terça-feira, 1 de abril de 2014

CARTA (120) e MEUS TEXTOS NO BOM DIA BAURU (271)


50 ANOS GOLPE 64: DOIS TEXTOS DESSE HPA PUBLICADOS POR ESSES DIAS

TEXTO 1 - MEA CULPA MILITAR NOS 50 ANOS DO GOLPE DE 1964*
*carta de minha lavra e responsabilidade publicada na íntegra, edição de hoje do Jornal da Cidade – Bauru SP, Tribuna do Leitor:

Nesses 50 anos do Golpe Militar, data lembrada no dia do seu sucesso enquanto motim, 1º de Abril, o tradicional Dia da Mentira, daí a comparação mais acertada para todo o ocorrido na sequência, a imensa sucessão de falácias, controvérsias, rede de autoritarismo disfarçada de benesses e mentiras implantadas à Nação. Por quase duas décadas o país foi brutalmente submetido a um regime de exceção, perda de direitos e estancamento das liberdades individuais, pairando sempre sob o ar o medo coletivo. Medo esse ainda não totalmente dissipado.

De tudo o que de mal tivemos como péssimos exemplos, algo insiste e perdura até nossos dias. Exemplo maior está nas esquinas de qualquer cidade, na figura de qualquer guarda de trânsito. Esse diante do cidadão comum se vê investido de um poder tão avassalador, algo imposto como portador de uma ordem absoluta, dessas que deve ser imediatamente cumprida, inquestionável e ele, a sumidade, suprassumo da autoridade, não restando ao cidadão nada além da resignação ao cumprimento do ali estabelecido. Resquício evidente dos desmandos autoritários daquele período, feridas não totalmente cicatrizadas.

A fatídica frase “sabe com quem está falando?”, possui o mesmo significado. São poderes ilegitimamente subtraídos por uns para benefício próprio, em detrimento do que deveria ser a regra, o “todos são iguais perante a lei”. Sim, a ditadura militar contribuiu e muito para fixar na cabeça do homem comum que o fardado é uma instransponível e inquestionável autoridade. Quebrar isso não é fácil. Quantos de nós até hoje quando diante de uma farda não nos redimimos, cabeça baixa, voz embargada, acabamos sendo vencidos mesmo tendo razão, deixando-se perder para não complicar ainda mais a situação. Esse medo persiste e resiste.

A instituição militar, executora do golpe, infelizmente pouco tem feito para se enquadrar dentro de um padrão dito normal de conduta. Vivem num mundo à parte. Até hoje, resistindo ao tempo e a própria Lei Maior da nação, uma Justiça Militar julga os seus ao seu modo e jeito, fazendo pouco caso da própria Constituição vigente. Militares não deveriam se diferenciar em quase nada dos civis, “cada um no seu quadrado”, respeito mútuo, porém até as pedras do reino mineral sabem que a realidade é bem outra. Nem a própria Presidenta da República, Chefe Maior das Forças Armadas consegue obter informações definidas dos arquivos militares. Isso é quase um Governo Paralelo.

Falta a esses a humildade em reconhecer os excessos cometidos. Já é chegada a hora do “mea culpa” militar. Pegaria muito bem o reconhecimento dos seus erros, afirmando que tudo ocorreu também por influência direta de uma elite que os instrumentalizaram, referendando-os para os atos ilegais. Nada fizeram sozinhos. Não só livrariam a própria cara, como escancarariam terem sido também usados. Nem o país caminhava para o comunismo em 1964, nem esse eterno silêncio deles demonstra espírito democrático. Fechando-se em copas, reafirmando ideais ultrapassados não mais possíveis de utilização e identificando-se ainda como únicos baluartes de civismo não é posição das mais salutares, muito menos recomendável.

Salutar seria vir a público e em alto e bom som afirmarem, “ERRAMOS”, pedir desculpas à Nação, saindo do imbróglio com a maior dignidade possível. Mereceriam efusivos aplausos coletivos. É evidente a existência de descompasso cada vez maior entre uma cúpula militar e a maioria do pensamento vigente na tropa, essa mais arejada, renovada e sensível, advinda das camadas populares.

Muitos clamam por esse Mea Culpa, forma de finalizarmos um período tétrico na história do país, mas uma minoria resiste, insuflada pelos de pijama e ainda fazem questão de pregar o atraso. Já é tempo do desejo da tropa se fazer valer. O país num todo ficaria muito grato às suas Forças Armadas por tão nobre gesto. Aos 50 anos de fatídico fato manchando nossa história, o país finalmente poderia varrer do seu passado nefastos acontecimentos. Todos ganhariam com isso.

 TEXTO 2 - MENTIRA GOLPISTA AINDA INSEPULTA*
*texto de minha lavra e responsabilidade publicado na íntegra, edição de sábado passado, 29/03, diário Bom Dia Bauru, coluna Formador de Opinião:

Aldir Blanc e Cristovão Bastos lapidaram linda letra, samba cantado magistralmente por Paulinho da Viola, “50 Anos”. Reparem nisso: “Eu vim aqui prestar contas/ De poucos acertos/ De erros sem fim/ Eu tropecei tanto as tontas/ Que acabei chegando no fundo de mim/ O filme da vida não quer despedida/ E me indica: ache a saída/ E pede socorro onde a lua/ Que encanta o alto do morro/ Que gane que nem cachorro/ Correndo atrás do momento que foi vivido...”. Isso, cantado por eles para comemorar um aniversário, cai como uma luva para uma data sendo lembrada no dia 1º de Abril, exatamente no Dia da Mentira, a dos 50 Anos do Golpe Militar.

Todos nós devemos em certos momentos de nossas vidas, mais que tudo, prestar contas, enxergar os tropeções, as pisadas na bola, chegar ao fundo de si mesmo e de lá achar a saída, a mais honrosa possível. Não há demérito nisso. Fazer um “mea culpa” de erros e acertos é algo mais do que necessário, honroso, coisa de gente briosa, que não quer mais errar, nem continuar pisando na bola a vida toda.

Pois os militares brasileiros erraram feio no que fizeram e propiciaram ao país em 64 e até hoje não tiveram a hombridade de ao menos reconhecer alguns dos seus erros. A história cobra isso deles e continuam fazendo ouvidos de mercador. Certo que nada fizeram sozinhos, pois foram instigados, instrumentalizados por uma cruel elite, a mesma que tentou reviver uma triste marcha, a da Família com Deus e pela Propriedade. Dessa inconsequente união, tivemos quase 20 anos de desmandos, exercício pleno do autoritarismo, prepotência e descalabro em todos os níveis possíveis e imagináveis. Atroz retrocesso.

Enquanto não se desvencilharem desse peso sobre os seus ombros não estarão quites com o país. A tropa atual das Forças Armadas possui pensamento mais arejado, jovial e menos carcomido pelo tempo, pensam diferente de uma elite militar envelhecida em todos os aspectos, principalmente nesse de se fechar em copas. O país precisa avançar e seus militares reconhecerem erros cometidos no passado. Essa uma ferida ainda não cicatrizada, chaga aberta, defunto insepulto e só eles podem resolver de vez a questão.

7 comentários:

Anônimo disse...

ALEM DOS MILITARES (GENERAIS E CORONÉIS), AS ELITES PARTICIPARAM. DITADURA CIVIL E MILITAR NUNCA MAIS.

GILBERTO TRUIJO

Anônimo disse...

Nunca mais, mas continua acontecendo não é camarada Truijo?? Ditadura capitalista segue e agora com as bençãos dos idealistas do passado não é mesmo??

Camarada Insurgente Marcos

Anônimo disse...

o clero tb
José Eduardo Ávila

Anônimo disse...

Continuamos vitima de uma violência brutal na falta de Igualdade, Liberdade e direitos para determinadas classe de pessoas.
Gaspar Moreira

Anônimo disse...

Se isto está realmente ocorrendo então todos falharam após 88. sem exceção. principalmente aqueles que se ombrearam com armas(seja direita ou esquerda) com a promessa de fazer deste país, um país melhor para as gerações que viriam. lamentável. ficamos, durante estas décadas só no blá, blá, blá e chegamos a conclusão que todos os eleitos só enxergam o próprio umbigo e são chanceladores de leis preparadas pelo executivo. Nada fizeram para melhorar as relações povo-governo. nada fizeram para acabar com esse tal de "quinto constitucional". nada fizeram para acabar com a possibilidade de políticos exercerem cargos no executivo, traindo o voto recebido parta legislar. enfim, só blá, blá, blá...
Aparecido Loureiro Jannone

Anônimo disse...

O dia 01 de abril de 1964, parece até mentira, mas não é, virou 21 anos de terror. Psicopatas fardados com uniformes das valorosas forças armadas brasileiras roubaram, mataram, torturaram, estupraram e ocultaram cadáveres de opositores a ditadura. Nesse dia 01 de abril, há 50 anos, o Brasil saiu dos trilhos e nunca mais voltou. Não alfabetizamos nosso povo, 75% são analfabetos funcionais, não fizemos reforma agrária, a maior concentração de terras do mundo, e a saúde é vergonha mundial, os planos de saúde estão cada vez mais ricos. Enfim, esses criminosos destruíram gerações de trabalhadores, intelectuais, estudantes, donas de casa e camponeses talentosos. Viramos uma nação silenciosa, covarde, amedrontada, e reacionária, onde calados assistimos aos maiores descalabros e se ousamos resistir minimamente a elite nos chama de vândalos. Triste Brasil!

Saudações,
JA Simões

Anônimo disse...



Caros todos,
Aí vai um artigo do Clóvis Rossi. Creio que todos compartilhamos o espanto depois de ler as recentes declarações do coronel Manhães, torturador e assassino confesso. Clóvis dá um formato a esse sentimento.
Abraço
Jacques

O orgulho do assassino
Clóvis Rossi


Mesmo para quem lidou durante muitos anos com a questão dos direitos humanos, no Brasil e na América Latina, é chocante ler o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade.
Mas choca apenas pelo sadismo revelado pelo oficial e pela frieza com que confessa crimes bárbaros. O fato de que havia torturas e assassinatos já era arquiconhecido e, portanto, não pode provocar surpresa, a não ser em distraídos, desavisados ou viúvas da ditadura, como os que promoveram a fracassada reedição da Marcha da Família.
De todo modo, creio que seja uma das primeiras vezes, talvez até mesmo a primeira, em que um torturador --e não um torturado-- admite os fatos como os fatos se passaram. Com o adicional de que era um oficial cuja função lhe permitia ter pleno conhecimento de tais fatos.
José Carlos Dias, o advogado que o interrogou na CNV, chamou o coronel reformado de "sádico e exibicionista".
É verdade, mas é preciso ter claro que o sadismo e o exibicionismo podem ser características específicas de um ou de outro oficial (há mais Malhães por aí), mas a violência contra os opositores do regime era uma política de Estado, não uma iniciativa dos porões.
Estes só acrescentavam o sadismo, mas o esquema geral tinha a aprovação das cúpulas militares e, por extensão, da cúpula do poder político, à época ocupada por generais.
Matar, torturar, fazer desaparecer --tudo isso era um sistema, bem documentado, de resto, nos livros desse notável Elio Gaspari sobre o período militar, o mais completo balanço jamais publicado a respeito (acabam de ser lançadas reedições atualizadas).
É por isso que se torna inaceitável o silêncio das Forças Armadas a respeito do que ocorreu no período.
Alegar que o que houve no Brasil, em dados momentos dos anos 60 e 70, foi uma guerra contra a subversão não resiste a uma análise séria. Tanto é assim que o coronel Malhães descreveu como os torturadores faziam para dificultar ou impossibilitar a identificação dos torturados que matavam.
Ora, mesmo numa guerra, há normas e códigos, entre os quais o de devolver os cadáveres.
Se trataram de fazê-los desaparecer ou de dificultar a identificação, só pode ser porque sabiam que estavam fazendo algo ilegal, errado, absurdo, de uma violência (no caso contra os familiares em busca de informações) adicional à já insuportável violência que é o assassinato e/ou a tortura.
Vamos ser claros: houve, sim, alguns choques armados entre opositores e repressores, mas a maior parte das mortes foi assassinato puro e simples.
Tudo bem que houve uma anistia para ambos os lados e que a maioria aceita que ela era indispensável para poder virar a página e tocar adiante o país.
Ainda assim, não deixa de ser incômodo saber que um assassino e torturador confesso anda por aí livre e sem ter sido submetido ao menor constrangimento. Um assassino que se orgulha dessa condição.