE MULTIPLICANDO
Cito dois exemplos, mas se procurasse com mais afinco, sei, poderia citar outros tantos. Se o desalento bate entre nós, brasileiros, imagine entre os estrangeiros no meio dessa convulsão toda. Que o país piorou, isso consenso e pelo que se observa, piorará mais e mais. Liberdades já começam a ser suprimidas, perseguições já ameaçam a alguns, aumento da opressão sobre movimentos populares, descredito total na imprensa e leis trabalhistas sendo simplesmente abolidas, tudo para favorecer algo sendo implantado a fórceps ao país. Quem perde? Nós, o povo. De um lado, um seleto grupo de apaniguados do novo poder, o golpista e do outro, os restantes. Esses viverão daqui por diante catando migalhas. Sabe aquilo de pobre viajando de avião, estudante de forma gratuita em universidades, moradias populares sendo levantadas nas periferias, “mais médicos” em postos variados país afora, remédios subsidiados, idosos viajando sem pagar, pois bem, isso já está selado: ZÉ FINI. Quer clima mais desalentador que esse? Quem pode se sacode, quem não pode abaixa a crista e tenta continuar a vida, mais tristes, disso não tenho a menor dúvida. Ninguém gosta de viver resignado, infeliz dos pés à cabeça. O país vivencia isso, esse estado de espírito daqui por diante, sem tirar nem por.

Faço essa introdução para escrever de dois diletos amigos, ambos estrangeiros, ambos se aboletando desse país, batendo asas e indo em busca de seus sonhos em outras paragens. ALEX MITA é um baita de um fotógrafo, profissional na acepção da palavra, desses internacionais, uma preciosidade que um dia aportou por aqui, casado com a também fotógrafa Luciana Franzolin. Chipriota, vivência mediterrânea, já tendo trabalhado em famosas agências de notícias e fotográficas, chegou com uma bagagem extra na bagagem. Quem vivenciou de sua proximidade teve o prazer de desfrutar desse amplo conhecimento. Convidado a trabalhar no Jornal da Cidade, tenho aqui recortadas muitas de suas fotos, verdadeiras obras primas, peças para serem emolduradas. Chegou pouco antes da hecatombe brasileira e a vivenciou de camarote. Viu, sentiu o peso da coisa e não gostou nem um pouco. Fez uma dura e necessária opção, abandonou tudo e vai em busca da realização de seus sonhos em outras paragens. Volta, primeiro ao Chipre, depois se lança à Europa. De resignado não tem nada. Corajoso, deixa, por enquanto, família e nela um filho, mas sabe que, se aqui permanecesse, estaria limitado e anulado. Dia 11 voa para outras paragens.

Numa outra vertente está a também amiga ROSA MARIA TOLON, cubana e mestra em música, uma das maiores pianistas que essa terra já teve o prazer de ter em seu solo. Rosa, até bem pouco tempo atrás, era uma das expoentes do curso universitário de Música na USC – Universidade do Sagrado Coração, hoje mais entristecido. Veio convidada, baita currículo, enriqueceu o curso e a área musical na cidade. Cada recital seu era para viagens múltiplas e variadas. Trouxe com ela um filho, hoje integrado á Bauru, sobrinha e por umas quatro vezes a mãe lhe visitou. Essa vinha passar férias por aqui. Sim, em Cuba as pessoas podem viajar, desde que tenham condições para tanto, aliás, como de resto no mundo todo. Conheci a todos e tive o prazer de desfrutar da cozinha cubana algumas vezes, pois Rosa é também exímia na preparação de belos e refinados pratos. Quem foi seu aluno (a) deve estar acometido de incomensurável tristeza, pois aulas como as dela, nunca mais. Do piano em sua sala, dali muitos desses alunos viajaram em momentos inesquecíveis. Desligada da USC, ela se aposentou e tomou a decisão a dar novos rumos à sua vida, a de voltar para Cuba. Não se desliga totalmente de Bauru (como Alex), mas após estar com um sorriso de orelha a orelha, casada de novo, preferiu estar ao lado da mãe, essa com mais de 80 e dos novos rumos do seu país, do que por aqui. Já deve estar por lá e os que a conhecem, como eu, mais tristes.

Mais não escrevo de ambos. Prefiro ficar somente nisso: se foram. No meio desse cenário, claro, o país que acreditaram um dia ser um algo novo, possibilidades diferenciadas de vivência e, na nova realidade, rumo ao contrário de tudo o antes possibilitado. Quem ainda pode escolher, tomar decisões próprias, escolhe sempre pelo lado mais sensato. Escrevo isso tudo só para constatar algo aqui dentro de mim: estou muito triste com os novos rumos desse Brasil e, mais ainda, com perdas como a desses dois aqui citados. O país está entristecendo a olhos vistos.

Leiam de Alex Mita: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=alex+mita
Leiam de Rosa Tolon: http://mafuadohpa.blogspot.com.br/search?q=rosa+tolon

3 comentários:

Henrique disse...

COMENTÁRIOS VIA FACEBOOK:

Gilberto Truijo BOA SORTE A ESSE CASAL AMIGO.

Ana Lellis curta e grossa: quem devia ir pra bem longe daqui é um libanês puxa-saco do picolé de chuchu

Henrique Perazzi de Aquino Tem muito brasileiro propenso a ir embora depois dos últimos acontecimentos: http://jornalonlinetc.blogspot.com/.../ze-abreu-chama...

Zé Abreu chama Moro de safado e afirma: "Sairei do Brasil se Lula for preso"
JORNALONLINETC.BLOGSPOT.COM|POR POLITICA E DEMOCRACIA

Ana Bia Andrade Luciana Franzolin Alex Mita Rosa Maria Tolon sentirei saudades !
Alex Mita um querido amigo. um excepcional fotojornalista ! vai deixar saudades em Bauru. faça boa viagem, encontre seus sonhos e continue a nos encher de alegria com sua captura dos 'instantes decisivos'. beijos sem mais palavras pra dizer o quanto eu e Henrique Perazzi de Aquino te admiramos e gostamos de ti.

Anônimo disse...

Muito triste está o nosso país.
Respira-se desesperança .

Ana Maria De Carvalho Guedes

Anônimo disse...

... duvidas crueis... Fiz a escolha de um pais para morar e esse pais esta se revelando bem diferente daquele que eu escolhi...
Eric Schmitt - francês